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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Cinzas de Manuel Dutra são lançadas no rio Tapajós

Familia jogando cinzas de Manuel Dutra no Tapajós
Familia jogando cinzas de Dutra no Tapajós

Apesar  do momento solene, todos estavam serenos
e felizes ao conduzir um mestre do jornalismo ao seu último recanto.

Santarém - Uma curta solenidade religiosa com a presença de 15 pessoas (foto ao lado) entre familiares e amigos mais próximos, foi realizada hoje (22/12/25) pela manhã, em frente a Santarém, dentro de uma embarcação, no encontro das águas dos rios Tapajós e Amazonas, para o lançamento das cinzas do corpo do jornalista santareno Manuel Dutra, falecido em 11/05 deste ano, em Belém.  


"Quando você se aposentar, quero voltar a morar em Santarém para poder ver todos os dias o encontro das águas, até morrer", teria sido o desejo expresso pelo jornalista à sua esposa, desembargadora da Justiça do Trabalho, Zuíla Dutra (foto abaixo). "Me lembrei disso e decidi com os meus filhos que traríamos suas cinzas para ele ficar eternamente nas águas do rio que sempre amou e defendeu", disse ela, emocionada, antes do lançamento das cinzas do marido.


Dom Jacinto Brito (foto ao lado), arcebispo emérito da Arquidiocese de Teresina, amigo de Manuel Dutra desde a juventude e que realizou o casamento dele, veio participar da solenidade na embarcação que levou familiares e amigos até o meio do rio. 

Além da esposa, estavam presentes na pequena cerimônia os filhos do casal, Moisés e esposa (Silvana) e Sofia, os netos Luis e Júlia, a irmã de Dutra, Maria José, e dois sobrinhos (Zé Mário e Cecília), um dos cunhados, Celson Lima e esposa (Ericleya) e três amigos mais próximos de Dutra, os jornalistas Jota Ninos e Rosa Rodrigues, além do fotógrafo Nilson Vieira. (foto ao lado)


Manuel José Sena Dutra (1946-2025) foi um dos grandes jornalistas amazônidas e ganhador de prêmios nacionais de jornalismo, além de professor e mestre de várias gerações do jornalismo regional. (fotos ao lado e abaixo)

Como jornalista retratou a Amazônia e seus problemas, sendo um dos primeiros a denunciar a contaminação das águas do rio Tapajós pelo mercúrio, derramado em seus afluentes onde se instalaram dezenas de garimpos a partir da década de 1970. Agora suas cinzas se misturam ao rio que tanto defendeu.

Dutra: um amante do Tapajós retornando ao seu lugar

Texto: Jota Ninos

Fotos: Zé Mário Dutra e Nilson Vieira

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Bolsonaristas espalham meme de site de humor da direita como se fosse verdade

 Até o chefe do SAMU, em Santarém, caiu na armadilha e espalhou a Fakenews...

Santarém (PA) - Como muitas pessoas, principalmente da área da enfermagem, recebi hoje uma suposta afirmação de Lula - após a decisão de um ministro do STF ter suspendido a Lei que determinou a fixação do piso salarial da Enfermagem - que por si pode-se perceber que ele nunca diria isso. 

Acostumado a fazer checagem de Fakenews, comecei a fazer busca do desmentido através do Google, e vi vários bolsonaristas em seus perfis espalhando a mesma notícia de um tal de @Joao55783531, que se auto-intitula "Carioca de Vila Isabel": 


Procurei o perfil desse tal João e é um dos milhares de bolsonaristas que espalham toda sorte de informação, sem qualquer checagem. Mas um famoso ex-BBB, o jornalista Adrilles Reis Jorge, comentarista político de Direita da Jovem Pan, filiado ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), pelo qual é candidato a deputado federal por São Paulo, ajudou a multiplicar a suposta informação em seu perfil no Twitter Adrilles Pistola:


 



Após algum tempo saiu uma nota do site de checagem de Fakenews do PT:

Mas para mim isso não era suficiente. Precisava de uma informação dos sites de checagem independentes como o Boatos.org Ao Fatos  entre outros. Como não encontrei, aproveitei a folga do meu trabalho no Judiciário, hoje, e resolvi remexer com meu blog que andava quietinho, pra postar o resultado de minhas buscas. 

E fui mais fundo na pesquisa, dentro do Twitter, até encontrar o perfil humorístico vinculado ao site de Direita, O Antagonista (aquele que sempre defendeu o juiz Sérgio Moro e a Lava-jato). O nome do perfil é O Otarianista, e produz memes da Direita, para se contrapor ao Sensacionalista, que é anti-bolsonarista e com humor mais afiado, e que é tachado de esquerdista pelos seguidores do presidente Jair Bolsonaro.



E o próprio perfil revela que a postagem é sua e diz que é uma "brincadeira"...

Se mostra "espantado" com a repercussão nas redes sociais...



Reparem que no meme não se faz a vinculação da "frase dita pelo Lula", com a notícia do STF. Isso vai aparecer na postagem do tal "João, carioca de Vila Isabel"...


Eles publicaram "despretensiosamente" o meme pra "zoar" o Lula, mas logo em seguida, a rede de Fakenews bolsonarista se encarregou de transformar em verdade...



Além dos já citados, é possível encontrar a mesma "citação de Lula", num vídeo de outro candidato a deputado federal bolsonarista, um tal de Coronel Tadeu. 



Em Santarém, o chefe do SAMU, filiado ao Republicanos, Joziel Almeida, foi um dos principais disseminadores dessa Fakenews, conclamando sua categoria a se posicionar com a citação de Lula, que o deixou "revoltado" (foto à direita).



 

Os movimentos de organização da enfermagem no Brasil tentam chamar a a atenção pra que ninguém caia tão fácil nessas armadilhas, através de um vídeo que já circula entre eles:


Faltam menos de 30 dias para o fim das eleições. Muitas Fakenews vão continuar sendo espalhadas para ludibriar o eleitor. Por esse exemplo pode se ver como um meme de Direita contra o líder das pesquisas, pode se espalhar Brasil afora, compartilhado por pessoas desatentas ou com intenção de espalhar inverdades.

Quando estava finalizando a montagem desta postagem, vi que alguns sites de checagem já desmentiram a informação, mas nenhum deles foi a fundo para ver que a origem da Fakenews foi um meme no site de humor da Direita O Otarianista.


domingo, 5 de maio de 2019

Trinta e cinco anos depois, um novo retorno

Nesta segunda-feira (06/05), quando eu entrar no estúdio da Rádio Guarany FM um pouco antes da 7 da manhã, começo uma nova caminhada neste ano em que comemoro 35 anos de jornalismo. Ao lado dos jornalistas Miguel Oliveira e Rogéria Almeida, parceiros em outras empreitadas jornalísticas do passado, estarei no comando do novo programa da emissora o "Cartas na Mesa", uma produção do Portal EstadoNet.



