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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Crônica de um tempo sem memória

 

Pensei em fazer uma reflexão sobre 2020 e logo percebi que poderia cair no lugar-comum que todo mundo vem usando em reportagens e artigos de opinião: o ano anormal, da pandemia do corona vírus, das mortes, dos heróis da linha de frente, da solidariedade mundial e da esperança com a vacina.

Sim, 2020 foi tudo isso e muito mais. Mas, talvez, um aspecto que se sobressai por trás de todo este cenário seja a intolerância, em todos os seus aspectos. E vai bem além das sábias palavras do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) que afirmou que "vivemos tempos líquidos: nada é para durar".

O ano de 2020 pode ser estudado, no futuro, como a antessala entre a incoerência e o bom senso mundial (se é que é possível, um dia, termos algum bom senso na humanidade...). Por isso, imaginei fazer uma crônica sobre um “tempo sem memória”, que é como avalio que seja o ano de 2020.

E porque “sem memória”? Parece um contrassenso dizer que estejamos sem memória, num mundo de tantos avanços tecnológicos em que a nanotecnologia avançou e um microchip pode conter zilhões de dados para fazer com que surjam ações movidas por inteligência artificial em um androide. A robotização do sistema nos levando a acreditar em teorias de obras do cinema, como Matrix.

Mas é justamente este avanço que, a exemplo do filme citado, precisa parar através do surgimento de um vírus que abala a vida e a economia do mundo. Um vírus que assusta a grande maioria dos líderes mundiais e os força a dar um – como dizem os profissionais de TI – “reboot no sistema”, ou seja, desligar tudo e reiniciar pra ver se funciona.

Mas é bom recordar que juntamente com os avanços tecnológicos surgiu a internet, que como uma grande rede mundial de computadores revolucionou a forma de nos comunicarmos. Deu voz aos invisíveis, democratizou as opiniões. Mas assim como vieram coisas boas desse mundo, emergiu também a podridão que acabou inundando o mundo com mentiras e boatos (as conhecidas fakenews), organizadas por cérebros malignos que se utilizaram de um tal “algoritmo”, para influenciar eleições no mundo todo, começando pela Inglaterra (o caso Brexit), passando pelos EUA (eleição de Donald Trump) e chegando ao Brasil (eleição de Jair Bolsonaro).

Todo esse clima, aliado à desesperança das populações e somado ao fanatismo religioso e o instinto belicoso que estava enrustido nas pessoas, criou-se um quadro dantesco que nos leva ao retrocesso da civilização. Consolida-se, assim, um “tempo sem memória” que reedita em meio à pandemia reações contra a ciência com pessoas encontrando eco para teorias como o terraplanismo ou as campanhas anti-vacinação, como as que ocorreram há um século atrás, quando da pandemia da febre espanhola.

Mas afinal, o que é o tempo?


 “Tempo, tempo, tempo, tempo..”

 Caetano Veloso, em “Oração ao tempo”, nos ensina que o tempo é um dos “deuses mais lindos”. A humanidade sempre tentou controlar o tempo, essa coisa etérea que ainda hoje fascina e nos divide. Observando a natureza, nossos antepassados foram tentando demarcar o tempo desde os relógios do sol dos egípcios até os babilônios dividirem um dia em 24 horas ao observarem o Equinócio, e chegarem ao mágico número de 60 segundos que criam um minuto e 60 minutos que criam uma hora, baseado em antigos estudos do astrônomo grego Eratóstenes. Com o primeiro relógio mecânico criado no final do século XVI, avançamos – literalmente – no tempo até ser definido o padrão UTC (sigla do inglês Universal Time Coordinated, ou Tempo Universal Coordenado).

Mas o tempo continua sendo um mistério... Na luta para controlarmos o tempo de nossa passagem pela Terra chegamos à industrialização de remédios, do antibiótico às vacinas antivirais. Inventamos a doença através da indução ao consumo desenfreado de alimentos que não nos alimentam, para depois lutarmos contra doenças invisíveis, como a diabetes (eu que o diga).

Recorrendo ainda à poesia, é bom lembrar um dos grandes poetas paraenses, nascido em Santarém há um século (data que passou em branco entre os santarenos), Ruy Barata, que nos encantou com a estrofe de Pauapixuna: “O tempo tem tempo de tempo ser/O tempo tem tempo de tempo dar/Ao tempo da noite que vai correr/O tempo do dia que vai chegar”.

Não sou um poeta do quilate de Caetano ou Ruy, mas também faço alguns versinhos. Num deles, Contratempo, digo que “O tempo não existe/O que existe é a motivação/representada pelos atos/que se transformam em fatos” (a poesia completa pode ser encontrada no meu Facebook, inclusive com um vídeo com bela interpretação de uma amiga atriz, no link: encurtador.com.br/iAOQU).

