sexta-feira, 4 de maio de 2007

Barba, cabelo, bigode e... anel no dedo (*)

Sou extremamente avesso a ritos e cerimônias. Fujo deles como o diabo foge da cruz.
Talvez por isso não tenha religião e não queira participar de organizações onde o que o mais importa é a forma e não o conteúdo. Adoro escrever, mas na hora que o formalismo acadêmico ultrapassa os limites da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) me sinto limitado em minha capacidade de criação.
Da mesma forma, participar de um evento com composição de mesa, paletós, gravatas, púlpitos e mestre de cerimônia... só de pensar fico com urticária!
O pânico me leva, às vezes, a cometer gafes como subir no altar da igreja na hora do casamento de um amigo para bater a foto do casal (acreditem, já fiz isso e quase fui linchado pela família do “ex-amigo”...)! Talvez por isso não tenha ido à igreja no dia do batizado da única afilhada que alguém teve a coragem de me entregar e acabei sendo representado por outra pessoa...
Será que lá no fundo do meu ser sou um anarquista trapalhão? Ou será que sofro de uma doença rara que eu chamaria de “paramentofobia” (aversão ou medo da paramentação)? Não importa: no final das contas concluo que sou um bicho do mato quando o assunto é participar de qualquer solenidade formal como casamentos, posses de presidentes ou uma simples graduação acadêmica.
Tenho dito aos colegas do meu curso de Jornalismo, que precisamos pensar numa festa de graduação diferente do que já existe de tradicional e secular... como aquele ridículo chapéu quadrado (o tal do capelo, que vem do grego e quer dizer simplesmente “chapéu”...) ou aquela pavorosa beca e os mesmos discursos de sempre. Por trás de tudo isso, empresas montadas funcionando escancaradamente nos corredores das universidades para vender o serviço completo!
Mas minha voz tem sido um eco no deserto, pois todo mundo sonha com esse momento de registrar em foto e comemorar com a parentada e amigos uma vitória pessoal depois de anos de “suplício”. Assim, como sou voto vencido, sigo a filosofia de Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu..”
Enquanto não sai minha formatura (essa sim, um suplício de mais de 20 anos), aqui e ali participo da formatura de outros. Por duas vezes já fui até paraninfo! Imaginam minha saia, ou melhor, beca justa? A primeira vez foi há nove anos, quando da formatura de minha esposa, socióloga. A última na semana passada, da filha mais velha, licenciada em Letras.
Não posso negar que fiquei orgulhoso de ser convidado nas duas vezes, mas ao mesmo tempo entrei em pânico só de me ver participando do cerimonial, ainda no tal do ensaio feito 24 horas antes, como ocorreu na semana passada. E se eu errar o passo? E se eu prender a gravata na cadeira? E qual é o dedo para colocar o tal anel de formatura?
O pior de tudo é que, pela ordem alfabética dos formandos, eu e minha filha teríamos que entrar primeiro no salão com uma fila atrás! E se eu tropeçar no tapete vermelho e causar o efeito dominó, jogando todos os graduandos e paraninfos no chão?
Como conseguir dormir diante de tal estresse?
Como sempre, deixo tudo pra cima da hora: resolvi cortar as longas madeixas e a barba, estilo escova, no dia da festa e acabei me esquecendo! Enquanto em casa todo mundo se emperiquitava, lá estava eu ainda com aquela fisionomia pantagruélica de ogro peludo!
Corro atrás de salões e barbearias pela cidade e nada. Aí me lembro de uma das toscas barbearias que funcionam num distante mercado municipal. Chego lá e vejo o barbeiro fechando as portas e só me resta suplicar de joelhos e acabar sendo atendido. A barbearia maluca do vagabundo Carlitos de Charles Chaplin, no filme “O Grande Ditador”, era uma dádiva diante da pocilga em que me meti.
O barbeiro se mostra atencioso. Sento numa velha cadeira modelo “Ferrante”, enferrujada. A tesoura começa a dançar em minha cabeça, enquanto o barbeiro me conta suas aventuras em Manaus, onde trabalhou num requintado salão. Desconfio, mas tento não ficar tenso, pois se começar a tremer, talvez perca um pedaço de orelha.
O velho relógio de parede parece correr mais que o normal. A tesoura continua dançando em minha cabeça. O barbeiro conversa, mas ao que parece tudo vai bem com minha cabeleira. “Posso modelar as suíças?”, pergunta meu “barbeiro de Sevilha” já com uma navalha nas mãos. Não sei se hipnotizado – pelo velho ventilador de teto cheio de teias de aranha – acabo respondendo “sim”. Acompanho os movimentos do profissional e percebo sua maestria com a navalha. Ele mais parece um espadachim lutando com os pelos de minha face. Acabo me convencendo de que é bom de navalha.
É aí que eu faço a maior besteira do dia: “você pode fazer a minha barba?”, pergunto ao espantado barbeiro que balança a cabeça não demonstrando muita segurança. E ao terminar o cabelo é a vez da barba e do bigode.
O ponteiro grande insiste em perseguir o pequeno no relógio da parede, e meu barbeiro parece encarnar um açougueiro. A navalha que ainda a pouco dava show nas suíças, desliza sobre minha pele sem a mesma maestria. O olhar atônito do barbeiro e o suor em sua testa me revelam que ele já não está fazendo apenas uma simples barba. Talvez seja um aprendiz de cirurgião plástico... A cada deslize, ele solta um “ops!” e recorre a pedaços de papel que cola em meu rosto. Fecho os olhos para não pensar o que está acontecendo. Depois de uma dezena de “ops” e vozes de transeuntes (feirantes e estivadores saindo do trabalho e admirados com espetáculo grotesco), um grito: “oopppppsssss!”. Abro os olhos e vejo o barbeiro agoniado.
Papel já não serve. Uma toalha tenta estancar esguichos de sangue que saem de meus lábios. Saio de minha passividade e resolvo olhar o espelho: me assusto com o Frankenstein ensangüentado que vejo à minha frente... desconsolado o barbeiro vira enfermeiro. Termina a barba e passa aos curativos. Me sinto uma múmia desfigurada.
Chego em casa escondido, mas o estrago não era tão grande quanto parecia quando me olho no espelho. Parto para uma medida radical: jogo álcool na cara e estanco as dezenas de pequenos cortes, inclusive do lábio. Meu lado sado-masoquista parece feliz e os poucos minutos que me separam da solenidade me levam a correr ainda mais. No final o resultado é aprovado: apesar das barbeiragens do “ops”!, arranco alguns “oh!”, de quem vê a transformação.
Depois de “embecado”, filha no braço, táxi de última hora, chego à universidade achando que tudo já acabou, mas o relógio de lá parece maior que o da barbearia.
Tudo corre normalmente. Até o anel do dedo entrou no lugar certo, mas como não poderia deixar de cometer uma gafe, no finalzinho da solenidade o cerimonial chama os novos graduados para apresentá-los à sociedade e o atrevido paraninfo se levanta sozinho, talvez achando que está na sua própria graduação...
Para felicidade geral da platéia, diga ao povo que eu... mico!
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 1º de maio de 2007, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

domingo, 22 de abril de 2007

Encanto

A bela foto acima é o maior cartão postal de Santarém:
o encontro das águas do Amazonas com o Tapajós, em frente à cidade.
O registro é do experiente fotógrafo Édson Queiroz e foi publicado no Blog do Alailson Muniz, editor-chefe do Jornal de Santarém e do Baixo Amazonas.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Meu reino por uma pílula! (*)

