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quarta-feira, 13 de julho de 2022

Um Pensamento na antessala do hexa


Hoje, 13/07/2022, comemoro 59 anos de vida, ou seja entro definitivamente na “antessala do hexa” (nada a ver com nossa “selecinha”, que como tenho dito em minhas redes sociais, não acredito que conquiste o hexa este ano, em novembro). Hexa de seis décadas que completarei em 2023. Prestes a virar sexagenário! Serei da terceira idade ou melhor idade...rs Um eterno canceriano nascido no Dia Mundial do Rock! Não é pouca coisa...rs

Com o advento da internet, um dia (há 17 anos) me atrevi a criar um blog para registrar minhas impressões sobre a vida, sobre minhas ideias e outras coisas que podem não ter importância para ninguém. A ideia inicial era que ele fosse aquilo que se pensou quando se criou o primeiro blog: um diário virtual. Mas nunca consegui isso e quase sempre meu blog é um espaço que às vezes fica meses e até anos sem qualquer publicação, como expliquei uma vez ao festejar mais um retorno meu à blogosfera.

Um dos momentos que me levam a voltar a escrever aqui é quando faço aniversário, como hoje. Esta é a nona vez que faço isso em dezessete anos de blog, ou seja sou indisplicente até para registrar meu aniversário! A ideia sempre foi de refletir sobre esta data que pontua cada um dos anos em que lembro que comecei a respirar, e pensar o porquê de eu estar aqui. Filosofias e poesias de um cronista atabalhoado. Se quiser conhecer os outros textos que escrevi refletindo sobre mais um ano de vida, busque no lado direito no índice de tags a palavra Aniversário, e poderá ler outras reflexões sobre essa minha data.

Esses dias que antecederam a data de hoje, meu pensamento ficou preso a outro Pensamento, com P maiúsculo. No caso, o sobrenome inusitado de um grande compositor da música brasileira, que morreu cedo (aos 47 anos de cirrose hepática) e nunca foi visto como um letrista respeitado do quilate de um Chico Buarque e, portanto, foi marginalizado como um “romântico” da categoria “brega chique”.

Nestes 59 anos de vida, quero refletir sobre meu dia, através deste “Pensamento”.

Estou me referindo a Antônio Marcos Pensamento da Silva (08/11/1945 – 05/04/1992), mais conhecido como Antonio Marcos, cantor e compositor que surgiu na época da Jovem Guarda e que se notabilizou por letras românticas e religiosas (era um cristão assumido), mas de vez em quando fazia uma letra reflexiva, sobre as mazelas do cotidiano, para justificar seu inusitado sobrenome.

Meu primeiro contato com sua obra foi através do Roberto Carlos que tornou famosa uma de suas mais belas canções românticas: “Como vai você?”. Era 1972 e eu tinha apenas 9 anos. A música me tocou profundamente e foi a primeira que aprendi a cantarolar por inteiro. Logicamente que eu cantava escondido no banheiro e dedicava à primeira paixãozinha do ensino fundamental...rs Mas era apenas mais uma “música do Rei”, de tantas que aprendi a gostar à época.

Somente anos mais tarde, quando passei a conhecer e gostar de outras canções românticas do Antonio Marcos, é que fui saber que ele tinha composto também “Como vai você?”. Fui fã de músicas como “Menina de Trança”, “´Porque a chora a tarde”, “Volte amor” (versão dele para um clássico italiano, Torneró). Como intérprete, ficou famoso pela ultragospel “Homem de Nazaré” (Cláudio Fontana) e brilhou com sua composição “Sonhos de um Palhaço” em meados dos anos 1970. Em 1977, uma música com motivo religioso me encantou: “Quem dá mais?”, que era tema de abertura da primeira versão da novela ‘O Profeta”, de Ivani Ribeiro, que assisti na extinta TV Tupi.

Quando vim morar em Santarém (1978), aos 15 anos, meu primeiro grande amigo foi um colega do colégio Rodrigues dos Santos, onde completei o ensino fundamental. O Wilson Fernandes (já falecido), era um romântico, mas com ar irônico. Um dia, comentávamos um clipe que oi lançado no Fantástico com o novo sucesso do “Pensamento” e que adoramos: “Vai, meu irmão! (Calendário)”, e descobri que meu amigo era um hiperfã do Antonio Marcos: tinha quase todos os seus LPs! Foi através dele que comecei a conhecer outras músicas do “Pensamento”. Duas delas, altamente reflexivas, se tornaram minhas preferidas; “Gaivotas” (que ele fez em homenagem a Roberto Carlos, e o Rei regravou) e “Registro Geral”, uma pérola desconhecida de muita gente.

É exatamente através da letra de “Registro Geral” (do LP Cicatrizes, de 1974) que faço minha reflexão de aniversário, por ser sempre tão atual e me sentir descrito nela. Acompanhe a letra e no final, clique no link para ouvi-la no YouTube:

Registro Geral (Antonio Marcos)

(Declamando)

Sou quem se cruza
Ao passar por você,
Quase todos os dias!
Sou o que vem e o que vai,
Mas você nunca sabe!

Sou apenas um,
Um a mais...
Na rua,
No mundo e na vida,
Apenas um,
Apenas um a mais...

Tenho estatura comum,
Olhos e cabelos castanhos,
Eu gaguejo um pouco
Quando fico nervoso.

Tenho esperado
Que se termine logo o metrô
Que é pra eu chegar
Mais depressa em meu trabalho!

Que mais posso dizer?!
Nunca fiz nada de muita importância,
Nunca verei meu nome,
Em manchetes de jornais.
E se acaso isso um dia acontecer
Será por motivos muito tristes!

(Cantando)

Alguma vez escrevi
Três ou quatro poesias,
Que eu gritei por aí,
Sem dizer que eram minhas!

Tenho uma vida pequena,
Mas nunca vazia!
E alguém me amou uma vez
Quando mais eu queria!

Poucas pessoas que eu quis,
Eu verei no caminho...
Quando eu tiver que partir,
Sei que parto sozinho!

Ah! quando a estrela acabar,
Quem poderá me arranjar
Outro registro geral?!