O tempo pode estar no giro dos ponteiros de um relógio ou no rasgar das páginas de um velho calendário. Pode estar nas rugas que nascem em nossos rostos ou no esbranquiçar de nossos cabelos. Por isso, o último dia do ano tem um quê de magia, que une vários suspiros mundo afora, acreditando que a simples ultrapassagem do marco da meia-noite nos transporta para um novo momento, e com ele a esperança de dias melhores...

Foi assim, em dezembro de 2019. E veio a realidade de 2020. Em meio à pandemia, perdemos amigos e parentes. Os números foram sendo jogados nas telas da TV. E a memória do tempo foi transformando nosso tempo em um tempo sem memória. Sem memória do que a história já nos ensinou. Mas talvez a memória de tanta gente boa que se foi, possa nos ajudar a recuperar a memória da sensatez e deixar de sermos enganados por falsos profetas do apocalipse.

E se existe uma frase poética que mais ilustre a necessidade imperiosa de tomarmos as rédeas do tempo para evitar que sejamos engolidos pela insensatez e insanidade de tiranos loucos, com certeza essa frase é do cantor e compositor paraibano Geraldo Vandré: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Que 2021 seja o nosso momento de fazer valer a memória dos velhos ensinamentos, e que nunca esqueçamos de 2020, pois como disse o filósofo, poeta e ensaísta espanhol George Santayana (1863-1952): “Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

IHGTap realiza 1ª Roda de Conversa sobre História e Geografia


(Imagem do site StreS'sNet)


Como já havia sido anunciado há um mês aqui no blog, o Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós – IHGTap realiza nesta sexta-feira, 20/07, o evento denominado Roda de Conversa Sobre História e Geografia, com o tema "Tapajós: primeiras notícias". As "Rodas de Conversas", serão eventos mensais para popularizar os estudos sobre história e geografia da região oeste do Pará e da Amazônia como um todo, levando a locais públicos pesquisadores de história e geografia que apresentarão informações sobre determinado tema. O primeiro deveria já ter ocorrido no início do mês, mas só agora o IHGTap, conseguiu materializar a 1ª edição das "Rodas de Conversa".

Paulo Lima, membro do IHGTap, historiador e jornalista carioca, radicado em Santarém e autor da ideia, diz que “as Rodas de Conversa serão uma oportunidade de popularizar o conhecimento sobre os dois temas, tirando o caráter academicista de uma palestra em auditório e transformando-a num bate-papo informal entre pesquisadores e população, no meio da rua”. 

A dinâmica das "Rodas de Conversa" começará com um breve relato de um pesquisador sobre o tema e outros poderão, durante a conversa, acrescentar outras informações. As pessoas presentes poderão questionar sobre os temas ou apresentar novas informações que possuam sobre tal tema. "Nessa primeira Roda de Conversa vamos abordar alguns relatos sobre as primeiras viagens de navegadores pelos rios amazônicos", explica o padre Sidney Canto, presidente do IHGTap. Ele será um dos pesquisadores a abordar a temática, que terá como mediadora nesta primeira edição a antropóloga Iza Tapuia, que também é membro do instituto.

O IHGTap foi criado em 23 de março de 2012 e conta no momento com cerca de 35 associados, efetivos e colaboradores, mas pretende chegar a pelo menos 60 membros efetivos da região oeste do Pará. Para isso, nos próximos dias será publicado Edital para a apresentação de novos sócios efetivos e colaboradores, que se interessem em contribuir com o trabalho de pesquisas em documentos históricos e mapas geográficos com a entidade. Os sócios efetivos devem ser pessoas residentes em um dos municípios da região oeste do Pará, enquanto que os colaboradores serão de outros lugares do estado e do país.

_______________
Serviço:

1ª Roda de Conversa Sobre História e Geografia
Data: 20/07/2012
Hora: 19h00
Local: em frente à Cafeteria Tostare, no entroncamento das avenidas Adriano Pimentel e Tapajós com a travessa Lameira Bittencourt, próximo à praça do Pescador. 

Para mais informações: Pe. Sidney Canto (9135-7992) e antropóloga Iza Tapuia (9176-4931)

O evento conta com apoio da Prefeitura Municipal, escritório de advocacia José Ronaldo Dias Campos e Cafeteria Tostare.

terça-feira, 12 de junho de 2012

IHGTap vai realizar “Rodas de Conversa” sobre história e geografia


Tirar o conhecimento histórico e geográfico dos centros de pesquisa e levar para o meio do povo. Este é o objetivo das “Rodas de Conversa”, eventos a serem realizados mensalmente, à partir de julho, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós – IHGTap. A decisão foi uma das mais debatidas entre os membros do instituto, que realizaram ontem (11/06) a primeira assembleia geral ordinária da instituição, fundada em 23 de março deste ano.

