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quinta-feira, 6 de maio de 2021

Um século de memórias

  

Escrever, para mim, é sempre um delicioso ritual. Tenho que estar sentado na frente do meu velho computador desktop, bem confortável, para botar as palavras pra fora. Não é a mesma sensação de escrever um texto em um celular, onde no máximo compartilho textos, vídeos, imagens e áudios que recebo nas redes sociais. 

Às vezes até escrevo um texto mais longo, mas sempre existe a possibilidade da imprecisão em alguma informação por conta da pressa de compartilhar ou pelas armadilhas do corretor do zap, o que me leva às erratas (esta semana bati o recorde delas...rs).

Não pretendo fazer um texto longo, hoje (coisa difícil, pra quem conhece minha mania de textões...rs). No fim da noite deste dia 05 de maio, depois de um dia atribulado com muito trabalho e afazeres pessoais, sentei para registrar a importância do dia que já se finda e que não consegui reverenciar nem com uma pequena nota nas redes sociais. Por isso, mesmo perdendo o dia 05/05 para o registro, faço-o já na madrugada do dia 06/05 e movimento meu esquecido blog com o primeiro texto de 2021.

Então, há 100 anos nascia o patriarca da família greco-amazônica, Georgios Joannis Ninos, o “Seu Nino", como ficou conhecido em Santarém através de sua lanchonete Nino-lanche do famoso salgadinho grego "Tirópita". 

No dia 05 de maio de 1921, na cidade de Xanthi, Estado da Macedônia, norte da Grécia, nasceu o “pequeno guerreiro helênico que parece querer se eternizar no tempo”, como eu disse há dez anos num texto-homenagem (neste link: Odisseia de um Ninos) quando completou 90 anos.

Na primeira foto, no alto, Georgios Ninos, ainda bebê, no colo do meu avô Joannis Ninos e ao lado da vovó Stella e da Tia Maria. Abaixo, o jovem Georgios quando chegou ao Brasil, em 1955 e por último, o sorridente "Seu Nino" em uma de suas últimas fotos, antes de falecer em 2014.

Falecido em 2014, “Seu Nino" não conseguiu concretizar o sonho de comemorar um século de vida, mas entrou pra nossa eternidade. Entre erros e acertos, deixou um legado que seus filhos (Jota, Anna e Stefano) não esquecem. Sua relação com a gente foi feita de altos e baixos, como é, sempre, a relação de pais e filhos. Sobrinhos, netos e bisnetos tem algumas lembranças. Por isso é preciso que estas sejam colocadas em papel.

Em abril tirei férias do Judiciário com o intuito de produzir os livros que venho prometendo há mais de 15 anos e imaginei fazer logo um combo com três publicações (!): um livro de poesia, um de prosa e outro com uma minibiografia de meu pai. Chamei o projeto de “Combo P do Jota”. Os livros terão os seguintes títulos: Poheresias (Poesia), Perípatos (Prosa) e Paralígo (Παραλίγο, Por Pouco, em grego).

Alguém pode dizer: mas como produzir três livros de uma hora para a outra? Na verdade, dois deles já estão escritos, só que de forma fracionada em textos de jornais e redes sociais. O desafio é juntar tudo numa só produção. 

As poesias já estão prontas pra virar livro, faltando apenas alguns detalhes. Já o livro de prosa que vai ter uma coletânea de textos jornalísticos como crônicas, artigos, reportagens e entrevistas que registrei em 37 anos (a completar este mês) de profissão, consegui iniciar sua catalogação através das amareladas páginas de jornal de meu acervo, mas senti que não conseguiria terminar a tempo para lançar no dia 05/05, como era meu intento.

Retornei ao trabalho no Fórum esta semana e vou continuar a catalogação nas horas vagas até poder fechar o segundo livro, enquanto escrevo paralelamente a minibiografia de papai. Quero lançar o combo ainda este ano, de preferência no primeiro semestre ou até o meu aniversário (13/07), quando espero já estar vacinado contra a "maldita".

A ideia de publicar os livros, de certa forma, surgiu do medo de, de repente, ser mais uma das vítimas da pandemia por pertencer ao grupo de risco e não deixar meus textos organizados e publicados para a posteridade. Para mim, este trabalho é uma forma de virar uma página de minha vida diante de um cenário tão conturbado como esse da Covid-19. 

