Hoje, 13/07/2022, comemoro 59 anos de vida, ou
seja entro definitivamente na “antessala do hexa” (nada a ver com nossa “selecinha”,
que como tenho dito em minhas redes sociais, não acredito que conquiste o hexa
este ano, em novembro). Hexa de seis décadas que completarei em 2023. Prestes a
virar sexagenário! Serei da terceira idade ou melhor idade...rs Um eterno
canceriano nascido no Dia Mundial do Rock! Não é pouca coisa...rs
Com o advento da internet, um dia (há
17 anos) me atrevi a criar um blog para registrar minhas impressões sobre a
vida, sobre minhas ideias e outras coisas que podem não ter importância para
ninguém. A ideia inicial era que ele fosse aquilo que se pensou quando se criou
o primeiro blog: um diário virtual. Mas nunca consegui isso e quase sempre meu
blog é um espaço que às vezes fica meses e até anos sem qualquer publicação,
como expliquei uma vez ao festejar mais um retorno meu à blogosfera.
Um dos momentos que me levam a voltar
a escrever aqui é quando faço aniversário, como hoje. Esta é a nona vez que
faço isso em dezessete anos de blog, ou seja sou indisplicente até para registrar
meu aniversário! A ideia sempre foi de refletir sobre esta data que pontua cada
um dos anos em que lembro que comecei a respirar, e pensar o porquê de eu estar
aqui. Filosofias e poesias de um cronista atabalhoado. Se quiser conhecer os
outros textos que escrevi refletindo sobre mais um ano de vida, busque no lado
direito no índice de tags a palavra Aniversário, e poderá ler outras reflexões sobre
essa minha data.
Esses dias que antecederam a data de
hoje, meu pensamento ficou preso a outro Pensamento, com P maiúsculo. No caso,
o sobrenome inusitado de um grande compositor da música brasileira, que morreu
cedo (aos 47 anos de cirrose hepática) e nunca foi visto como um letrista
respeitado do quilate de um Chico Buarque e, portanto, foi marginalizado como
um “romântico” da categoria “brega chique”.
Nestes 59 anos de vida, quero
refletir sobre meu dia, através deste “Pensamento”.
Estou me referindo a Antônio Marcos
Pensamento da Silva (08/11/1945 – 05/04/1992), mais conhecido como Antonio
Marcos, cantor e compositor que surgiu na época da Jovem Guarda e que se
notabilizou por letras românticas e religiosas (era um cristão assumido), mas
de vez em quando fazia uma letra reflexiva, sobre as mazelas do cotidiano, para
justificar seu inusitado sobrenome.
Meu primeiro contato com sua obra foi
através do Roberto Carlos que tornou famosa uma de suas mais belas canções
românticas: “Como vai você?”. Era 1972 e eu tinha apenas 9 anos. A música me
tocou profundamente e foi a primeira que aprendi a cantarolar por inteiro.
Logicamente que eu cantava escondido no banheiro e dedicava à primeira paixãozinha
do ensino fundamental...rs Mas era apenas mais uma “música do Rei”, de tantas
que aprendi a gostar à época.
Somente anos mais tarde, quando passei
a conhecer e gostar de outras canções românticas do Antonio Marcos, é que fui
saber que ele tinha composto também “Como vai você?”. Fui fã de músicas como “Menina
de Trança”, “´Porque a chora a tarde”, “Volte amor” (versão dele para um
clássico italiano, Torneró). Como intérprete, ficou famoso pela ultragospel “Homem
de Nazaré” (Cláudio Fontana) e brilhou com sua composição “Sonhos de um Palhaço”
em meados dos anos 1970. Em 1977, uma música com motivo religioso me encantou: “Quem
dá mais?”, que era tema de abertura da primeira versão da novela ‘O Profeta”,
de Ivani Ribeiro, que assisti na extinta TV Tupi.
Quando vim morar em Santarém (1978),
aos 15 anos, meu primeiro grande amigo foi um colega do colégio Rodrigues dos
Santos, onde completei o ensino fundamental. O Wilson Fernandes (já falecido),
era um romântico, mas com ar irônico. Um dia, comentávamos um clipe que oi
lançado no Fantástico com o novo sucesso do “Pensamento” e que adoramos: “Vai,
meu irmão! (Calendário)”, e descobri que meu amigo era um hiperfã do Antonio Marcos:
tinha quase todos os seus LPs! Foi através dele que comecei a conhecer outras
músicas do “Pensamento”. Duas delas, altamente reflexivas, se tornaram minhas
preferidas; “Gaivotas” (que ele fez em homenagem a Roberto Carlos, e o Rei regravou)
e “Registro Geral”, uma pérola desconhecida de muita gente.
É exatamente através da letra de “Registro
Geral” (do LP Cicatrizes, de 1974)que
faço minha reflexão de aniversário, por ser sempre tão atual e me sentir
descrito nela. Acompanhe a letra e no final, clique no link para ouvi-la no
YouTube:
Dentro de um ano, serei um
sex(y)agenário! Rs Mas agora, nessa “antessala do Hexa”, meu Pensamento se
confunde com o do poeta Antonio Marcos Pensamento da Silva, um Silva quanto
tantos outros e que viveu uma vida atribulada com esposas famosas como a
cantora Vanusa e a atriz Débora Duarte. Foi também ator, mas seu principal
legado está em letras como Registro Geral, em que se mostra um poeta
atormentado com seu tempo, querendo entender o porquê de estar aqui.
Hoje estou de folga do meu
trabalho (servidores do TJPA têm o benefício de folgar no dia de seu
natalício...rs) mas acordei cedo para escrever esse texto e incluir no meu
blog, para depois espalhar o link nas minhas redes sociais e nas linhas de
transmissão do meu WhatsApp. Não tenho vergonha de comemorar mais um
aniversário, fazendo barulho entre amigos. Pois como diz meu poeta “Pensamento”,
na letra de Gaivotas: “Eu quando saio pelo mar afora/Faço de conta que já vou
embora/Mas apenas fico nas mentiras/Que matam por momentos desventuras...”