Para Paulo Lima, membro do IHGTap, historiador e jornalista carioca, radicado em Santarém e autor da ideia, “as Rodas de Conversa serão uma oportunidade de popularizar o conhecimento sobre os dois temas, tirando o caráter academicista de uma palestra em auditório e transformando-a num bate-papo informal entre pesquisadores e população, no meio da rua”. As “Rodas de Conversa” serão realizadas sempre no primeiro sábado de cada mês, tendo dois membros do IHGTap responsáveis pela mediação dos encontros, que acontecerão em locais públicos a serem definidos. 

Membros do IHGTap em recente reunião
O primeiro encontro será no dia 7 de julho em local ainda a ser definido e terá como tema “Tapajós, primeiras notícias”, falando sobre os pesquisadores que andaram por esta região antes e depois do período colonial brasileiro e o que disseram sobre esta parte da Amazônia. Este primeiro encontro será organizado pelo professor-doutor Anselmo Colares (Ufopa), vice-presidente do IHGTap e pela doutora em antropologia, Iza Tapuia, com a participação de todos os membros do instituto.

Organização - A reunião do IHGTap realizada ontem com a presença de vários membros, foi para definir o calendário de atividades do instituto para o restante do ano. Segundo o padre Sidney Canto, presidente da entidade, a prioridade até o final do ano é legalizar o instituto para facilitar a busca de recursos que viabilizem as atividades de coleta, catalogação e preservação de documentos históricos que os pesquisadores farão nos próximos anos. 

Além das "Rodas de Conversa", o IHGTap deve participar de um evento conjunto no final do ano, com a ALAS - Academia de Letras e Artes de Santarém, quando lançará sua primeira revista anual contendo textos de pesquisas históricas de seus membros, que este ano homenagearão os bispos Dom Floriano Loewenau e Dom Thiago Ryan, além do maestro Wilson “Isoca” Fonseca, que completam centenário de nascimento. Outro homenageado será o músico Sebastião Tapajós, que completou 70 anos de vida recentemente. 

Secretário e presidente do IHGTap,
coordenando AG de ontem
O IHGTap foi criado em 23 de março de 2012, com a presença do presidente do IHGB – Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, Arno Weling, e conta no momento com cerca de 35 associados, efetivos e colaboradores. “Vamos publicar edital para a apresentação de novos sócios”, disse o presidente ao informar que a meta do IHGTap é ter pelo menos 60 membros efetivos da região oeste do Pará, nos próximos anos, que se interessem em contribuir com o trabalho de pesquisas sobre documentos históricos e mapas geográficos com a entidade, além de aceitar a participação de sócios colaboradores de Belém e de outros estados brasileiros.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Convocação


 
ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA

CONVOCAÇÃO
  

O presidente do INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO TAPAJÓS – IHGTap, no uso de suas atribuições legais, CONVOCA os Associados Efetivos, no pleno exercício de seus direitos estatutários, para uma reunião de ASSEMBLÉIA GERAL ORDINÁRIA a realizar-se no dia 11 de junho de 2012, segunda-feira, na sede do ICBS – Instituto Cultural Boanerges Sena (sito à Tv. 15 de Agosto entre Borges Leal e Marabá) em 1ª convocação às 17h00 e em 2ª convocação às 17h30, para deliberar os seguintes assuntos:

a) Aprovação do plano de atividades 2012;
b) Aprovação de novos sócios efetivos e correspondentes;
c) O que ocorrer.


Santarém-Pa, 29 de maio de 2012.




Pe. SIDNEY AUGUSTO CANTO
Presidente do IHGTap

quinta-feira, 21 de abril de 2005

Tiradentes2

Em homenagem à data de hoje, apresento no blog uma poesia que fiz em 1984, homenageando o líder sindical Avelino Ribeiro da Silva, morto numa tocaia por causa de uma briga pela posse de uma terra, na rodovia Santarém-cuiabá.

Avelino era delegado sindical do Sindicato dos Trabalhadores Rurais e o conheci em um encontro de lideres trabalhistas no Emaús. Era um sujeito bandalho, que destoava do clima sisudo dos “companheiros” da época e gostava de “aprontar” com todos durante o encontro, fazendo coisas do tipo esconder sandálias de Milton Peloso no congelador, jogar a minha rede no alto das árvores, dar nós nas redes de outros companheiros, etc...