(Declamando)

Certa vez,

Entre as quatro paredes de um elevador,
Em meio aos gritos da penúltima noite,
Eu vi um bêbado todo enfeitado...

De voz pequena, ele cantava a vida,
O rosto azul e um girassol na testa,
Dançava a dança e encanto esperançado,
Bebeu demais e se espalhou na terra...

Pra meu espanto e pranto imediato,
Incendiou-se o elevador do tempo...
E não havia o que temer no fogo,
Mas eu fui bobo e não dancei de medo!

Hoje eu desci do elevador e ando,
Esbarro a toa em templos da estrutura,
Talvez estúpido ou desinformado.

Sou importante
E nunca plantei flores,
Não dei boa noite,
Não comi a terra,

Será que eu deixarei
Um filho bem plantado?!
E a indiferença desse sol escasso,
Me dá o espaço de quem sabe nada,

Onde andará o bêbado enfeitado?!
Em que lugar o girassol da vida?!

https://youtu.be/AyDQ18Rih3M 

Dentro de um ano, serei um sex(y)agenário! Rs Mas agora, nessa “antessala do Hexa”, meu Pensamento se confunde com o do poeta Antonio Marcos Pensamento da Silva, um Silva quanto tantos outros e que viveu uma vida atribulada com esposas famosas como a cantora Vanusa e a atriz Débora Duarte. Foi também ator, mas seu principal legado está em letras como Registro Geral, em que se mostra um poeta atormentado com seu tempo, querendo entender o porquê de estar aqui.


Hoje estou de folga do meu trabalho (servidores do TJPA têm o benefício de folgar no dia de seu natalício...rs) mas acordei cedo para escrever esse texto e incluir no meu blog, para depois espalhar o link nas minhas redes sociais e nas linhas de transmissão do meu WhatsApp. Não tenho vergonha de comemorar mais um aniversário, fazendo barulho entre amigos. Pois como diz meu poeta “Pensamento”, na letra de Gaivotas: “Eu quando saio pelo mar afora/Faço de conta que já vou embora/Mas apenas fico nas mentiras/Que matam por momentos desventuras...”

Que tenhamos todos bons momentos de PENSAMENTO, para refletir sobre nossas desventuras, principalmente num ano em que elas estão tão escancaradas. Feliz meu Aniversário...rs

quinta-feira, 13 de julho de 2017

O Colecionador de Gente

Como bom canceriano, sou um colecionador nato.  Completando hoje 54 anos, tento focar minha crônica anual de aniversário (tenho uma coleção delas, clique na hashtag Aniversário, lá no rodapé desse texto e conheça as outras) exatamente neste vício, por assim dizer.


Você não se torna um colecionador. É algo inerente em algumas pessoas. Nem me dei conta de quando tudo começou. Talvez lá pelos 7 anos, quando ganhei minha primeira coleção de livros: a obra de Monteiro Lobato sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo, em capa dura (como o da foto abaixo), de cor vermelha. Praticamente me alfabetizei em meio às aventuras de Pedrinho, Narizinho e Emília. E absorvi a essência dos personagens pelos anos seguintes. Antes de viajar pra Grécia, em 1988, presenteei a coleção a um sobrinho.


Os livros me levaram aos gibis. Cheguei a ter uma coleção com mais de 500 gibis da Disney e Maurício de Sousa, e alguns da Marvel e DC Comics! Chorei quando meu pai disse que não poderíamos trazer as revistas na viagem pra Santarém, quando tinha 15 anos! Acabei distribuindo as revistas (que enchiam uma caixa de papelão de geladeira) pros amigos da vizinhança. Mas trouxe comigo duas coleções que também iniciei na pré-adolescência: a de vinis (LPs e compactos) e de times de botão! 

A primeira cresceu e foi melhorando de qualidade, com meu amadurecimento. Ainda hoje tenho uns 300 vinis, guardados numa caixa (foto abaixo). Os mais antigos são de música grega, que herdei do meu pai, até o dia em que cometi um ato rebelde e comprei um compacto simples do Raul Seixas, que acabava de ser lançado nos anos 1970 com o clássico GITÁ! Contei essa história noutra crônica que pode ser lida clicando AQUI! Chico Buarque é destaque na coleção, logicamente (tenho T-O-D-O-S dele!).


Já a coleção de botões ainda usei por um bom tempo. Realizei campeonatos e ensinei garotos que aqui conheci e que não sabiam a maravilha do que é jogar botão. Pena que um dia viajei para Europa e quando retornei ao Brasil, a caixa com mais de 20 times havia sumido durante uma mudança. Um dia ainda refaço essa coleção!

Outra coleção que se perdeu quando viajei para a terra de meu pai, a Grécia (entre 1988 e 1991) foi a de revistas masculinas, principalmente a Playboy!!! Minha geração foi reprimida sexualmente pela censura da Ditadura, e quando liberou geral não tinha neguinho que não comprasse a Playboy do mês! Alguém acabou jogando fora mais de 100 revistas, enquanto eu estava do outro lado do oceano! Mas consegui reconstituir parte da coleção que guardo até hoje (consegui salvá-las, até hoje, nos dois casamentos!).

Já colecionei coisas bizarras como carteiras de cigarro (que juntava na rua, quando moleque), chaves (das dezenas de casas que aluguei), armações de óculos (das muitas que usei) e mais recentemente rolhas de vinho (foto abaixo), que ainda guardo numa garrafa de vidro. Já colecionei cachorros e até ratos (esses últimos, na verdade, me colecionaram, sendo os bichos mais asquerosos que sempre me perseguem pra onde vou e já acabaram com algumas de minhas coleções...).


E tenho coleção de jornais antigos, muitos jornais, revistas, panfletos, santinhos de candidatos e todo tipo de papel. Tenho caixas cheias, hoje mal organizadas, que vez por outra sofrem ameaças domésticas de incineração. Como estou de férias, me comprometi (mais uma vez) de arrumá-las até 31 de julho...