Que tenhamos todos bons momentos
de PENSAMENTO, para refletir sobre nossas desventuras, principalmente num ano
em que elas estão tão escancaradas. Feliz meu Aniversário...rs
Como bom canceriano, sou um colecionador nato. Completando hoje 54 anos, tento focar minha
crônica anual de aniversário (tenho uma coleção delas, clique na hashtag Aniversário, lá no rodapé desse texto e conheça as outras) exatamente neste vício,
por assim dizer.
Você não se torna um colecionador. É algo inerente em
algumas pessoas. Nem me dei conta de quando tudo começou. Talvez lá pelos 7
anos, quando ganhei minha primeira coleção de livros: a obra de Monteiro Lobato
sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo, em capa dura (como o da foto abaixo), de cor vermelha. Praticamente me alfabetizei em meio às
aventuras de Pedrinho, Narizinho e Emília. E absorvi a essência dos personagens
pelos anos seguintes. Antes de viajar pra Grécia, em 1988, presenteei a coleção a um sobrinho.
Os livros me levaram aos gibis. Cheguei a ter uma coleção
com mais de 500 gibis da Disney e Maurício de Sousa, e alguns da Marvel e DC
Comics! Chorei quando meu pai disse que não poderíamos trazer as revistas na
viagem pra Santarém, quando tinha 15 anos! Acabei distribuindo as revistas (que
enchiam uma caixa de papelão de geladeira) pros amigos da vizinhança. Mas
trouxe comigo duas coleções que também iniciei na pré-adolescência: a de vinis
(LPs e compactos) e de times de botão!
A primeira cresceu e foi melhorando de qualidade, com meu
amadurecimento. Ainda hoje tenho uns 300 vinis, guardados numa caixa (foto abaixo). Os mais
antigos são de música grega, que herdei do meu pai, até o dia em que cometi um
ato rebelde e comprei um compacto simples do Raul Seixas, que acabava de ser
lançado nos anos 1970 com o clássico GITÁ! Contei essa história noutra crônica
que pode ser lida clicando AQUI! Chico Buarque é destaque na coleção, logicamente
(tenho T-O-D-O-S dele!).
Já a coleção de botões ainda usei por um bom tempo. Realizei
campeonatos e ensinei garotos que aqui conheci e que não sabiam a maravilha do
que é jogar botão. Pena que um dia viajei para Europa e quando retornei ao
Brasil, a caixa com mais de 20 times havia sumido durante uma mudança. Um dia
ainda refaço essa coleção!
Outra coleção que se perdeu quando viajei para a terra de
meu pai, a Grécia (entre 1988 e 1991) foi a de revistas masculinas,
principalmente a Playboy!!! Minha geração foi reprimida sexualmente pela
censura da Ditadura, e quando liberou geral não tinha neguinho que não
comprasse a Playboy do mês! Alguém acabou jogando fora mais de 100 revistas,
enquanto eu estava do outro lado do oceano! Mas consegui reconstituir parte da
coleção que guardo até hoje (consegui salvá-las, até hoje, nos dois
casamentos!).
Já colecionei coisas bizarras como carteiras de cigarro (que
juntava na rua, quando moleque), chaves (das dezenas de casas que aluguei),
armações de óculos (das muitas que usei) e mais recentemente rolhas de vinho (foto abaixo),
que ainda guardo numa garrafa de vidro. Já colecionei cachorros e até ratos
(esses últimos, na verdade, me colecionaram, sendo os bichos mais asquerosos
que sempre me perseguem pra onde vou e já acabaram com algumas de minhas
coleções...).
E tenho coleção de jornais antigos, muitos jornais,
revistas, panfletos, santinhos de candidatos e todo tipo de papel. Tenho caixas
cheias, hoje mal organizadas, que vez por outra sofrem ameaças domésticas de
incineração. Como estou de férias, me comprometi (mais uma vez) de arrumá-las
até 31 de julho...
A compulsão em colecionar suscita estudos mais acurados.
Antes de começar a escrever esta crônica, pesquisei na internet e encontrei
alguns textos interessantes para tentar entender porque padeço disso. Um desses
textos diz que “o colecionismo, além da ideia básica de entretenimento, é uma
arte e uma ciência e desenvolve o aprendizado, sendo uma atividade cultural por
excelência”. (Leia mais aqui: http://www.abrafite.com.br/artigo14.htm)
Já outro artigo apresenta estudos psicológicos de pessoas
como Sigmund Freud (ele mesmo um colecionador de gravatas, como a da foto abaixo) que acredita ter como
origem um trauma na infância. “Uma criança que faz xixi ou cocô na rua, na
cama, com força suficiente para gerar um trauma grande o bastante para fazer a
pessoa adulta colecionar com o intuito de controle ou mesmo na tentativa de
voltar no tempo” (Leia mais aqui: https://vidadecolecionador.wordpress.com/2014/04/04/por-que-colecionamos/)! Será???
Ao ler essa tese, lembrei que meu pai contava de uma viagem
que fez comigo pro Rio de Janeiro, quando eu tinha dois anos. Lá, passeamos no
bondinho do Pão de Açúcar e ele, ainda solteiro, começou a se engraçar de uma bela
carioca. Quando a coisa estava ficando mais séria e o grego se preparava para
roubar um beijinho, eu estraguei tudo com uma boa dose de excrementos (estava
sem fralda...rs) que sujou o casal!!! Provavelmente levei um grande “ralho”
dele que perdeu o broto, mas será que foi isso que me tornou um colecionador?
Deixando de lado essas divagações, fiquei sabendo nas
pesquisas que os naturalistas foram precursores na arte de colecionar objetos.
O italiano Ulisse Aldrovandi (foto abaixo) foi o primeiro deles e lá por 1572 começou uma
coleção de “ovos de pássaros bizarros, minerais, estranhos chifres, amostras de
plantas e até mesmo o cadáver de um filhote de dragão!”. Chegou a ter mais de
20 mil itens em seu acervo (Leia mais aqui: https://papodehomem.com.br/colecao-por-que-gostamos-tanto-de-colecionar-coisas/)!