Avelino era tão malandro que sempre levava consigo uma mala preta, tipo 007, cheia de “apetrechos profissionais” que ele usaria nas suas brincadeiras.
Nesse mesmo encontro, uma de suas “vítimas” foi o grande líder sindical na época (hoje prefeito de Belterra), Geraldo Pastana, que tinha um sono pesado... Avelino aproveitou uma das pestanas de Pastana (desculpem o trocadilho infâme), abriu sua “bolsa de maldades” e tirou de lá uma agulha e um tubo de linha de nylon.
Sorrateiramente, frente a uma platéia que se “espocava” de rir, COSTUROU O CALÇÃO de Pastana na rede sem que ele acordasse! Ficamos todos ali, sentados, olhando o desfecho do xiste. Resultado: Pastana acorda olha em redor seus companheiros. Se espreguiça e resolve se levantar, acreditando talvez que seu liderados o aguardam para mais um de seus inebriantes discursos....
Qual o quê! Ao tentar sair da rede, Pastana fica pendurado pelo calção com joelho no chão e não consegue se levantar... A turba vai à loucura... Avelino gargalha e nós esquecemos que estamos ali para fazer revolução e rimos do nosso líder... momento inesquecível...

Daí que quando Avelino morreu, senti muito e cheguei a integrar um comitê formado para reverenciar sua memória, participando, inclusive, como ator de uma performance que apresentávamos nos bairros de periferia para recordar o sindicalista morto. Foi num desses intervalos que nasceu a poesia Desafio, que depois virou música e levei para inscrever no VII Festival de Música Popular do Baixo e Médio Amazonas, organizado naquele ano pelo jornalista carioca Mário Ennes (creio que já falecido), que liderava o Arteclube Acauã.

Como a Dita Dura ainda respirava, as músicas tinham que passar pelo crivo da Polícia Federal, e me alertaram que estavam censurando várias canções. Com medo, resolvi mudar o título e uma frase, para poder inscrevê-la.
E acabei homenageando Tiradentes, mas pensando em Avelino.

A música foi finalista, com o arranjo e a interpretação de um radialista e crooner de conjunto muito louco chamado Dioclau Wonder (?), que trabalhou comigo na Rádio Rural.
Fizemos no palco uma performance com ele cantando e eu chegando vestido de verdugo com um capuz, amarrando uma corda em seu pescoço enquanto ele dizia a última frase do refrão caindo no palco do anfiteatro Joaquim Toscano como se tivesse sido enforcado... (eu, anta, não registrei em foto, mas alguém que esteve aquele dia lá, deve se lembrar disso, e se tiver foto que me empreste...) apesar de toda a presepada não conseguimos ganhar nenhum prêmio!

Eis a poesia, com destaque para a frase original "auto-censurada":

Tiradentes (Desafio)

Quando uma luz brilhar
Foi um filho que partiu
E mãe-terra vai chorar
Pois foi ela quem pariu
Mas do solo vai brotar
Outro homem do Brasil...
(Refrão)
E haja ódio pra parar
Essa força que surgiu
Da boca de quem gritar
Tanta dor que já sentiu
O peito vai se estampar
Cor de sangue infantil
Que jorra um dia sem parar
E transborda feito rio...

Quando o coração parar
Foi a forca que subiu
[foi a bala do fuzil]
[Que] E calou esse penar
Por cantar seu desafio
Mas a chama vai queimar
E acender nosso pavio...

Tiradentes1


Tiradentes1
Originally uploaded by Jota Ninos.
"Se dez jogos eu tivesse, dez jogos eu jogaria!"

(Tiradentes, desafiando o juiz que antes de condená-lo à forca ameaçou-o dizendo: "Morrerás, se jogares mais um jogo em sua vida!")

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Vinte e um

A matéria relatada abaixo está entre os 21 textos que venho selecionando para o meu primeiro livro que será editado pelo ICBS (leia-se, Cristóvão Sena), uma coletânea de artigos, crônicas e reportagens que publiquei durante minha carreira em jornais e revistas regionais.

O livro se chamará “21 dedos de prosa (e outros tantos de poesia)”, devendo ser lançado em 21 de maio, quando completo 21 anos de profissão.

Além dos 21 textos em prosa, o livro trará também (como indica o título) 21 poesias de minha lavra. Como se nota, há uma fixação cabalística minha sobre esse número que vou explicar no preâmbulo do livro. Só falta ter o patrocínio de empresas que lidem com esse número (tem empresa telefônica e uma marca de cachaça...).

Alguém se habilita?