segunda-feira, 8 de maio de 2006

Estudantes voltam timidamente às ruas

Notícia do dia foi a manifestação de estudantes do ensino médio contrários ao aumento anunciado pela Prefeitura Municipal. Pelo que ouvi na 94 FM, teria havido inclusive cenas de repressão por parte da PM com a utilização de spray de pimenta. Pela manhã, o Blog do Jeso trazia a informação do movimento, com foto de Celivaldo Carneiro (postada acima), mas ainda sem esta informação adicional.
É interessante ver a juventude saindo às ruas novamente, mesmo que um pouco desorganizadas.
O curioso ainda é que no artigo que escrevi sexta-feira no Diário do Tapajós, falava exatamente sobre este Direito de Expressão e anunciava que este o tema seria debatido no programa Cidade Alerta, da TV Guarany (canal 15).
Lá o papo foi ainda mais amplo e bem conduzido pelos jornalistas Ronei OLiveira e Emanuel Júlio, que me entrevistaram e também ao mestre Manuel Dutra.
Em dado momento, falamos sobre a inércia do movimento estudantil diante dos atuais acontecimentos locais, regionais e nacionais, e externei minha posição de que a juventude precisava retornar às ruas e tomar em suas mãos o direito de se expressar, pois o movimento estudantil sempre foi propulsor de todos os movimentos sociais.
Por conta desta entrevista, recebi um e-mail do estudante da Uepa, Jorge Nascimento, que publico aqui no blog para socializar o debate, exatamente por expressar a mesma preocupação levantada naquele programa:
"Caro Jota Ninos,
Nesta sexta-feira, dia das comunicações, tive a oportunidade de assistir a sua participação no programa cidade alerta da Tv Guarany.
Sou universitário da UEPA e compartilho com você a preocupação com a falta de participação dos movimentos estudantis em Santarém. É verdade que hoje os estudantes não vão mais às ruas, lutar por seus ideais, mostrar a força da pressão popular, mas alguns fatos devem ser considerados:
1- Na época em que foi deposto o presidente Collor, os cara-pintadas contavam com apoio em massa das camadas populares, o que hoje não dispomos pois os governos atuais, com seus "programas sociais", que na verdade são políticas de tapar o sol com a peneira, acabam iludindo e viciando a população mais pobre que forma maior parcela da população. Isso é comprovadonas pesquisas de sucessão presidencial.
2- As facilidades de entrar nas instituições de nível superior hoje no Brasil, principalmente nas particulares, dão oportunidades a pessoas despreparadas cada vez mais alienadas de ingresso nas universidades efaculdades. Resultado: apatia estudantil.
3- As discussões nas universidades não pararam, apenas não se exteriorizaram por culpa dos próprios universitários e por culpa também da imprensa. Onde estava a imprensa quando discutíamos o Ato Médico? Quando discutimos o Sistema de Cotas nas universidades? No momento em que formávamos opinião sobre os mais diversos problemas sociais nos últimos anos? Onde estará a imprensa quando discutiremos a relação entre as ongs e os sojeiros na próxima quarta-feira,às 15:00 na UEPA?
Temos que ver que os cara-pintadas daquela época hoje estão no poder, frustrando a cada dia todos os sonhos pelos quais lutaram estudantes de todo brasil. O país está desnorteado, não sabemos em quem acreditar, mas asseguro-lhe que nunca perdemos nossos anseios de revolução e melhoras, nunca deixamos de produzir novas idéias, apenas deixamos de externá-las.
Quero resgatar esse poder e contar com os olhos da mídia para mobilizar a população a lutar pelos interesses coletivos e a formar opinião sobre as questões sociais. Para isso é preciso que a mídia se liberte dos laços com os gestores atuais, como posso citar a denúncia feita pelo jornalista Diogo Mainardi, colunista da revista Veja, sobre o também jornalista Franklin Martins, que se verdadeira deve envergonhar a classe.
Agradeço a atenção, um grande abraço".
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COMENTÁRIO: Jorge sua análise é consistente e concordo, em parte, com ela.
Com relação à mobilização dos estudantes em si, discordo quando você diz que "os cara-pintadas contavam com apoio em massa das camadas populares", na época do impeachment de Collor. Volto a reafirmar que o movimento estudantil sempre foi o motor de impulsão de todos os movimentos e nunca precisou de apoio dos outros grupos sociais, afinal a rebeldia e a livre expressão de um desejo é inerente da juventude, e isso se comprova com o movimento detonado hoje pela manhã. Você mesmo diz que "as discussões nas universidades não pararam", entretanto, acredito que não basta ficar debatendo entre as quatro paredes de auditórios acadêmicos e não envolver a população extra-muro das universidades.
Não tenho procuração de nenhum órgão de imprensa para esclarecer seus questionamentos sobre a ausência da mídia local em alguns dos eventos citados por você, mas posso garantir que pelo que conheço, nenhum colega da imprensa local tem restrições a qualquer destes movimentos (pelo menos até onde sei). E se não comparecem, pode ser um problema de melhor comunicação entre os promotores dos eventos ou então um problema de linha editorial que cabe aos proprietários das empresas decidir.
Externo seu desabafo e se algum colega (ou empresário) quiser, poderá comentar suas argumentações.
Obrigado.

Comunicação e expressão: mais que um ato, um direito(*)

Os atos de se comunicar e de se expressar são a essência do ser humano. Dito isso, vale a pena resgatar alguns conceitos que indicam que os dois atos tem uma certa distinção entre si.

Comunicar é um processo complexo que vem sendo explicado desde Aristóteles (meu inspirador eterno neste Perípatos), em sua obra sobre a Retórica. Não é simplesmente dizer alguma coisa, porque nem sempre o que se diz é captado como se quer (quando ocorre o que se chama de “ruído da comunicação”). Um bom conceito para definir o ato de comunicação seria “a capacidade de representação dos significados através de códigos, palavras, imagens, gestos, sons, mas também o modo de ser, viver e sentir das pessoas, ou seja, a cultura, que é produzida por uma civilização com a finalidade de comunicar suas informações a si e a outras gerações” (Suzana Sedrez).


O ato de se expressar pode ir ainda mais além da simples comunicação entre duas pessoas. A expressão do ser humano transita no mundo das ideias, dos sentimentos e das virtudes, como diria o próprio Aristóteles. Assim, todos nós nos comunicamos e, através desse ato podemos expressar o que trazemos em nossa alma. Ou seja, as duas funções juntas nos diferenciam dos animais irracionais.