Mas há quem diga que o hábito é ainda mais antigo. “É bem
provável que o homem pré-histórico já tivesse, num cantinho da caverna, uma
coleção de crânios como talismãs”, diz um dos autores que pesquisei. Ele
analisa essa compulsão e chega a dizer que “um colecionador, mesmo quando obtém
uma raridade não sente seu desejo atenuado. Na verdade, nada é mais triste,
para um colecionador, que pensar em completar uma coleção”. E conclui citando
outro historiador: “quando as mãos seguram a nova aquisição, os olhos já vislumbram
a próxima peça” (Leia mais aqui: http://josearnaldo.blogspot.com.br/2008/01/colees-entenda-por-que-as-pessoas.html
).
No site do Wikipedia encontrei, inclusive, uma relação de
nomes para cada tipo de colecionador, alguns muito estranhos. Se você que está
me lendo e tem, por exemplo, o estranho hábito de colecionar pacotes de açúcar
você não passa de um PERIGLICÓFILO! Clique AQUI e veja outros tipos de
colecionadores...
Mas “o hábito de colecionar pode tomar tempo e energia da
pessoa, além de consumir muito dinheiro”, diz outro artigo pesquisado cheio de
referências bíblicas. Nele, o autor chega a questionar se “deve o cristão
permitir que o fascínio por algum hobby se torne tão profundo que o leve a
extremos que são insensatos e constrangedores? Não, pois a Bíblia exorta-nos a
manter-nos equilibrados”. Me senti um pecador sem perdão. Como não tenho
religião, fiquei mais tranquilo. (Leia mais aqui: https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/102004890).
Voltando à origem astrológica, um dia li num livro da Linda Goodman (expert
internacional nessa área, na foto abaixo) que o perfil do canceriano é ser “um arqueólogo da
mente”. Os amigos que me conhecem sabem que tenho uma grande capacidade de
memorizar fatos do cotidiano, principalmente nos quais eu me envolvo. Na minha “coleção
de memórias”, a mais antiga é de quando tinha cinco anos e fui conhecer meu
irmão caçula na maternidade. Mas apesar de saber de cor o nome científico - e
quilométrico - da Cibalena (Dimetilaminofenildimetilpirazolona), que aprendi
quando moleque, as noites de insônia andam matando alguns neurônios e me
dificultam lembrar onde deixei o carro estacionado...
Hoje mantenho algumas coleções em meu acervo, com mais de
uma centena de CDs e DVDs, livros diversos e gibis da Marvel com encadernamento
especial. E incentivei a caçula Nicole a colecionar bolinhas de acrílico (eu
adorava elas quando era pequeno, mas não cheguei a colecionar) e bonecos em
miniatura.
Mas existe uma coleção de todas que eu tenho, que eu mais
prezo: a COLEÇÃO DE GENTE. Sim, sou um Colecionador de Gente. Não como o
maníaco do filme O Colecionador (de 1965, dirigido por William Wyler, com
Terence Stamp, cartaz abaixo), que colecionava borboletas e se apaixonou por uma linda jovem e
a raptou para juntar à sua coleção. Nem tampouco o colecionador obsessivo de
aromas do filme Perfume, a história de um assassino (de 2006, dirigido por Tom
Tykwer, com Ben Whishaw), que mata mulheres para lhes extrair a essência.
Minha coleção de gente é feita de filhos, de mulheres que
amei, de parentes distantes, de pessoas com quem concordei ou discordei, de
amigos e colegas de ideais com os quais desenvolvo um altruísmo quase suicida.
Tenho também os amigos virtuais que me acompanham pela internet e que aprovam
ou não o que digo, mas em sua maioria me respeitam. Tenho coleção de
adversários e alguns poucos inimigos (quem diz que não os tem, mente), que
servem como contraponto para não me sentir perfeito.
Aliás, é a busca do equilíbrio e da sensatez que me faz
querer mais e mais amigos. Não como Roberto Carlos. Não apenas milhões de
amigos. Mais milhões de emoções que deles irradiam.
Há 54 anos cultivo essa coleção quase de forma automática.
Gosto de cultivar olhares à distância, absorver essências, conversar, trocar
confidências ou chorar. E principalmente fazer poesias, baseadas em toda essa
gente. Meu Eu-lírico se deixa flutuar para entender toda essa gente que eu
coleciono. Talvez nunca consiga chegar a uma conclusão do porque dessa
humanidade – incluindo eu – queiramos nos destruir.
Preciso continuar o mister de ser um Colecionador de Gente.
Junto com essas pessoas, coleciono segundos, minutos, horas. Coleciono o tempo,
como se meu coração fosse uma ampulheta de emoções.
Quero ainda ter forças para continuar essa coleção e fazer
dela a maior de todas, antes que eu comece a última coleção que nos sufocará um
dia: a de terra, muita terra, que há de nos envolver num último acalanto da
natureza...
Completei no último domingo,
13/07/2014, além dos 51 anos de idade, praticamente 30 dias assistindo os jogos na Copa do Mundo de
Futebol que se realizou no Brasil. Não era a final que eu queria ver no dia do
meu aniversário. O Brasil decepcionou como nunca e levou duas goleadas
acachapantes e ficou em quarto lugar. Completei também, 40 anos assistindo a Copa pela TV.
Eu e Nicole na torcida pelo Hexa!
Restou-me torcer pela Argentina, mais por
solidariedade latino-americana (se bem que isso não passou na cabeça da maioria
dos torcedores brasileiros, em virtude da eterna rivalidade com os hermanos) do
que por um futebol vistoso. A Alemanha mereceu a conquista por sintetizar o que
de melhor se viu de outras seleções – inclusive o Brasil – desde o surgimento
da Copa do Mundo em 1930.