Antes de qualquer interpretação apressada, não sou hipocondríaco. Muito pelo contrário: detesto ir ao médico, visitar amigos ou parentes no hospital e sou extremamente indisciplinado para acompanhar qualquer receita médica (ir ao médico já é um sacrifício!). Na verdade, tudo isso acaba sendo causa e efeito de uma série de maus hábitos que cultivei na juventude e que enfraqueceram muito cedo o organismo que não aprendi a cuidar. Já até falei sobre isso em artigo anterior, sobre obesidade e sedentarismo.
Cheguei a tal situação que já criei uma tabelinha para administrar minhas dores: segundas e quartas são dias de dor de cabeça e nas articulações; terças e quintas dor de dente, de ouvido e das vias nasais; sextas e sábados, a famigerada dor de barriga. Aos domingos, como não sou de ferro, sinto dores de dente, de barriga, de ouvido, das narinas e da cabeça o dia todo... Por isso é que atualmente vivo na chamada fase do Homem-Condor, ou seja, vivo reclamando que estou com dor disso, com dor daquilo...
Daí porque vivo atrás de pílulas! Meu reino por uma pílula para aplacar as dores!
Mas antes de falar nelas, tenho que dizer que em termos de cuidado com o corpo fui um péssimo discípulo de meu pai que naõ cansou de me ensinar: “nosso corpo é como uma máquina. É preciso saber usá-la e conservá-la, cuidando de cada engrenagem para que a máquina não quebre”. O velho grego, maquinista de si mesmo, hoje no alto de seus 86 anos esbanja saúde e está tão enxutíssimo que sempre digo a ele que ainda vai acabar enterrando os filhos (toc, toc, isola!)!
Aposentado, o velho Ninos resolveu curtir a vida na terra natal, trilhando os caminhos de Alexandre, o Grande, na velha Macedônia, norte da Grécia. Enquanto curte a bela idade, se gaba sempre de que isso tudo começou quando chegou à minha atual idade e decidiu parar de fumar (quem o vê não pode imaginar que tenha sido, algum dia, fumante) e abdicou de comer carnes verdes para optar pelo cardápio vegetariano. Sem contar com a eterna ginástica, caminhadas, sexo e outras estripulias que geralmente a terceira idade já não consegue fazer!
Eu que estou na minha segunda juventude, já pareço um velho arcaico cheio de doenças, cansado, estressado... O pior é que não bebo e nem fumo, entretanto adoro comer carnes (todas elas!), sou um workaholic e me divido em diversas funções acreditando num sonho quixotesco de salvar o mundo, mas mal consigo salvar a própria pele. Quando não estou no computador do Fórum, atrás de uma pilha de processos, estou no computador da TV elaborando mil projetos, ou no computador de casa escrevendo artigos ou trabalhos de aula.
Posso dizer que sou o Ninobanco, o banco que funciona 30 horas! Insone, assisto o Corujão e “notinavego” na internet escrevendo em blogs, acessando os orkuts da vida, batendo papos e enviando e-mails, e de vez em quando dando uma “espiadinha” em sites menos recomendáveis, pois o cansaço não me deixa dormir. Quando enfim as pálpebras capitulam, meu galo eletrônico do celular cacareja: Aco-corda, Caaaara!
E haja pílula pra dormir, pra diminuir apetite, pra acabar com a dor disso, daquilo, daquilo outro... Dia desses, na madrugada de sexta pra sábado (dia de dor de barriga) peguei o saquinho de pílulas meio dormindo-em-pé e nem vi as instruções de como e quando tomá-las. Resultado: acabei tomando um laxante (que nem era meu) e passei a madrugada sentado no velho trono!
Pior ainda foi uma época em que recebi pílulas de todas as cores e de todos os tamanhos (me recusei apenas de usar o supositório e as injeções, que aí já era demais...). “Um tratamento infalível, para curar todas as dores” – dizia, sorridente, meu médico (com cifrões no lugar das pupilas antevendo as comissões que receberia do representante da indústria farmacêutica...).
Como vivia me esquecendo do que tomar, passei a ingerir pílulas que me ajudavam a recordar de que pílulas eu deveria tomar: a pílula azul me ajudava a recordar que às seis da manhã era hora de tomar a pílula verde; a pílula verde me recordava que às 10 horas era para tomar a pílula vermelha, para recordar de tomar a pílula amarela ao meio-dia, que enfim me recordaria de tomar a pílula roxa que era para... bom, me esqueci pra que servia esta última pílula...
Podem imaginar como o tratamento não deu certo?!
Por dever de ofício e de cidadania tenho lutado pela abertura do Hospital Regional, mas pergunta se vou querer entrar lá? Tenho verdadeira aversão a médicos, clínicas e hospitais!
O último tratamento de dente que fiz abandonei no meio, quando o dentista falou que precisava fazer “uma pequena cirurgia na gengiva”. Todo paciente de dentista vive de boca aberta, pois é a única profissão que nos deixa de queixo caído e por isso perguntei, boquiaberto: “xinxeramentxe, como xerá exa xirurxia na xenxiva, dotxô?”. Ele responde simetricamente: “um pequeno corte longitudinal, para abrir uma cavidade próximo ao palato para que eu possa introduzir um aparelho e...”.
Eu já estava desmaiado... Foi o jeito me dispensar e dar mais pílulas, para que eu retornasse outro dia. Até hoje não voltei lá.
E assim vou levando minha vida em pílulas, até que a morte me separe...
(P.S.= a única pílula que ainda não é bem-vinda em meu cardápio é a pílula azul.)
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicado esta semana, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

Rounds

Um interesante debate sobre a questão da "honestidade intelectual", levantada pelo jornalista Miguel Oliveira (O Estado do Tapajós) por conta de meu post Grupo teatral processa prefeitura, vem sendo travado na caixa de comentários do texto enviado por aquele jornalista, com participações de Jeso Carneiro e Val-André Mutran.
Com direito à réplicas e tréplicas.
Juvêncio Arruda, especialista em caixinhas de comentários, ainda não passou por lá. E você?
Entre neste debate acessando AQUI.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Carta de um “homem-peixe-jornalista” ao Diário do Pará

Tenho 43 anos, 23 dos quais atuando como jornalista sem-diploma e quase sempre mal-remunerado nesta Pérola do Tapajós. Atualmente, exatamente por circunstâncias financeiras, sou funcionário do Judiciário, mas apesar disso me recuso em abandonar a profissão com a qual me identifiquei desde a minha primeira juventude.
Além de fazer o papel de “assessor de imprensa informal”, não-remunerado, da Comarca de Santarém (autorizado pela presidência do TJE), mantenho precariamente este blog na internet e ainda arranjo um tempo para trabalhar na TV Tapajós (Globo) auxiliando a diretoria na Comunicação Corporativa da empresa.
Tal multifuncionalidade, às vezes, me impede de reagir a determinadas informações veiculadas que merecem respostas imediatas como a que passo a dar neste momento, exatamente ao jornal com o qual também colaboro semanalmente: o Diário do Pará (através de crônicas no Diário do Tapajós, seu encarte regional), e do qual já fui correspondente por duas vezes: em 1985 e em 2005, esta última a convite do empresário Jader Barbalho Filho que aqui esteve e sempre mostrou acreditar no potencial de Santarém (e do qual não acredito que comungaria com a informação irônica publicada em seu jornal, que vou comentar).
E faço isso no meu blog sem medo de estar sendo antiético, pois creio que a nota a que vou me referir, quando foi publicada, escorregou nessa mesma ética deixando-me à vontade para um desabafo que acredito ser não só dos colegas jornalistas que aqui militam, mas também dos santarenos em geral. Escrevo sem a pretensão de uma resposta ou mesmo de sua publicação no Diário do Pará.
Mas vamos ao que interessa.
Semana Santa, ao que parece, rima com peixe. Talvez por isso que um “inspirado” colega da redação do Diário do Pará resolveu jogar a mim e outras centenas de jornalistas santarenos nas águas do Tapajós! Isso deveria ser motivo de orgulho para mim, pois foi nelas que eu aprendi a nadar quando aqui cheguei há quase 30 anos! Entretanto, fui parar nestas águas numa infeliz comparação na coluna Repórter Diário, de quarta-feira (04/04), quando o editor de plantão encerrou uma nota sobre os cursos de jornalismo em funcionamento nesta cidade de forma irônica, dizendo que “Daqui a pouco (...), haverá mais jornalistas em Santarém do que peixes no rio Tapajós”...
A nota, que começou com informações interessantes sobre a disputa acirrada entre as duas instituições de ensino superior de Santarém que lançaram os cursos de Jornalismo e Publicidade, escorregou feio no final e contribuiu para denegrir com os dois cursos e com os jornalistas daqui.
Inicialmente é bom frisar que sou favorável ao diploma de Jornalismo. Tanto é que já abandonei outros dois cursos (Letras e Direito) para tentar me formar naquela que sempre foi minha profissão. E não porque precise de diploma, mas porque almejo adquirir mais conhecimentos teóricos que, aliados à minha experiência possam servir para repartir esse conhecimento com as gerações futuras, quem sabe até como docente.
Atualmente estou engajado na luta que os jornalistas travam em todo o país a favor do diploma até porque como sindicalista, num passado recente, fui um dos que lutou para vinda deste curso para Santarém, pela UFPa., no início da década de 1980, o que só se concretizou agora com as duas faculdades particulares, FIT (Faculdades Integradas do Tapajós) e Iespes (Instituto Esperança de Ensino Superior).
Não tenho procuração dos diretores de nenhuma das instituições citadas para defendê-las, mas na qualidade de ex-aluno de uma e atual aluno de outra, creio que cabe um esclarecimento sobre a tal “Guerra das faculdades” citada na nota do Diário do Pará. Essa disputa realmente aconteceu, mas creio que isso faz parte de um processo natural de conquista de mercado e depois de algum tempo, cada qual consolida suas estratégias e, provavelmente, haverá um momento em que ambas (principalmente incentivadas por seus acadêmicos) buscarão um consenso. Uma disputa desleal não serviria a nenhuma das duas faculdades (e nem acho que essa seja a intenção delas), já que o mercado de professores para os dois cursos é problemático.
É aí que o colega de Belém, ao falar dessa “guerra”, não olhou para o próprio umbigo. Se ele for um jornalista diplomado em Belém há algum tempo, provavelmente passou pela UFPa., única instituição que oferecia o curso no Pará nos últimos 30 anos. Mais recentemente a Unama implantou o seu curso e pelo que sei (alguém me corrija se eu estiver errado), há hoje outros 5 cursos de Jornalismo funcionando em Belém!
Quer dizer, será que é só o Tapajós que vai ter “mais jornalistas do que peixes”, cara-pálida do Guajará? É por essas e outras que a população dessa região luta por sua emancipação política, já que vez por outra torna-se alvo de comentários discriminatórios como esse.
É bom que o colega olhe em volta na redação, e provavelmente se depare com algum santareno, ou descendente de, trabalhando ao seu lado. O confrade Elias Ribeiro Pinto que o diga...
E se o colega pesquisar mais em outras redações ou nos cursos das universidades, fatalmente topará com outros santarenos que colaboram com o engrandecimento do jornalismo paroara. Ele mesmo citou em sua nota um deles: Manuel Dutra, um baluarte pela implantação deste curso em Santarém (ainda pela UFPa.). Sem contar com o Lúcio Flávio Pinto e tantos outros que comprovam a tradição do jornalismo santareno de qualidade iniciado há mais de 150 anos no jornal “O Amazoniense” e consolidado nas ondas do rádio nos anos 60, com a Rádio Rural, mesmo sem-diploma até hoje.
Quero lembrar ainda ao colega, que os dois cursos já estão produzindo novos talentos, alguns já estagiando em emissoras e jornais locais. Isso sem contar que os jornalistas sem-diploma experientes continuam atuando nas empresas locais, entre elas o próprio Diário do Pará, cujo casal de correspondentes (Albanira Coêlho e José Ibanês) estudam no Iespes e na FIT, respectivamente!
Na qualidade de homem-peixe-jornalista posso afirmar que quero sim me formar, exatamente para me atirar nestas águas do Tapajós e continuar revelando os mistérios desta Amazônia sem-fim. E não como um falso homem-peixe como o que foi alardeado ano passado por um dos jornais locais, em busca de maior vendagem nas bancas. Nem tampouco como o homem-peixe da Eslovênia que tanto encantou nossos olhos com suas proezas. Muito menos como o peixe/jornalista cunhado pelo ilustre desconhecido colega do Diário do Pará.
Meu caro, sem ressentimentos: que os nossos rios tenham tantos peixes quanto jornalistas competentes que ajudam a contar a história do Pará.
Diariamente.