Desde o início deste ano, quase sem querer, mudanças importantes vem acontecendo em minha vida pessoal de tal forma que resolvi iniciar um retorno mais participativo da carreira jornalística meio deixada de lado, desde que passei no concurso do TJPA (Tribunal de Justiça do Pará) em 2003. Além do programa Bazar Brasileiro (criado em 1985) que retomei na Rádio Rural entre 2011 e 2014 e o trabalho informal de assessoria de comunicação do Judiciário, meu ímpeto comunicacional se restringiu às redes sociais compartilhando notícias e comentando.

E por ter abandonado este pobre Blog que criei em 2005, depois de várias idas e vindas, quero retomar as postagens por aqui aproveitando a comemoração dos 35 anos e a estreia do novo programa da Rádio Guarany. Espero poder postar com mais frequência crônicas, comentários e lembranças pessoais que estão armazenadas nos links deste blog.

Cartas na Mesa

Sobre o novo programa da Guarany, fui contatado pelo Miguel Oliveira a cerca de um mês quando me apresentou a proposta e me convidou para integrar a equipe. A proposta de um programa radiojornalístico em formato de Revista Radiofônica, com notícias, comentários e música, me fascinou. de lá para cá, começamos a trocar ideias pelo WhatsApp, que será um canal para dinamizar o programa, na era em que as mídias convergem para os aplicativos de mensagens e redes sociais. O programa será transmitido também por essas mídias, ao vivo ou em gravações compactas para quem não acompanhou a transmissão.

Jota, Rogéria e Miguel discutindo o Cartas na Mesa.
A proposta do programa é fazer um jornalismo plural, com três jornalistas de ideologias bem diferenciadas e que têm respeito entre si, num momento em que o Brasil passa por um processo de intolerância no que se refere à diversidade de ideias. Além dos três apresentadores, o programa terá participação de outros comunicadores locais e regionais, nomes como Ércio Bemerguy, Santino Soares, Gerson Nogueira, Socorro Carvalho, Leíria Rodrigues, Sidney Canto e muitos outros que ainda estão sendo convidados a participar dessa "força-tarefa da informação", por assim dizer.

A diretora geral da Rádio e TV Guarany, Cida Serique, viúva do empresário Milson Pereira, acolheu o projeto e acompanhou sua produção, apostando num novo produto jornalístico. Pouca gente sabe que Cida (ainda na gestão do marido) sugeriu a criação de um dos programas de maior sucesso da emissora, o Rádio Interativo, hoje apresentado pelo jornalista Acivan Monteiro. Com essa experiência, ela teve a sensibilidade de entender o projeto.

Agora, é só colocar as Cartas na Mesa! Aguardo sua audiência à partir desta segunda-feira, 06/05/2019. De segunda à sexta, das 06h50 às 07h50.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Mais um retorno...

Depois da última postagem, em julho de 2014, meu pobre blog voltou a hibernar, como sempre, pelo mesmo motivo: a falta de tempo para conciliar minhas multi-atividades.

Nesse tempo, continuei escrevendo algumas coisinhas aqui e ali, usando blogs de amigos ou o meu perfil no Face. Já até pensava em deixar meu blog de lado em definitivo, afinal pouca gente hoje entra num blog para ler o que se escreve. 

Hoje o máximo que se lê é o que se compartilha no Facebook ou no Instagram, onde há pouca ou quase nenhuma produção local. Os blogueiros que ainda resistem e vivem de seus blogs, fazem malabarismos para que seus leitores acessem as informações. Mas muita gente apenas curte o que foi dito no Face (geralmente apenas uma chamada para o texto principal) e não se aprofunda na informação original.

A moda agora é usar o tal do Zap, de informações instantâneas e debates, às vezes, rasteiros, sem muito conteúdo. Ou o Twitter, aquele dos 140 toques que Saramago, quando vivo, criticou por ser o indício de que no futuro a comunicação será apenas um grunhido.

Mas como sempre tenho coisas pra contar, seja da minha vida pessoal e profissional ou seja das minhas impressões do cotidiano, principalmente da política, resolvi voltar a postar no meu bloguinho, principalmente porque já tenho um pouquinho mais de tempo disponível, depois que mudei de setor no meu trabalho no Fórum de Justiça de Santarém.

O amigo jornalista Joab Ferreira me disse uma coisa que guardei, no dia em que disse estar desanimado em continuar postando: "Não deixa de postar teus textos no blog. Não importa que não seja tão acessado. O que importa é que, como ferramenta da internet, o blog ainda é melhor para guardar tuas impressões e poder, a qualquer tempo, acessá-las, repostá-las, compartilhá-las para que alguém possa lê-las. As outras ferramentas da internet não tem essa facilidade de acesso".

E entendi que ele tem razão nisso. Os blogs quando foram criados, eram para ser diários virtuais de fácil acesso. E continuam sendo. O que se posta em outras plataformas de comunicação instantânea, se perde no vento. Pode até se encontrar, mas é um processo de garimpagem mais difícil. 

Decidi postar em meu blog sempre que puder, como se ele fosse meu baú de memórias. Inclusive tentarei buscar textos meus dispersos pela rede de internet para que um dia, mesmo depois que eu for embora, aqueles que quiserem poderão ler ou reler as baboseiras que um dia escrevi...rs

Sejam bem-vindos a uma nova viagem...

sábado, 19 de julho de 2014

Sinjor/PA pode recorrer à Justiça contra empresas de rádio e televisão de Santarém