Perdi muitos amigos desde o ano passado, mas até agora escapei do contágio. Espero estar bem de saúde para concretizar as três obras e com isso homenagear o centenário do velho grego, cujos espermatozoides atravessaram o mundo e vieram frutificar na Amazônia...

 

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Crônica de um tempo sem memória

 

Pensei em fazer uma reflexão sobre 2020 e logo percebi que poderia cair no lugar-comum que todo mundo vem usando em reportagens e artigos de opinião: o ano anormal, da pandemia do corona vírus, das mortes, dos heróis da linha de frente, da solidariedade mundial e da esperança com a vacina.

Sim, 2020 foi tudo isso e muito mais. Mas, talvez, um aspecto que se sobressai por trás de todo este cenário seja a intolerância, em todos os seus aspectos. E vai bem além das sábias palavras do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) que afirmou que "vivemos tempos líquidos: nada é para durar".

O ano de 2020 pode ser estudado, no futuro, como a antessala entre a incoerência e o bom senso mundial (se é que é possível, um dia, termos algum bom senso na humanidade...). Por isso, imaginei fazer uma crônica sobre um “tempo sem memória”, que é como avalio que seja o ano de 2020.

E porque “sem memória”? Parece um contrassenso dizer que estejamos sem memória, num mundo de tantos avanços tecnológicos em que a nanotecnologia avançou e um microchip pode conter zilhões de dados para fazer com que surjam ações movidas por inteligência artificial em um androide. A robotização do sistema nos levando a acreditar em teorias de obras do cinema, como Matrix.

Mas é justamente este avanço que, a exemplo do filme citado, precisa parar através do surgimento de um vírus que abala a vida e a economia do mundo. Um vírus que assusta a grande maioria dos líderes mundiais e os força a dar um – como dizem os profissionais de TI – “reboot no sistema”, ou seja, desligar tudo e reiniciar pra ver se funciona.

Mas é bom recordar que juntamente com os avanços tecnológicos surgiu a internet, que como uma grande rede mundial de computadores revolucionou a forma de nos comunicarmos. Deu voz aos invisíveis, democratizou as opiniões. Mas assim como vieram coisas boas desse mundo, emergiu também a podridão que acabou inundando o mundo com mentiras e boatos (as conhecidas fakenews), organizadas por cérebros malignos que se utilizaram de um tal “algoritmo”, para influenciar eleições no mundo todo, começando pela Inglaterra (o caso Brexit), passando pelos EUA (eleição de Donald Trump) e chegando ao Brasil (eleição de Jair Bolsonaro).

Todo esse clima, aliado à desesperança das populações e somado ao fanatismo religioso e o instinto belicoso que estava enrustido nas pessoas, criou-se um quadro dantesco que nos leva ao retrocesso da civilização. Consolida-se, assim, um “tempo sem memória” que reedita em meio à pandemia reações contra a ciência com pessoas encontrando eco para teorias como o terraplanismo ou as campanhas anti-vacinação, como as que ocorreram há um século atrás, quando da pandemia da febre espanhola.

Mas afinal, o que é o tempo?


 “Tempo, tempo, tempo, tempo..”

 Caetano Veloso, em “Oração ao tempo”, nos ensina que o tempo é um dos “deuses mais lindos”. A humanidade sempre tentou controlar o tempo, essa coisa etérea que ainda hoje fascina e nos divide. Observando a natureza, nossos antepassados foram tentando demarcar o tempo desde os relógios do sol dos egípcios até os babilônios dividirem um dia em 24 horas ao observarem o Equinócio, e chegarem ao mágico número de 60 segundos que criam um minuto e 60 minutos que criam uma hora, baseado em antigos estudos do astrônomo grego Eratóstenes. Com o primeiro relógio mecânico criado no final do século XVI, avançamos – literalmente – no tempo até ser definido o padrão UTC (sigla do inglês Universal Time Coordinated, ou Tempo Universal Coordenado).

Mas o tempo continua sendo um mistério... Na luta para controlarmos o tempo de nossa passagem pela Terra chegamos à industrialização de remédios, do antibiótico às vacinas antivirais. Inventamos a doença através da indução ao consumo desenfreado de alimentos que não nos alimentam, para depois lutarmos contra doenças invisíveis, como a diabetes (eu que o diga).