Talvez por isso existam tantas datas em nosso calendário que lembram o ato de se comunicar e de se expressar. Até porque, a irracionalidade de quem detém algum tipo de poder, sempre há de se manifestar no sentido de impedir manifestações que se contraponham ao seu status quo.


Com exceção do mês de outubro (até onde pesquisei), durante o restante do ano todo existe um sem-número de datas que lembram as várias formas de comunicar e expressar.

Este mês que se inicia com o Dia do Trabalhador (aí envolvidos, também, os trabalhadores da comunicação) é um dos mais profícuos em datas, como as comemoradas anteontem (03/05), Dia Mundial da Liberdade de Imprensa e hoje, Dia Nacional da Comunicações. Este mês há ainda o dia do profissional de Marketing (08/05), o Dia Internacional da Comunicação e das Telecomunicações (17/05) e o Dia Mundial das Comunicações Sociais (31/05), instituída pela Igreja Católica a partir do Concílio Vaticano II.

A data de hoje relembra o patrono das comunicações no Brasil, o marechal Candido Rondon, que como descendente de índios além de defender a causa de sua gente, foi um dos pioneiros nas comunicações telegráficas do Brasil, tendo percorrido mais de 5.000 quilometro pelo país afora nesse trabalho.


Mais que a data de hoje, é importante lembrar a de anteontem, Dia Internacional pela Liberdade de Imprensa, que nada mais é que um dia pela liberdade de expressão (muito embora, a data para comemorar esse dia seja 28/09). Segundo relatório do Comitê Internacional para a Proteção dos Jornalistas, só em 2005 47 jornalistas foram assassinados e nos primeiros meses de 20066, outros 11 já perderam a vida defendendo este direito.

Logo mais estarei, juntamente com um dos mestres da comunicação local, o jornalista Manuel Dutra, no programa Cidade Alerta (TV Guarany, canal 15), debatendo exatamente esta necessidade de comunicar e expressar do ser humano, e principalmente de quem milita nas comunicações.

Para mim, pessoalmente, o mês de maio é marcante porque foi exatamente num dia 25 de maio, há 22 anos atrás, que eu comecei a trilhar os caminhos da comunicação profissional ao passar num teste como repórter na Rádio Rural. Três anos depois, em 13 de maio (Dia da Abolição da Escravatura), tive meu direito de expressão era pela primeira vez aviltado: fui processado por calúnia e difamação pelo prefeito da época, por denunciar em plena Nova República, um escândalo envolvendo milhares de sacas de cimento que seriam trocadas por uma área pública a ser doada a uma empresa de combustíveis.

Foi um dia ímpar em minha vida, com policial no estúdio da emissora, prefeito vociferando, depoimento na delegacia, sessão da Câmara lotada e manchete em jornal da capital. Mas foi, também minha consolidação como profissional polêmico e como referencial de uma juventude que não queria apenas se comunicar através das emissoras locais, mas que acreditava que a expressão de ideias era importante para reafirmar o processo de redemocratização do país.


Ainda hoje tenho orgulho de exercer esse direito, como todos os que fazem a comunicação local.
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(*) Artigo inserido na Coluna Perípatos (05.05.2006), que é publicada semanalmente no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Cabano

Fiquei sabendo, lendo comentários no Blog do Juvêncio, que tem um novo blogueiro na área. Acessei e gostei (principalmente porque ele costuma acessar o meu blog).
Indico o site do João Cabano, um bom polemista que tem participado de vários blogs com grandes sacadas.
Até hoje é um mistério quem está por trás deste pseudônimo, mas as tiradas do cara são boas...

Passeio na Várzea 1

Recebi só hoje do amigo Grazziano Guarany, gerente de informática da Tv Tapajós, as fotos que tiramos durante um passeio realizado no B/M Galileo de sua propriedade, há 15 dias, à comunidade de Igarapé-açu, onde mora o radialista Armando Carvalho (94 FM).
Além de mim e do Guarany (e seus filhos), estavam no passeio o jornalista Ormano Sousa (portal Notapajós) e seus filhos, e o técnico em informática Alex.
Lá fomos recebidos pelo Armando e família e vimos de perto a boa vida do repórter-celular, que todos os dias atravessa o rio para vir trabalhar aqui na cidade.
A partir de hoje vou postar algumas das fotos desta viagem, umas de minha autoria, outras de Ormano e outras do Guarany, começando (como bom narcisista que sou) pela foto que Guarany tirou de mim com o Tapajós ao fundo a bordo do B/M Galileo (com certeza o Tapajós é mais bonito...).

Vigia acusado de homicídio vai a júri popular

O Tribunal do Júri volta a se reunir nesta sexta-feira, 28 de abril, no segundo julgamento da 1ª temporada de júris da 6ª Vara Penal, sob a presidência do juiz Leonel Figueiredo Cavalcanti (foto).
Será julgado Nilton Gonzaga de Sousa, goiano, 45 anos, que encontra-se recolhido na Penitenciária de Cucurunã, acusado de ter assassinado a tiros de espingarda calibre 20, o jovem José Ailton da Silva, motorista, 26 anos, filho de Luiz Miguel da Silva e Maria Luíza da Silva, que residia na Avenida Plácido de Castro, 627, Caranazal. O crime ocorreu na noite de 10 de junho de 1995, na avenida Sérgio Henn, no bairro da Nova República.
O acusado, ao ser preso em flagrante, alegou à época dos fatos que era vigia de uma obra e que teria sido agredido por um grupo de jovens que passava pelo local e que, mesmo ferido, conseguiu pegar uma espingarda e atirar em um destes agressores, matando-o.
Uma cunhada da vítima, ouvida pela polícia, contou outra versão afirmando que passava no local vindo de uma festa com uma prima e com Ailton e que o vigia estava sendo realmente agredido por outras pessoas, e ferido, de posse de uma espingarda, teria investido contra a vítima acreditando que esta fosse um de seus agressores, matando-a e em seguida aplicando-lhe coronhadas na cabeça com a espingarda.
Nilton, conhecido como "Goiano", recebeu o benefício da Liberdade Provisória em 21/07/1995, mas como não foi mais encontrado para ser intimado da Sentença de Pronúncia que o levou ao Tribunal do Júri, teve sua Prisão Preventiva decretada em 09/05/2003, mas já se encontrava preso naquele momento na Penitenciária de Cucurunã pelo envolvimento em outro crime que teria cometido em Monte Alegre.
"Goiano" será defendido pelo Defensor Público Cláudio Araújo Furtado e acusado pelo Promotor Público da 1ª Promotoria de Justiça Criminal, a ser indicado pelo Ministério Público. Ele será julgado pelo crime de Homicídio Simples (artigo 121, caput, do Código Penal Brasileiro), podendo pegar de 6 a 12 anos de prisão.
O julgamento começa às 8 horas da manhã de sexta-feira, no salão do Tribunal do Júri, no Fórum de Santarém.