Assisti a quase todos os jogos
desde a abertura (aquela coisa horrível, com “padrão Fifa”) em 12/06, aproveitando as férias que tirei para cuidar
da caçulinha Nicole que acabara de nascer. Até tentei dar um apoio logístico ao
bebê, mas confesso: assistir os jogos da Copa pela TV é um costume que completa
40 anos e do qual não consigo me desvencilhar e a mãe acabou ficando mais tempo
com a pequerrucha. Num certo dia, torci com tanta ênfase que assustei Nicole e
peguei até um ralho da mãe dela, Ana Charlene...
A Copa e a política
Logicamente que uma Copa em ano
de eleição acontecendo em nosso país, só podia ser usada como escudo de
ambições de grupos de extrema direita e de extrema esquerda que usaram a mídia
para desgastar o evento, apesar da mesma mídia precisar deste evento para seus
objetivos comerciais. A ideia era mostrar que a Copa seria uma porcaria e que a
culpa era da atual presidente que tenta sua reeleição.
Mas como a direita é
péssima em ir pras ruas protestar, a esquerda mais utópica se encarregou de fazer
esse papel levantando bandeiras vermelhas e atacando a antiga esquerda (que
hoje está no centro e já quase caindo pra direita) que comanda o País. Até a
bola rolar. Os black-blocks não resistiram à mania nacional que é o futebol. E nada do que se previu na organizações dos jogos aconteceu. A imprensa internacional reverenciou a Copa das Copas!
Já vivi os dogmas da esquerda no
passado com maior ênfase, ao ponto de declarar como um mantra que “o futebol é
ópio do povo”, parafraseando Marx. Lembro que quando disse isso para um atônito
Jota Parente (jornalista que foi meu chefe na Rádio Rural, quando comecei minha
carreira), recebi uma reprimenda por ter uma postura que ele considerava tão
radical. Mas apesar de ter esse pensamento, em época de Copa, nunca deixei de
acompanhar freneticamente os jogos, e quase sempre torcendo para o Brasil. Não
mudei minha concepção, apenas me entorpeço dela...
Teve copa - e das boas - apesar dos BB...
Creio que não perdi a essência de
me rebelar, de me indignar, de criticar aqueles que saíram dos trilhos. Tento
manter acesa a chama do socialismo que acredito, mesmo que ele não seja pra mim
aquele mais utópico. Hoje tenho críticas ao governo do PT, mesmo estando filiado
a um partido que é seu principal aliado (PC do B). O PT no Pará, então, esse já
não existe, principalmente depois da patuscada de apoiar os Barbalho e Lira
Maia para o Governo do Estado (e o PC do B junto).
Sei que a CBF é corrupta e a Fifa
também. Mas todos queriam que o evento Copa viesse pra cá. O problema é que os
tucanos não conseguiram a proeza, e não aceitam o fato de não estar no poder.
Com certeza se estivessem, grande parte da mídia estaria favorável à Copa.
Quanto aos “radicais” de esquerda e seus black-blocks... ali não há cheiro de
povo, apenas uma maioria de jovens rebeldes que aproveitaram para levantar as
mesmas bandeiras dos tempos da ditadura... É desse proselitismo político que eu
quero sair.
Três gerações torcendo pela Grécia na Copa 2014
Este ano torci pelo hexa do
Brasil e por uma boa performance da Grécia, minha segunda Pátria (a primeira foi
fraca no início e acabou goleada de forma vexatória, já a segunda começou
goleada e se despediu de forma mais honrosa nas oitavas de final...). Assisti aos jogos da Grécia, alguns deles acompanhado de meu velho pai Georgios Ninos e de meu filho Georgios Ninos Neto, os solitários torcedores helênicos de Santarém (foto ao lado)...
Enquanto
assistia a noticiários na TV sobre manifestações e via as postagens de muitos
amigos da esquerda detonando a Copa, preferi fazer outra leitura deste momento.
Daí, a necessidade de escrever minhas reminiscências sobre as Copas que vivi
para poder justificar porque torci pela Copa e não contra ela.
Seleção colorida em 1974
Pela primeira vez uma final de Copa
caiu no dia do meu aniversário. Quando nasci há 51 anos, já era bicampeão e nem
sabia. Em 1966, tinha apenas três anos, mas nem me dei conta que a seleção se
deu mal na Inglaterra. Assim, a mais antiga lembrança que tenho de uma Copa do
Mundo é vaga, e resume-se a fogos de artifício pela conquista do tricampeonato,
além daquela música “chiclete” (“Noventa milhões em ação, pra frente Brasil...”).
Eu tinha sete anos e lembro da comemoração em casa. Mas é só. Não lembro das
imagens de TV ou de gols. Acho que a Copa era algo sem qualquer importância naquele
meu mundinho.
O Manoel Pinto visto da
Praça da República em Belém
A paixão pela Copa surgiu quatro
anos depois e foi justamente por causa do fascínio pela TV, que para mim era
algo bem próximo. Explico: eu morava com a família no 24º andar do edifício
Manuel Pinto da Silva (foto ao lado) – que à época era considerado o maior espigão da Amazônia
– e o andar de cima era ocupado pela TV Guajará que era a afiliada da Rede Globo em Belém (anos depois, a recém-criada TV
Liberal assumiria a Globo, na capital paraense).
Eu brincava nos corredores do 25º
andar e acabava sendo convidado a conhecer as coxias dos estúdios onde se
produziam os programas locais, principalmente o jornal da noite que era a
edição local do Jornal Nacional. Mas não assistia nada ao vivo. Ficava
fascinado quando assistia ao jornal da noite, e em seguida saía com a família
para uma volta na Praça da República e dava de cara, no elevador, com aquele
homem de paletó que eu acabara de assistir na TV. Talvez ali começasse a nascer
em mim uma vontade de um dia ser jornalista.
Mas voltando à Copa de 1974,
naquele ano seria a primeira vez que a Globo exibiria os jogos em cores. TV
colorida ainda era uma novidade e pouca gente em Belém tinha uma, mesmo uma
família de classe média alta como a minha. Pra nossa surpresa, a direção da TV
Guajará resolveu convidar todos os vizinhos do 24º andar para assistirem ao
jogo de abertura da Copa da Alemanha que seria entre o então tricampeão Brasil
e a Iugoslávia (hoje dividida em Croácia, Sérvia e Montenegro, Bósnia e
Herzegovina, Macedônia e Eslovênia).