A compulsão em colecionar suscita estudos mais acurados. Antes de começar a escrever esta crônica, pesquisei na internet e encontrei alguns textos interessantes para tentar entender porque padeço disso. Um desses textos diz que “o colecionismo, além da ideia básica de entretenimento, é uma arte e uma ciência e desenvolve o aprendizado, sendo uma atividade cultural por excelência”. (Leia mais aqui: http://www.abrafite.com.br/artigo14.htm)

Já outro artigo apresenta estudos psicológicos de pessoas como Sigmund Freud (ele mesmo um colecionador de gravatas, como a da foto abaixo) que acredita ter como origem um trauma na infância. “Uma criança que faz xixi ou cocô na rua, na cama, com força suficiente para gerar um trauma grande o bastante para fazer a pessoa adulta colecionar com o intuito de controle ou mesmo na tentativa de voltar no tempo” (Leia mais aqui: https://vidadecolecionador.wordpress.com/2014/04/04/por-que-colecionamos/)!  Será???


Ao ler essa tese, lembrei que meu pai contava de uma viagem que fez comigo pro Rio de Janeiro, quando eu tinha dois anos. Lá, passeamos no bondinho do Pão de Açúcar e ele, ainda solteiro, começou a se engraçar de uma bela carioca. Quando a coisa estava ficando mais séria e o grego se preparava para roubar um beijinho, eu estraguei tudo com uma boa dose de excrementos (estava sem fralda...rs) que sujou o casal!!! Provavelmente levei um grande “ralho” dele que perdeu o broto, mas será que foi isso que me tornou um colecionador?

Deixando de lado essas divagações, fiquei sabendo nas pesquisas que os naturalistas foram precursores na arte de colecionar objetos. O italiano Ulisse Aldrovandi (foto abaixo) foi o primeiro deles e lá por 1572 começou uma coleção de “ovos de pássaros bizarros, minerais, estranhos chifres, amostras de plantas e até mesmo o cadáver de um filhote de dragão!”. Chegou a ter mais de 20 mil itens em seu acervo (Leia mais aqui: https://papodehomem.com.br/colecao-por-que-gostamos-tanto-de-colecionar-coisas/)!


Mas há quem diga que o hábito é ainda mais antigo. “É bem provável que o homem pré-histórico já tivesse, num cantinho da caverna, uma coleção de crânios como talismãs”, diz um dos autores que pesquisei. Ele analisa essa compulsão e chega a dizer que “um colecionador, mesmo quando obtém uma raridade não sente seu desejo atenuado. Na verdade, nada é mais triste, para um colecionador, que pensar em completar uma coleção”. E conclui citando outro historiador: “quando as mãos seguram a nova aquisição, os olhos já vislumbram a próxima peça” (Leia mais aqui: http://josearnaldo.blogspot.com.br/2008/01/colees-entenda-por-que-as-pessoas.html ).

No site do Wikipedia encontrei, inclusive, uma relação de nomes para cada tipo de colecionador, alguns muito estranhos. Se você que está me lendo e tem, por exemplo, o estranho hábito de colecionar pacotes de açúcar você não passa de um PERIGLICÓFILO! Clique AQUI e veja outros tipos de colecionadores...

Mas “o hábito de colecionar pode tomar tempo e energia da pessoa, além de consumir muito dinheiro”, diz outro artigo pesquisado cheio de referências bíblicas. Nele, o autor chega a questionar se “deve o cristão permitir que o fascínio por algum hobby se torne tão profundo que o leve a extremos que são insensatos e constrangedores? Não, pois a Bíblia exorta-nos a manter-nos equilibrados”. Me senti um pecador sem perdão. Como não tenho religião, fiquei mais tranquilo. (Leia mais aqui: https://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/102004890). 

Voltando à origem astrológica, um dia li num livro da Linda Goodman (expert internacional nessa área, na foto abaixo) que o perfil do canceriano é ser “um arqueólogo da mente”. Os amigos que me conhecem sabem que tenho uma grande capacidade de memorizar fatos do cotidiano, principalmente nos quais eu me envolvo. Na minha “coleção de memórias”, a mais antiga é de quando tinha cinco anos e fui conhecer meu irmão caçula na maternidade. Mas apesar de saber de cor o nome científico - e quilométrico - da Cibalena (Dimetilaminofenildimetilpirazolona), que aprendi quando moleque, as noites de insônia andam matando alguns neurônios e me dificultam lembrar onde deixei o carro estacionado...


Hoje mantenho algumas coleções em meu acervo, com mais de uma centena de CDs e DVDs, livros diversos e gibis da Marvel com encadernamento especial. E incentivei a caçula Nicole a colecionar bolinhas de acrílico (eu adorava elas quando era pequeno, mas não cheguei a colecionar) e bonecos em miniatura.






Mas existe uma coleção de todas que eu tenho, que eu mais prezo: a COLEÇÃO DE GENTE. Sim, sou um Colecionador de Gente. Não como o maníaco do filme O Colecionador (de 1965, dirigido por William Wyler, com Terence Stamp, cartaz abaixo), que colecionava borboletas e se apaixonou por uma linda jovem e a raptou para juntar à sua coleção. Nem tampouco o colecionador obsessivo de aromas do filme Perfume, a história de um assassino (de 2006, dirigido por Tom Tykwer, com Ben Whishaw), que mata mulheres para lhes extrair a essência.




Minha coleção de gente é feita de filhos, de mulheres que amei, de parentes distantes, de pessoas com quem concordei ou discordei, de amigos e colegas de ideais com os quais desenvolvo um altruísmo quase suicida. Tenho também os amigos virtuais que me acompanham pela internet e que aprovam ou não o que digo, mas em sua maioria me respeitam. Tenho coleção de adversários e alguns poucos inimigos (quem diz que não os tem, mente), que servem como contraponto para não me sentir perfeito.

Aliás, é a busca do equilíbrio e da sensatez que me faz querer mais e mais amigos. Não como Roberto Carlos. Não apenas milhões de amigos. Mais milhões de emoções que deles irradiam.


Há 54 anos cultivo essa coleção quase de forma automática. Gosto de cultivar olhares à distância, absorver essências, conversar, trocar confidências ou chorar. E principalmente fazer poesias, baseadas em toda essa gente. Meu Eu-lírico se deixa flutuar para entender toda essa gente que eu coleciono. Talvez nunca consiga chegar a uma conclusão do porque dessa humanidade – incluindo eu – queiramos nos destruir.