O Açougueiro Vegetariano

Recebi um texto de um grande amigo que, tímido, pediu o anonimato:
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Um certo dia no distante reino encantado de Tudopodelandia um famoso vegetariano resolveu abrir um açougue, qual não foi a surpresa de seus familiares, amigos, vizinhos, todos enfim que o conheciam e tantas vezes o tinham escutado falar dos malefícios de se comer carne e das incontáveis vantagens dos alimentos de origem vegetal, mas irredutível o Açogueiro argumentava:

- Não existe conflito nas duas coisas.

Firme na sua decisão da nova empreitada o homem não ouvia ninguém.
Enquanto o Açogueiro preparava o novo prédio e reformava os móveis do novo estabelecimento as pessoas continuavam a comentar sobre a incongruente jornada, eis que no boteco da esquina, Zecabondessenso surge com a seguinte colocação:

- Meus amigos deixem o homem em paz, na certa uma das duas coisas vai acontecer, ou ele perde a credibilidade como vegetariano, o que não é ruim pois todos os que deixarem de sê-lo também podem comprar-lhe a carne, ou então ele transforma o açougue numa frutaria ou num “açougue vegetariano” onde não precisa vender carne.
Ôh botiquineiro, desce mais uma cachaça sem álcool por favor!
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Comentário do blog: o que tem açougueiro desse tipo por aí, não tá no gibi...

sábado, 22 de abril de 2006

Quando a cultura serve de barganha para ampliar o poder(*)

A notícia que circulou esta semana nos bastidores políticos é de que a prefeita Maria do Carmo deve anunciar na terça-feira, 25/04, o novo coordenador municipal de Cultura. Depois de um hiato de mais de dois meses, já não era sem tempo. O problema é a articulação que acontece por trás desta indicação.
Um dos 11 secretários que já ocuparam esta pasta nestes 20 anos, me confidenciou certa vez que “a secretaria de cultura é o almoxarifado das sobras de campanha”. Ou seja, um perfeito cabide para candidatos a vereador derrotados, cabos eleitorais frustrados e apadrinhados sem qualificação. Agora, negociar o cargo para ampliar o poder político da administração ainda não havia acontecido.
Tudo indica que o cargo será do PL (Partido Liberal), que apesar de ser aliado nacional do PT foi o seu rival na última campanha municipal com Alexandre Von e elegeu dois vereadores, inclusive a presidente da Câmara, Beth Lima. O presidente regional do partido, deputado Raimundo Santos (santareno de nascimento, oportunista de ocasião) e evangélico, teria indicado o pastor Carlos Alberto, presidente municipal do partido. Em troca, Maria passa a ter uma bancada de sustentação de 10 dos 14 vereadores da Câmara.
Muita gente teme que um pastor à frente de uma coordenadoria de cultura é no mínimo preocupante. Qual seria sua atuação diante de eventos tidos como “profanos” na ideologia evangélica, como o carnaval e o Sairé?
Creio que a discussão não deveria resvalar para uma querela religiosa. Afinal, por conta do inferno astral em que a cultura se encontra, quem sabe não estejamos precisando até de um exorcista ou quem sabe de um pai-de-santo?
A cultura local vive um momento de desmobilização. Dos movimentos organizados de cultura, o único que sobrevive à duras penas é o do teatro. A ATAS tenta reorganizar sua diretoria e reagrupar os mais de 20 grupos de teatro amador espalhados pelos bairros (o Gruteja, uma das referências do movimento, este ano praticamente deixou de existir e nem apresentou a tradicional Paixão de Cristo). Já o carnaval, o folclore, a música, a poesia e as artes plásticas, vivem o marasmo nunca dantes visto e até o único cinema que tínhamos, fechou!
Além disso, não se consegue organizar o Conselho Municipal de Cultura e nenhuma das teses defendidas no I Fórum Municipal de Cultura realizado em julho do ano passado, saiu do papel. Entre elas, a maior aspirações de todos os grupos culturais: a definição de um espaço para eventos culturais. É triste acompanhar a situação da Casa de Cultura, onde no último Projeto Pixinguinha por pouco vimos músicos de renome como Jane Duboc tendo que usar guarda-chuva para escapar das goteiras do palco!
Recentemente foram criadas duas ong´s culturais (Alas – Academia de Letras e Artes e Instituto de Pesquisa e Promoção Cultural Kauré) que tentam resgatar as 7 artes, mas ainda estão longe de serem um movimento estruturado.
Será que vale a pena arriscar este patrimônio cultural em troca de apoio político?
Estou convencido de que administrar é coisa de administrador, no sentido lato da palavra. Se o pastor reunir estas condições, tudo bem.
Mesmo assim, fica a pulga atrás da orelha. E a torcida para que nome tenha maior afinidade com a cultura, como o do médico e compositor João Otaviano (também do PL), mas que pode ser carta fora do baralho.
[Em tempo: ontem mesmo a prefeita Maria do Carmo acabou empossando o novo coordenador. Como era esperado, deu o pastor Carlos Alberto Silva, responsável pela Igreja da Paz do Santarenzinho. A antecipação da posse, de certeza, foi para diminuir o desgaste poítico antecipado do novo coordenador, diante da reação dos setores culturais pela imprensa].
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(*)Artigo inserido em minha coluna Perípatos, publicada ontem (21.04.2006), no Diário do Tapajós, edição regional do jornal Diário do Pará.

sábado, 15 de abril de 2006

Quando será desbancado o cartel dos ônibus?(*)