André Serrão (foto Roberta Vilanova)
 “Todas as decisões de convenção coletiva de trabalho entre os sindicatos de trabalhadores e patronal, tomadas em Belém, devem beneficiar todos os jornalistas do Pará, sem distinção”. A afirmação foi feita pelo advogado do Sindicato dos Jornalistas do Pará (Sinjor/PA), André Serrão, durante o encontro realizado pela entidade na última quinta-feira (17/07), na sede da OAB/Santarém, para um público de cerca de 50 jornalistas locais. O encontro foi coordenado pela presidente do Sinjor/PA, Sheila Faro, juntamente com outros diretores, inclusive a presidente eleita em junho passado, Roberta Vilanova e seu vice, João Freitas, além de Eliete Ramos, responsável pela secretaria de formação sindical, que serão empossados em agosto.
Serrão garantiu que o Sinjor vai analisar todas as denúncias de desvio de funções e descumprimento das cláusulas da convenção coletiva do Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão do Estado do Pará (Sertep), que forem encaminhadas ao sindicato. “Inicialmente vamos tentar um acordo via administrativa para tratar sobre o assunto e caso não obtenhamos resposta, recorremos à Justiça do Trabalho”, sentenciou. Atualmente apenas duas empresas de Santarém são filiadas ao Sertep, sendo que uma delas tem até representante na diretoria eleita ano passado. “O fato das demais empresas não estarem filiadas ao Sertep, não implica que não cumpram as normas da convenção coletiva”, enfatizou Serrão. Com relação às empresas de jornal impresso e internet, o Sinjor deverá discutir um acordo à parte.
Sheila Faro: "Vamos nos assumir
como jornalistas" (foto Roberta Vilanova)
O advogado disse ainda que as empresas locais vêm adotando há anos as normas previstas no acordo coletivo realizado pelo Sindicato dos Radialistas de Santarém, sem fazer distinção dos jornalistas que buscaram a capacitação, adquirindo diplomas em faculdades locais nos últimos quatro anos. Segundo dados apresentados por membros da Diretoria Regional provisória do Sinjor, há pelo menos 120 profissionais atuando com produção de informação nos vários veículos de comunicação de Santarém e dois terços destes já conseguiram seus diplomas.
Filiação – muitas perguntas foram feitas pelos jornalistas e repórteres cinematográficos presentes ao encontro, sobre a situação dos profissionais locais que recebem hoje o piso salarial da categoria dos radialistas em torno de R$ 780,00, além de horas trabalhadas a mais e acúmulo de funções não remuneradas. Os diretores do Sinjor reafirmaram a necessidade de todos se assumirem como jornalistas e participarem do processo de filiação ao sindicato, para fortalecer a luta dos jornalistas paraenses. Vários jornalistas diplomados presentes aproveitaram a ocasião e entregaram documentação para a filiação no Sinjor.
Filhos de jornalistas, recém-nascidos,
também participaram
do encontro (foto Ronilma Santos)
Alguns cinegrafistas também se filiaram no ato, já que para eles não há a exigência do diploma. “Vou me encarregar pessoalmente junto à SRT (Superintendência Regional do Trabalho) na capital, em regularizar a situação dos repórteres cinematográficos de Santarém para que possam ser reconhecidos não mais como operadores de unidades portáteis e sim como repórteres cinematográficos, pois é o que são”, disse João Freitas, que também exerce essa função sendo bastante aplaudido pelos presentes.
O jornalista Miguel Oliveira, proprietário do jornal online EstadoNet questionou o porquê do Sinjor não aceitar a filiação de jornalistas sem-diploma, uma vez que existe a determinação do STF – Supremo Tribunal Federal, da não-exigência do diploma para a contratação de jornalistas pelas empresas. Sheila Faro informou que essa é uma posição política da Fenaj – Federação Nacional de Jornalistas, definida em congresso recente, como forma de fortalecer a luta pela volta da obrigatoriedade do diploma, através de projeto que tramita no Congresso Nacional.
Diretoria do Sinjor tira dúvidas
dos jornalistas de Santarém (Foto Joab Ferreira)
 “O Sinjor/PA juntamente com outros dois sindicatos posicionou-se contrário à essa tese, mas fomos voto vencido nesse encontro e diante disso respeitamos a democracia e acatamos a proposta”, disse Sheila Faro. Ela reconheceu que os jornalistas que já conseguiram se formar nas duas faculdades particulares de Santarém fizeram um esforço enorme em conseguir essa qualificação, diante das dificuldades financeiras locais. Diante disso, informou que o Sinjor iniciará um diálogo com a Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), para propor a implantação do Curso de Jornalismo em Santarém, como forma de contemplar os profissionais que querem obter o diploma. A medida foi aprovada por unanimidade pelos presentes.
Referendo – Além disso, os jornalistas presentes referendaram também, por unanimidade de votos, os quatro pontos para a pauta de reivindicações da data-base/2014 do Sertep: piso salarial, aumento real de salário, auxílio alimentação e adicional de risco de vida. A assembleia também deliberou que seja feito um planejamento a médio prazo para sindicalização dos jornalistas de Santarém, visando realizar o processo eleitoral para a escolha da Diretoria Regional, que deve acontecer no próximo ano.
A comissão que organizou o evento (foto Samara Taré)
Segundo dados da secretaria, atualmente há pelo menos 15 jornalistas já associados, mas alguns encontram-se inadimplentes. Para a eleição da Diretoria Regional é preciso que todos estejam em dia com suas obrigações, para exercer o direito de votar e ser votado. “Nossa intenção é estar mais presente em Santarém, para acompanhar de perto esse processo e ajudar os profissionais da comunicação a completarem essa transição, assumindo-se efetivamente como jornalistas e com diploma, para melhorar ainda mais o potencial jornalístico das empresas locais”, disse Roberta Vilanova. “Mas é preciso que as empresas reconheçam este esforço dos jornalistas e cumpram com os acordos trabalhistas”, completou Sheila Faro.

Com informações da Ascom/Sinjor.


Jornalistas posam para foto ao final do encontro (Foto Samara Taré)

sábado, 21 de junho de 2014

Jornalistas de Santarém fazem manifesto pela valorização profissional

Um grupo com cerca de 30 jornalistas fez um manifesto pacífico intitulado“Comunic#ação pela Valorização” no final da tarde desta sexta-feira (20/06) pelas ruas do centro de Santarém, utilizando como mote a semana de aniversário da cidade (que se comemora no domingo, 22/06) e a torcida pela seleção brasileira na Copa 2014. Os jornalistas saíram pelas ruas do comércio com apetrechos de torcedores da seleção fazendo um “apitaço” e distribuindo um panfleto para as pessoas que passavam. Ao final da passeata, os jornalistas e radialistas fizeram discursos na Praça do Pescador, onde já acontecia um manifesto de estudantes que acabaram se integrando ao movimento.
Cartaz-convite de mobilização espalhado pelas redes sociais
 “Nós fazemos, diariamente, cobertura sobre movimentos grevistas de todas as categorias, agora é nossa vez”, dizia o jornalista Jefferson Santos, um dos animadores da passeata que saiu do Mirante do Tapajós, passou pelas ruas do comércio e se concentrou na Praça do Pescador. Jefferson ressaltou ainda que o grupo de manifestantes representava cerca de 30% dos jornalistas em atividade. “Muitos colegas não estão aqui com medo de represálias em suas empresas, mas estão apoiando a manifestação”, disse ele.
Jornalistas em manifesto pelas ruas de Santarém
O movimento dos jornalistas é histórico e foi organizado pelas redes sociais dentro de uma semana pela jornalista Ronilma Santos, após o anúncio do último acordo coletivo do Sindicato dos Radialistas de Santarém que definiu um percentual de reajuste nos salários da categoria abaixo de 6%. O movimento foi espontâneo e nem o Sindicato dos Jornalistas do Pará (Sinjor) foi comunicado.
Ormano Sousa e Jota Ninos discursando na Praça do Pescador
Piso defasado - Durante o protesto, o presidente do sindicato, Augusto Sousa – que é chefe de fiscalização do trânsito da Prefeitura de Santarém e deu apoio logístico à manifestação dos jornalistas além de participar da passeata – elogiou a iniciativa dos jornalistas e disse que a proposta inicial apresentada aos empresários era de 12%, na tentativa de amenizar as perdas salariais no já defasado piso salarial da categoria (um dos menores do país, um pouco acima do salário mínimo), mas a classe patronal bateu pé e só concedeu menos da metade do esperado. “Cheguei a sugerir em assembleia, ainda no processo de discussão do acordo coletivo, que fizéssemos uma paralisação de advertência em todas as emissoras de Rádio e TV, mas no dia marcado para o protesto os associados foram ao trabalho”, afirmou Augusto.
Ronilma, que recentemente foi demitida da empresa de TV onde trabalhava por reclamar das condições de trabalho, é membro da Diretoria Regional provisória do Sinjor em Santarém, e resolveu encabeçar o movimento pelas redes sociais, pois as reuniões no sindicato (tanto dos radialistas quanto dos jornalistas) eram maçantes e infrutíferas. “A caminhada teve a finalidade não só de integrar os profissionais de comunicação, como também mostrar , à população, de cara limpa e sem o glamour que cerca a profissão, a dura realidade de quem faz a comunicação nesta cidade que completa 353 anos”, disse Ronilma.  Desde o ano passado, segundo ela, vem sendo feito um trabalho para a filiação no Sinjor dos jornalistas já diplomados, para se iniciar a discussão de um piso salarial diferenciado para a categoria. “O próximo passo é convocar uma assembleia até o final do ano e eleger uma diretoria regional definitiva, para atuar no oeste do Pará, com apoio do Sinjor”, finalizou a sindicalista.