Preciso continuar o mister de ser um Colecionador de Gente. Junto com essas pessoas, coleciono segundos, minutos, horas. Coleciono o tempo, como se meu coração fosse uma ampulheta de emoções.


Quero ainda ter forças para continuar essa coleção e fazer dela a maior de todas, antes que eu comece a última coleção que nos sufocará um dia: a de terra, muita terra, que há de nos envolver num último acalanto da natureza...


segunda-feira, 14 de julho de 2014

As copas em minha vida – 40 anos na frente da TV

Completei no último domingo, 13/07/2014, além dos 51 anos de idade, praticamente 30 dias assistindo os jogos na Copa do Mundo de Futebol que se realizou no Brasil. Não era a final que eu queria ver no dia do meu aniversário. O Brasil decepcionou como nunca e levou duas goleadas acachapantes e ficou em quarto lugar. Completei também, 40 anos assistindo a Copa pela TV.

Eu e Nicole na torcida pelo Hexa!
Restou-me torcer pela Argentina, mais por solidariedade latino-americana (se bem que isso não passou na cabeça da maioria dos torcedores brasileiros, em virtude da eterna rivalidade com os hermanos) do que por um futebol vistoso. A Alemanha mereceu a conquista por sintetizar o que de melhor se viu de outras seleções – inclusive o Brasil – desde o surgimento da Copa do Mundo em 1930.

Assisti a quase todos os jogos desde a abertura (aquela coisa horrível, com “padrão Fifa”) em 12/06, aproveitando as férias que tirei para cuidar da caçulinha Nicole que acabara de nascer. Até tentei dar um apoio logístico ao bebê, mas confesso: assistir os jogos da Copa pela TV é um costume que completa 40 anos e do qual não consigo me desvencilhar e a mãe acabou ficando mais tempo com a pequerrucha. Num certo dia, torci com tanta ênfase que assustei Nicole e peguei até um ralho da mãe dela, Ana Charlene...

A Copa e a política

Logicamente que uma Copa em ano de eleição acontecendo em nosso país, só podia ser usada como escudo de ambições de grupos de extrema direita e de extrema esquerda que usaram a mídia para desgastar o evento, apesar da mesma mídia precisar deste evento para seus objetivos comerciais. A ideia era mostrar que a Copa seria uma porcaria e que a culpa era da atual presidente que tenta sua reeleição. 

Mas como a direita é péssima em ir pras ruas protestar, a esquerda mais utópica se encarregou de fazer esse papel levantando bandeiras vermelhas e atacando a antiga esquerda (que hoje está no centro e já quase caindo pra direita) que comanda o País. Até a bola rolar. Os black-blocks não resistiram à mania nacional que é o futebol. E nada do que se previu na organizações dos jogos aconteceu. A imprensa internacional reverenciou a Copa das Copas!

Já vivi os dogmas da esquerda no passado com maior ênfase, ao ponto de declarar como um mantra que “o futebol é ópio do povo”, parafraseando Marx. Lembro que quando disse isso para um atônito Jota Parente (jornalista que foi meu chefe na Rádio Rural, quando comecei minha carreira), recebi uma reprimenda por ter uma postura que ele considerava tão radical. Mas apesar de ter esse pensamento, em época de Copa, nunca deixei de acompanhar freneticamente os jogos, e quase sempre torcendo para o Brasil. Não mudei minha concepção, apenas me entorpeço dela...

Teve copa - e das boas - apesar dos BB...
Creio que não perdi a essência de me rebelar, de me indignar, de criticar aqueles que saíram dos trilhos. Tento manter acesa a chama do socialismo que acredito, mesmo que ele não seja pra mim aquele mais utópico. Hoje tenho críticas ao governo do PT, mesmo estando filiado a um partido que é seu principal aliado (PC do B). O PT no Pará, então, esse já não existe, principalmente depois da patuscada de apoiar os Barbalho e Lira Maia para o Governo do Estado (e o PC do B junto).

Sei que a CBF é corrupta e a Fifa também. Mas todos queriam que o evento Copa viesse pra cá. O problema é que os tucanos não conseguiram a proeza, e não aceitam o fato de não estar no poder. Com certeza se estivessem, grande parte da mídia estaria favorável à Copa. Quanto aos “radicais” de esquerda e seus black-blocks... ali não há cheiro de povo, apenas uma maioria de jovens rebeldes que aproveitaram para levantar as mesmas bandeiras dos tempos da ditadura... É desse proselitismo político que eu quero sair.

Três gerações torcendo pela Grécia na Copa 2014
Este ano torci pelo hexa do Brasil e por uma boa performance da Grécia, minha segunda Pátria (a primeira foi fraca no início e acabou goleada de forma vexatória, já a segunda começou goleada e se despediu de forma mais honrosa nas oitavas de final...). Assisti aos jogos da Grécia, alguns deles acompanhado de meu velho pai Georgios Ninos e de meu filho Georgios Ninos Neto, os solitários torcedores helênicos de Santarém (foto ao lado)...

Enquanto assistia a noticiários na TV sobre manifestações e via as postagens de muitos amigos da esquerda detonando a Copa, preferi fazer outra leitura deste momento. Daí, a necessidade de escrever minhas reminiscências sobre as Copas que vivi para poder justificar porque torci pela Copa e não contra ela.

Seleção colorida em 1974

Pela primeira vez uma final de Copa caiu no dia do meu aniversário. Quando nasci há 51 anos, já era bicampeão e nem sabia. Em 1966, tinha apenas três anos, mas nem me dei conta que a seleção se deu mal na Inglaterra. Assim, a mais antiga lembrança que tenho de uma Copa do Mundo é vaga, e resume-se a fogos de artifício pela conquista do tricampeonato, além daquela música “chiclete” (“Noventa milhões em ação, pra frente Brasil...”). Eu tinha sete anos e lembro da comemoração em casa. Mas é só. Não lembro das imagens de TV ou de gols. Acho que a Copa era algo sem qualquer importância naquele meu mundinho.