Todo início de ano é a mesma coisa: o sindicato dos rodoviários ameaça entrar em greve e na mesma época, empresas de transportes coletivos pressionam a prefeitura a aumentar a tarifa dos ônibus. Coincidência ou não, os interesses antagônicos entre as duas classes convergem para o mesmo ponto: o bolso do cidadão.
A reivindicação de uma categoria trabalhista é legítima, quando baseada em argumentos sólidos que envolvam a preservação de direitos salariais à luz da defasagem imposta por parâmetros econômicos. Por outro lado, é direito de uma empresa que tem a concessão de um serviço público essencial, como são os transportes urbanos, reivindicar uma tarifação que não prejudique o serviço prestado. Mas o condicionamento de um em relação ao outro, sugere uma orquestração espúria com requintes de cartel econômico.
O agravante nesta questão é que há muito tempo as empresas de transportes coletivos não oferecem um serviço condizente com o esperado pela população. É bem verdade, porém, que a prefeitura até hoje também não conseguiu cumprir com um projeto condigno de asfaltamento do chamado “cinturão viário”, por onde passam as principais linhas de ônibus. Isso dá um pretexto às empresas para apresentarem planilhas de gastos com manutenção que justificariam a majoração da passagem nos ônibus.
Mas há outras questões em debate que poderiam diminuir a pretensão das empresas nesse processo de majoração dos preços, e que nem sempre é colocado nas mesas de negociação:
1) A frota tem sido renovada nos últimos dez anos, mas ainda não atingiu um patamar aceitável para uma cidade como Santarém que pretende ser metrópole e futura capital de um estado. Ainda há muita lata velha, sucateada, que veio de outras cidades e roda – descaradamente, até com pinturas e avisos das empresas – impunemente pela cidade;
2) Nenhuma empresa até hoje, fez qualquer investimento para adquirir veículos modernos e adaptados para uma população cada vez mais crescente: os cidadãos com necessidades especiais, cadeirantes ou não. Nesse quesito, a própria prefeitura até hoje foi incompetente em adequar a cidade para estas pessoas;
3) O trajeto utilizado pela maioria das linhas de ônibus de Santarém sequer utiliza a metade do trecho das empresas de capitais como Belém, para justificar uma tarifa equânime;
4) E por fim, o mais importante, a capacitação dos profissionais do volante não segue um padrão que pudesse fazer com que a população sentisse orgulho de seu transporte público. Na maioria das vezes encontra-se um motorista ou cobrador que mais parece um cavalo no atendimento (que me desculpem os eqüinos pela comparação), principalmente aos idosos.
No dia em que um prefeito tiver coragem de combater com estes argumentos, a população poderá dizer que elegeu um representante digno do cargo.
E se as empresas chiarem, tem um jeito para acabar com o cartel: abra-se uma concorrência pública para a regularização definitiva da concessão do serviço.
Quem quiser trabalhar de forma correta, deve respeitar a cidade e não utilizar-se de subterfúgio para continuar prestando um desserviço à população.
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(*) Artigo inserido ontem (14.04), em minha coluna Perípatos, publicada semanalmante no encarte regional Diário do Tapajós, que circula duas vezes na semana no Diário do Pará

sexta-feira, 7 de abril de 2006

Mulheres, as mais amistosas no meu blog

Dizem que a alma do poeta é feminina. Daí o lado mulher aflorar com mais força quando da construção de textos. Até porque o processo de criação, segundo uma tese da psicologia, equipara-se ao processo da gestação: primeiro o poeta se APAIXONA, depois ENGRAVIDA e por fim GERA uma idéia (às vezes até ABORTA uma idéia mal formada).
Todo esse preâmbulo foi para agradecer as diversas manifestações que recebi na semana passada, através de contatos diretos, mensagens de celular e e-mails, pelo aniversário deste maltratado blog.
E como de todas as mensagens recebidas a grande maioria foi de mulheres, resolvi divulgar abaixo algumas das mais interessantes, e uma de um amigo homem (bendito fruto...), blogueiro que nem eu:
Jota querido, parabéns por manter no cyberespaço a chama dos loucos apaixonados pela vida e pela arte...que transpira em ti...Ser Jota...no meio de tantas letras...no mínimo um acorde do Alfa-beto...
Abração, Leíria Rodrigues (radialista e poetisa santarena)
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Parabéns pelo níver. Gostei de ver o blog atualizado. Gostei mais ainda de seu texto na coluna Perípatos sobre a infiltração na Língua Portuguesa. Vou usá-lo em sala de aula, aqui em Macapá. Vai ser muito bom discuti-lo com os alunos. Sei que vão sair boas opiniões. Obrigada pelo texto. Um grande abraço,
Jeane Oliveira (jornalista santarena, atualmente professora concursada em Macapá)
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Olá! Ninos.
Parabéns! Que o blog continue firme e forte.
Marluce (leitora fiel)
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Prezado Jota Ninos,
Parabens!!! pela passagem de um ano de blog, também pela inicaitiva e trabalho realizado ao longo deste período. Sem dúvida, a estratégia de informação/comunicação que você tem utilizado é muito importante. Principalmente quando se faz um trabalho serio e responsavel.
Nossos votos de sucessos na continuidade das notícias.

Saudações,
Vera Bertagnoli (Diretora do IESPES)
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Sempre achei que tinhas alguma coisa a ver com a revolução de '64, que levou os milicos ao poder! Agora tenho certeza, "militante"! Nada melhor que um dia após o outro. É a minha vingança pelos "igarapés", lembras? Continue sendo sempre você, caro amigo. Parabéns pelo dia.
Abraços, Jubal Cabral
(geólogo e blogueiro)
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Outro Registro:
Ah! isso depende muito, por mais que eu goste da boa musica, goste de cultura, de historia, de estudar, de conversar (que eu gosto mesmo), às vezes é bom sentar num buteco, falar merda, ouvir besteiras (sem "musicais" ou não) e tomar umas. Prefiro ouvir o "Trote do tio" que sentar num bar e ouvir Amado Batista (questão de gosto), isso não me torna menos seletiva que quem não ouve o trote, e falando nele, tem deixado de tocar ou sou eu que não ouço radio? Mas que a voz eh "fofa" isso é!
Leitora que se assina Emela, dando seu ponto de vista sobre meu artigo "Trote tatibitati travestido de melô"

O fim da via crúcis da Paixão teatral(*)