Auto-retrato

Essa é a minha situação atualmente... (no belo traço do cartunista Léo Martins)

domingo, 8 de abril de 2007

A arte a serviço da ideologia

As maravilhas da tecnologia nos ajudam, há cada dia, a ter mais informações pela internet.
Há algum tempo venho recebendo notícias em meu e-mail de acordo com os temas que escolho, e isso me ajuda a descobrir textos interessantes como esse que estou postando agora, do jornalista André Cananéa do Jornal da Paraíba, sobre um de meus grandes ídolos e que faz parte de minhas propostas de divulgação neste blog: Chico Buarque.
A reportagem tem como título A arte a serviço da ideologia e faz um retrospecto do papel da música de protesto na sociedade moderna, a partir da resenha de um livro lançado recentemente sobre Chico Buarque e Bob Dylan, dois expoentes desse tipo de música, o primeiro na América Latina e o segundo em nível mundial.
Acompanhe a leitura:

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A garotada da geração iPod, com certeza, não se lembra. Mas muito, muito tempo antes de CPM-22, Pitty e até O Rappa havia um sentido social importante na música (sim, muito maior do que nas letras de O Rappa). Havia poesia, mas também ideologia. Isso foi antes do emocore, do hardcore, da música eletrônica. Antes mesmo da ascensão do rock brasileiro. Cazuza, em 1988, recla-mava: “Ideologia, eu quero uma pra viver”. Renato Russo, anos antes, já taxava a falta de idealismo da juventude de então: a geração Coca-Cola só queria saber de consumir.
Mas ali, por volta dos anos 1960 e 1970, os refrões clamavam por um país livre, pela garantia de direitos civis e contra uma máquina opressora, fosse aqui ou lá fora. No Brasil, um dos grandes porta-vozes dessas angústias sociais foi Chico Buarque. Na América, a música de protesto ganhou uma das suas melhores traduções nas letras de Bob Dylan. Inseridos dentro de um contexto histórico importante, Chico e Dylan se tornaram ícones, heróis de uma geração e exemplos de compositores que, parece, o tempo esqueceu de produzir.
Poesia e Política nas Canções de Bob Dylan e Chico Buarque (Nova Editora, 207 páginas, R$ 35) é, mais do que uma análise técnica da importância desses compositores para a música. Trata-se de um resgate de um tempo onde a música cumpria uma função social sem precedentes para a história humana e social do planeta. “Nesta abordagem, procuraremos evidenciar que, em determinado período, Bob Dylan e Chico Buarque colocaram sua poética em prol de um programa e expressaram seu pensamento crítico, apelando para o sentido de justiça e igualdade social”, escreveu a autora, Ligia Vieira César, lembrando que essa postura, no caso de Dylan, deságua na ‘protest song’ (música de protesto) americana e no caso de Chico, no samba-protesto.
Professora e pesquisadora paranaense, Ligia examina a ideologia e a contra-ideologia na literatura de protesto. Sua análise, como dita anteriormente, é técnica e seu texto, acadêmico. Portanto, não se trata de um ensaio literário sobre a beleza e a importância desses dois cânones da música, mas uma análise bem fundamentada, a luz de autores clássicos, sobre a obra de Chico e Dylan. “É necessário ressaltar que, ao analisarmos a postura ideológica das canções desses autores, partimos de pressupostos teóricos sobre ideologia”, escreveu a pesquisadora em seu livro.
Lígia começa seu livro remontando ao surgimento da balada e da canção de protesto e também do surgimento do samba-canção e da bossa-nova para contextualizar Dylan e Chico em um cenário político-histórico que remete aos idos de 1964. “Com esta obra, procura-se demonstrar que, apesar das dessemelhanças culturais e políticas, ambos os autores se coadunam ideologicamente, na temática de protesto e nas formas composicionais de suas canções”, diz a autora.
Dylan saiu de sua Minnesota natal e se mudou para Nova York, onde passou a conviver com poetas beatnik, em 1961. Abraçou o rhythm & blues, o folk e, mais tarde, o rock e aderiu às canções de protesto que pregavam contra as guerras, o establishment e desejava um mundo mais justo, como apregoava a ideologia hippie dos anos 60/70, fruto exatamente na geração beat. Enquanto isso, o Brasil vive mergulhado em uma ditadura opressora e a classe artística acaba se tornando a porta-voz de um país sufocado. E é neste ambiente que Chico, com talento e grandes sacadas, contribui para a abertura do processo democrático, sob o qual vivemos hoje.
No fim das contas, Heloísa Buarque de Holanda, que assina junto com Alice Ruiz a contracapa do livro, tem toda razão. “Se hoje se duvida da eficácia da articulação entre poesia e política, o trabalho de Lígia Vieira César, por meio de um cuidadoso exame do processo construtivo dessa articulação, aponta para o horizonte da permanência e da vitalidade do papel da poesia em nossos dias”.
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Caricaturas de Dálcio (Chico) e Vizcarra (Dylan). Capa do livro, Nova Editora (divulgação).

quinta-feira, 5 de abril de 2007

"Honestidade intelectual"

Recebi o seguinte e-mail, sobre a notícia anterior e publico:

Jota Ninos.
Não sei se por desinformação ou leviandade trouxestes o nome do jornal O Estado do Tapajós ao teu texto sobre o grupo Olho D’Água.
Se tivesses o mínimo de honestidade intelectual, deverias informar aos teus leitores que esse assunto foi manchete de capa do jornal na última quarta-feira (PMS dá calote em grupo teatral).
Afirmar que a Sívia Vieira é a editora de O Estado do Tapajós é uma prova de quantos andas ou te fazes de desinformado. O nome do editor do jornal é Paulo Leandro Leal, desde 3 de janeiro de 2007.
Sem mais,
Miguel Oliveira - Jornalista(Reg Fenaj 581)
Minha resposta:
Miguel, realmente cometi um pequeno lapso em relação à Sílvia, mas logo depois de postar a notícia inseri um "ex" na frente (não sei onde ela está trabalhando hoje e a última referência era o teu jornal). Numa coisa realmente tens razão: ando muito desinformado, por falta de tempo em meu trabalho e não tenho lido nenhum jornal, nem mesmo no qual escrevo!
Recebi o e-mail do Élder e publiquei, assim como provavelmente o fizeste (já que foi um comunicado à Imprensa). Se O Estado do Tapajós foi o primeiro a divulgar, parabéns! Meu pobre blog não tem intenção de competir com ninguém.
Minhas desculpas se te causei algum transtorno. Não foi minha intenção, nem tampouco foi leviandade (se assim fosse nem teria enviado a informação do que postei no meu blog por e-mail pra ti, pois aí seria no mínimo burrice minha...).
Vou incluir teu comentário no meu blog como demonstração de minha "honestidade intelectual". Não tenho problema com isso.
Abraços fraternos,
Jota Ninos

Grupo teatral processa prefeitura

Recebi por e-mail e divulgo, um preocupante comunicado de um dos grupos teatrais que mais têm contribuído com nossa cultura local:
COMUNICADO À IMPRENSA

O Grupo de Teatro Olho D’água, realiza ações culturais em Santarém desde 2001 com montagem e apresentação de espetáculos teatrais premiados que já representaram a cidade em festivais regionais, estaduais e em mostras de outras regiões, representando também o Estado, sempre buscando fazer um trabalho consistente e com qualidade, assim, sistematizou apresentações teatrais numa cidade que não tem teatro, não possui um espaço digno e adequado para a realização de seus trabalhos, isto se estende com toda certeza a todos os segmentos culturais.

Nosso desabafo e indignação se dá por conta da maneira como a Prefeitura Municipal de Santarém vem conduzindo o setor cultural em nossa cidade. Desta maneira viemos trazer a público que o Grupo de Teatro Olho D’água está PROCESSANDO a Prefeitura de Santarém/Secretaria Municipal de Planejamento através do Ministério Público com a ação de cobrança judicial tendo por objeto um convênio firmado em fevereiro de 2006, entre o grupo e o referido órgão (Semplan) que não efetuou o repasse da verba desde outubro de 2006.

O que nos causa tristeza e inúmeros transtornos é a falta de comprometimento com o acordo firmado anteriormente, que reflete na forma desrespeitosa nas inúmeras vezes em que fomos procurar a Secretaria na tentativa de marcar reuniões com o secretario Dr. Everaldo Martins Filho, pois na Prefeitura a informação que nos foi dada é que ele é a pessoa que resolve esse tipo de “problema” e não tivemos nenhum retorno do mesmo, esbarrando sempre em seus assessores que não têm autonomia pra nada, assim como a Coordenadoria de Cultura.

Seus assessores foram avisados que estaríamos comunicando a sociedade através da imprensa da região bem como iríamos procurar uma instância maior para as devidas providências e ouvimos a seguinte frase: “... Cultura não é prioridade e a imprensa não vai pagar vocês...” (Manoel Batista – Contador da Semplan).

Acreditamos sim que a imprensa não paga conta de ninguém, mas, é um segmento poderoso da sociedade que sensibiliza, comunica, informa e com ética e responsabilidade denuncia e investiga os fatos.