Recorrendo ainda à poesia, é bom lembrar um dos grandes poetas paraenses, nascido em Santarém há um século (data que passou em branco entre os santarenos), Ruy Barata, que nos encantou com a estrofe de Pauapixuna: “O tempo tem tempo de tempo ser/O tempo tem tempo de tempo dar/Ao tempo da noite que vai correr/O tempo do dia que vai chegar”.

Não sou um poeta do quilate de Caetano ou Ruy, mas também faço alguns versinhos. Num deles, Contratempo, digo que “O tempo não existe/O que existe é a motivação/representada pelos atos/que se transformam em fatos” (a poesia completa pode ser encontrada no meu Facebook, inclusive com um vídeo com bela interpretação de uma amiga atriz, no link: encurtador.com.br/iAOQU).

O tempo pode estar no giro dos ponteiros de um relógio ou no rasgar das páginas de um velho calendário. Pode estar nas rugas que nascem em nossos rostos ou no esbranquiçar de nossos cabelos. Por isso, o último dia do ano tem um quê de magia, que une vários suspiros mundo afora, acreditando que a simples ultrapassagem do marco da meia-noite nos transporta para um novo momento, e com ele a esperança de dias melhores...

Foi assim, em dezembro de 2019. E veio a realidade de 2020. Em meio à pandemia, perdemos amigos e parentes. Os números foram sendo jogados nas telas da TV. E a memória do tempo foi transformando nosso tempo em um tempo sem memória. Sem memória do que a história já nos ensinou. Mas talvez a memória de tanta gente boa que se foi, possa nos ajudar a recuperar a memória da sensatez e deixar de sermos enganados por falsos profetas do apocalipse.

E se existe uma frase poética que mais ilustre a necessidade imperiosa de tomarmos as rédeas do tempo para evitar que sejamos engolidos pela insensatez e insanidade de tiranos loucos, com certeza essa frase é do cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Que 2021 seja o nosso momento de fazer valer a memória dos velhos ensinamentos, e que nunca esqueçamos de 2020, pois como disse o filósofo, poeta e ensaísta espanhol George Santayana (1863-1952): “Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012



Versos brutos (Buriti versus Juá)
Veias minhas que te enterrei
Nas entranhas de teu corpo
Te fiz meu porto,
Náufrago sem mar
De águas ensandecidas
Que lagrimei em tua pele devastada... 
Seivas minhas que te singrei
Na vastidão de tua vergonha
Te fiz minha fronha
E te babei, embrutecida,
De meu furor enlouquecido
De te habitar eternamente
E te estuprei a alma estarrecida...

E agora, que o vento já não faz sentido?
Que o tempo já não tem fronteiras?
O que faço de teu corpo ensanguentado?
O que digo à beleza de teus caprichos em desalinho?
Já não me resta uma tímida lembrança
Da qual eu possa te fazer relíquia... 
Diz-me qual a pena que me ordenas!
Qual penitência de tuas rezas?
Será que ainda me prezas?
Será que perdoas por usurpar-te
A natureza em meu nome-fantasia?
O que será de mim, agora que somos nada? 
Deixa que eu te faça dos meus versos
A estrofe esquecida
E do acalanto,
O estribilho mal concebido
Mas que um dia eu possa realizar-te o sonho
Do pesadelo de eu nunca ter nascido
Ser natimorto, de um passado esquecido...

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Águas passadas - Poesia


(*) Ana Charlene Negreiros
(Imagem do Blog Colisão)

Leio palavras rimadas
Ditas a outrem outro dia,
Que deixam meu dia agnóstico,
Trazem fatídico diagnóstico:
Levam consigo minha alegria.

Transmitem, pois, a verdade
Que dantes fora tua realidade;
Outros seres, outros prazeres.

Não teria porque sofrer assim,
Não pertencia tua alma antes a mim!
Por que este vazio persiste em reinar?

Não me agrada saber que teu beijo
Embriagava-se por outro desejo.
Esta dor machuca, raiva me dá!

Meu corpo fora templo de outros amores,
Meu palco, ribalta de outros atores.
Por que peço castidade, afinal?

Por que afogo-me em águas passadas,
Em desalinho que não leva a nada,
Se sou teu presente, futuro, ponto final?

__________
(*) Minha musa, mostrando seu dotes de poeta...

sábado, 30 de junho de 2012

Olhos de peixinho (Jota Ninos)



Era um poeta
Em busca de uma musa
Que não fosse etérea...

Te encontrei
Com olhos de peixinho,
Nada aérea...