A atabalhoada apresentação realizada ano passado na praça Tiradentes, durante mais uma Semana Santa, foi na verdade a morte – talvez sem ressurreição – do já aclamado “maior espetáculo ao ar livre do Estado do Pará”. Vai-se, como já se foram outros eventos culturais desta terra, a peça que já fazia parte do calendário cultural do município, “Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo”, que era apresentada há 15 anos pelo Grupo Teatral José Anchieta, criado pelo padre verbita (da Ordem do verbo Divino) José Dillon no final dos anos 1980, na paróquia de São Raimundo.
Depois de muitos desacertos, o espetáculo deixa de ser apresentado com a pompa de antes, mas os moradores da paróquia onde tudo começou, não desistem: há algumas semanas acompanho a movimentação de paroquianos empenhados em realizar a mesma encenação, utilizando como palco a bela e reformada praça do Centenário (a popular praça de São Raimundo) e a igreja do padroeiro.
Hoje, apesar de não ser mais morador da comunidade, mantenho uma relação próxima com o bairro, não só porque a família de minha esposa vive e faz parte da história da paróquia de São Raimundo, tendo inclusive esta contribuído com a construção do colégio de mesmo nome, mas também por manter atividades culturais com amigos do bairro.
Alguns destes amigos iniciaram suas atividades com o padre José Dillon - que também conheci na época em que ainda não era jornalista e trabalhava no escritório da CUT (que funcionava no convento de São Raimundo, onde os verbitas ainda hoje se alojam) – e como integrantes do Gruteja participaram da via crúcis do grupo, que foi se esfacelando por conta de brigas internas e da utilização de sua estrutura por políticos inescrupulosos que fizeram dele trampolim para sua aspirações partidárias.
O grupo cresceu e depois que o espetáculo passou a ser “patrimônio cultural do município”, através de Lei Municipal, surgiu o projeto megalômano do ex-vereador petista Marco Aurélio Magalhaães, o Marquinho (mais um dos pupilos do padre Edilberto Sena que não deu certo), que era um dos promissores jovens da paróquia (ironia do destino, hoje ele é pastor evangélico e presidente municipal do PSDB!) e convenceu o grupo a levar o espetáculo para o estádio Jader Barbalho.
Surgiram as primeiras dissidências e dentro destas, outras facções, contas mal contabilizadas, prejuízos e assembléias marcadas por maniqueísmos políticos de um vereador em decadência (Marquinho nunca mais se elegeu e até hoje cumpre apenas o papel de Sancho Pança de Aldo “Quixote” Queiroz, eterno candidato a qualquer coisa).
Concluindo, sempre que a cultura e a arte estiverem a serviço de ideais político-partidários, o destino será a morte, sem direito à ressurreição.
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(*) Artigo inserido em minha coluna Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

sexta-feira, 31 de março de 2006

Dossiê PT – estórias que não gostaria de contar

Já se vão três meses da publicação do último capítulo da saga que me propus contar aqui neste blog, sobre a trajetória do Partido dos Trabalhadores em Santarém. Retorno neste dia em que o blog completa seu primeiro ano em atividade (ainda que sem atualização diária como era minha vontade), contando como aconteceu o primeiro “racha” da famosa “Corrente”, ala majoritária que comandou o partido durante muitos anos e tornou-se referencial de luta e organização no norte do Brasil.
Capítulo V – O primeiro “racha” da Corrente (parte I)