Fiquei estupefato. Pirei. Naquele dia
decidi que não deixaria de assistir as próximas Copas. Colecionei até álbuns de
figurinha! Sabia escalações de seleções, fazia análises de resultados, somava
pontos e gols para ver quais se classificariam! Mas era algo meticuloso e
científico. Curiosidade de um futuro jornalista e não apenas deslumbre de um
pequeno torcedor. Mas como era ruim de bola, me tornei um craque no jogo de botão, onde montava times invencíveis com os craques da Copa!!! fiquei tão bom, que passei a fazer times com tampinhas de Whisky que juntava na rua ou umas medidas de leite em pó Mococa, que era a minha seleção imbatível!
O envolvente "Carrossel Holandês" de 1974.
Da Copa de 74 não esqueço de duas
coisas: o belo gol do Rivelino na antiga Alemanha Oriental, numa falta batida
pra cima da barreira, onde o Jairzinho estava infiltrado e se jogou no chão
abrindo uma brecha. A jogada foi diversas vezes imitada e até hoje cria aquele
empurra-empurra nas barreiras. A outra coisa foi a bela seleção holandesa, o
chamado “Carrossel Holandês” que atropelou o Brasil com seu jogo coletivo de ir
e vir para o ataque e para a defesa, na quartas de final. Mas a “Laranja Mecânica”
como também ficou conhecida aquela seleção acabou perdendo na final, para
a então ensossa e sempre eficiente Alemanha, dona da casa. Eu era fã Cruijf (o
Robben é brilhante no atual time que também goleou o Brasil e ficou com o
terceiro lugar, mas não se compara com o mestre holandês de 1974)!
A copa em videotape
Quatro anos depois eu e minha
família nos transferíamos para uma tal de Santarém (eu nem sabia o que era essa
cidade. Hoje não sei se poderei um dia viver longe dela....). Ao chegar aqui
descobri que ainda não havia um canal de TV! Tragédia! Como eu assistiria a
Copa que aconteceria na Argentina? Mas a TV Tapajós já estava vivendo sua fase
experimental. Só que ainda não podia exibir imagens via satélite. Assim, a
gente acompanhava os resultados pelo rádio e no dia seguinte assistíamos o jogo
em vídeo-tape!
A TV Tapajós inaugurada em 1979,
mostrando a Copa da Argentina em videotape
Meu pai montou sua famosa
lanchonete Nino-Lanche no centro comercial. Atraiu boa freguesia e conheceu um
empresário que tinha um cinema, o velho Cine Acácia, na avenida São Sebastião
com Moraes Sarmento. Convidou-o para tomar conta da lanchonete que montou ao
lado, o Acação. E lá fui eu trabalhar às tardes e ouvir o jogo pelo rádio em
volume alto no bar do seu Caixeirinho, pai do advogado Wilton Dolzanis. A
música chiclete era “corrente 78, o ano da nossa seleção...”
Foi quando comecei a acreditar
que uma Copa podia ser arranjada: o Brasil era a melhor equipe e terminou
invicta em 3º lugar, mas a Argentina precisava ganhar por conta de interesses
da ditadura local. E o Peru levou uma surra dos Hermanos, deixando o Brasil
fora da final que aconteceria com o pessoal do “Carrossel Holandês” de novo! E
prevaleceu o joguinho catimbado da Argentina, que acabou erguendo a taça em
plena ditadura Argentina.
O futebol da filó-filosofia
A maior geração de craques que o
Brasil possuiu foi a do início dos anos 1980. O País vivia o final de uma
ditadura e ia pras ruas em busca de um Brasil melhor. Eu começava a militar nos
movimentos sociais e apesar de criticarmos o aparato da Copa, no fundo
torcíamos por um sucesso da seleção. Lula era nossa referência e o PT surgia
como esperança. Assim como Telê Santana, o técnico que comandaria as seleções
de 1982 e 1986. Ele tinha jogadores maravilhosos como Zico, Sócrates, Falcão,
Éder, Júnior, Casagrande, Alemão, careca e tantos outros craques que encantavam
qualquer um.
Telê era um turrão, como a maioria
dos técnicos brasileiros, mas empolgou apesar de eliminado nas duas copas por
falhas bobas nas oitavas de final. Em 1982, na Espanha, quando só precisava de
um empate com a Itália deixaram um tal de Paolo Rossi solto e ele acabou
fazendo três gols. O Brasil fez só dois voltou pra casa. Em 1986, no México,, o
algoz foi a França de Platini, que nos venceu nos pênaltis, mas acabou indo
decidir o terceiro lugar e perdeu.
Dessa última copa cheguei a me
empolgar com a Dinamáquina, como ficou inicialmente conhecida a seleção da
Dinamarca do craque Michael Laudrup, que empolgou na primeira fase com um jogo
vibrante e muitos gols, principalmente o 6 x 1 no Uruguai, mas acabou eliminada
pela Espanha por 5 x 1 nas oitavas da final. Foi a Copa de Maradona e “La mano
de Diós...
A música que mexeu com minha
geração na década de 1980 foi a da Copa de 1982, até hoje um primor de letra
num belíssimo frevo, feita pelo baiano Moraes Moreira. “Tá lá, tá lá, tá no
filó, tá na filosofia, o craque brasileiro tem sabedoria! Tá lá!”. Me lembro
que bebi todas (acreditam?) no 4 x 1 do Brasil contra a Escócia e quase furava o
vinil em compacto que não parava de rodar na vitrolinha de casa! (clique no link acima para escutar a música). Havia ainda as do "Mexe, mexe, coração", de um personagem criado pela Globo, o tal
de Araken... mas apesar de engraçadinhas, não barravam o frevo de Moreira.