Não queremos uma ação paternalista, pois desde o primeiro momento da conversa no sentido de firmarmos esse convênio deixamos bem claro que seria muito bem-vindo, pois, são muitas as dificuldades em fazer este trabalho aqui na cidade, mas, não vai ser por falta de apoio do governo que nossas ações culturais deixarão de existir.

“Quando o povo está de barriga cheia e com saúde, ele procura o belo” (anônimo)

Elder Otávio Santos Aguiar
Coordenador do Grupo de Teatro Olho D’água

Contato: (93) 9123-8555/ elder.aguiar@hotmail.com
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Comentários do Blog:
  • Inicialmente, os grifos da nota acima são de minha autoria;
  • A notícia em si já não me espanta, mas não deixo de me entristecer com mais essa nota contra a cultura local. Quando imagino que chegamos ao fundo do poço, descubro que o magnânime Dr. Everaldo Martins Filho, prefeito de fato de nossa cidade, consegue se superar cada vêz mais;
  • Não bastasse o desgoverno, o destempero e o despreparo das principais figuras desta administração, nos últimos tempos elas têm conseguido provar que estão cada vêz mais distantes dos velhos ideais petistas, como por exemplo, a demissão de garis e de professores para cumprir com exigências da lei que não permite que os gastos com pessoal ultrapassem 60% da arecadação, enquanto mantém a contratação de centenas de assessores especiais bem remunerados;
  • Isso sem contar que a Cultura virou objeto de barganha política, em troca de dois votos na Câmara, um deles indicando a própria esposa para o cargo! O vereador Emir Aguiar (PR) que me perdoe, mas poderia evitar esse inútil desgaste pelo menos deixando que a Coordenadoria de Cultura fosse comandada por alguém com mais experiência do que sua mulher! E seu partido tem pelo menos uma pessoa com esses requisitos, o jornalista e poeta Ednaldo Rodrigues...
  • Conheço a batalha travada pelo casal Élder e Elizangila, à frente do Olho D'água, encenando peças de sucesso como a hilária "As Bondosas Mulheres Choradeiras" (foto) e por isso dou crédito às suas acusações e apoio à sua luta na Justiça para cobrar o que lhes é de direito, junto à Prefeitura;
  • Também conheço o Manoel Batista, irmão de um ex-sindicalista e ex-companheiro de república dos meus tempos de solteiro, o João Batista Vieira, hoje Chefe de Tributação da Prefeitura, e por isso não posso crer que tenha dito tamanha baboseira ao Élder! Até porque Manoel Batista é casado com uma colega jornalista, Sílvia Vieira, ex-editora do jornal O Estado do Tapajós!;
  • Não é a primeira vez que um agente cultural reclama publicamente do Batista. Ano passado, o artista plástico Apolinário também o criticou em Carta Aberta publicada no Blog do Jeso. Por conhecer o jeito calmo do Batista, se forem verdade tais reclamações, só posso entender que ele está sendo vítima de um intenso estresse por ser sempre escalado por Everaldo para dar desculpas esfarrapadas e enxotar credores da PMS...;
  • Tenho feito muitas críticas ao PT aqui no meu blog, decepcionado com os descaminhos do partido após chegar ao poder. Sempre deixei o espaço para o debate dialético, mas apesar de alguns sorrisos amarelos petistas (ou o ranger de dentes de alguns mais exaltados que me chamam de "traidor") que me encontram por aí, até hoje nenhum se dignou a usar este espaço e rebater qualquer informação;
  • Volto a oferecer o espaço para que tanto o Everaldo quanto o Batista, expliquem mais este imbróglio cultural.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Uma nova era para Santarém

O artigo publicado ontem aqui no blog sobre manifestação pelo funcionamento do Hospital Regional, vem recebendo alguns comentários dos leitores. Destaco o que foi feito pelo jovem designer industrial com mestrado em engenharia mecânica, Aldrwin Hamad:
Na fé cega da política partidária o "demo" a que se referiu o dr. Helenilson acaba sendo exorcisado, dia após dia, ano após ano num ritual lento e gradual de destruição de suas entranhas, ora com repressão e tortura e posteriormente com uma ilusão hipnótica de que "deuses" cuidarão do corpo enquanto a alma duela com suas assombrações. Lutemos para deixar os demos livres.
Parabéns J pelo texto. Sinto que estamos entrando numa nova era na cidade. Um momento onde as cabeças "destravadas" que esta terra gerou estão dando o retorno do investimento. A sua compreensão que parece óbvia para alguns ainda é algo chocante e inexplicavelmente ofensivo para outros que insistem na farsa, na mentira e na ilusão alheia.
Textos como este teu ajudam a sociedade a interpretar e adquirir pontos de vista diferentes do que o Stablishment (eu li seu ultimo artigo and i do speak portuguese) prega.
Este é um daqueles momentos que não podemos deixar passar. É preciso apoio de todos os lados que enxergam a importância de eventos como estes contra as "forças ocultas" que por mais incrível que pareça vem, nesta hora, justamente de quem passou a vida toda sofrendo com falsas acusações e desvirtuação ideológica.
Que a culpabilidade pelas causas sejam punidas pela justiça, mas o que interessa agora é que vidas sejam salvas com a estrutura existente.
Aldrwin Hamad.
Para ler o artigo, os comentários postados e também para comentar, clique AQUI.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Comentando "Do you speak português?"

A colega jornalista e editora do Diário do Tapajós, Albanira Coêlho postou este comentário sobre meu artigo "Do you speak Português?":
Excelente seu artigo e confesso não ser suspeita para falar, não apenas por fazer parte da equipe que viabiliza a publicação, mas por estar em meu quarto ano lutando para escrever e falar fluentemente o tão exigido inglês, no atual mercado de trabalho. Até porque acredito ser "obrigação" do próprio jornalista de ampliar seu conhecimento em pelo menos uma língua estrangeira.
Tenho observado que a luta em conhecer e se adaptar ao estrangeirismo linguístico tem contribuído para que os brasileiros acabem deixando de lado a busca pelo português correto. Juro ter ficado horrorizada quando assiti em canal de televisão, um apresentador soletrar a palavra "ABSCESSO" e ele ter adicionado a letra "H" na frente, além de substituir os dois "SS" pelo "Ç"! Sem contar outros e outros artistas famosos e que fazem tudo para se manter em evidência, que erraram palavras muito usadas em nosso cotidiano, como a "HIPERTENSÃO", que eles fizeram o favor de tirar a letra "H", inicial.
Não só na periferia, mas nas áreas centrais de bairros em Santarém, Belém, Manaus, Boa Vista, Macapá, Porto Alegre..., pudemos notar os erros de português nas placas oferecendo algum tipo de serviço e que, inclusive, já foi tema de reportagem na rede de televisão de maior audiência do País. No centro de Porto Alegre, região Sul do Brasil, onde a educação é considerada bastante desenvolvida, peguei um susto ao ver uma loja oferecendo serviço de "CONCERTO" de máquinas de lavar. No entanto, observo que são pouquíssimos os erros de pessoas que, mesmo sem conhecer o significado, arranham um ENGLISH, falado e escrito, e que fazem um esforço tremendo para evitar os erros, enquanto que o português....., vamos deixar pra lá!!!!!
Albanira Coelho.

Meu Comentário: Albanira tem razão. O estrangeirismo usado de forma exacerbada pode nos levar a esquecer como se fala o português! Essa foi minha intenção em levantar o tema para que professores e estudantes de Letras discutam em sala de aula. O "internetês", língua falada por internautas, é um subproduto desse estrangeirismo "mande in MTV"...

Cidadania se constrói nas ruas, em vigílias e manifestos(*)

Existe uma coisa poderosa que “anda nas bocas, anda nos becos” - como diria o poeta - e que vez por outra se revela um impetuoso tsunami capaz de mudar a história, aqui e alhures.
São aqueles seres que geralmente são chamados de “povo”, massa disforme, sem rosto, que costuma encher a boca de gente sem escrúpulos para definir ideais que quase sempre terminam em latas de lixo, mas que um dia se regurgita, se agita, expele sua ira e se esparrama pelas ruas feito lava vulcânica e lava a própria alma.
É aquela gente que sofre e que se resigna, mas que um dia se exaspera e já não espera e parte para uma luta, mesmo que desesperada, em ser mais do que massa de manobra, eleitor, telespectador...
Vez por outra essa gente descobre que a cidade é realmente deles, e não logomarca. É gente que faz um verdadeiro mutirão, puxirum, e não slogan de campanha.
É gente que descobre que cidadania não se forja e nem é uma corja que chega ao poder. É gente que não tem ideologias ou fantasias. Capitalismo, comunismos ou outros “ismos” ficam para trás, porque o mais importante é gritar, é explodir, conquistar a cidadania.
Povo é mais que multidão ensandecida. Povo é poder, quando quem está lá não sabe exercê-lo.
Há muito se debate a eficácia da democracia representativa. Eleger um representante pode ser o começo de uma mudança ou a manutenção de um mesmo caos. Seja nos aeroportos, nas ruas ou num hospital que não funciona. A democracia que esse povo busca, aos poucos passa a ser a participativa.
Democracia e cidadania são conceitos amplos e que podem ser usados apenas como joguetes de minorias. Mas quando aquela gente chamada de povo decide caminhar e cantar, as coisas andam.
Santarém, como qualquer cidade do mundo, vez por outra torna-se palco desse tipo de embate. O povo daqui sabe ser povo quando quer. Pode parecer que na maioria das vezes seja pacífico, beirando o passivo, mas basta uma fagulha, uma centelha, e a gente explode.
Nos últimos tempos vimos Santarém se tornar um quase-cenário de guerra entre grupos que se autodenominam desenvolvimentistas e outros que se acham ambientalistas. Neste caso, ainda há feridas abertas e não houve um clareamento sobre o certo ou o errado. Ou pelo menos o óbvio.
Mas há quase uma década, milhares de pessoas foram às ruas exasperadas por uma situação caótica e se uniram no alto de todos os “ismos” em busca de uma luz no fim do túnel. Literalmente. Era é um tempo de trevas e desculpas esfarrapadas culpando São Pedro pelo apagão de energia. O povo foi às ruas, mesmo com lideranças partidárias que tentavam tirar proveito da situação. Isso nunca faltará. Mas o objetivo era inconteste. Venha a luz do nosso reino. O governador de plantão, capitulou, e imediatamente iniciou as obras do tão sonhado Linhão de Tucuruí.
A saúde era outro problema antigo e que há muito aguardava uma posição. As urnas começaram a ameaçar os poderosos de plantão, e num toque de caixa, lá estava o prédio, construído e inaugurado nas coxas, em busca de preciosos votos para se manter no poder por mais tantos anos.

