O que diferencia uma boa idéia de uma loucura estapafúrdia? Acredito que depende muito do resultado que a tal idéia proporcionar. Na verdade, as grandes idéias estão sempre ligadas a momentos de loucura de determinadas pessoas. Daí, talvez, se forjem os grandes gênios da história.
Provavelmente muitas das loucuras que não tiveram bom resultados, foram esquecidas. As que deram certo transformaram-se em grandes inventos, coisas revolucionárias que transformaram as vidas das pessoas. Coisas como o avião de Santos Dumont, por exemplo. Mas sabe-se que antes dele, muitos “loucos de pedra” tentaram voar e se arrebentaram por aí.
Dia desses reassisti o filme “Chaplin”, do cineasta Richard Attenborough, que mostra a trajetória deste gênio do cinema a partir de sua autobiografia. Ver a vida de Charles Spencer Chaplin desde criança é determinante para definir de onde vem sua genialidade e porque sua “loucura” transformou-se numa obra prima. Mas o próprio Chaplin errava e para chegar ao ponto certo repetia trocentas vezes uma cena, até alcançar a perfeição.
Desde a concepção da idéia que gerou suas grandes obras até à produção de seus grandes filmes, Chaplin passou por muitos dilemas, mas nunca desprezou nenhuma das idéias (na foto acima, no filme "O Grande Ditador", de 1941). Este é o ponto a que quero chegar: não basta ser um gênio predestinado, é preciso antes de tudo ser obstinado, ter um pouco de sorte, mas principalmente nunca desistir de uma idéia, por mais louca que ela pareça...
A coisa funciona mais ou menos assim: você chega e diz para o seu chefe que se fizer algo de tal forma a empresa ganha e quem sabe o chefe seja lembrado como um grande empreendedor. O chefe aposta, mas avisa que se a idéia não der certo e ele for ridicularizado, terá que castigar o louco varrido... No fim das contas, o “gênio” está sozinho e tanto pode se dar mal quanto virar um astro!
Minha obstinação para alcançar certos objetivos, me causou muitos dissabores desde a adolescência. Lembro da vez em que cheguei em casa resoluto a comer aquele pacote de biscoitos finos que ficava guardado em cima do armário da cozinha. Todo mundo dormia em casa e essa era a chance de alcançar o objeto do desejo. Mas como combater a altura com meu meio metro de gente?
Pego um banco de madeira de pernas altas, subo e estico o braço. Ainda está longe. Desço, olho ao redor e encontro uma lata de manteiga daquelas grandes, recém aberta. A altura parece boa, mas as bordas da lata sem tampa são perigosas. O biscoito continua desafiando minha inteligência lá do alto da prateleira, até que dou de cara com uma tábua de cortar carne. Uma tampa perfeita para a lata. Subo na minha pirâmide improvisada e estico o braço e... nada! Ainda falta um pouco.
“Não é possível!”, esbravejo. Roda daqui roda de lá, o biscoito parece rir de mim, até que vejo uma outra lata de leite, média. Não penso duas vezes. Coloco em cima do meu projeto de torre Eiffel e subo os degraus da fama. Equilibrado sobre minha engenhoca estico o braço e pego a caixa de biscoitos! Que alegria, mas de repente, perco o equilíbrio e minha torre desmorona. O pé vai direto para a borda da lata de manteiga: resultado 12 pontos na palma do pé, uma noite de sermão do pai e uma semana de cama em casa. Foi uma péssima idéia? Nem tanto. “Gazetei” a aula por sete dias e ainda tive a chance de ficar em casa, sozinho, com uma nova empregada que acabou cuidando de mim muito bem...
Até as péssimas idéias, às vezes, geram bons frutos...
Mas eu cresci e continuei aprontando das minhas. No auge de minha “genialidade”, achei que tinha me tornado um verdadeiro Midas: tudo o que eu tocasse viraria ouro. Em 1986, quando fui demitido pela primeira vez de uma emissora de rádio por questões ideológicas, comecei a saborear as benesses de “ser mártir”. Havia saído da Rádio Rural, onde já tinha um programa de grande audiência. Era o mês de abril e no dia 1º de maio daquele ano a nova rádio AM da cidade, a Rádio Tropical, completava seu primeiro aniversário. Tentando se firmar como uma opção frente à líder de audiência, nada melhor do que contratar o “repórter polêmico’, como eu era conhecido. O amigo Jota Parente, que me conhecia desde a Rural e agora era gerente da Tropical, não duvidou: apostou naquele maluco.