O fiasco de Lazaroni assistido na
Grécia
Em 1988 tive que sair de
Santarém, pois havia mexido com gente grande e não demoraria virar presunto. Um
autoexílio de três anos na terra de meu pai, a Grécia. De lá, acompanhei o
fiasco da seleção de Lazaroni em 1990, que perdeu nas oitavas de final para a
Argentina, de Maradona, que perderia na final da Alemanha, como agora no Brasil.
O interessante desta copa foi o
inusitado convite que recebi do radialista Olympio Guarany, que montava uma
equipe de 10 radialistas para cobrir a copa pela Rádio Rural. Eu seria o 11º da
equipe com a incumbência de cobrir o que aconteceria fora dos estádios. Foi
quando comecei a estudar todos os mundiais, comprando enciclopédias e
almanaques, para não fazer feio. Mas a utopia de Olympio se acabou no Plano
Collor, que confiscou a poupança dos brasileiros no início de seu desastroso
governo que cairia dois anos depois...
A música que recordo era a tal de
“Papa essa Brasil...” uma alusão à Copa na Itália, próximo ao Papa... sem
graça.
O tetra na terra do Tio Sam e o
fiasco na França
Já de volta ao Brasil, acompanhei
outra Copa, a dos EUA com um time que tinha muitos craques e muita arrogância.
Com Romário – apesar de gênio – à frente. Empolgou com um jogo meio fechado do
calado Parreira. Foi ano do nascimento de meu filho Georgios. Ele de fraldas no
meu colo, não entendia toda aquela gritaria e chorava (assim como Nicole chorou
agora). Bebeto fez o gol embala nenê, assim como eu embalava meu molequinho...
Bebeto e o Embala Nenê...
A vitória conquistada 24 anos
depois do Tri de Pelé fez com que o Brasil perdesse a humildade. Acho que
depois daquela Copa começamos a viver de improvisos em busca de uma hegemonia
no futebol que já havíamos perdido. Uma Copa conquistada em pênaltis depois de
um ensosso 0 x 0 com a Itália de Baggio, que aliás nos deu a taça ao errar seu
chute. O Brasil vivia a euforia do Real e os tucanos se aboletavam no poder com
FHC. E a música da Copa passou a ser hino exclusivo da Globo, que só vem
mudando a letra desde lá de tetra pra penta e de penta pra hexa...
Chegamos à França em 1998
acreditando que nos bastava um Ronaldinho para acabar com tudo. Fomos até bem e
chegamos à final com os donos da casa, até à estranha convulsão do craque no
dia da final e a surra dos franceses comandados por Zinedine Zidane. Teorias de
Conspiração começaram a ser tecidas, mas nunca confirmadas: o Brasil entregou o
jogo? Apesar da derrota, FHC bateu em Lula de novo na reeleição que ele
garantiu com o Congresso Nacional.
O penta da redenção e o hexa que
não chega
Madrugar para assistir jogos do
outro lado do mundo. Uma rotina diária em 2002, numa Copa na Ásia (Japão e
Coreia do Sul). Mas valeu as horas sem sono. O time encantou. Felipão convenceu
como paizão. E a final com a Alemanha foi uma coisa do outro mundo. Éramos soberanos,
mas a lição que deixamos aos alemães eles aprenderam e doze anos depois vieram
nos devolver a derrota (com juros e correção monetária de 7 por 1...) aqui na
nossa casa.
FHC recebeu os “heróis” na rampa
do Planalto com direito a cambalhota sem jeito de um Vampeta embriagado. Se o
Brasil tava com tudo, o real já não bastava e os tucanos acreditaram que com
Serra dariam outra surra no PT. Lula levou a melhor...
O ridículo corte de Ronaldinho no penta
Do penta para o hexa parecia um
pulo. Em 2006, na Alemanha, paramos novamente na França de Zidane nas oitavas
de final. Em 2010, a escalação de Dunga para técnico na África do Sul já era o
prenúncio de catástrofe, que acabou no jogo contra a Holanda com direito a
frango de Júlio César e expulsão ridícula de Felipe Melo. No Brasil, apesar
disso e do início da trama chamada Mensalão na qual o PT se envolveu e a mídia
insuflou, Lula se reelegeu.
E Lula foi buscar o direito de
sediar uma Copa no Brasil 64 anos depois do “Maracanaço”. A euforia foi geral.
Parecia que o hexa era detalhe. Lula elegeu Dilma, que seria a “gerentona”
desse projeto. O que se viu de lá para cá foi muita trapalhada, mas talvez com
muito exagero da imprensa que não aguenta mais o poderio lulo-petista. Acabar
com a Copa parece ter sido a última bala na agulha para evitar o quarto mandato
do PT à frente do governo. Muitos tucanos torceram pela derrota da seleção,
para derrotar Dilma. Mas será que isso acontecerá? Hoje já é possível antever
que pelo menos deve haver um segundo turno, mas o resultado da Copa não será
definitivo, como não foi em outros anos, para o desfecho final.
O futuro do futebol brasileiro
O futebol virou um grande negócio
e a multinacional que lida com isso é a Fifa. A próxima Copa será na Rússia,
mas se a política interna do futebol continuar como hoje (o que é razoavelmente
possível), só se pode esperar um novo fiasco e a consagração do projeto alemão
de se tornar penta e quem sabe chegar ao hexa antes de nós. Será que os atletas
do Bom Senso Futebol Clube conseguirão passar suas propostas? Eles já denunciam
que a máfia na CBF continua.
Daqui a quatro anos estarei
novamente à frente de uma TV, palpitando, torcendo, mas sem aquela coisa
ufanista de cantar o hino em época de Copa. Precisamos “desimbecilizar” o
sentimento patriótico de quatro em quatro anos. Acho que o Brasil já pendurou,
este ano, a tal de “Pátria de Chuteiras”. Precisamos voltar ao futebol descalço
das várzeas e periferias, com um governo que avance ainda mais nas questões
sociais.
E que o terrível 7 x 1 seja um novo
começo do futebol brasileiro...