Deixe que eu sinta
A poesia que sai de ti
e tatua meu peito assim...

Como fosse energia
Que em ti perdi
No teu beijo de boca carmim...

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Cidade (Jota Ninos)



Minha cidade não cabe em si
De tanta idade
Não é feliz cidade
É apenas mais uma cidade
Do lado debaixo do Equador,
Eco de toda dor…

Como toda cidade,
É feita de homens
Em quatro rodas,
Em quatro paredes
E que vivem quatro estações:

- A estação da alegria;
- A estação da tristeza;
- A estação da alegria de não ter muita tristeza;
- E a estação da tristeza de não ter tanta alegria.

Apesar de tudo, minha cidade não é feia.
É apenas uma teia cheia de gente
Gente que corre de gente,
Que mata gente ou indigente.
Gente pingente de coletivos
Gente que faz gente
(cada vez mais gente)
E não há jeito de
deter gente de gente ter.

Detergente não há, também.
Mas minha cidade não é suja.
Apenas entrega de lambuja
Seu cais, à gente sem nome,
Que degusta o néctar
Dos rios de Iara
Com oferendas nada recicláveis…

Minha cidade sonha em ser grande
Como as grandes cidades
Sonha com grandes portos,
Grandes mortos,
Grandes estradas,
Grandes escadas rolantes
De comerciantes,
Com sorriso no semblante

Minha cidade
Se prepara para o futuro.
Homens planejam
O futuro de minha cidade.
Mas enquanto o futuro não chega,
Uma outra cidade
Dentro de minha cidade
Parece ganhar vida própria.

Nesta cidade paralela
Homens despejam desejos,
Qual despojos de si mesmos,
Em corpos inertes que cantam
Sedentas árias
De sedentárias
Mulheres de esquinas.

Meninas que trocam bonecas por bocas
E em cujos diários só existem noites,
Boates e boatos:

- De quem está com AIDS.
- De quem está com chatos.

Mas minha cidade não é chata.
É apenas mais uma cidade
Do lado debaixo do Equador
Eco de toda dor…

Enquanto minha cidade tiver poetas,
Mesmo que não tão otimistas como eu,
Será uma cidade-luz.

E quando minha cidade entrar no mapa…
Talvez eu vá pro mato!

Afinal, qual é a minha cidade?
Alguém sabe me dizer?
Talvez minha verdadeira cidade
Seja aquela das crianças
Cujos sorrisos se emolduram
Em dentes cariados,
Felizes em saber
Que existe um futuro…

…Por que não sabem
O que este lhes reserva.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Termas (Jota Ninos)


Seu gosto
Entre os meus dedos
Seus medos
Entre o meu rosto
E seu desejo
E meu beijo
Entre seus lábios
Que, sábios,
Devoram meu tempo
Que o vento
Levou nessa noite
De carnes que suam
No calor do açoite...

sábado, 16 de junho de 2012

Inspiração (Jota Ninos)

Borboletas voam no estômago
Olhinhos de peixe miríades miram
De beijos que chegam no âmago
De uma paixão que suspiram
Corações ardentes de dentes
Que dentro do centro se viram
Para morder entrementes
O que os poros transpiram...

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Amigos e namorados (Jota Ninos)

Amigos são amigos
Tanto quanto são amados
Mas nem sempre estão
Enamorados...

Amigos e amados
Podem até ser namorados
E serão mais que amigos
Mais que amados...

Mas amigos enamorados
Que um dia sejam
Mais que amigos
Mais que namorados
Acabarão fatalmente casados...

E se um dia deixarem
De ser enamorados
E decidirem ficar separados
Passando a ser descasados
Nada impede que continuem amigos...




Até mesmo amados...

Amigos descasados...

Que já não serão enamorados...





Mas muitas vezes poderão
Até ficar mal humorados
O pior que pode acontecer
Entre amigos que já não são
Enamorados
E que agora descasados
E ainda por cima mal humorados
Deixem de ser amigos
E de serem amados...

E quem sabe até
Acabem sendo inimigos
Pelo fato de não serem mais amados...

Mas amigos que são amigos
Nunca deixarão de ser amados...

E talvez seja melhor
Não ficarem enamorados
Muito menos se tornarem 
Namorados
E que um dia queiram 
Estar casados...