Profissionalização de jornalistas ainda divide comunicadores de Santarém

“Há 161 anos, surgiu o primeiro jornal impresso. Há 66 anos, a primeira emissora de rádio. Há 35 anos, o primeiro canal de TV e há 10 anos, os primeiros sites e blogs na internet. Os profissionais que têm surgido nesses meios, em grande parte, têm sido desvalorizados com salários aviltantes”. A frase consta do manifesto dos jornalistas de Santarém, que saíram às ruas na tarde desta sexta-feira (20/06), para protestar contra o índice de aumento definido entre empresários e o Sindicato dos Radialistas de Santarém, que ainda representa a maioria dos profissionais da comunicação.
Jornalistas concentrados no Mirante do Tapajós, antes da passeata
Desde 2010, com a formação da primeira turma de Jornalismo em faculdade local, os profissionais começaram a questionar essa relação com o Sindicato. Alguns buscaram se filiar ao Sindicato dos Jornalistas do Pará, mas ainda hoje vive-se a transição entre um carreira e outra. Hoje já há cerca de 100 jornalistas diplomados ou em via de se diplomar, sendo que grande parte trabalha em emissoras de Rádio e TV, e se sente aviltado pelo baixo piso da categoria. Alguns jornalistas acabaram desistindo e buscando outras profissões ou trabalham em assessoria de imprensa, onde os salários são maiores.
Essa situação divide os profissionais de Santarém. Alguns radialistas da chamada “velha guarda” que preferiram não entrar na Academia em busca de diploma ou locutores e blogueiros que questionam a necessidade de um diploma para trabalhar na área, chegam a criticar jovens jornalistas diplomados acusando-os de “soberba”. Estes por sua vez, rebatem dizendo que investiram na capacitação pagando mensalidades caras nas duas únicas faculdades privadas que oferecem o curso de Jornalismo e, portanto, merecem ter um melhor reconhecimento das empresas.
Luta sindical – Apesar dos debates, todos reconhecem que é preciso um mínimo de organização para melhorar as condições financeiras de todos. O Sindicato dos Radialistas surgiu há 25 anos, no momento em que o número de emissoras de Rádio e TV se multiplicou em Santarém. Até 1979, havia apenas duas emissoras AM em Santarém: a Rádio Clube de Santarém (atual Rádio Ponta negra) e a Rádio Rural de Santarém, ligada à Igreja católica. Com o surgimento, naquele ano, da TV Tapajós (afiliada da Rede Globo), deu-se o início da fundação de diversas emissoras de Rádio e TV chegando ao final da década ao incrível número de 5 emissoras de rádio (três AM e duas FM) e 6 canais de televisão (uma geradora e cinco retransmissoras de TV).
As emissoras não tinham uma política definida de salários. A grande maioria pagava apenas o salário mínimo e algumas chegavam a pagar menos que isso, além de manterem um clima de terror contra os profissionais. O Sindicato dos Radialistas surgiu da insatisfação dos profissionais, mas logo de início muitos acabaram sendo vítimas da represália das empresas, por organizarem o sindicato. Houve demissões e alguns radialistas conseguiram inclusive a reintegração às empresas, por serem membros das diretorias eleitas.
Com o tempo, foi conquistado um piso salarial, com o chamado salário normativo da categoria que sempre foi maior que o salário mínimo. Mas a maioria das empresas se nega a pagar mais que o mínimo, e acaba forçando os profissionais a cumprirem jornadas mais extensas, a título de “acúmulo de função”, para ganharem mais 40% de remuneração.
"Apitaço" de jornalistas nas ruas de Santarém

Atualmente, mais uma emissora de Rádio e outra de TV, completam o número de seis emissoras de Rádio e sete de TV. O número de profissionais envolvidos, entre funcionários da administração, técnicos e locutores, além dos profissionais que atuam diretamente com a informação, ultrapassa o número de 200 pessoas, segundo dados não-oficiais obtidos por consulta entre os jornalistas que organizaram o protesto.
A ruptura entre radialistas e jornalistas, que já ocorre em nível nacional há décadas, começa a se desenhar em Santarém, e ao que tudo indica, o manifesto encabeçado pelos jornalistas pode ser o divisor de águas entre as duas categorias. “Apoio a manifestação de vocês e no que depender de mim à frente do sindicato, não criarei empecilhos para a organização dos jornalistas em outra entidade”, declarou Augusto Sousa, presidente do Sindicato dos Radialistas de Santarém. “Vamos lutar por um piso salarial condizente com nossos investimentos na profissionalização, mas seria bom que todos, radialistas e jornalistas, se unissem para acabar com a exploração das empresas de comunicação de Santarém”, concluiu Ronilma Santos, organizadora do manifesto dos jornalistas.

O manifesto dos Jornalistas distribuído nas ruas da cidade:

MANIFESTO COMUNIC#AÇÃO 2014!