O Manoel Pinto visto da
Praça da República em Belém
A paixão pela Copa surgiu quatro anos depois e foi justamente por causa do fascínio pela TV, que para mim era algo bem próximo. Explico: eu morava com a família no 24º andar do edifício Manuel Pinto da Silva (foto ao lado) – que à época era considerado o maior espigão da Amazônia – e o andar de cima era ocupado pela TV Guajará que era a afiliada da Rede Globo em Belém (anos depois, a recém-criada TV Liberal assumiria a Globo, na capital paraense).

Eu brincava nos corredores do 25º andar e acabava sendo convidado a conhecer as coxias dos estúdios onde se produziam os programas locais, principalmente o jornal da noite que era a edição local do Jornal Nacional. Mas não assistia nada ao vivo. Ficava fascinado quando assistia ao jornal da noite, e em seguida saía com a família para uma volta na Praça da República e dava de cara, no elevador, com aquele homem de paletó que eu acabara de assistir na TV. Talvez ali começasse a nascer em mim uma vontade de um dia ser jornalista.

Mas voltando à Copa de 1974, naquele ano seria a primeira vez que a Globo exibiria os jogos em cores. TV colorida ainda era uma novidade e pouca gente em Belém tinha uma, mesmo uma família de classe média alta como a minha. Pra nossa surpresa, a direção da TV Guajará resolveu convidar todos os vizinhos do 24º andar para assistirem ao jogo de abertura da Copa da Alemanha que seria entre o então tricampeão Brasil e a Iugoslávia (hoje dividida em Croácia, Sérvia e Montenegro, Bósnia e Herzegovina, Macedônia e Eslovênia). 

Fiquei estupefato. Pirei. Naquele dia decidi que não deixaria de assistir as próximas Copas. Colecionei até álbuns de figurinha! Sabia escalações de seleções, fazia análises de resultados, somava pontos e gols para ver quais se classificariam! Mas era algo meticuloso e científico. Curiosidade de um futuro jornalista e não apenas deslumbre de um pequeno torcedor. Mas como era ruim de bola, me tornei um craque no jogo de botão, onde montava times invencíveis com os craques da Copa!!! fiquei tão bom, que passei a fazer times com tampinhas de Whisky que juntava na rua ou umas medidas de leite em pó Mococa, que era a minha seleção imbatível!
O envolvente "Carrossel Holandês" de 1974.

Da Copa de 74 não esqueço de duas coisas: o belo gol do Rivelino na antiga Alemanha Oriental, numa falta batida pra cima da barreira, onde o Jairzinho estava infiltrado e se jogou no chão abrindo uma brecha. A jogada foi diversas vezes imitada e até hoje cria aquele empurra-empurra nas barreiras. A outra coisa foi a bela seleção holandesa, o chamado “Carrossel Holandês” que atropelou o Brasil com seu jogo coletivo de ir e vir para o ataque e para a defesa, na quartas de final. Mas a “Laranja Mecânica” como também ficou conhecida aquela seleção acabou perdendo na final, para a então ensossa e sempre eficiente Alemanha, dona da casa. Eu era fã Cruijf (o Robben é brilhante no atual time que também goleou o Brasil e ficou com o terceiro lugar, mas não se compara com o mestre holandês de 1974)!

A copa em videotape

Quatro anos depois eu e minha família nos transferíamos para uma tal de Santarém (eu nem sabia o que era essa cidade. Hoje não sei se poderei um dia viver longe dela....). Ao chegar aqui descobri que ainda não havia um canal de TV! Tragédia! Como eu assistiria a Copa que aconteceria na Argentina? Mas a TV Tapajós já estava vivendo sua fase experimental. Só que ainda não podia exibir imagens via satélite. Assim, a gente acompanhava os resultados pelo rádio e no dia seguinte assistíamos o jogo em vídeo-tape!
A TV Tapajós inaugurada em 1979,
mostrando a Copa da Argentina em videotape

Meu pai montou sua famosa lanchonete Nino-Lanche no centro comercial. Atraiu boa freguesia e conheceu um empresário que tinha um cinema, o velho Cine Acácia, na avenida São Sebastião com Moraes Sarmento. Convidou-o para tomar conta da lanchonete que montou ao lado, o Acação. E lá fui eu trabalhar às tardes e ouvir o jogo pelo rádio em volume alto no bar do seu Caixeirinho, pai do advogado Wilton Dolzanis. A música chiclete era “corrente 78, o ano da nossa seleção...”

Foi quando comecei a acreditar que uma Copa podia ser arranjada: o Brasil era a melhor equipe e terminou invicta em 3º lugar, mas a Argentina precisava ganhar por conta de interesses da ditadura local. E o Peru levou uma surra dos Hermanos, deixando o Brasil fora da final que aconteceria com o pessoal do “Carrossel Holandês” de novo! E prevaleceu o joguinho catimbado da Argentina, que acabou erguendo a taça em plena ditadura Argentina.

O futebol da filó-filosofia

A maior geração de craques que o Brasil possuiu foi a do início dos anos 1980. O País vivia o final de uma ditadura e ia pras ruas em busca de um Brasil melhor. Eu começava a militar nos movimentos sociais e apesar de criticarmos o aparato da Copa, no fundo torcíamos por um sucesso da seleção. Lula era nossa referência e o PT surgia como esperança. Assim como Telê Santana, o técnico que comandaria as seleções de 1982 e 1986. Ele tinha jogadores maravilhosos como Zico, Sócrates, Falcão, Éder, Júnior, Casagrande, Alemão, careca e tantos outros craques que encantavam qualquer um.

Telê era um turrão, como a maioria dos técnicos brasileiros, mas empolgou apesar de eliminado nas duas copas por falhas bobas nas oitavas de final. Em 1982, na Espanha, quando só precisava de um empate com a Itália deixaram um tal de Paolo Rossi solto e ele acabou fazendo três gols. O Brasil fez só dois voltou pra casa. Em 1986, no México,, o algoz foi a França de Platini, que nos venceu nos pênaltis, mas acabou indo decidir o terceiro lugar e perdeu.

Dessa última copa cheguei a me empolgar com a Dinamáquina, como ficou inicialmente conhecida a seleção da Dinamarca do craque Michael Laudrup, que empolgou na primeira fase com um jogo vibrante e muitos gols, principalmente o 6 x 1 no Uruguai, mas acabou eliminada pela Espanha por 5 x 1 nas oitavas da final. Foi a Copa de Maradona e “La mano de Diós...