Pois amigos que são amigos
Nunca devem ficar separados...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Vontade (Jota Ninos)


Tua vontade não se sobrepõe
À minha vontade
Voracidade de olhar ferino
De olhar menino
Querendo descobrir tuas vontades
Nas belas tardes
Ou bem tarde da noite

Você à vontade...
E eu com vontade...
De chegar perto
E tocar no sonho
Mas uma janela me impede

E fico só na vontade
De te ver de verdade
à vontade...

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Sentido (Jota Ninos)


Como hei de morrer acordado
Sem nunca acordar tão morrido?
Sem ter você ao meu lado
Como hei de querer, sem nunca ter tido?

Como haverei de viver açodado
Sem nunca sequer ter sentido?
Sem ter ao menos flertado
Como hei de gemer teu gemido?

Não hei de viver amargurado
Enquanto me achar teu amado
Sem mesmo um dia ter sido

Mas hei de morrer acanhado
Se um dia me ver mergulhado
Na angústia de já ter te esquecido

terça-feira, 29 de maio de 2012

Dez Pedidas (Jota Ninos)

Não houve apenas uma,
Foram dez pedidas
Dez juras de amor perdidas
Dez vezes, dez meses, dez encantos...

Desencantos de uma despedida
Que na hora da partida
Deixou repartida,
Nossa emoção mal resolvida...

Dez ilusões de uma realidade
Que se quedou mal concebida
Desilusões arrependidas
Dez vidas, desvalidas...

Esquálidas paixões esculpidas
Na cadência da intenção retraída
Dez medidas e muitas ebulições
Invariavelmente desmedidas

Dez enredos de um segredo
Que acabou num desenredo
De uma paixão tão desnutrida
De uma paixão tão descabida

Dez feridas, desprovidas da razão
De uma rejeição já desferida
No precipício da alienação
Mais uma vez mal percebida

Haverei de chorar em vão
Por tantas outras dez pedidas
Que pedi das tuas mãos
O coração, das despedidas...

quinta-feira, 21 de abril de 2005

Tiradentes2

Em homenagem à data de hoje, apresento no blog uma poesia que fiz em 1984, homenageando o líder sindical Avelino Ribeiro da Silva, morto numa tocaia por causa de uma briga pela posse de uma terra, na rodovia Santarém-cuiabá.

Avelino era delegado sindical do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e o conheci em um encontro de lideres trabalhistas no Emaús. Era um sujeito bandalho, que destoava do clima sisudo dos “companheiros” da época e gostava de “aprontar” com todos durante o encontro, fazendo coisas do tipo esconder sandálias de Milton Peloso no congelador, jogar a minha rede no alto das árvores, dar nós nas redes de outros companheiros, etc...

Avelino era tão malandro que sempre levava consigo uma mala preta, tipo 007, cheia de “apetrechos profissionais” que ele usaria nas suas brincadeiras.
Nesse mesmo encontro, uma de suas “vítimas” foi o grande líder sindical na época (hoje prefeito de Belterra), Geraldo Pastana, que tinha um sono pesado... Avelino aproveitou uma das pestanas de Pastana (desculpem o trocadilho infâme), abriu sua “bolsa de maldades” e tirou de lá uma agulha e um tubo de linha de nylon.
Sorrateiramente, frente a uma platéia que se “espocava” de rir, COSTUROU O CALÇÃO de Pastana na rede sem que ele acordasse! Ficamos todos ali, sentados, olhando o desfecho do xiste. Resultado: Pastana acorda olha em redor seus companheiros. Se espreguiça e resolve se levantar, acreditando talvez que seu liderados o aguardam para mais um de seus inebriantes discursos....
Qual o quê! Ao tentar sair da rede, Pastana fica pendurado pelo calção com joelho no chão e não consegue se levantar... A turba vai à loucura... Avelino gargalha e nós esquecemos que estamos ali para fazer revolução e rimos do nosso líder... momento inesquecível...

Daí que quando Avelino morreu, senti muito e cheguei a integrar um comitê formado para reverenciar sua memória, participando, inclusive, como ator de uma performance que apresentávamos nos bairros de periferia para recordar o sindicalista morto. Foi num desses intervalos que nasceu a poesia Desafio, que depois virou música e levei para inscrever no VII Festival de Música Popular do Baixo e Médio Amazonas, organizado naquele ano pelo jornalista carioca Mário Ennes (creio que já falecido), que liderava o Arteclube Acauã.