Antes de falar desse “racha”, é interessante lembrar os bastidores da eleição para o Diretório Municipal que “expurgou” a facção dos Sena e Feitosas do poder petista local. Como disse no primeiro capítulo, a Corrente perdeu a primeira eleição para o Diretório Municipal em 1981 e, sem a maioria, perdia todas as votações para o grupo comandado pelo padre Edilberto na direção do partido.
Por esse motivo, a Corrente utilizou de toda a estrutura de sua militância e saiu fundando núcleos de base em todos os bairros da cidade e comunidades do interior. Depois criou o famoso “internúcleos”, que funcionava na verdade como um “Diretório Paralelo” onde se discutia toda a estratégia para retomar a direção do partido com o único propósito de “botar o PT na mão dos trabalhadores e tirar da mão dos pelegos”.
Esse era o clima que reinava nos bastidores. Mas apesar desse poderio, a Corrente não queria correr o risco de perder a votação por qualquer detalhe de última hora. Foi quando encontrou uma solução para acompanhar os passos de nossos adversários: foi convocado um companheiro recém-chegado à Santarém para atuar como “espião infiltrado” da Corrente junto ao grupo liderado pelo padre Edilberto Sena!
O então ex-seminarista Dornélio Silva, hoje consultor de marketing em Belém, retornava à Santarém já casado com uma santarena que conheceu na capital, a hoje socióloga Socorro Brasil (atualmente em Belém, trabalhando também na área de consultoria de marketing com seu ex-marido), com o objetivo de recomeçar sua vida por aqui. Ele tinha um projeto de criação de pintos, já que sua família ainda morava em um terreno na vila de Cucurunã (onde ele nasceu), mas o investimento não deu certo. Filiado ao PT em Belém, ele acabou indo trabalhar na antiga Catequese Rural (hoje, CPT – Comissão Pastoral da Terra) ao lado das conhecidas “cajazeiras”, como eram carinhosamente chamadas Izabel Miranda (atualmente casada com Ranulfo Peloso vivendo em São Paulo e chegou a ser candidata a vice-prefeita de Geraldo Pastana, em 1985), Jandira Pedroso (irmã do empresário Jair Pedroso e que até hoje trabalha no Setor de Pastoral da Diocese) e Maria de Lourdes, a Lurdinha (atualmente é professora e, se não me engano, assessora da Semed). As três trabalhavam com o frei Rainério, religioso que atuou na Transamazônica e “descobriu” os Ganzer).
Por sua amizade com José Maria Piteira (ex-seminarista como ele e atualmente jornalista e assessor de imprensa vinculado ao PSDB em Monte Alegre), que vinha a ser irmão do então secretário-geral do PT, Dinaldo Pedroso (conhecido como “Nal” e que atualmente é meu cunhado, assim como Piteira, morando em Aveiro), Dornélio se dispôs a se aproximar de “Nal” e demonstrar que não tinha nenhuma vinculação com a “Corrente”, participando de reuniões e demonstrando-se solícito para qualquer atividade como forma de mapear o território do inimigo.
Setembro de 1983. Ginásio do antigo Centro Social Urbano (hoje UEPA). As duas facções repetiam o mesmo confronto de dois anos atrás pela direção municipal do partido. Só que desta vez não deu outra: a Corrente elegeu Valdir Ganzer (hoje deputado estadual) como presidente e fêz a grande festa. As informações do “espião” Dornélio haviam sido importantes para a conquista.
A derrota do grupo opositor revelou também o clima de discórdia que imperava em suas hostes. A sina de Edilberto de ser traído por suas crias começava ali. Nal e Mário entraram em choque com o nosso eterno “padre comunista”, como as elites sempre chamaram o irrequieto Edilberto e seguiram outros caminhos. Enquanto Mário foi para o PMDB (seguindo seu então líder regional petista, Durbiratan Barbosa, o “Bira”, primeiro presidente regional do PT, hoje deputado estadual do PSDB), Nal continuou no partido, mas igual “cachorro sem dono”.
Disciplina stalinista - Aqui abro um parentesis para me localizar neste período e mostrar como a disciplina da Corrente era rígida.
Naquele ano eu estava com 20 anos e era um dos mais novos e empolgados membros da Corrente. Atuava em várias frentes, entre elas a poderosa Comissão de Formação Política, formada ainda por Ranulfo Peloso, Izabel Miranda e Valdir Ganzer, que disseminava a ideologia petista nos núcleos de base. Além disso, como todo petista da época, acumulava outras atividades como sindicalista (tinha acabado de retornar de São Bernardo-SP, onde participei da fundação da CUT – Central Única dos Trabalhadores, braço sindical do PT, representando o então reativado Sindicato dos Comerciários), líder da Juventude Petista (grupo que organizava os jovens militantes do PT), coordenador do núcleo do PT no bairro de Santana onde residia na época, membro do Comitê Avelino Ribeiro, entidade criada para resgatar a memória do primeiro sindicalista rural morto nesta região por causa de um conflito de terra (em breve conto um pouco desta história) e membro do MOP – Movimento de Organização Popular, idealizado por Pedro Peloso para fomentar a criação de associações de moradores nos bairros de periferia.
A Corrente havia recebido naquele ano a incumbência do Diretório Regional (o PT nacional já havia intervido no Diretório Regional e Bira Barbosa e seu grupo havia debandado para o PMDB) para reorganizar todos os diretórios da região, criados pelo pessoal do Mário Feitosa. Fui designado junto com outra militante da Transamazônica para acompanhar a convenção municipal em Almeirim e articular a chapa de oposição ao grupo ligado a Mário, e se possível sair de lá com a ata da convenção em mãos.
O problema é que ao viajarmos encontramos no mesmo barco meu futuro cunhado, Nal, com os ditos documentos em sua bolsa. Me aproximei dele e mantive uma relação cordial arquitetando um futuro bote. Lá chegando, Nal que conhecia todo mundo saiu visitando os filiados do PT e eu me ofereci para acompanhá-lo na tentativa de me infiltrar em suas bases. Em minha ingenuidade, acreditei que Nal havia engolido a farsa, já que ele conversava comigo como se não houvesse qualquer animosidade e me levava a todas as casas. Aceitei até sair à noite para tomar uns tragos (imagina eu que não sou de beber). Acabei sendo embriagado e dormi na casa de uma família amiga de Nal. No dia seguinte, de cabeça tonta, percebi que tinha sido enrolado, pois logo se espalhou que eu tinha ficado porre! (Nal, acostumado a beber, devia estar rindo da minha cara...).
Mas na convenção do PT acabou havendo consenso entre os dois grupos e foi votada uma chapa única, só que ao terminar o encontro, Nal voltou a se apossar da ata e a carregou em sua bolsa. Voltamos juntos e eu querendo me vingar, botei na cabeça que roubaria a ata, a qualquer custo daquela bolsa. A companheira que me acompanhava, uma senhora que não me lembro o nome e que era lavradora da Transamazônica, tentava me impedir de cometer outro desatino, mas eu não sossegava. Quando chegamos ao cais de arrimo, ele me deu a bolsa para levar enquanto buscava outra bagagem. Era a chance que eu esperava: tirei os documentos, botei na minha bolsa e fiz de conta que não tinha feito nada. No cais, em frente ao Mercado Modelo, Nal logo abriu sua bolsa e viu que eu havia furtado a bolsa. Passamos a discutir e ele arrancou a minha bolsa para tirar a ata e protagonizamos uma cena patética: dois galalaus disputando uma ata no cais! Ele levou a melhor e por pouco ganhei um catiripapo...