Maquete do Hospital Regional de Santarém

Mas o povo é impiedoso com quem mente e não se deixa enganar por “presentes de grego” (ops...): surra nas urnas e a esperança de que a lição ficou. Só que a realidade vem e nos mostra que a novela estava apenas começando... Nossa nova luta por cidadania, através de uma democracia participativa é para que aquele prédio não se transforme em mais um elefante branco.
Passados três meses, o hospital não funciona e de repente algumas entidades populares e empresariais lançam um manifesto que atinge o âmago das autoridades de plantão. Está dada a senha para uma nova batalha a ser travada nas ruas, pela nossa cidadania. A resposta do novo governo de que “a ativação do Hospital Regional do Oeste do Pará, no presente momento, representaria uma atitude irresponsável, pois o mesmo não atenderia às necessidades da população”, é no mínimo hipócrita.
Sabe-se que a construção do hospital foi feita a toque de caixa e com objetivos demagógicos de um governo em fim de feira, mas isso não justifica que o novo ocupante do posto não mantenha um canal de diálogo com a população e mostre que realmente tem interesse em fazê-lo funcionar!
Os comentários de bastidores indicam que por trás do hospital há uma disputa política entre o grupo que entrou com o grupo que saiu. Fala-se em cifras de milhões de um convênio espúrio, deixado pela administração passada para que esta assumisse o ônus. E de repente, a solução é matar pelo cansaço quem foi definido como gestor do hospital regional?
O povo, essa massa disforme que vaga em busca de respeito pelas ruas não conhece o grupo que foi escolhido para gerenciar o hospital e nem se interessa se são do PQP ou de outro partido.
Se existe algo de podre no reino da Dinamarca, que o Hamlet de plantão deixe as dúvidas de lado e passe à ação. Se o convênio não é bom para o Estado, porque não o desfizeram?
Se o hospital precisa de outros investimentos para funcionar sua estrutura porque não priorizam essa ação? O mínimo que se espera de um novo governo, é transparência. Paciência tem limites. Depois não entendem porque queremos ser um novo estado.
Vamos construir nossa cidadania nas ruas, com vigílias e manifestos. As autoridades de plantão um dia usaram desses meios e chegaram ao poder. Sabem o que é força do povo e têm que saber separar o joio do trigo. Não adianta sair por aí se escudando no velho jargão defensivo de que existam “más intenções de determinadas frentes políticas”.
Políticos mal intencionados e oportunistas sempre existirão. Fora ou dentro do poder.
Mas a rua é do povo cidadão. Vigilante. Sempre.

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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 03.04.2007 no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

sábado, 31 de março de 2007

Do you speak Português? versão 2.0 (*)

Houve uma época em que as crianças iam para o maternal ou jardim de infância na escola. Hoje, começam sua vida escolar pelo “baby class”. É assim que os pequenos brasileirinhos do futuro começam a aprender suas primeiras letras. Daí, um dia viram “teens”, assistem programas de televisão “educativos” como Xuxa, Malhação ou os clipes musicais da MTV e pronto: aprendem a língua portuguesa fácil, fácil...
Aí, se moram numa grande metrópole tomam um “break fast” ou um “coffee break” e vão a um “shopping center”. Depois de olhar as vitrines com as placas de “on sale”, “off price” e “off shore”, param num “fast food”, comem um “cheese egg burger” ou um simples “hot dog”. E o paizão, que acabou de voltar de uma viagem, passou pelo “check-in” de um aeroporto, fez um “check-up” no seu médico e tem carro moderno que foi comprado depois de um “test drive”. Provavelmente terá um “air bag” mesmo que seja uma “pick-up”. É o mesmo carro que passa num “drive-in” ou por um serviço de “drive-thru”.
Essas crianças vivem numa cidade atribulada onde “office-boys” disputam lugares nas filas do banco e de vez em quando ocorre um “black out”. Chegando em casa, as crianças que se tratam entre si de “brothers”, passam pelo “hall” de entrada, onde há um “playground”, brincam, cansam e vão pedir para a “baby sitter” comprar uma pizza pelo serviço “delivery” que um “motoboy” se encarregará de trazer, enquanto assistem a um clipe de uma banda “underground”. “All right”?
Se você entendeu os parágrafos iniciais deste artigo, parabéns! Você é um legítimo brasileiro, mesmo que não viva num ambiente de classe média como o que foi descrito! Com certeza to da noite você deve assistir ao seu programa “cultural” favorito: o “Big Brother”. É o mesmo programa que na Argentina é chamado de “El gran hermano” (que quer dizer a mesma coisa, só que na língua portenha). E enquanto você tem medo de pegar AIDS (sigla de Acquired Immune Deficiency Syndrome), os portugueses em Portugal têm medo de pegar uma SIDA (Síndrome da Imuno Deficiência Adquirida) que é a mesma coisa! Como diria Renato Russo, “que país é este?”.

Colonizados pelos lusitanos de Cabral assumimos como língua pátria o português, que depois receberam influências das línguas tupis dos indígenas que já habitavam esse solo, e dos dialetos africanos dos escravos trazidos nos navios negreiros. Formamos uma língua que já é conhecida mundo afora como Língua Portuguesa Brasileira. Entretanto, não conseguimos nos livrar da colonização lingüística que continua em curso. No início do século XX, era “très chic” falar francês. Nossa cultura acabou assimilando uma centena de palavras daquele idioma e as “aportuguesou”, como garçom, abajur, entre outras. Em meados do século passado, vivemos uma nova invasão com as terminologias norte-americanas, principalmente com a chegada da música e dos costumes da juventude transviada. Mas nas duas últimas décadas parece que perdemos o controle dessa sutil invasão. E hoje assimilamos de forma natural os termos já citados no início deste artigo.
Não quero ser confundido com lingüistas conservadores que não admitem que a língua seja algo vivo e passível de transformações de acordo com a evolução. Mas uma coisa é evolução outra coisa é colonização. Acredito que se um país não consegue ter domínio sobre sua língua, uma das principais marcas de soberania nacional, estamos fadados a aceitar a imposição da ideologia ianque, ligada ao consumismo e à falta de princípios morais e éticos. Sem exagero, é dessa passividade que surge uma massa despolitizada que elege políticos corruptos e depois se lamuria dizendo que “este país não presta”.
O que se vê na mídia “nacional” é a proliferação dessa cultura inútil e o bloqueio de qualquer iniciativa que tente diminuir esse impacto. É o caso do Projeto de Lei 1676/99, de autoria do deputado Aldo Rebelo (PC do B/SP) que tramita há oito anos na Câmara Federal.
O projeto prevê um combate contra os estrangeirismos em nossa língua, e apesar de ter apoio de alguns intelectuais, sofre uma campanha contrária de parte da elite brasileira que não quer ver extirpadas do nosso dia-a-dia os entulhos lingüísticos existentes. “A proposta foi elaborada a partir da observação da presença exagerada e desnecessária de palavras e expressões estrangeiras no nosso cotidiano. Devo ressaltar que o projeto não quer proibir o uso dos estrangeirismos, mas sim o abuso deles”, explica o próprio autor do projeto.
Como Rebelo, acredito que não se poderá impedir que em algumas áreas (inclusive o jornalismo onde milito nas horas vagas, quando me é cobrado pelo editor que cumpra meu “dead line”, que no nosso jargão é a “linha da morte” ou o prazo final para a entrega de uma reportagem...) se tenha tal purismo. A internet por exemplo, é um espaço livre onde a garotada se aprofunda num mundo sem fronteiras lingüísticas e acaba resvalando para uma linguagem que já conhecida como internetês. Mas isso é história para outro artigo...
O debate sobre o tema é importante e neste artigo apresento estas considerações iniciais para que sejam discutidas, principalmente, nas salas de aula.
Enquanto isso fica a provocação inicial: “Do you speak Português?”