Como a Dita Dura ainda respirava, as músicas tinham que passar pelo crivo da Polícia Federal, e me alertaram que estavam censurando várias canções. Com medo, resolvi mudar o título e uma frase, para poder inscrevê-la.
E acabei homenageando Tiradentes, mas pensando em Avelino.

A música foi finalista, com o arranjo e a interpretação de um radialista e crooner de conjunto muito louco chamado Dioclau Wonder (?), que trabalhou comigo na Rádio Rural.
Fizemos no palco uma performance com ele cantando e eu chegando vestido de verdugo com um capuz, amarrando uma corda em seu pescoço enquanto ele dizia a última frase do refrão caindo no palco do anfiteatro Joaquim Toscano como se tivesse sido enforcado... (eu, anta, não registrei em foto, mas alguém que esteve aquele dia lá, deve se lembrar disso, e se tiver foto que me empreste...) apesar de toda a presepada não conseguimos ganhar nenhum prêmio!

Eis a poesia, com destaque para a frase original "auto-censurada":

Tiradentes (Desafio)

Quando uma luz brilhar
Foi um filho que partiu
E mãe-terra vai chorar
Pois foi ela quem pariu
Mas do solo vai brotar
Outro homem do Brasil...
(Refrão)
E haja ódio pra parar
Essa força que surgiu
Da boca de quem gritar
Tanta dor que já sentiu
O peito vai se estampar
Cor de sangue infantil
Que jorra um dia sem parar
E transborda feito rio...

Quando o coração parar
Foi a forca que subiu
[foi a bala do fuzil]
[Que] E calou esse penar
Por cantar seu desafio
Mas a chama vai queimar
E acender nosso pavio...

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Vero

Pro dia da mentira, uma pérola de Maria Rita (exclusiva de quem tem o seu 1º
CD, na foto ao lado, podendo ser baixada pela internet)

O que se vê é vero
o teu sabor eu quero
mas nem só beleza eu vi

Vi cidades degradadas
pessoas desamparadas
nas grades da solidão

Fogo nos campos nas matas
queima de arquivo nas praças
chovia nas ruas do meu coração

O que se vê é vero
o teu sabor eu quero
mas nem só beleza eu vi

Vi cidades turbulentas
chacinas sanguinolentas
pensei que morava nas terras do mal

Choro dos filhos, maldades
fora dos trilhos, cidades
pensei que sonhava e era tudo real

O que se vê é vero
o teu sabor eu quero
e a tua beleza eu vi

Vi uma estrela luzindo
a minha porta bateu
querendo me namorar
lua cheia clareava
imaginei que sonhava e era tudo real

Ninguém mais coça bicho de pé
nem ninguém caça mais arrastapé
vida é assim
é o que é

(de Natan Marques e Murilo Antunes)

Ícone insone

o homem das letras não dorme
interneteia
passeia com sua solidão agarrado a um camundongo
qual alma penada
arrastando a madrugada
pelos ícones do vale do silêncio
cemitério de silício

quando é seis e meia, o homem das letras se dá conta que ainda não quer dormir...

talvez ele não possa
talvez ele não queira
talvez ele precise que seja assim

talvez seu travesseiro seja menos confortável que um mouse-pad

o homem das letras não cede: vence o sono mais uma vez
(ou será que foi vencido?)

o www-ponto-homem-ponto-só-ponto-br
de repente sai de seu sítio cibernético
levanta da executiva e se debruça no muro
como o sol
que levanta e debruça seus raios no morro

transporta seus olhos de vidro da janela virtual
e os descansa num mundo mais real

Chega de impressão 300 “DePrê-I” em papel vegetal!
O homem das letras sai para a rua e passa bem.

Passa o padeiro trazendo bom dia;
Passa Maria com trouxa pro rio;
Passa Raimundo puxando a carroça trazendo no lombo o mundo da roça;
Passa a vizinha e seu cheiro fica...

Por fim passa seu Zé, que velou o sono dos justos da rua...

Mas a insônia foi injusta, mais uma vez,
com o homem das letras...

Mas Deus não ajuda, quem cedo madruga?

[Esta é uma das poesias integrantes do meu livro “21 dedos de prosa (e outros tantos de poesia)”]

Pedaço de mim

Dentro do clima da redivisão, uma pérola do Chico:

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

Chico Buarque/1977-1978
Para a peça Ópera do malandro, de Chico Buarque