Por conta disso recebi uma reprimenda pública durante uma reunião do Diretório Ampliado (ver o próximo parágrafo) e acabei, logo depois, “designado” para implantar um núcleo do MOP no bairro da Matinha, além de reforçar o núcleo petista que funcionava lá e que estava desativado. Isso implicava em morar na Matinha (numa casa onde hoje ficam os limites com a Nova República, por trás do Motel Delíriu´s), o que na verdade era quase que um “castigo” por eu ter infringido normas básicas de minha conduta petista naquela tarefa.
O julgamento - Passado o clima de festa, os militantes petistas arregaçam as mangas para reorganizar o PT em Santarém dentro da filosofia stalinista da CSLU – Corrente Sindical Lavradores Unidos, capitaneada pela FASE, ONG então comandada em Santarém pelo consultor Antonio Vieira (leia mais detalhes no primeiro capítulo). A estrutura do Internúcleos foi encaixada no Diretório Municipal, que passou a ser chamado de “Diretório Ampliado”, já que além dos 21 membros eleitos tinha um conselho de 50 lideranças que atuavam em diversas comissões de trabalho dando seqüência ao ritmo que imperava no Internúcleos.
Os primeiros dias pós-eleição foram de adaptação da máquina partidária. A Executiva do partido reuniu-se e decidiu as prioridades. Uma delas era estabelecer que o novo secretário-geral deveria se dedicar exclusivamente ao PT e seria remunerado (era o que se chamava no movimento de “militante liberado”, ou seja, aquele que era pago pelas entidades para trabalhar por elas, mas sem vínculo empregatício. Podia ser um dirigente ou não). Ali começou o “racha” da Corrente.
Eleito secretário-geral do PT, o professor Gilmar Pereira (hoje atuando no ensino modular) não gostou da determinação. Na época, ele havia acabado de passar no vestibular da primeira turma regular de pedagogia da UFPa. e era professor contratado do Estado na escola São Felipe na Matinha (esqueci de dizer que Gilmar morava comigo e com Orlando Gamboa, hoje assessor da Semed para o interior). Pedro Peloso, que tinha grande influência nas decisões majoritárias do grupo insistia que ele devia abandonar a Escola e a Universidade para se dedicar ao partido! Era o embate entre um líder pragmático que sempre questionou a academia (até hoje Pedro, apesar de ser um autodidata, nunca tentou sentar num banco de universidade) e um ex-seminarista e intelectual em formação (Gilmar acumula hoje pelo menos três cursos de graduação e especializações).
A Executiva aprovou a proposta de Pedro. Gilmar, resignado, acatou e não renovou seu contrato com a escola. Naqueles dias, eu e Orlando fomos testemunhas do acabrunhamento de Gilmar, que vivia o dilema de ter que abandonar a universidade em nome de uma causa.
Enquanto isso, eu me esforçava para organizar o MOP na Matinha, usando sempre a mesma técnica dos primórdios de nossa organização: o teatro engajado (leia mais no capítulo Capítulo III – A “pré-história” do PT em Santarém/parte 2). Gilmar tentou me fazer ver que os métodos que eu usava eram maniqueístas. Achei que ele estava interferindo em algo que eu havia aprendido a fazer e que naquele momento não podia entender que houvesse outras formas de organizar aquele povo. Fiquei com a pulga atrás da orelha, mas guardei as observações comigo.
Dias depois, numa nova reunião da Executiva houve o confronto: Gilmar resolveu questionar a decisão da Executiva e afirmou que podia até largar a escola, mas não queria abrir mão de seu curso. Argumentou que era importante que houvesse militantes capacitados nas universidades. Mas Pedro considerou tal posicionamento como inaceitável. Os dois se alteraram e no final, Gilmar bateu o pé: não largaria seu curso. Pedro ameaçou de levar o caso ao Diretório Ampliado. Gilmar disse que tudo bem. Estava iniciada a guerra.
O Diretório Ampliado reunia-se periodicamente, se não me engano, de três em três meses. Em abril de 1984 aconteceria a segunda grande reunião e a pauta previa o “julgamento de conduta do companheiro Gilmar”. Logicamente que ninguém sabia de nada antecipadamente. A briga entre Pedro e Gilmar na Executiva havia acontecido um mês antes (se não me falha a memória). No dia do encontro, que sempre se realizava numa chácara em São Braz (onde hoje funciona o Centro de Formação Chico Roque), Pedro abriu o encontro e apresentou o problema ocorrido na Executiva. Explicou com detalhes a posição de Gilmar. Este apresentou sua defesa. Houve uma “votação” e a plenária (por unanimidade) aprovou a decisão da Executiva. Mas Gilmar anunciou que não acataria a decisão. O clima ficou tenso. Houve posicionamentos inflamados sobre “a responsabilidade pela causa” e a “traição aos princípios da luta”. Reforçou-se a tese stalinista do “centralismo democrático” pela qual “um militante tem que acatar o que é decidido pela maioria, sob pena de sofrer punições”. Estavam criadas as condições para o julgamento sumário do companheiro Gilmar.
No intervalo para o almoço, Gilmar, abatido, nos chamou (eu e Orlando) num canto e tomou uma atitude honrada que nunca esquecemos. Ele disse: “não quero que sofram o que estou sofrendo, por isso recomendo que quando forem votar, votem com a maioria. Não ficarei zangado com vocês”. Havia um clima de que seria decidida a primeira expulsão de um companheiro do PT. Confesso que apesar de comovido com o que disse Gilmar, não podia conceber que Pedro estivesse errado e Gilmar não. Orlando parecia atordoado.
Quando abriu-se a votação, a Comissão Executiva do Diretório Ampliado apresentou a acusação e qual seria a punição: Gilmar deveria renunciar ao cargo, mas ficaria sob vigilância de uma comissão de companheiros e seria designado um bairro ou comunidade onde ele deveria morar por um ano com tarefas pré-definidas como forma de contribuir com sua recondução ao caminho certo, caso contrário deveria ser expulso do partido. A proclamação da “sentença” caiu como uma bomba. Nem Gilmar acreditava que Pedro e os outros seriam capazes de tal crueldade! Colocada em votação, a proposta foi aprovada por unanimidade! (confesso, votei nessa ignomínia!!!)
Gilmar foi chamado para se pronunciar e, chorando, disse que aceitar aquilo era humilhante. Anunciou que entregaria o cargo e garantia que se afastaria da estrutura partidária, sem se desfiliar, mas não aceitaria que ninguém comandasse sua vida. Desejava sorte aos companheiros e prometia que não trairia os ideais do PT. Foi um soco no estômago de todos. A gente via no semblante da maioria dos companheiros um quê de arrependimento. Eu e Orlando estávamos atônitos. Gilmar recolheu sua “boroca” e saiu. O clima era tenso. O PT não seria mais o mesmo, para todos nós. O “racha” estava apenas começando...
O resto deste triste episódio conto na segunda parte deste capítulo (espero que em breve...)
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Blog de Níver