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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal "Perípatos", publicada em 27.03.2007 no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.
P.S.: Este artigo é uma versão 2.0 do mesmo tema abordado com o mesmo título, nesta mesma coluna no ano passado, nesta mesma época, como você pode conferir clicando AQUI.

sexta-feira, 30 de março de 2007

Requentando um texto, sem gravata (*)

É sempre assim: quando estou me inspirando para escrever alguma coisa (que eu acho ser) bem legal, surge algum dos mil compromissos de final de semana e eu acabo deixando a produção do texto para a última hora. Na redação do Diário, os editores já não me agüentam mais. Vivo ultrapassando o dead line (a chamada “linha da morte” no jornalismo, o último prazo para um texto chegar na redação e ser inserido na publicação).
Nas últimas semanas tem sido sempre assim. Primeiro me liga a editora: E aí, tá pronto? – Quase - digo eu descaradamente, sem ao menos ter ligado o computador. Meia hora depois, o marido da editora, num tom um pouco mais gaúcho: Ô tchê! Esse texto sai ou não sai? – Tá saindo... – Minto de novo do alto de minhas bombachas, enquanto decido ligar o computador. O jornal já está fechando, mas por consideração a este pseudo-escritor todos esperam. Último recurso: a secretária, que foi deixada de plantão, já meio sonolenta me liga de novo uma hora depois do último telefonema: - Tá pronto? – Tô enviando! – digo eu cinicamente, enquanto o texto ainda está no meio da primeira lauda (geralmente são duas). Por fim, um recado do diagramador pelo Messenger: !@#$%¨&*? (impublicável). - Tá chegando! - retorno a mensagem.
Olho no relógio, hora de ir pra aula e o texto flui finalmente... O resultado nem sempre é ruim e até recebo alguns elogios. Sorte minha, pois senão já estaria na rua...
Esta semana, mais uma vez estou impossibilitado de escrever. Estou “na onça”, preparando uma viagem para serviços do TJE em Jacareacanga. Não terei tempo de mandar um novo texto, então o jeito é buscar um texto recente, publicado na Gazeta quando ainda estava em Belém (outubro de 2004). Com permissão dos Carneiros e dos Encarnação, vai aí um texto requentado (e revisado) em situação de emergência:
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O retorno de um neo-engravatado
Por mais de quarenta anos evitei me entregar à ela. Sempre achei ridículo ter que pendurar aquele pedaço de pano na camisa.
Por duas vezes em toda a minha vida me vi obrigado a usá-la em ocasiões solenes: num casamento de um amigo na Grécia (sim, foi lá que ela me desvirginou!) e na graduação de minha esposa. Na minha cabeça, mico total. Era como se todos me olhassem e dissessem “olha o babaca de gravata!”. Jurava que evitaria usá-la. Inda mais com o indefectível paletó. Caos total!
Além de sempre ser um desleixado visualmente (meu negócio é bermuda e sandália de dedo), a gravata e o paletó sempre me deram a impressão da soberba, da austeridade, da morbidez. Mas vestir e gostar é só começar...
Há quem ache ridículo usar suspensório, já eu acho charmoso. Assim como aqueles bonés anos 40 que também costumo usar nos fins de semana. Minha intriga com roupas formais começou com as camisas de mangas compridas, mas aos poucos perdi o medo. Paletó, até hoje, nem pensar. E a maldita gravata, um tabu!
Talvez o trauma esteja num velho álbum de fotografias da família: quando garoto, fui obrigado pelo meu pai a usar uma gravata borboleta (de seda) para ir a um casamento. A foto registrou um moleque pançudo, de óculos fundo-de-garrafa e cabelinho gomalinado com aquele caminho de cobra lateral e os dentes de coelho de fazer inveja à Mônica! Tétrico!!! Imaginem o trauma no pequeno Jotinha!
Quando fui chamado para assumir uma vaga de escrivão pelo TJE, pensei seriamente em desistir só em pensar que teria de me “empaletosar”. Resolvi me sacrificar e sussurrei com os meus botões: “adeus, acho que não vou mais vê-los, amiguinhos, pois estarão sempre cobertos por aquela coisa”.
Passei quase um ano e ninguém cobrava o tal acessório. Me fingia de morto, até ser baixada uma portaria definindo que a partir deste ano (2004) todos deveriam se vestir “condignamente”, com camisas de manga compridas e...gravata! É aí que reside a grande questão que me atormenta: um homem só é “condigno” quando usa gravata ou outro tipo de roupa formal? Quantos engravatados pelo mundo afora não honram as gravatas que usam?
Mas enfim, manda quem pode, obedece quem tem Juiz...
E eis que pela primeira vez, adquiri uma gravata. Foi um momento solene. Comprei a primeira, uma cor cinza, lúgubre. Na hora de usar me sentia colocando a cabeça num cadafalso. Engoli em seco e fui em frente... Aí veio o dilema: e o tal do nó de gravata? Como farei eu, pobre analfabeto “gravatal”?
Já se vão dez meses de convívio com a famigerada. Sempre pedindo auxílio aos colegas mais experientes: “faz um nó pra mim?”. Ou aos advogados nos corredores: “dá uma ajudinha, doutor?”. Por falar nisso, elevei meu status assim que comecei a usar a tal gravata: pessoas simples chegam ao cartório e me chamam de “doutor” (só se for do “boi”...). Como resolvi ingressar num curso de Direito e seguir carreira nessa área, disse a mim mesmo: “se não tem jeito, relaxa e ...”
Há um mês saiu a tão esperada portaria autorizando minha permuta com uma colega do Fórum de Santarém. Tomei então uma decisão: “preciso conquistar minha independência ‘gravatística’!”.
Naveguei na internet em busca dos melhores nós de gravata. Dei mais nós em minha cabeça. Implorei que me ensinassem. Vi, revi, mas não conseguia nenhum resultado. Resolvi comprar gravatas com nó feito. Boa solução, mas ficou a sensação da impotência e do fracasso. Pô, será que sou tão incapaz que não possa dominar uma coisa tão insignificante?
Nas pesquisas descobri que a gravata poderia ter sido criada pelos gregos! Vergonha! Um grego tapajônico apanhando de uma gravata! “Uma gravata bem atada é o primeiro passo sério na vida”, ensina o célebre escritor britânico Oscar Wilde, o que me levou a decidir que eu precisava dar esse passo sério de qualquer maneira agora que rompi a barreira dos 40!
Treinos e mais treinos. Gravatas e mais gravatas. Eu, espelho e gravata: amigos inseparáveis. Nós, ridículos. Ridículos nós. Manual na mão. Tenta de novo. Ridículous man!
Comecemos pelo “Four-in hand knot” (o popular nó simples): a gravata colocada no pescoço, uma volta da ponta maior por trás da menor, mais uma volta, entra por cima, enfia no anel, e.... vous alla, cherriè! Que legal, consegui! Justo no meu último dia de trabalho no Fórum de Ananindeua!
Empolgado, resolvo arriscar outros tipos de nós: o “Half-Windsor knot” (nó duplo) e o Full-Windsor knot” (nó triplo), o mais difícil. Finalmente consigo dar este último, e vou ao trabalho como se houvesse acabado de inventar moda... Agora já posso reverenciar meu antepassado que criou esta “maravilha”...
Aos poucos já estou me afeiçoando à gravata, que segundo os estudiosos “resume a elegância e o espírito do homem que a veste”. Afinal todos mudam um dia de opinião. Se até o PT mudou, porque eu não?
Semana que vem estarei em Santarém, com minha(s) gravata(s), assumindo a escrivania da 7ª Vara Civil (Juizado da Infância e Juventude). Mas espero que a burocracia que ela representa não contamine o meu texto jornalístico. Como deveria ter dito o grande Che: “Hay que endurecerse la gravata, pero sin perder la palabra, jamas”...
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O tempo passa e as coisas mudam: já não estudo Direito (e sim Jornalismo) e não trabalho na 7ª Vara Cível (e sim na 6ª Vara Penal).
E já não uso mais a famigerada gravata. No Fórum de Santarém, desde que cheguei no final de 2004, ainda passei uns meses com ela, mas descobri que não havia tal obrigação por aqui. Um certo advogado e jornalista que me ouvia dizer desta água não beberei, vivia pegando no meu pé! Tirar a gravata foi tão difícil como aprender a colocá-la. Hoje só me restam as mangas compridas, que aliás, de vez em quando se encurtam “ao arrepio da lei”.
O retorno do desengravatado (até à próxima portaria...)!
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal "Perípatos", publicada em 13.03.2007 no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

terça-feira, 6 de março de 2007

Quero ser mulher na próxima encarnação! (*)

Quem começou a ler este artigo, provavelmente já deve ter pensado “Hum! Isso é coisa de homossexual enrustido!”. Ledo engano: o verdadeiro “macho” é aquele que sabe conviver com seu lado feminino e no meu caso, reconhecer que o mundo é das mulheres e que nós, homens, somos um nada sem elas.
Não é a primeira vez que escrevo sobre isso. Há uns 20 anos escrevi um texto nessa mesma linha no extinto “O Tapajós” e o resultado não poderia ser outro: fui extremamente ridicularizado por colegas do sexo masculino durante várias semanas. Muitos passaram até a duvidar de minha masculinidade! Em compensação recebi os mais calorosos elogios do sexo feminino (e de certa forma até tirei proveito disso...). Afinal, sempre acreditei que o homem que consegue liberar sua alma feminina é mais completo, e as mulheres reconhecem isso. Naquela época, apesar da ousadia, de certa forma me arrependi em ter escrito aquele texto. Tive que deixar a poeira baixar e retomar o tema agora. Não só porque os tempos mudaram, mas porque hoje não sou apenas um garoto fazendo um texto ousado e sim um homem maduro com preocupações mais extremas a serem refletidas neste século XXI.
O cinema está cheio de exemplos sobre essa disputa titã entre os sexos e a necessidade de se conhecer o outro lado (quem não assistiu, que assista o filme com Tony Ramos e Glória Pires, “E se eu fosse você”, ou Mel Gibson vivendo o estereótipo de machão que descobre a alma feminina em “Do que as mulheres gostam”).
E volto a este tema exatamente porque os paradigmas mudaram e a tolerância com temas que eram tabus é bem maior em nossa sociedade atual. Isso não significa que eu esteja imune de ser ridicularizado de novo, pois apesar da mudança de paradigmas ainda existem muitas pessoas por aí que não conseguem dar vazão às fantasias, e aí sim, serem pessoas enrustidas do tipo que “jogam pedras nas Genis” do nosso dia-a-dia, como diria Chico Buarque de Hollanda. Por falar no meu grande ídolo, ele é considerado o poeta que mais entendeu a alma feminina ao escrever canções na voz delas e cumprir um importante papel na desmistificação do mundo machista. No caso de Chico, lembro que li em um dos livros que tentaram interpretar este gênio a citação sobre a existência de um estudo desenvolvido por psicólogos, na década de 1960, de que a alma do artista é feminina, pois o processo de criação se assemelha à concepção de um filho: primeiro o artista “engravida” da idéia, depois esta passa por um período de “gestação”, até que se realize um “parto”, quando a idéia vem ao mundo em forma de um produto artístico-intelectual (in: "Amor, ódio e reparação", de Joan Riviére e Melanie Klein). Genial, não?
Che Guevara, o argentino que liderou a Revolução cubana ao lado de Fidel Castro, também é considerado um grande homem de alma feminina por ter dito a célebre frase: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás" (“Há que endurecer-se, mas sem jamais perder a ternura”). Há algo mais revolucionário do que isso? A força da mulher está em toda a parte, pois até o nome da Amazônia, onde eu vivo, surgiu de uma lenda grega sobre as guerreiras Amazonas que certamente povoava a “alma feminina” do colonizador que se inspirou nelas para nomear o nosso majestoso rio!