Na primeira semana na emissora, enquanto preparávamos meu programa de estréia (que até hoje está lá, o Comando Tropical), a equipe de jornalismo me recebia como quem recebe um Messias. Qual era a fórmula para desancarmos o Jornal do Meio-Dia, da Rural, campeão de audiência? O chefe da equipe, o jornalista José Ibanês (hoje editor do Diário do Tapajós) me fez a pergunta e disse que precisávamos ousar, apresentar algo diferente, que balançasse a concorrência.
Do alto de minha genialidade não duvidei e lancei uma idéia: que tal o nosso jornal ter três apresentadores? Todos se entreolharam, mas antes que dissessem “não”, comecei a defender a idéia “brilhante” com tanta ênfase que convenci a equipe. E arrematei: “vamos fazer segredo da idéia e não contaremos nem mesmo para o Parente!”
Ibanês olha para os lados e começa a achar que eu sou realmente louco. “Mas e se...” Antes que a frase termine, eu arremato: “Xá comigo!” Afinal eu era ou não o Midas do rádio naquele momento? A equipe de Ibanês se convence e resolve embarcar na minha louca nau...
Dia seguinte, nosso jornal entra no ar. No estúdio, três locutores, Ibanês, eu e um terceiro colega (que prefiro não citar o nome para evitar problemas). Cada um com suas laudas nas mãos. Na técnica, José Mário Dutra, o “Dentinho”, um grande amigo que adorava minhas loucuras. Preparou as trilhas e estava empolgado com o projeto. As gravações dos repórteres estão no ponto.
Começa o jornal, com o anúncio de “um novo tempo no rádio.” As laudas vão saindo das mãos. O primeiro bloco de notícias locais se completa sem nenhum erro. Parece que a idéia vai dar certo. A gente está feliz, Ibanês torcendo para que Parente esteja ouvindo e eu começo a tufar, me achando “o cara”.
Vem o segundo bloco. Como sou sempre o primeiro a começar, leio a primeira frase da primeira notícia, Ibanês a segunda e o terceiro colega a terceira. Quando vou entrar na segunda notícia, um nome estrambótico de alguma autoridade russa se engasga na minha garganta. Tento repetir, mas começo a rir. Ibanês tenta se agüentar e continua a frase, mas se desmancha em gargalhadas. O terceiro colega também começa rindo e não termina a notícia. No lado de lá do “aquário” vemos o “Dentinho” estrebuchando de rir e antes de cair ao chão ainda consegue subir o BG (sigla de Back Ground, o som incidental que toca ao fundo de uma narrativa jornalística)...
No estúdio, os três apresentadores com ataque de risos olham um para o outro e ninguém toma iniciativa de recomeçar. Foi o BG mais longo do rádio! Ibanês já ri aterrorizado e torce para que Parente não esteja ouvindo a emissora. Eu já imagino minha segunda demissão em menos de uma semana, mas não consigo parar de rir. Até que o terceiro colega, mais controlado que os outros, consegue se levantar pede som no microfone e apenas decreta: “Termina aqui, o Jornal Tropical”.
A risada continua e resolvemos abandonar a brilhante idéia. Agora precisamos esperar a fúria de Jota Parente. Mas exatamente naquele dia, nem ele e nem o dono da emissora, o Dr. Ubaldo Corrêa ouviram o programa. Talvez o melhor da minha idéia foi ter sugerido que não contássemos nada da estréia.
Talvez só depois de ler essas linhas, o Jota Parente, hoje em Itaituba, acabe descobrindo porque naquela semana só faltamos engraxar os seus sapatos...
Mas um dia ainda apresento um radiojornal, com três apresentadores!
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(*) Artigo publicado em minha coluna semanal Perípatos, no encarte regional Diário do Tapajós de 17.06.2008, que circula com o jornal Diário do Pará.