A música que mexeu com minha geração na década de 1980 foi a da Copa de 1982, até hoje um primor de letra num belíssimo frevo, feita pelo baiano Moraes Moreira. “Tá lá, tá lá, tá no filó, tá na filosofia, o craque brasileiro tem sabedoria! Tá lá!”. Me lembro que bebi todas (acreditam?) no 4 x 1 do Brasil contra a Escócia e quase furava o vinil em compacto que não parava de rodar na vitrolinha de casa! (clique no link acima para escutar a música). Havia ainda as do "Mexe, mexe, coração", de um personagem criado pela Globo, o tal de Araken... mas apesar de engraçadinhas, não barravam o frevo de Moreira.

O fiasco de Lazaroni assistido na Grécia

Em 1988 tive que sair de Santarém, pois havia mexido com gente grande e não demoraria virar presunto. Um autoexílio de três anos na terra de meu pai, a Grécia. De lá, acompanhei o fiasco da seleção de Lazaroni em 1990, que perdeu nas oitavas de final para a Argentina, de Maradona, que perderia na final da Alemanha, como agora no Brasil.

O interessante desta copa foi o inusitado convite que recebi do radialista Olympio Guarany, que montava uma equipe de 10 radialistas para cobrir a copa pela Rádio Rural. Eu seria o 11º da equipe com a incumbência de cobrir o que aconteceria fora dos estádios. Foi quando comecei a estudar todos os mundiais, comprando enciclopédias e almanaques, para não fazer feio. Mas a utopia de Olympio se acabou no Plano Collor, que confiscou a poupança dos brasileiros no início de seu desastroso governo que cairia dois anos depois...

A música que recordo era a tal de “Papa essa Brasil...” uma alusão à Copa na Itália, próximo ao Papa... sem graça.

O tetra na terra do Tio Sam e o fiasco na França

Já de volta ao Brasil, acompanhei outra Copa, a dos EUA com um time que tinha muitos craques e muita arrogância. Com Romário – apesar de gênio – à frente. Empolgou com um jogo meio fechado do calado Parreira. Foi ano do nascimento de meu filho Georgios. Ele de fraldas no meu colo, não entendia toda aquela gritaria e chorava (assim como Nicole chorou agora). Bebeto fez o gol embala nenê, assim como eu embalava meu molequinho...

Bebeto e o Embala Nenê...
A vitória conquistada 24 anos depois do Tri de Pelé fez com que o Brasil perdesse a humildade. Acho que depois daquela Copa começamos a viver de improvisos em busca de uma hegemonia no futebol que já havíamos perdido. Uma Copa conquistada em pênaltis depois de um ensosso 0 x 0 com a Itália de Baggio, que aliás nos deu a taça ao errar seu chute. O Brasil vivia a euforia do Real e os tucanos se aboletavam no poder com FHC. E a música da Copa passou a ser hino exclusivo da Globo, que só vem mudando a letra desde lá de tetra pra penta e de penta pra hexa...

Chegamos à França em 1998 acreditando que nos bastava um Ronaldinho para acabar com tudo. Fomos até bem e chegamos à final com os donos da casa, até à estranha convulsão do craque no dia da final e a surra dos franceses comandados por Zinedine Zidane. Teorias de Conspiração começaram a ser tecidas, mas nunca confirmadas: o Brasil entregou o jogo? Apesar da derrota, FHC bateu em Lula de novo na reeleição que ele garantiu com o Congresso Nacional.

O penta da redenção e o hexa que não chega

Madrugar para assistir jogos do outro lado do mundo. Uma rotina diária em 2002, numa Copa na Ásia (Japão e Coreia do Sul). Mas valeu as horas sem sono. O time encantou. Felipão convenceu como paizão. E a final com a Alemanha foi uma coisa do outro mundo. Éramos soberanos, mas a lição que deixamos aos alemães eles aprenderam e doze anos depois vieram nos devolver a derrota (com juros e correção monetária de 7 por 1...) aqui na nossa casa.

FHC recebeu os “heróis” na rampa do Planalto com direito a cambalhota sem jeito de um Vampeta embriagado. Se o Brasil tava com tudo, o real já não bastava e os tucanos acreditaram que com Serra dariam outra surra no PT. Lula levou a melhor...

O ridículo corte de Ronaldinho no penta
Do penta para o hexa parecia um pulo. Em 2006, na Alemanha, paramos novamente na França de Zidane nas oitavas de final. Em 2010, a escalação de Dunga para técnico na África do Sul já era o prenúncio de catástrofe, que acabou no jogo contra a Holanda com direito a frango de Júlio César e expulsão ridícula de Felipe Melo. No Brasil, apesar disso e do início da trama chamada Mensalão na qual o PT se envolveu e a mídia insuflou, Lula se reelegeu.

E Lula foi buscar o direito de sediar uma Copa no Brasil 64 anos depois do “Maracanaço”. A euforia foi geral. Parecia que o hexa era detalhe. Lula elegeu Dilma, que seria a “gerentona” desse projeto. O que se viu de lá para cá foi muita trapalhada, mas talvez com muito exagero da imprensa que não aguenta mais o poderio lulo-petista. Acabar com a Copa parece ter sido a última bala na agulha para evitar o quarto mandato do PT à frente do governo. Muitos tucanos torceram pela derrota da seleção, para derrotar Dilma. Mas será que isso acontecerá? Hoje já é possível antever que pelo menos deve haver um segundo turno, mas o resultado da Copa não será definitivo, como não foi em outros anos, para o desfecho final.

O futuro do futebol brasileiro

O futebol virou um grande negócio e a multinacional que lida com isso é a Fifa. A próxima Copa será na Rússia, mas se a política interna do futebol continuar como hoje (o que é razoavelmente possível), só se pode esperar um novo fiasco e a consagração do projeto alemão de se tornar penta e quem sabe chegar ao hexa antes de nós. Será que os atletas do Bom Senso Futebol Clube conseguirão passar suas propostas? Eles já denunciam que a máfia na CBF continua.