P.S. Esse texto começou a ser escrito antes da Copa iniciar, mas os afazeres com Nicole foram adiando o fechamento do texto. Acabei parando e resolvi lançar como texto de aniversário, como faço todos os anos. Mas um problema com meu computador me impediu de postá-lo no sábado, depois de mais um fiasco do Brasil. Acabei tendo que atualizá-lo, para postá-lo hoje.
Dirijo meu golzinho preto 2004 (com corpinho de 2003) pela
BR-163 em direção à chácara Pouso Alto, na localidade de Cipoal. Já passamos do
posto da PRF (Polícia Rodoviária Federal) e relaxo ao volante sem precisar
segurar os 40 quilômetros por hora.
Ao meu lado, o velho grego Georgios Ninos, do alto de seus
92 anos, tenta me dar um pouco mais de suas lições. Com a mente já um pouco
fraca – pelo tempo – apesar de manter o vigor da juventude em seu corpo cuidado
à base de rígida dieta vegetariana e exercícios físicos, o velho grego tenta se
comunicar comigo em mais um dia que passamos juntos no meu período de
férias/licença do Judiciário, mas as palavras lhe faltam. Suas ideias já não
conseguem se traduzir com a mesma maestria de alguns anos. O peso da idade.
O velho Ninos e sua "gororoba vegetal"
Tentando balbuciar algumas lições ao filho desleixado que
continua não cuidar da saúde, na semana em que este está prestes a completar
meio século de vida, o velho grego acaba me transportando para um mundo
inaudito, fazendo-me lembrar de velhas lendas da mitologia helênica que estudei
na adolescência, nos livros que ele me comprou. O carro parece flutuar,
enquanto meu pai continua balbuciando suas mesmas lições e a mitologia
atravessa à minha frente. O cavalo à beira da estrada vira um Pégaso (o cavalo
alado dominado pelo herói Belerofonte) e me transporta além das nuvens negras
de mais um dia nublado no oeste do Pará.
Me veem à mente duas dessas lendas, das mais tristes
tragédias contadas por Homero e outros escritores da antiguidade helênica. São
lendas sobre o amor e a velhice, numa Santarém de 352 anos dos quais 35 vi de
perto quando aqui cheguei, aos 15 anos adolescentes.
Sibila de Cumas e Apollo, de Giovanni Domenico Cerrini
Uma das lendas fala da Sibila de Cumas, uma das 10 sibilas
(profetisas) do deus Apolo, que para se tornar sua esposa resolveu pedir a vida
eterna, mas de uma forma inusitada: colocou um punhado de areia em sua mão e
pediu-lhe para viver tantos anos quantos fossem as partículas de terra que
tinha ali. Entretanto, esqueceu-se de pedir, também, a eterna juventude. Com o
passar dos anos tornou-se tão consumida pela idade que teve de ser guardada no
templo de Apolo, na cidade de Cumas. A lenda diz que a Sibila de Cumas viveu
nove vidas humanas de 110 anos cada!
Aurora abandona Titono, de Louis Jean François Lagrenée
A outra lenda grega é sobre o amor da deusa Eos (Aurora,
irmã do Sol e da Lua) por um príncipe mortal, Títono, irmão do rei Príamo, de
Tróia. Ela, um dia o raptou, casaram e tiveram dois filhos, mas enquanto Eos
conservava uma juventude eterna, Títono, por ser mortal, começou a envelhecer.
Eos conseguiu então que Zeus, o deus dos deuses, concedesse a imortalidade ao
seu amado, mas por falta de reflexão não pediu também a juventude eterna para o
amado e este envelheceu continuamente, enfraquecendo. Chegou ao ponto de ficar
pequeno como inseto encarquilhado, até que ela, penalizada, pediu a Zeus que o
transformasse em uma cigarra.
10 de julho de 2013.
Dez e cinco da manhã.
Grandes caminhões graneleiros ocupam as duas laterais da
estrada entre Santarém (PA) e Cuiabá (MT) e eu preciso desanuviar meus
devaneios mitológicos para não dar de cara com aqueles monstros de nossa
mitologia moderna, do famoso deus Mercado. Meu pai continua balbuciando suas
lições. Entre gergelins e linhaças, iogurtes e beterrabas, o velho grego para
de falar sobre as receitas de suas famosas gororobas e me emociona dizendo
“queria ter tua idade, para poder dizer o que penso”.
Entre o medo de chegar à idade dele e não poder “dizer o que
penso” e o medo de morrer antes dele pelo descuido à ditadura do regime
alimentar, escolho a vontade de viver com experiência. E quem sabe, diminuir
uns quilinhos...
Por isso, o ato de refletir sobre o meio século que completo
neste sábado, 13/07/2013, passa pela estrada trilhada pelo velho Ninos, mesmo
que eu tenha buscado atalhos diversos do dele, e que juntos possamos dizer que
cada um, ao seu modo, viveu a vida.
10 de julho de 2013.
Dez e quinze da manhã.
Entro na chácara e vejo meu pai sair do carro com uma
pequena lágrima retida no canto do olho. Os Ninos são feitos de manteiga
derretida. Choramos por qualquer coisa. E a velha desculpa de sempre: “tem
poeira aqui”. Os Ninos são orgulhosos. Não gostam de se mostrarem frágeis, mas
às vezes, se debulham em lágrimas, seja cantando uma canção ou assistindo a uma
novela na TV.
Fico parado dentro do carro por alguns instantes. Naquele
momento, as ideias para esse artigo começam a brotar. Quase todos os anos,
escrevo sobre o dia do meu aniversário como se quisesse deixar um testemunho de
mim a cada ano. Um diário de bordo de uma nau enlouquecida. Pitadas literárias
de um filho que tentou ser mais que o pai. Agora, nesse meio século, essa
relação parece ficar mais próxima, tanto quanto mais distante.