JORNALISTAS DE SANTARÉM
NA LUTA PELA VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL


Neste dia 22 de junho de 2014, Santarém completa 353 anos de fundação. Hoje, os jornalistas de Santarém aproveitam para também entrar na história e pela primeira vez fazer um manifesto público e pacífico pela valorização dos profissionais da comunicação, no clima da Copa de Futebol que se realiza no Brasil em plena época de festas juninas.
Santarém é uma terra de comunicação e de comunicadores, e tem exportado talentos para fora daqui. Há 161 anos, surgiu o primeiro jornal impresso. Há 66 anos, a primeira emissora de rádio. Há 35 anos, o primeiro canal de TV e há 10 anos, os primeiros sites e blogs na internet. Os profissionais que têm surgido nesses meios, em grande parte, têm sido desvalorizados com salários aviltantes.
Os radialistas se organizaram e criaram seu sindicato há 25 anos, quando perceberam que unidos poderiam diminuir as injustiças. À época, a maioria das empresas sequer pagava um salário mínimo para os profissionais. Depois de alguns anos de luta, os radialistas conseguiram definir um piso salarial, que sempre foi um pouco maior que o salário mínimo e outras garantias sociais. Alguns sindicalistas foram perseguidos e demitidos por tentarem organizar a categoria.
De lá para cá, o Sindicato dos Radialistas vem tentando conseguir reajustes mais condizentes, pelo menos com os índices da inflação, mas os empresários da comunicação insistem em não aceitar aumentos que valorizem a profissão, mesmo com profissionais que investiram em sua capacitação, na maioria das vezes com seus parcos recursos.
Desde 2010, várias turmas de jornalismo vêm sendo formadas por instituições privadas de ensino superior. Muitos colegas ainda continuam sem diploma por não conseguirem reunir o dinheiro necessário para sua formação acadêmica. Outros foram mais além e conseguiram até fazer cursos de pós-graduação, mas nem isso tem sensibilizado a classe patronal a dar um salário digno aos profissionais que levam a informação através dos meios de comunicação, com jornadas de trabalho que precisam ser muitas vezes estendidas, para que o profissional faça jus a um percentual de 40% por acúmulo de função. Hoje somos mais de 100 profissionais trabalhando nesta área!
O último reajuste acertado entre o Sindicato dos Radialistas e a classe patronal não chegou a 6%, o que apenas se aproxima dos índices inflacionários. Hoje, os profissionais de comunicação em Santarém ganham menos que a maioria das categorias de trabalhadores de Santarém!
Esse manifesto surgiu pela indignação entre jornalistas que trabalham nas redações, com apoio de colegas que hoje trabalham em assessorias de imprensa (onde os salários são um pouco maiores), mas que gostariam de estar trabalhando no dia a dia da notícia. Não foi feita nenhuma reunião, apenas uma mobilização pelas redes sociais. Queremos neste ato falar para Santarém, aquilo que provavelmente não será dito nos noticiários das rádios e das TVs e de alguns jornais e sites: FAZER JORNALISMO EM SANTARÉM É QUASE UM SACRIFÍCIO!
Muitos profissionais já tiveram que sair daqui para buscar empregos em outros centros. Mas aqueles que ficaram querem, agora, se organizar e fazer funcionar a Diretoria Regional do Sindicato dos Jornalistas do Oeste do Pará, criada pelo Sinjor/PA há dois anos. Uma diretoria provisória chegou a tentar organizar, mas com pouco apoio quase não avançou em seus trabalhos. Um grupo de jovens jornalistas assumiu nos últimos meses um trabalho para a filiação ao Sindicato, para que possamos lutar por um piso salarial condizente com o esforço que tem sido feito pelos profissionais que buscaram um diploma nas universidades. E aqueles que ainda não tem diploma, querem poder também conquistar essa graduação.
Este documento será encaminhado à direção estadual do Sinjor/PA, solicitando que a nova diretoria eleita dia 11 de junho, venha a Santarém para dar maior apoio à consolidação da Diretoria Regional e que inclua nas negociações salariais com empresas de Belém, um piso salarial para os jornalistas do interior do Pará. Abaixo, vão assinaturas dos profissionais da comunicação que apóiam o movimento.
CONVOCAMOS OS JORNALISTAS, DIPLOMADOS OU NÃO, A BUSCAREM SEU REGISTRO PROFISSIONAL E SE FILIAREM AO SINDICATO DOS JORNALISTAS DO PARÁ.
PELA VALORIZAÇÃO PROFISSIONAL DOS JORNALISTAS!

domingo, 25 de maio de 2014

30 anos de jornalismo nas veias

Era uma sexta-feira, 25 de maio de 1984. Faltavam menos de dois meses para eu completar 21 anos. Cheguei à garagem da Rádio Rural com minha velha Mobylette Caloi cor de prata (uma motoneta que havia ganhado de meu pai, no Natal anterior) e perguntei onde era a sala de um tal Eriberto Santos.

Meu corpo – à época com pouco mais de 60 quilos, hoje é quase o dobro – tremia muito, num misto de paúra e excitação. Ia me apresentar para um teste de repórter da maior emissora de rádio da região. No ano anterior, durante alguns meses, tinha tido a experiência de produzir e apresentar na emissora o programa dominical Momento Sindical, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, junto com a futura reitora da Ufopa, Raimunda Monteiro. No programa não havia participação ao vivo, apenas gravações, mas todos que me conheciam dos movimentos sociais (onde atuava como militante) diziam que eu levava jeito pra coisa e me incentivaram para tentar a vaga.

“Meu nome é João Georgios Ninos, e soube que vocês têm uma vaga para repórter”, balbuciei ao Eriberto. Ele me apresentou a outro rapaz do qual nem recordo o nome e com o qual disputaria a vaga. Recebemos pautas e saímos para cumpri-las. “Quem chegar primeiro – disse, rindo, o Eriberto – fica com a vaga”. No fim do dia, apesar de meus infortúnios (que relatei de forma pitoresca no post http://goo.gl/lrc15R), consegui a vaga! Começava ali minha saga de jornalista, no interior da Amazônia!

Hoje comemoro essa data solitariamente, sem muita pompa, fazendo aquilo que sempre gostei de fazer desde adolescente: escrever. E escrevo neste maltratado blog, que parei de alimentar diariamente (e com muitos intervalos e retornos), por conta de minhas atribuições como servidor do Judiciário e auxiliar do juiz do Tribunal do Júri, que me toma muito o tempo, desde que passei no concurso público em 2003. Mesmo atuando como analista judiciário, não deixei de lado meu “Eu” jornalista. E sempre que posso, deixo minhas palavras impressas em algum lugar, principalmente nas redes sociais.
Repóorter magrinho em início de carreira.


Entro de férias dentro de uma semana e espero poder finalizar um livro que sempre anuncio, mas nunca consigo terminar, com uma coletânea do que melhor escrevi nesses 30 anos de profissão, em reportagens e crônicas, para publicar em julho, nos meus 51 anos de vida (e quem sabe assistindo a vitória da seleção brasileira na final da Copa de 2014, que acontecerá justamente no dia do meu aniversário!).