Daqui a quatro anos estarei novamente à frente de uma TV, palpitando, torcendo, mas sem aquela coisa ufanista de cantar o hino em época de Copa. Precisamos “desimbecilizar” o sentimento patriótico de quatro em quatro anos. Acho que o Brasil já pendurou, este ano, a tal de “Pátria de Chuteiras”. Precisamos voltar ao futebol descalço das várzeas e periferias, com um governo que avance ainda mais nas questões sociais.


E que o terrível 7 x 1 seja um novo começo do futebol brasileiro...


P.S. Esse texto começou a ser escrito antes da Copa iniciar, mas os afazeres com Nicole foram adiando o fechamento do texto. Acabei parando e resolvi lançar como texto de aniversário, como faço todos os anos. Mas um problema com meu computador me impediu de postá-lo no sábado, depois de mais um fiasco do Brasil. Acabei tendo que atualizá-lo, para postá-lo hoje.

sábado, 13 de julho de 2013

Com os grãos de areia em nossas mãos, para dizermos o que pensamos

10 de julho de 2013. Dez horas da manhã.

Dirijo meu golzinho preto 2004 (com corpinho de 2003) pela BR-163 em direção à chácara Pouso Alto, na localidade de Cipoal. Já passamos do posto da PRF (Polícia Rodoviária Federal) e relaxo ao volante sem precisar segurar os 40 quilômetros por hora.

Ao meu lado, o velho grego Georgios Ninos, do alto de seus 92 anos, tenta me dar um pouco mais de suas lições. Com a mente já um pouco fraca – pelo tempo – apesar de manter o vigor da juventude em seu corpo cuidado à base de rígida dieta vegetariana e exercícios físicos, o velho grego tenta se comunicar comigo em mais um dia que passamos juntos no meu período de férias/licença do Judiciário, mas as palavras lhe faltam. Suas ideias já não conseguem se traduzir com a mesma maestria de alguns anos. O peso da idade.

O velho Ninos e sua "gororoba vegetal"

Tentando balbuciar algumas lições ao filho desleixado que continua não cuidar da saúde, na semana em que este está prestes a completar meio século de vida, o velho grego acaba me transportando para um mundo inaudito, fazendo-me lembrar de velhas lendas da mitologia helênica que estudei na adolescência, nos livros que ele me comprou. O carro parece flutuar, enquanto meu pai continua balbuciando suas mesmas lições e a mitologia atravessa à minha frente. O cavalo à beira da estrada vira um Pégaso (o cavalo alado dominado pelo herói Belerofonte) e me transporta além das nuvens negras de mais um dia nublado no oeste do Pará.

Me veem à mente duas dessas lendas, das mais tristes tragédias contadas por Homero e outros escritores da antiguidade helênica. São lendas sobre o amor e a velhice, numa Santarém de 352 anos dos quais 35 vi de perto quando aqui cheguei, aos 15 anos adolescentes.

Sibila de Cumas e Apollo, de Giovanni Domenico Cerrini

Uma das lendas fala da Sibila de Cumas, uma das 10 sibilas (profetisas) do deus Apolo, que para se tornar sua esposa resolveu pedir a vida eterna, mas de uma forma inusitada: colocou um punhado de areia em sua mão e pediu-lhe para viver tantos anos quantos fossem as partículas de terra que tinha ali. Entretanto, esqueceu-se de pedir, também, a eterna juventude. Com o passar dos anos tornou-se tão consumida pela idade que teve de ser guardada no templo de Apolo, na cidade de Cumas. A lenda diz que a Sibila de Cumas viveu nove vidas humanas de 110 anos cada! 

Aurora abandona Titono, de Louis Jean François Lagrenée
A outra lenda grega é sobre o amor da deusa Eos (Aurora, irmã do Sol e da Lua) por um príncipe mortal, Títono, irmão do rei Príamo, de Tróia. Ela, um dia o raptou, casaram e tiveram dois filhos, mas enquanto Eos conservava uma juventude eterna, Títono, por ser mortal, começou a envelhecer. Eos conseguiu então que Zeus, o deus dos deuses, concedesse a imortalidade ao seu amado, mas por falta de reflexão não pediu também a juventude eterna para o amado e este envelheceu continuamente, enfraquecendo. Chegou ao ponto de ficar pequeno como inseto encarquilhado, até que ela, penalizada, pediu a Zeus que o transformasse em uma cigarra.

10 de julho de 2013. Dez e cinco da manhã.

Grandes caminhões graneleiros ocupam as duas laterais da estrada entre Santarém (PA) e Cuiabá (MT) e eu preciso desanuviar meus devaneios mitológicos para não dar de cara com aqueles monstros de nossa mitologia moderna, do famoso deus Mercado. Meu pai continua balbuciando suas lições. Entre gergelins e linhaças, iogurtes e beterrabas, o velho grego para de falar sobre as receitas de suas famosas gororobas e me emociona dizendo “queria ter tua idade, para poder dizer o que penso”.

Entre o medo de chegar à idade dele e não poder “dizer o que penso” e o medo de morrer antes dele pelo descuido à ditadura do regime alimentar, escolho a vontade de viver com experiência. E quem sabe, diminuir uns quilinhos...

Por isso, o ato de refletir sobre o meio século que completo neste sábado, 13/07/2013, passa pela estrada trilhada pelo velho Ninos, mesmo que eu tenha buscado atalhos diversos do dele, e que juntos possamos dizer que cada um, ao seu modo, viveu a vida.

10 de julho de 2013. Dez e quinze da manhã.

Entro na chácara e vejo meu pai sair do carro com uma pequena lágrima retida no canto do olho. Os Ninos são feitos de manteiga derretida. Choramos por qualquer coisa. E a velha desculpa de sempre: “tem poeira aqui”. Os Ninos são orgulhosos. Não gostam de se mostrarem frágeis, mas às vezes, se debulham em lágrimas, seja cantando uma canção ou assistindo a uma novela na TV.

Fico parado dentro do carro por alguns instantes. Naquele momento, as ideias para esse artigo começam a brotar. Quase todos os anos, escrevo sobre o dia do meu aniversário como se quisesse deixar um testemunho de mim a cada ano. Um diário de bordo de uma nau enlouquecida. Pitadas literárias de um filho que tentou ser mais que o pai. Agora, nesse meio século, essa relação parece ficar mais próxima, tanto quanto mais distante.