O mote para escrever este artigo é igual àquele de 20 anos atrás: o Dia Internacional da Mulher, que será comemorado em todo o mundo (menos nos Estados Unidos) depois de amanhã. A data relembra o sacrifício de operárias de uma fábrica de tecidos de Nova Iorque, que fizeram uma grande greve em 8 de março de 1857. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada sendo que aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas. Somente 53 anos depois, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que a data passaria a ser o "Dia Internacional da Mulher", decisão esta oficializada em 1975, através de um decreto, pela ONU (Organização das Nações Unidas). Os Estados Unidos, como sempre, desrespeitando a ONU não comemoram nem esta data e nem o 1º de maio, que relembra um fato idêntico também ocorrido lá.
Mas não quero fazer homenagem às mulheres por este dia. Na verdade quero contestar esta data e dizer que o “Dia Internacional da Mulher” é todo dia. Fala-se também que nos dias de hoje as mulheres “conquistaram os espaços antes reservados somente aos homens”. Errado! Apenas ocuparam o que era seu de direito. Basta olhar em volta e ver que elas aos poucos tomam conta de tudo e nós, "pobres homens" somos relegados à nossa insignificância! O que seria de nós sem elas?
Pode parecer exagero fazer tais afirmações. O debate dicotômico e maniqueísta entre o “Sim” e o “Não”, tende a ser combatido pelo “Talvez”. O meio-termo aristotélico pode ser a busca do equilíbrio em todas as ações. Mas estou convencido que no nosso caso, o equilíbrio acontecerá quando elas realmente acabarem com a hegemonia dos homens nas atividades que precisam de maior sensibilidade. Ou quando, nós homens, admitirmos que precisamos externar essa sensibilidade em nossas ações para nos aproximarmos da alma feminina.
O incrível nessa história, é que precisamos ainda hoje ter leis para defender os direitos da mulher, como aquela que prevê punições mais severas para os idiotas que se sentem mais machos quando batem numa mulher. Bater em mulher é atentar contra sua própria alma.
Mas todas as rosas têm seus espinhos. Já é possível constatar em alguns setores da sociedade - principalmente na esfera do poder político – que muitas mulheres quando chegam no poder, ao invés de utilizarem-se da sensibilidade e da força natural que trazem do berço, acabam adquirindo os vícios masculinos da mentira e da corrupção e destroem a oportunidade de uma sociedade mais humana. Isso, por si só poderia ser o detonador de um debate para provar que a questão do gerenciamento e do poder não se limita á quantidade de hormônios femininos ou masculinos. Entretanto, do ponto de vista filosófico as mulheres ainda dão de dez a zero em nós, homens!
Por esse motivo, lancei este desafio a mim mesmo, no título deste artigo, dizendo que se houver outra encarnação gostaria de voltar na pele de uma mulher, e aproveitar toda essa sensibilidade para poder contribuir com as mudanças que o mundo precisa. Pode ser um pensamento radical e não significa que me arrependa de ser homem. Muito pelo contrário! O fato de ter consciência de que meu lado feminino dita muitas das decisões acertadas que tomo, já é o suficiente para me sentir pleno. Além do mais, se todos pensassem como eu e quisessem também voltar como mulher, o mundo seria sem graça, não é? Um “planeta Lesbos”, como aquela famosa ilha grega da mitologia seria um desperdício...
Parafraseando o “poetinha” Vinícius de Morais eu diria: Que os homens me perdoem, mas a mulher que existe dentro de nós, é fundamental!
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada nesta terça-feira (06.03.2007) no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará. O quadro retratado neste artigo é do pintor renascentista Sandro Botticelli (1445-1510), e retrata "O Nascimento de Afrodite", a Deusa do Amor na Mitologia Grega.

Um manifesto virtual em busca de uma reação real – parte II (*)

Ausente do espaço por conta de outros afazeres e pelo feriado de carnaval, dou continuidade à reflexão iniciada mês passado neste espaço sobre o manifesto virtual do jornalista santareno Manuel Dutra pela qualidade de vida em Santarém e que circula na internet. O manifesto toca em pelo menos dois problemas cruciais no que se refere à qualidade de vida em Santarém nos últimos anos: a necessidade de arborização da cidade e o fim da calamidade pública em que se transformou o trânsito, principalmente por causa da tragédia pública dos mutilados em acidentes de moto.
Como disse naquela ocasião, “coloco o espaço de minha coluna aqui no Diário do Tapajós, para trazer para o mundo ‘um pouco mais real’ da impressão em papel, onde pelo menos as palavras são ‘palpáveis’... E quem sabe conseguir outros adeptos para algumas das idéias e informações que circulam naquele blog”.
No artigo anterior dediquei maior parte das linhas ao tema do trânsito, mostrando o que se debateu até então. Hoje quero resgatar a questão da arborização e outros temas que fluíram até agora. Até porque, este tema pode ter uma maior participação do cidadão, independentemente das ações do Poder Público. Vale ressaltar que uma conquista neste item está prestes a se consolidar após o anúncio pela prefeitura municipal sobre a criação do Horto Municipal na área da Aeronáutica que foi repassada o município, nos bairros do Aeroporto Velho/Jardim Santarém. É bem verdade que a idéia sobre a utilização daquele local para um espaço desse tipo, era uma das condicionantes da Aeronáutica na negociação com a prefeitura desde outras gestões. Mas o fato da prefeita bancar a idéia reforça que as ações sugeridas no manifesto são urgentes e necessárias O alerta global contra o aquecimento, como se viu recentemente, já ecoa na cabeça dura de George Bush e faz parte dos debates dos poderosos de Davos (Suíça): eles estão com medo que aquecimento global atinja o traseiro de todos!
Voltando ao manifesto virtual de Dutra, tem sido interessante a contribuição do jovem designer industrial santareno, Aldrwin Hamad (foto), ao apresentar uma série de sugestões simples, demonstrando que existem cabeças arejadas pensando a cidade de forma mais prática, sem discursos proselitistas e demagógicos. Hamad enfatiza inicialmente, que seria necessário começar pela implantação de um sistema de drenagem e pavimentação das ruas em áreas mais elevadas da cidade, “evitando o acúmulo de detritos e areia nos pavimentos existentes das áreas de confluência dos fluxos pluviais”. Diz ainda que a utilização de pavimentação de concreto ao invés de pavimento flexível com asfalto, garante maior durabilidade, segurança e qualidade, além de contribuir em muito para redução do aquecimento. “Caso seja usado pavimento intertravado de concreto teremos ainda o benefício da redução da camada impermeabilizante que o asfalto cria”, finaliza ele.
Mas o ponto crucial das propostas do engenheiro, e que atingem o âmago das preocupações de Dutra, é a afirmação de que “os projetos de urbanização das vias públicas DEVEM conter como norma a arborização contínua com espécies adequadas e específicas para não interferir na queda de frutos nos veículos nem no desprendimento de muitas folhas para que venham obstruir as redes de escoamento pluvial”. Para ele, um estudo de especialistas poderia indicar que espécies seriam, contanto que em ruas mais estreitas seja obrigatório o plantio de árvores em áreas de calçadas entre o meio fio e o início da calçada de pedestres. [Aqui um parêntesis: eu acrescentaria à esta proposta de “árvores nas calçadas” a necessidade de, inicialmente termos calçadas! Quando comecei este Perípatos, a principal motivação era exatamente a falta de um “perípatos” como o da velha Atenas, para que se possa passear, filosofar e curtir a beleza da cidade. O que se tem hoje é apenas uma extensão das casas nas calçadas. Não há passeios públicos e o pedestre se vê obrigado e dividir o espaço do meio-fio com os tresloucados carros de nossa urbis. Fecha parêntesis.]
Hamad propõe ainda que em ruas mais largas e com canteiro central, devem haver, obrigatoriamente, “fileiras de árvores para sombra e não meramente decorativas como palmeiras imperiais ou açaí por exemplo, apesar de serem árvores lindas, não teriam a função de proporcionar um corredor de sombra”. Para ele, as espécies arbóreas seriam produzidas pelo próprio município (agora com o horto municipal). Ele chega a sugerir que tal plantio poderia utilizar “a mão-de-obra dos detentos da penitenciária agrícola” ou ainda dos ‘próprios alunos das escolas públicas”, como forma de criar um senso de responsabilidade a estes dois grupos.
Ele sugere também que se estude a viabilidade de uma medida que exija dos donos de terrenos baldios o plantio de árvores maiores, sem que fira o direito de propriedade. Talvez com um programa de incentivo fiscal na base de descontos no IPTU pra cada árvore plantada ou área sombreada, ou coisa parecida. Nesse ponto, eu teria uma discordância com o engenheiro. Acho que os terrenos baldios deveriam ter um tratamento mais incisivo, pois tem muita gente acumulando área apenas para fim de especulação e acabam criando um grande problema social, que se agrava quando os sem-teto resolvem invadir estas áreas. A cidade vive hoje o drama de milhares de famílias que poderiam ser despejadas da área do Maicá, por causa de uma suposta herança ou da pretensão de uma empresa em ocupar parte da área com um terminal graneleiro. Tudo isso começou de terrenos baldios e falta de uma política de gestão urbana. Houve uma época que um vereador (se não me engano, João Otaviano Mattos Neto) teria apresentado ou sugerido a apresentação de um projeto que obrigaria os donos de terrenos baldios a severas multas por não dar uma destinação aos seus terrenos.
As idéias de Hamad e de outros que assinaram o Manifesto de Dutra vão mais além do espaço que tenho aqui. Se você ainda não o leu o manifesto e nem o assinou, vale a pena entrar lá no blog do Jeso e acessar o link existente, para conhecer esta e outras propostas. E saiba também que Hamad e outros jovens preocupados com estas questões, já estão se reunindo para transformar em prática as preocupações elencadas no Manifesto de Dutra. Você pode contribuir também, fazendo a sua parte, mesmo que não queira participar diretamente do movimento. Basta plantar alguma árvore no seu quintal, na sua rua ou em qualquer lugar que tenha livre acesso.
Encerro minha contribuição neste espaço, e na próxima semana volto às crônicas humoradas e/ou filosóficas que caracterizam o Perípatos.
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 27.02.2007, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Um manifesto virtual em busca de uma reação real