Olho pra trás e vejo toda minha existência tentando me
firmar como um cidadão de bem. Como meu pai ensinou. Como sempre me cobrou, com
puxões de orelha. Com berros. Até eu sair de casa aos 16 anos e achar que tinha
um mundo a conquistar. Foram idas e vindas de um filho pródigo, que um dia
conseguiu provar ao pai que tinha algum valor. Não porque se tornou um
jornalista, com certo prestígio, numa cidade perdida no meio do nada amazônico,
como são todas as cidades do Verde Vagomundo, do ximango Bené Monteiro. Nem
tampouco por que fez filhos e filhos perpetuando o nome, um dos orgulhos
helênicos. Mas porque, apesar de tudo, manteve a essência dos ensinamentos do
velho grego turrão, que ainda hoje quer puxar (literalmente) nossas orelhas...
10 de julho de 2013.
Dez e vinte da manhã.
Saio da Chácara de minha irmã e sigo pela estrada. Ainda
tenho um TCC de pós-graduação pra terminar. Preciso revisar o livro de poesias
que agora vou lançar (acertei tudo com o Cristóvam Sena, do ICBS). Mais um
loucura minha. [No final, por problemas de última hora, o livro foi adiado mais
uma vez]
“Queria ter tua idade, para poder dizer o que penso”. A
frase do velho grego ecoa em minha mente. Ele disse muita coisa pelas mãos. Com
seu faro de pequeno comerciante, deixou sua marca na cidade que adotou como sua. E do alto de seus rompantes de arrogância,
misturados ao velho sorriso cativante, um dia me disse: “Houve um tempo em que
tu eras o filho do seu Ninos, o homem do lanche mais gostoso da cidade. Hoje me
orgulho quando alguém me pergunta se sou o pai do Jota Ninos”. Os Ninos são
metidos a bestas.
Mesmo depois de me dizer essa frase de me deixar todo
gabola, não duvidou em me ordenar que partisse para a Grécia, antes que eu
“amanhecesse com a boca cheia de formiga”, como lhe diziam os telefonemas
ameaçadores da época em que adorava polemizar com poderosos locais, pela Rádio
Rural. “Prefiro um filho vivo sem fama, do que um filho morto famoso”,
decretou. E mais uma vez definiu meus rumos, já nos altos de meus 25 anos!
Três anos de autoexílio (1988/1991), em sua terra natal,
para evitar que minha boca expressasse o que eu pensava. Três anos de
amadurecimento, numa Grécia de encantos, onde pude respirar das lendas de
outrora e até tentar por juízo na cabeça socialista de sempre. [A Grécia de
hoje, nem de perto lembra ao menos a Grécia que eu conheci. Muito menos a
Grécia de meu pai ou a das lendas mitológicas]
Eu, na Grécia de meu pai, aos 25 anos.
Amadureci tanto que, após ter retornado ao meu “Santo Harém”
(como chamava ironicamente a cidade, em alguns artigos de jornal, à época), um
colega jornalista disse que eu havia me “despolemizado” (rs)! Afinal, um ex-militante
petista fazer assessoria de marketing para um prefeito do antigo PFL (hoje, DEM)
era o fim da picada!
10 de julho de 2013.
Dez e vinte e cinco da manhã.
O carro vai mais lento, pois a PRF é logo ali. Nada de pensar
em lendas gregas agora. Passada a barreira, começo a fazer um retrospecto do
que vivi depois de retornar da Grécia.
A carreira jornalística chegava ao limite do tolerável no
inicio do século XXI, mas o acúmulo de conhecimentos foi suficiente para
entrar, através de concurso público no Poder Judiciário, onde já atuo por dez anos como analista judiciário (“babá” de processos carcomidos pelo tempo), sem
deixar de lado a carreira de jornalismo e atuando num setor onde a comunicação
se faz presente: o Tribunal do Júri.
No final de 2009, vivi a experiência de voltar a ser
solteiro depois de 17 anos com uma família, quatro filhos, duas netas, cinco
cachorros... E aos poucos, voltei a reescrever poesias guardadas em velhos
sacos de papel. Voltei a comprar algumas brigas pelos blogs da vida. Voltei a
polemizar, até me filiando ao PCdoB, pelo qual sonhei em organizar um grupo
para mudar o status quo local, mas fracassei. Até um plebiscito pela criação de
um novo estado, enfrentei. E fracassei. E me envolvi num sem-número de
atividades como ativista cultural, ambientalista, pesquisador de história e
voltei até a ser sindicalista! E em muitas coisas fracassei. Enquanto isso o
açúcar se acumulava no sangue, até eu ser agarrado pelo mal do século: o
diabetes. E tenho tentado me curar, mas tenho fracassado. Puxão de orelha do
velho Ninos.
Aos 50 anos, chego ao terrível dilema de continuar querendo
“dizer o que penso”. Seja em um programa de rádio, seja nas redes sociais, seja
neste pobre blog, que de vez em quando abandono. Não existe fracasso quando se
quer dizer liberdade. Talvez seja uma questão de ponderar que já não tenho o
vigor da juventude para abraçar tantas causas. Então o primeiro passo talvez
seja me desvencilhar da maioria das atividades e tentar a tal “vida saudável”.
Depois do TCC de Especialização, quem sabe um mestrado e/ou doutorado? Quem
sabe um livro dois, livros? Quem sabe um filho, uma árvore?..
10 de julho de 2013. Meio
dia. De volta a Santarém. Tempo de lembrar o que tenho feito recentemente, para chegar aos 50 anos.
De um ano pra cá encontrei uma nova razão para
continuar “dizendo o que penso”. Um novo amor, que não me cobra a juventude
(plena, que já não tenho), e sim a experiência de que precisamos para os novos
tempos em que muita gente vai às ruas “dizer o que pensa”.
Eu (com cara de babaca) com minha nova razão de viver, Ana Charlene.
O que importa, nestas primeiras horas do meu meio século, é
que eu não queira a eternidade por um punhado de areia nas mãos, nem tampouco
sonhar em virar uma cigarra...
13 de julho de 2013. Um
pouco mais da meia-noite. Termino o texto e revigoro o blog. O recado do seu Ninos está aí.
EU DIGO O QUE PENSO: FELIZ ANIVERSÁRIO,
SEU BABACA!