Olho pra trás e vejo toda minha existência tentando me firmar como um cidadão de bem. Como meu pai ensinou. Como sempre me cobrou, com puxões de orelha. Com berros. Até eu sair de casa aos 16 anos e achar que tinha um mundo a conquistar. Foram idas e vindas de um filho pródigo, que um dia conseguiu provar ao pai que tinha algum valor. Não porque se tornou um jornalista, com certo prestígio, numa cidade perdida no meio do nada amazônico, como são todas as cidades do Verde Vagomundo, do ximango Bené Monteiro. Nem tampouco por que fez filhos e filhos perpetuando o nome, um dos orgulhos helênicos. Mas porque, apesar de tudo, manteve a essência dos ensinamentos do velho grego turrão, que ainda hoje quer puxar (literalmente) nossas orelhas...

10 de julho de 2013. Dez e vinte da manhã.

Saio da Chácara de minha irmã e sigo pela estrada. Ainda tenho um TCC de pós-graduação pra terminar. Preciso revisar o livro de poesias que agora vou lançar (acertei tudo com o Cristóvam Sena, do ICBS). Mais um loucura minha. [No final, por problemas de última hora, o livro foi adiado mais uma vez]

“Queria ter tua idade, para poder dizer o que penso”. A frase do velho grego ecoa em minha mente. Ele disse muita coisa pelas mãos. Com seu faro de pequeno comerciante, deixou sua marca na cidade que adotou como sua.  E do alto de seus rompantes de arrogância, misturados ao velho sorriso cativante, um dia me disse: “Houve um tempo em que tu eras o filho do seu Ninos, o homem do lanche mais gostoso da cidade. Hoje me orgulho quando alguém me pergunta se sou o pai do Jota Ninos”. Os Ninos são metidos a bestas.

Mesmo depois de me dizer essa frase de me deixar todo gabola, não duvidou em me ordenar que partisse para a Grécia, antes que eu “amanhecesse com a boca cheia de formiga”, como lhe diziam os telefonemas ameaçadores da época em que adorava polemizar com poderosos locais, pela Rádio Rural. “Prefiro um filho vivo sem fama, do que um filho morto famoso”, decretou. E mais uma vez definiu meus rumos, já nos altos de meus 25 anos!

Três anos de autoexílio (1988/1991), em sua terra natal, para evitar que minha boca expressasse o que eu pensava. Três anos de amadurecimento, numa Grécia de encantos, onde pude respirar das lendas de outrora e até tentar por juízo na cabeça socialista de sempre. [A Grécia de hoje, nem de perto lembra ao menos a Grécia que eu conheci. Muito menos a Grécia de meu pai ou a das lendas mitológicas]

Eu, na Grécia de meu pai, aos 25 anos.

Amadureci tanto que, após ter retornado ao meu “Santo Harém” (como chamava ironicamente a cidade, em alguns artigos de jornal, à época), um colega jornalista disse que eu havia me “despolemizado” (rs)! Afinal, um ex-militante petista fazer assessoria de marketing para um prefeito do antigo PFL (hoje, DEM) era o fim da picada!

10 de julho de 2013. Dez e vinte e cinco da manhã.

O carro vai mais lento, pois a PRF é logo ali. Nada de pensar em lendas gregas agora. Passada a barreira, começo a fazer um retrospecto do que vivi depois de retornar da Grécia.

A carreira jornalística chegava ao limite do tolerável no inicio do século XXI, mas o acúmulo de conhecimentos foi suficiente para entrar, através de concurso público no Poder Judiciário, onde já atuo por dez anos como analista judiciário (“babá” de processos carcomidos pelo tempo), sem deixar de lado a carreira de jornalismo e atuando num setor onde a comunicação se faz presente: o Tribunal do Júri.

No final de 2009, vivi a experiência de voltar a ser solteiro depois de 17 anos com uma família, quatro filhos, duas netas, cinco cachorros... E aos poucos, voltei a reescrever poesias guardadas em velhos sacos de papel. Voltei a comprar algumas brigas pelos blogs da vida. Voltei a polemizar, até me filiando ao PCdoB, pelo qual sonhei em organizar um grupo para mudar o status quo local, mas fracassei. Até um plebiscito pela criação de um novo estado, enfrentei. E fracassei. E me envolvi num sem-número de atividades como ativista cultural, ambientalista, pesquisador de história e voltei até a ser sindicalista! E em muitas coisas fracassei. Enquanto isso o açúcar se acumulava no sangue, até eu ser agarrado pelo mal do século: o diabetes. E tenho tentado me curar, mas tenho fracassado. Puxão de orelha do velho Ninos.

Aos 50 anos, chego ao terrível dilema de continuar querendo “dizer o que penso”. Seja em um programa de rádio, seja nas redes sociais, seja neste pobre blog, que de vez em quando abandono. Não existe fracasso quando se quer dizer liberdade. Talvez seja uma questão de ponderar que já não tenho o vigor da juventude para abraçar tantas causas. Então o primeiro passo talvez seja me desvencilhar da maioria das atividades e tentar a tal “vida saudável”. Depois do TCC de Especialização, quem sabe um mestrado e/ou doutorado? Quem sabe um livro dois, livros? Quem sabe um filho, uma árvore?..

10 de julho de 2013. Meio dia. De volta a Santarém. Tempo de lembrar o que tenho feito recentemente, para chegar aos 50 anos.

De um ano pra cá encontrei uma nova razão para continuar “dizendo o que penso”. Um novo amor, que não me cobra a juventude (plena, que já não tenho), e sim a experiência de que precisamos para os novos tempos em que muita gente vai às ruas “dizer o que pensa”.

Eu (com cara de babaca) com minha nova razão de viver, Ana Charlene.

O que importa, nestas primeiras horas do meu meio século, é que eu não queira a eternidade por um punhado de areia nas mãos, nem tampouco sonhar em virar uma cigarra...

13 de julho de 2013. Um pouco mais da meia-noite. Termino o texto e revigoro o blog. O recado do seu Ninos está aí.

EU DIGO O QUE PENSO: FELIZ ANIVERSÁRIO, SEU BABACA!