Mas enquanto o livro não sai, faço aqui (quase no fim do dia) uma pequena análise pro meu ego e reparto com meus poucos leitores, as impressões dessa jornada cheia de altos e baixos, que ajudou de alguma forma a moldar meu senso crítico.

Um repórter engajado e atormentado

Como disse no início do texto, antes de trabalhar como repórter eu era militante do movimento popular. Um pequeno-burguês que acreditava que mudaria o mundo. Foi no comércio de meu pai, uma lanchonete que fazia sensação no centro da cidade (Nino-Lanche), que conheci, em 1979, a então militante Raimunda Monteiro (atual reitora da Ufopa), a eterna Raimundinha. E através dela acabei indo frequentar um grupo de jovens que apresentava peças de teatro com temática engajada nos bairros da periferia e questionavam a ditadura militar. Aos 16 anos, comecei a forjar um articulador de movimentos sindicais, populares e estudantis, até me filiar a um partido que surgiria em 1981, nascido exatamente destas lutas contra a ditadura: o Partido dos Trabalhadores (PT).

Pelo talento (ou seria pela porra-louquice?) que demonstrava sempre eram-me repassadas as funções de registro dos acontecimentos do movimento, seja em atas ou em gravações reproduzidas depois em panfletos. Por conta disso, participei de um mini-curso para produção de boletins informativos do movimento e atuei em muitos dos que foram criados à época, sendo o mais importante deles o da extinta Associação dos Comerciários: O Talonário.

Foi com essa bagagem que cheguei ao cargo de repórter. A Rádio Rural vivia naquele momento dos anos 1980, uma mudança de direcionamento, dando maior espaço aos movimento populares em sua programação, por conta da influência dos padres da chamada Teologia da Libertação que passaram a ocupar a direção da emissora. Um ex-seminarista chamado Dornélio Silva, que voltou de Belém para atuar na antiga Catequese Rural (hoje Comissão Pastoral da Terra – CPT) e que tinha experiência em comunicação, foi atuar no Setor de Jornalismo da Rural e seria fundamental para a minha carreira.


Ao saber que seria aberta uma vaga no setor, Dornélio procurou os líderes dos movimentos sindicais de Santarém para saber se havia algum jovem que se moldasse à função, para que a vaga fosse ocupada por alguém sensível às causas populares. Ninguém pestanejou em apontar meu nome e logo fui chamado e desafiado a dar tudo de mim para ocupar a vaga, como se fosse uma tarefa de luta. Naquele momento, ainda via a chance como auto-afirmação de militante de uma causa, não como sacerdócio profissional.

Depois de aprovado no teste, percebi que o engajamento político me causaria problemas. Na emissora, muitos colegas viravam o rosto pra mim, acreditando que eu tinha sido “indicado pelos padres” (e eu não entendia o porquê da repulsa). Achavam até que eu era mais um dos seminaristas que já haviam atuado no Jornalismo, mas mal sabiam que nunca tinha nem frequentado igreja e que desde cedo decidi não ter religião alguma! Foi aí que percebi que apesar de muitos padres pregarem a “opção pelos pobres”, não cuidavam dos trabalhadores de sua própria emissora que reclamavam injustiças diárias e salários baixos!

O pior é que os “companheiros” me viam como um braço do movimento dentro da emissora, e encaminhavam líderes sindicais para me levarem notícias. Eriberto Santos, sempre gozador, encaminhava todos que chegavam para trazer informes das comunidades para o “repórter do PT, lá no fundo da sala”... Ainda imaturo, não sabia reagir àquilo tudo, ao mesmo tempo em que cada vez mais me convencia de que queria ser um jornalista profissional, mas não tão engajado e nem tampouco omisso. Como fazer a transição entre o engajamento partidário e a afirmação profissional?

Formadores de um repórter

Minhas angústias eram remoídas nas noites de plantão, enquanto produzia o Jornal da Manhã. Dornélio Silva, mais experiente, passou a ser meu interlocutor e solidificamos uma amizade que dura até hoje. Chegamos a morar juntos e trocar confidências pessoais. Uma amizade que ia além da ideologia. Mas outras pessoas foram importantes na minha formação, naquele início de carreira e sou grato à elas até hoje.

O já falecido amigo Eriberto Santos, sem dúvida, foi fundamental naquele início. Acreditou no meu potencial desde o primeiro dia. Deu dicas preciosas e era o tipo do chefe dos sonhos: deixava rolar e adorava manter um clima de euforia no departamento. Não me lembro de ter levado qualquer “bronca” dele, mesmo quando cometia algum deslize. Ao contrário, chamava pra uma conversa e dizia onde errei e como deveria proceder. “Você é responsável pelo que faz”, dizia sempre. Isso atiçava meu senso de disciplina adquirido na militância política, e fazia tudo para evitar novos erros. Até hoje, nas experiências de chefia que tive, tentei usar o mesmo estilo de Eriberto na condução das equipes que comandei, seja no Jornalismo, seja na Justiça.

Poucos meses depois de estrear, comecei a ousar em alguns textos e mostrei minha verve humorística, que Eriberto adorou. O pessoal da Rádio começou a notar o talento que eu tinha com as palavras, principalmente na cobertura da Câmara Municipal. Meus comentários pela manhã misturavam notícia sobre vereadores e frases irônicas. Adorava pinçar detalhes pitorescos das sessões e jogava no texto, como o desalinho de um vereador com a roupa sempre amassada, os erros de português de outro, ou a mosca que insistia em não deixar um terceiro vereador falar da tribuna. Pequenas coisas que faziam meu texto ser “guerrilheiro” e atacar as “autoridades constituídas”. Era a influência da leitura dos textos non sense do jornalista carioca Carlos Eduardo Novaes, do qual era fã, além dos textos irreverentes da revista Casseta Popular e do periódico satírico Planeta Diário (os autores destas duas edições se uniriam mais tarde para escrever o roteiro do revolucionário programa TV Pirata, e anos mais tarde, o Casseta & Planeta!). E isso começou a atrair inimigos contra mim...
Jota Ninos, Ormano Sousa e Manuel Dutra: pupilos e o mestre.

O respeitável jornalista Manuel Dutra, que tinha sido gerente da emissora e fazia o comentário diário do Jornal da Manhã, um dia me encontrou no corredor da Rural e me elogiou pelos textos. Daquele primeiro contato surgiu uma nova e sólida amizade que transformei na relação de pupilo e mestre, até hoje. Dutra passou a me dar orientações e até chamava minha atenção quando passava do ponto. Houve um episódio em que chegou a me esculachar e dizer que eu tinha feito molecagem (outro dia dou detalhes).