Samuel Lima (foto ao lado), professor e jornalista santareno radicado em Santa Catarina, esteve recentemente em Santarém e participou de um encontro com jornalistas santarenos, quando afirmou que “estamos perdendo a capacidade de nos indignar”, diante da pasmaceira que o século XXI nos impõe, através da janela da grande mídia. Mas, vez por outra, somos sacudidos por alguém que, em nome de princípios que parecem ter se perdido num mundo longínquo um pouco ali, além da esquina, despertam-nos de uma iminente e perigosa letargia que pode corroborar com as palavras de Samuel.
No final de dezembro, outro jornalista que também saiu daqui e ajudou a escrever parte da história da comunicação dos últimos 30 anos, resolveu levantar essa poeira no mundo virtual, mas à espera de uma reação no mundo real. Falo do manifesto virtual que circula na internet, mais precisamente no blog do jornalista Jeso Carneiro, escrito por Manuel Dutra (foto abaixo), e que toca em pelo menos dois problemas cruciais no que se refere à qualidade de vida em Santarém nos últimos anos: a necessidade de arborização da cidade e o fim da calamidade pública em que se transformou o trânsito.
Depois de elencar sua ótica dos problemas, o jornalista sugere alguns pontos que deveriam ser assumidos pelos leitores daquele espaço cibernético, para se traduzirem em ações no mundo real. Diz inicialmente que cada comentário ao seu manifesto, deve ser entendido como uma inscrição automática “neste movimento que não pretende ser uma campanha (campanha é palavra desgastada, coisa que tem começo, meio e fim)”. Para Dutra, um movimento deve ser algo permanente, “uma imensa usina de idéias, sugestões e que, no médio prazo, produza efeitos práticos junto ao poder público e às forças organizadas da sociedade”.
O jornalista pede ainda que, ao participar do manifesto, qualquer internauta envie “idéias, sugestões, pensamento novo capaz de gerar ações novas e inovadoras” como forma de ser “um motivador de atitudes positivas das pessoas, individual e coletivamente”. E finaliza conclamando àqueles que abraçarem a idéia, de irem além da apresentação de sugestões, e tentarem se “reunir presencialmente para discussões e mesmo para a formação de um grupo organizado de luta pela qualidade de vida em Santarém”.
A nota de Dutra já tem mais de 20 comentários no próprio blog, mas já foi além disso: um grupo de pelo menos 20 pessoas de diferentes níveis e profissões, resolveu há duas semanas realizar um primeiro encontro para debater como as propostas de Dutra poderiam ser transformadas em ações concretas. Apesar de heterogeneidade do grupo que se reuniu em torno de uma mesa de bar, a conversa mostrou que existe gente de várias idades e pensamentos políticos com vontade de se indignar com o que se vê na cidade.
O segundo passo será organizar essa indignação e transformá-la em ação. Eu estive nesse primeiro encontro e aguardo ansioso pela próxima reunião. Mas não com a ânsia de apenas reunir e ficar num eterno blá-blá-blá, que muita gente têm feito nos últimos anos. Desse tipo de conversa estou escaldado. Há dois anos, eu, o professor Anselmo Colares (foto abaixo) e o próprio Jeso Carneiro, falávamos de reativar grupos de debates que existiram na década de 1980 em torno dos problemas da cidade. Chegamos a vislumbrar a criação de um fórum, mas acabamos nem dando um passo sequer nessa direção. Até que criamos espaços virtuais na internet, como os blogs, e esse fórum começou a ganhar corpo. Cibernético, por enquanto.
Como forma de contribuir para o debate, coloco o espaço de minha coluna aqui no Diário do Tapajós, para trazer para o mundo “um pouco mais real” da impressão em papel, onde pelo menos as palavras são “palpáveis”... E quem sabe conseguir outros adeptos para algumas das idéias e informações que circulam naquele blog, como por exemplo, a contribuição do médico Erick Jennings que afirmou “estamos formando uma legião de mutilados” ao comentar números que dispõe sobre acidentes de trânsito no Hospital Municipal. Segundo ele, só em 2006, foram registrados 3.142 acidentes de trânsito, dos quais 1.870 (60%) foram por moto. Ele diz ainda que pelo menos 390 pacientes de toda a região foram operados para correção de lesões graves, devido a esses acidentes com motos, sendo que desse total, segundo sua estimativa 234 pessoas (40%) seriam de Santarém! Ele constata ainda que “a taxa de morbidade para algumas seqüelas físicas, por pelo menos 1 ano, ultrapassa os 90%”, ou seja, “a cada 36 horas temos mais um mutilado na cidade”.
Eu mesmo, ao comentar o manifesto de Dutra, me referi a uma conversa que tive em dezembro com a prefeita Maria do Carmo (com Lula na foto ao lado), quando de sua visita à TV Tapajós onde trabalho na função de Assessor Corporativo de Comunicação da empresa, e toquei no tema “trânsito”, tendo como testemunha a empresária Vânia Maia. Sobre o fenômeno dos mototáxis, disse que surgiu em decorrência de dois fatores sociais extremamente graves: a falta de empregos para a juventude e a demanda reprimida do transporte coletivo urbano que não atende satisfatoriamente o cidadão, pois qualquer um sabe que esperar um ônibus após os horários do rush (início e final da manhã e da tarde), quando as empresas deliberadamente retiram das linhas grande parte de sua frota, é um martírio!
O desrespeito das empresas com o usuário é grande e desproporcional com todas as benesses que têm recebido do Poder Público em termos de aumento de passagem. A prefeita nos relatou que já havia naquele momento uma movimentação dos empresários por aumento de tarifa(!), mas garantiu que nem receberia em gabinete aqueles que ousarem falar disso, afinal eles ainda não cumpriram (como sempre fazem) com sua parte no último acordo com a prefeitura!
Acredito que Santarém necessita de um planejamento do trânsito e do serviço de transporte coletivo, antes que a balbúrdia que hoje se verifica nas ruas chegue ao nível do que ocorre em Belém, como já escrevi neste espaço há algum tempo.
Defendo que se pense na criação de mini-terminais de interligação rodoviária em alguns bairros-pólo, o que obrigaria as linhas de ônibus a circularem no trecho menor, com mais rapidez, e evitaria que todas as linhas convergissem para as ruas centrais, transformando-as em gargalos. Isso possibilitaria também, que um cidadão, por exemplo, pudesse sair do Amparo para a Jaderlândia, sem precisar pegar dois ônibus ou passar pelo Centro, já que o ticket comprado no terminal possibilitaria essa viagem de um extremo ao outro da cidade pelo mesmo valor. A prefeita disse que já teria tentado realizar algo nesse sentido, mas encontrou empecilhos para a liberação de verbas junto ao Governo Federal, sob a alegação de que “Santarém ainda não precisa de um sistema desse tipo”. Pode até ser verdade essa sensação do Governo Federal, mas não se pode pensar em algo para o futuro, quando o futuro já está batendo à nossa porta! Como explicar que o Governo Federal liberou verbas para um viaduto na Cuiabá com a Fernando Guilhon, apostando no caos do trânsito quando a BR-163 estiver asfaltada? Creio que o conceito é o mesmo.
Vânia Maia (foto abaixo) citou, nessa mesma conversa, a experiência que viu de perto em uma cidade do interior de São Paulo, onde microônibus atendem às populações dos bairros mais distantes enquanto os ônibus comuns fazem rotas em avenidas principais, desafogando estas vias. Sugeriu que a prefeita busque exemplos em outras cidades que possam servir de modelo às nossas necessidade. Se essa questão dos ônibus for resolvida, o mototáxi deixa de ser um problema e ai será preciso apenas um controle nas dezenas de milhares de motos que tomaram contas de nossas ruas e que ainda hoje, apesar da clandestinidade, mantém pontos de espera no centro sem que nada seja feito. E a população só deixará de utilizar esse serviço, quando o transporte coletivo for mais cidadão.
Na próxima semana, continuo apresentando as reflexões de outras pessoas que assinaram o manifesto de Dutra. Se você ainda não o leu e nem o assinou, não perca a oportunidade de se indignar.
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada na edição de 30.01.2007, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.