Mas não posso esquecer também da contribuição de outras pessoas nesse início de carreira: o ex-redator gaúcho, o falecido Sérgio Henn (sim, aquele da avenida mais perigosa do trânsito...) e Ismaelino Soares (irmão de Santino Soares), com os quais também dividi madrugadas na redação e que sempre buscavam frear minhas loucuras; as dicas para a reportagem em campo me foram passadas pelo mais experiente dos repórteres da época: Sampaio Brelaz; e finalmente, o amigo José Parente de Sousa, o Jota Parente, chefe de programação da Rural, que sempre abalizou muitas das minhas loucuras no jornalismo e me deu a chance de ser apresentador do Canta Brasil, programa com músicas de MPB que ele produzia e apresentava nas tardes de sábado, e que eu adorava. Dali, para apresentar o Bazar Brasileiro (criado em 1985) nas noites de domingo, foi um pulo.

A gênese de um repórter polêmico

Quanto mais eu me embrenhava no Jornalismo, mais eu me distanciava da militância política. A imaturidade de algumas lideranças sindicais daquele período (tendo à frente meu grande mentor nos movimentos sociais, Pedro Peloso – à época esposo de Raimundinha), me levou à condição de proscrito nos movimentos sociais e até de “traidor da causa dos trabalhadores”. Ao ponto de alguns até tramarem minha saída da emissora (que ocorreria, finalmente, em 1986).


Mas apesar disso, comecei a cunhar minha fama de “polêmico”, epíteto que incorporei ao meu nome de guerra. Nas primeiras férias da emissora fui rever minha Belém, mas procurei os radialistas que faziam sucesso. Santino Soares me levou à Rádio Liberal e me mostrou como se faziam os programas policiais. O mais famoso à época era o do Adamor Filho. Achei que podia fazer aquilo em Santarém, mas com outra roupagem.

Uma famosa entrevista coletiva com Ronaldo Campos (centro) da qual participo (1986).
Na foto estão (da direita para a esquerda) os colegas: Manuel Dutra, Adriana Lins,
Joanir Silva, Jota Ninos, Marco Nogueira, os irmãos Ray e Josivaldo Pereira,
e Jurandir Anselmo. Ao fundo Eriberto Santos (falecido), o ex-vereador Davi Pereira
e o comunicador Geraldo Bandeira (também falecido). Foto do Acervo do ICBS.
Quando voltei, levei a ideia ao gerente da emissora, Eduardo dos Anjos (hoje, meu colega como oficial de Justiça), que não aprovou. Ele acreditava que Santarém não estava preparada para um programa policial, até porque as ocorrências na delegacia eram poucas. Dornélio me ajudou a convencê-lo mostrando que o programa teria uma abertura para a população se manifestar, através de cartas, numa sequência que se chamaria “Broncas do Povão”. Parente foi decisivo: “Acho que vai dar certo”. Nascia ali o programa que viria a ser a maior audiência da emissora: o Plantão da Cidade. Inicialmente era um programa de 15 minutos após o jornal do Meio-Dia, que era apresentado por Oswaldo de Andrade. A apresentação irreverente e a parceria com Clenildo Vasconcelos, que era programador musical, era o tempero que faltava. Clenildo e os operadores de áudio que antes me viravam a cara passaram a disputar o horário, pois eu dava liberdade para criarem vinhetas que adicionassem humor. E as Broncas do Povão, segunda parte do programa eram o maior sucesso. As reclamações eram as mesmas de hoje, falta d’água, luz nos postes, buracos nas ruas. Mas eu aproveitava para desancar o prefeito de plantão. Um deles foi Ronan Liberal (pai do vereador Ronan Liberal Jr.) e outro viria se tornar meu maior inimigo: Ronaldo Campos de Souza, pai do hoje radialista e blogueiro JK.

Criei o personagem Honestino Honesto da Silva, personificado por Clenildo Vasconcelos, com sua irreverência de imitar um velho caboclo do interior. Honestino era uma sátira contra os políticos desonestos, já que era um demagogo de primeira. Eu fazia os textos e Clenildo os interpretava ao vivo. O sucesso do personagem foi tão grande que nas eleições de 1985, o lancei como candidato a prefeito e houve o registro de pelos menos três votos (de protesto) nas urnas de papel! Mas Ronaldo Campos venceu as eleições e eu passei a ser seu principal adversário. Até que em 1986 fui demitido, e muita gente logo atribuiu minha demissão à perseguição do prefeito, mas eu sabia que nos bastidores o meu partido havia contribuído com a demissão, por eu ter iniciado a criação de uma tendência partidária que se opunha à direção de então. Mas isso é assunto pra outra postagem...

Repórter andarilho

A saída da Rural, no auge da audiência, ajudou a construir a imagem do repórter andarilho, desde então. Passei por várias empresas e sempre era demitido por injunções político-partidárias, nunca por incompetência. Quando saí da Rural, reforcei a sequência das Broncas do Povão criando outro personagem, o Broncolino Bronqueado da Silva, que era interpretado por um jovem conhecido como Amadeu dos Santos (irmão do Tadeu, famoso vocalista da Banda 5ª Dimensão). Broncolino seria irmão de Honestino na minha ficção e era um caboclo que odiava os corruptos como seu “irmão”, e como porta-voz da ira do povão passou a ser meu alterego. Ao sair da Rural levei o personagem comigo para a recém-inaugurada Rádio Tropical, do empresário Ubaldo Corrêa, onde criei o programa Comando Tropical, que até um dia desses ainda estava no ar. Foram cinco meses intensos nessa emissora, e acabei tendo a chance de trabalhar pela primeira vez na TV Tapajós, já que Ubaldo era diretor dessa emissora (à época os Pereira e os Corrêa ainda não haviam desfeito a sociedade).

Em 1986 vivi a experiência de trabalhar no jornal O Tapajós, jornal que chegou a ter três edições semanais e foi o primeiro completamente produzido e impresso em Santarém. Antes disso, já havia tido uma experiência escrevendo alguns artigos sobre política no extinto Jornal de Santarém, na gestão do falecido jornalista Arthur Martins. Demitido da Tropical, mais uma vez por pressões políticas (desta feita por obra do prefeito Ronaldo Campos), preparei meu retorno à Rural no ano seguinte. O detalhe curioso é que na Tropical cunhei o apelido de “prefeito abelha” (quando não está voando está fazendo cera) contra Ronaldo Campos por causa de suas eternas viagens em busca de verbas que nunca chegavam, e isso era a coisa que ele mais odiava, além das denúncias (o engraçado foi ver recentemente seu filho JK usar a mesma expressão contra outros prefeitos da região, em seu blog...rs).

A briga com o prefeito continuaria no meu retorno à Rádio Rural em janeiro de 1987. Só que um pedaço de mim ficou na Tropical: o personagem Broncolino foi “confiscado” e eu bem que poderia ter feito uma briga judicial por direito autoral, mas à época nem liguei pra isso. Na Rural, meu programa continuava, mas já não era o mesmo. Eu precisava resgatar sua credibilidade. Passaram-se cinco meses, até que ocorreu o episódio dos sacos de cimento e da invasão do prefeito ao estúdio, como já contei em outra postagem: http://goo.gl/BSaEiX. Estava restabelecida a sina do repórter polêmico.

Mas esse episódio me deu medo, pelas ameaças anônimas que recebi. Meu pai providenciou minha ida à Grécia para estudar, com medo que eu fosse mais uma vítima de pistoleiros, que agiam despudoradamente na região. Em 1988 fui para minha segunda Pátria e passei três anos lá. Tive a primeira experiência como correspondente internacional, primeiro escrevendo artigos para O Tapajós e depois para o semanário recém-criado (1989) Gazeta do Tapajós, dos irmãos Carneiro (Jeso e Celivaldo), dos quais sou amigo até hoje.

O retorno do filho pródigo

Sérgio Henn, Jota Ninos, Edinaldo Mota e Eriberto Santos:
Assessoria de Comunicação da PMS (1997)
No retorno a Santarém, passei pela TV Ponta Negra (1992), onde trabalhei como editor-chefe de um jornal que vinha depois do Jô Onze e meia (pouca gente assistia); fui repórter, redator e editor do jornal Estado do Tapajós (1993/1994), do empresário Admilton Almeida (atual proprietário do jornal O Impacto); experimentei em 1995/1996 o trabalho de assessoria de comunicação de uma ONG ambientalista (Projeto Várzea, hoje IPAM), sob a coordenação de Socorro Pena. 

Em 1997, entrei para o mundo do marketing político, estreando como marketeiro e ajudando a eleger o então deputado Lira Maia por dois mandatos! Nesse período, atuei como chefe da Divisão de Comunicação e Marketing na gestão Lira Maia, sob a coordenação do amigo Sérgio Henn, com quem me reencontrei durante a campanha (ele era assessor de Alexandre Von); em seguida fui parar na assessoria de comunicação da Câmara Municipal auxiliando entre 1997/2001 os presidentes Mário Feitosa (PMDB) e Osmando Figueiredo (PDT); criei a empresa Lexis Marketing e Pesquisas (1998/2001) e fui sócio da produtora Set Light com Celia Henn e Paulo Tihammer.

Voltei ao jornalismo como correspondente do extinto jornal A Província do Pará (1999/2000) e nesse mesmo período trabalhei com Miguel Oliveira na instalação do jornal Província do Tapajós (que depois se tornaria O Estado do Tapajós, hoje só em versão online); em 2001 ingressei na TV Tapajós, a convite de Vânia Maia, assumindo a chefia do departamento de Jornalismo até 2003, quando passei no concurso do Tribunal de Justiça do Pará (TJPA), atuando inicialmente em Ananindeua. Nesse período convivi com colegas como Suelen Reis e Claudenice Lopes, que ainda hoje mantém a filosofia de trabalho que construímos juntos naquele período. Também vivi uma grande parceria com os amigos Grazziano Guarany, na criação do portal NoTapajós (hoje G1 Santarém) e com Nélson Mota e Pedro Liberal, na criação do programa Meio-dia em Ponto, da 94 FM, que até hoje está no ar.

Ao retornar a Santarém em 2004, tentei várias vezes atuar no jornalismo. Primeiro criando este blog e depois, a convite de Vânia Maia amiga de Jader Barbalho Filho, assumi por alguns meses a sucursal do Diário do Pará e lancei o encarte Diário do Tapajós (assumido depois pelo casal José Ibanês e Albanira Coelho); voltei a trabalhar na TV Tapajós, como chefe de Comunicação Corporativa e assessor de Comunicação da empresa, por um curto período em 2006.

Em 2007 voltei a apresentar o Bazar Brasileiro na Rádio Rural, atuando algumas vezes como comentarista nas eleições, sempre a convite de meu "líder espiritual" (rs) Edilberto Sena. O programa saiu do ar em 2009 e retornou em 2011, saindo novamente em 2013. Atualmente renegocio novo retorno ao programa que é meu xodó.

Com a falta de tempo, tenho colaborado com vários blogs ou como free lance em revistas e jornais, sendo o mais assíduo o blog do amigo Jeso Carneiro. Desde 2006, colaboro como assessor de imprensa informal do Judiciário, sendo liberado pela presidência do TJPA a produzir relises para o site do TJ e recentemente para a Rádio WebJus, no qual colaboro inclusive com boletins gravados.

Sindicalismo nas veias

A velha experiência com movimentos sindicais foi providencial na organização dos trabalhadores da comunicação. Em 1986, aquela insatisfação que víamos nos olhos dos colegas da Rural, se transformou em algo sólido, com a criação (um ano depois) da Associação dos Radialistas de Santarém, agregando colegas de várias emissoras como os irmãos Adilson e Adélson Sousa. Elegemos Dornélio Silva nosso primeiro presidente e eu fui vice. Depois que Dornélio e eu viajamos, Adélson Sousa assumiu e junto com Augusto Sousa (atual presidente), fundaram o Sindicato dos Radialistas em 1988. Colaborei com quase todas as diretorias do Sindicato, principalmente nas presidências de Ormano Sousa (1990/1994), Paulo Tihammer (1994/1996), Ronei Oliveira (1996/1998) e Rosa Rodrigues (1998/2000). A partir daí me afastei das atividades.

Em 2006 entrei para a 1ª turma de comunicação social, coordenada por Manuel Dutra, no Iespes – Instituto Esperança de Ensino Superior. Formados em Jornalismo em 2010, recebemos a incumbência de tentar mais uma vez a instalação de uma delegacia regional do Sinjor – Sindicato dos Jornalistas do Pará, agora com o nome de Diretoria Regional, sendo empossado em 2012 pela atual presidente Sheila Faro com mais quatro colegas: Rosa Rodrigues, Minael Andrade, Ednaldo Rodrigues e Ronilma Santos. Mas de lá para cá, apesar de várias reuniões e conversas pela internet, não conseguimos o objetivo de filiar os quase 100 jornalistas já diplomados aqui, e a maioria nem poderá votar nas eleições do Sinjor que vão ocorrer em junho, o que pra mim foi uma frustração. O envolvimento de todos os membros da diretoria com o curso de especialização da Ufopa, foi um dos motivos de não se dedicar com maior empenho na tarefa.  Mas uma comissão de jovens jornalistas, liderados pela colega Ronilma Santos trabalha para finalizar esse doloroso processo, no qual ainda pretendo colaborar, se for possível. 

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Neste dia em que completo 30 anos de Jornalismo, só pude terminar o texto agora à noite, porque aguardava o nascimento da nova filha, Nicole, mas que decidiu não sair para ser meu grande presente nesta data...

E que venha a madrugada e continuarei esperando a pequerrucha, e quem sabe outros trinta anos (rs)...