Há um ano atrás, nesta data em que se rememora também a negra data do golpe militar de 1964, este blog entrou no ar com a intenção de informar e opinar sobre os mais diversos temas, entre eles política, cultura e notícias que rolam na internet.
O primeiro post era um extenso currículo deste blogger (coisa típica de jornalista narcisista). Aos trancos e barrancos venho mantendo o blog, sem entretanto fazer uma atualização diária como gostaria.
Em comemoração à esta data, postarei logo mais um novo capítulo de meu famoso "Dossiê PT - estórias que gostaria de não contar".
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Ontem à noite participei do lançamento do novo formato do Diário do Tapajós, com a presença do presidente do grupo Diário do Pará, Jader Barbalho Filho.
O jornal circula hoje no formato standard e não mais no de tablóide, numa iniciativa da empresa Pódium capitaneada pelo jornalista José Ibanês, que comanda hoje a sucursal regional do Diário do Pará em Santarém.
Minha coluna Perípatos ganhou mais destaque, agora ao lado da coluna social de Denise Marsala.
Reproduzo aqui o texto desta nova fase do jornal:

Tamanho é documento!
Hoje esta coluna estará sendo lida no formato conhecido como standard, o que me faz afirmar que estou mais “espaçoso”...
Isso me remete a outros tempos de meus mais de 20 anos em redações locais. A tradição dos jornais impressos na Amazônia em optar por esse formato, foi seguido à risca na formação das primeiras experiências de sucursais regionais implantadas aqui, já na década de 1980: A Província do Pará, através do antigo Jornal de Santarém (do saudoso Arthur Martins, o primeiro a acreditar em meu potencial jornalístico) e o próprio Diário do Pará quando de sua primeira tentativa de implantar uma sucursal (com o também saudoso Mário Ennes, em 1985, com quem também trabalhei).
A bitola de impressão em formato standard sempre implicou na opção por um maquinário de impressão off-set e, geralmente, na utilização de um parque gráfico com as chamadas “rotativas” que imprimem em escala industrial e já entregam o produto final encadernado e pronto para distribuição, produtos de alto custo para os padrões de cidades do interior da Amazônia como Santarém. Nos dois casos citados acima, as despesas corriam por conta da matriz.
Por conta disso, a maioria das publicações jornalísticas locais, com raras exceções, ainda hoje utilizam o formato tablóide ou outros ainda menores, dando sempre margem a um complexo de inferioridade de quem trabalha nos semanários que utilizam esse tipo de bitola.
Eu, particularmente, nunca senti esse complexo com formato e trabalhei do mesmo jeito nas mais diversas bitolas, principalmente por saber que em outras regiões como o sul do Brasil, o que importa é o conteúdo da informação e não o formato (e nem é preciso ir muito longe, quando temos aqui o Jornal Pessoal, de Lúcio Flávio Pinto, que é pequeno mas incomoda). Lá, os principais jornais, até pelo menos algum tempo atrás (faz tempo que não recebo em mãos nenhum exemplar atualizado de jornais como o Diário de Santa Catarina e outros do mesmo nível que sempre gostei de ler), utilizavam o formato tablóide muito embora seguissem os mesmos padrões de produção em escala industrial e com a utilização do maquinário já citado.
A primeira experiência de um jornal com esse mesmo formato e com produção local e custos bancados aqui mesmo, foi efetivada n´O Tapajós (1986/1994) ao comando de Vânia Maia e do mestre Manuel Dutra que formaram uma das melhores equipes de jornalismo da época com Dornélio Silva, José Ibanês, Bena Santana, Jota Parente, os irmãos Carneiro (Jeso e Celivaldo) e este humilde escriba, entre outros. De lá para cá surgiram outras experiências locais, algumas bem sucedidas outras não, como a do jornal Estado do Tapajós (primeira versão), que tinha uma produção mista (metade feita aqui e metade em Belém), mas acabou fechando por outras motivações.
Hoje, o Diário do Tapajós entra nesta nova era e passa a ter o mesmo formato de sua matriz, concretizada agora pelo esforço conjunto da editora Albanira Coelho e do diretor da sucursal, José Ibanês, que resolveram ousar e enfrentar os riscos que o custo de tal investimento possa ter.
A proposta já era discutida desde a implantação da sucursal, da qual também participei chefiando a redação. Na época, falava-se num lançamento gradual e à medida que a experiência fosse se consolidando, avançaria-se para outra etapa do projeto, até se chegar á condição de um jornal realmente diário local, como nenhum um outro ainda o é. Já houve experiências de jornais bi-semanais (O Tapajós e este Diário do Tapajós) e até tri-semanais (Gazeta de Santarém), sendo que a mais próxima de um diário ainda é a do jornal O Estado do Tapajós (segunda versão) publicado de terça à sábado.
A nova empreitada, que tem apoio da matriz mas com a possibilidade de ganhar a autonomia financeira no decorrer da experiência, ilustra a visão empresarial da direção do Diário do Pará, que continua apostando nesta proposta de tornar-se um diário identificado com os problemas da região.
Parabéns à equipe pelo novo espaço. Agora, vem mais trabalho pela frente!

quarta-feira, 29 de março de 2006

Língua viva

O sempre perspicaz publicitário e blogueiro Juvêncio Arruda (www.quintaemenda.blogspot.com), um dos poucos leitores deste desatualizado blog, comenta poeticamente meu artigo inserido ontem aqui neste espaço:
Língua viva.
Viva cultura.
Cultura língua.
Lingua liberta.
Liberta cultura
Viva libertae
Tempo língua
Cultura tempo
Vive língua.
Muda.

terça-feira, 28 de março de 2006

Do you speak Português? (*)

Uma pessoa normal de grandes ou médios centros urbanos - como Santarém pretende ser – pode instalar-se confortavelmente em frente a um home theater em sua casa, pedir uma pizza delivery e assistir ao Big Brother. Ou ainda, vestir uma roupa baby look, baladear na Fun House ou no Escalper. Pode também pegar seu filho, que estuda no baby class de uma grande escola, para passear no shopping center (quando houver) e, depois de fazer compras aproveitando o off shore, saborear um milke shake no primeiro fast food. Mas se for uma pessoa mais culta, pode até participar de um workshop, em cujo intervalo saboreará certamente um coffee break, e depois retornará aos debates sobre um interessante tema: “A importância da língua portuguesa nos dias de hoje”.
Seria cômico se não fosse trágico, mas a cultura yankee se apossou do nosso dia-a-dia de tal forma que uma simples narrativa do cotidiano de um cidadão comum, como a que fiz acima, necessite de uma tecla SAP para o melhor entendimento do texto.
Num mundo marcado pela ideologia consumista, é quase impossível não aderir aos modismos da linguagem hi-tech com predominância do inglês, língua-mater de quem manda no mundo. Para isso contribuem também, programas de televisão que alimentam a cultura pop para a geração MTV ou os chats, flogs, blogs e outros “spaces” que permeiam nossa era digital, nos cybercafés de cada esquina. Hoje é mais fácil um adolescente saber de cor a música de grupos como Linkin Park ou System of a Down do que cantarolar (nem que seja uma estrofe incompleta) o Hino Nacional. Longe de mim fazer uma crítica ufanista e retrógrada, recheada de nacionalismo patriótico de caserna. Mas acho que se houvesse uma política educacional mais definida em nosso país, os exageros poderiam ser contidos.
O debate sobre os estrangeirismos da língua tem sido a tônica em algumas aulas do curso de jornalismo que freqüento e sempre se chega a uma triste constatação: como frear o avanço dessa invasão, se é que isso seja possível? Renomados lingüistas afirmam que a “língua vive em constante evolução” e que nesse processo pode sofrer as mais diversas influências, absorvendo ou não alguns dos termos que logo se tornarão abrasileirados. Não pode haver maior exemplo do que o nosso futebol, que já foi o foot ball dos ingleses e que aos poucos ganhou a ginga nacional.
Para se defender essa tese, usa-se até mesmo do exemplo dos estrangeirismos franceses, que tomaram conta do país no início do século XX, já que era très chic se expressar nessa língua, de tal forma que acabamos importando garçons, garçonières, bombonières, abajures e todo o glamour dessa língua prima do português, da família latina. O mesmo não se pode dizer da língua espanhola, o primo pobre, predominante na América Latina da qual também fazemos parte. Preferimos atravessar as fronteiras do México e cair nos braços do Tio Sam.
Falando nos franceses, eles nos dão uma luz de como iniciar um processo para evitar essa invasão, ao criarem leis que impedem tal aviltamento de sua língua.
Por aqui, um deputado chegou a apresentar um projeto no Congresso Nacional neste sentido, mas tem sido bombardeado por todos os lados. Não conheço a proposta, mas sou simpático a qualquer idéia que pelo menos coloque o tema em debate, muito embora não se possa imaginar que seja possível estancar abruptamente esse processo.
Tudo depende da educação que se possa ter, principalmente na escola, começando pelo velho jardim de infância. Depois de se fechar o tal “baby class”, onde tudo pode começar...
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(*)Artigo inserido em minha coluna Perípatos, publicada em 24.03.2006, no Diário do Tapajós, edição regional do Diário do Pará

sábado, 11 de março de 2006

Júri condena acusados de assassinar soldado em Alenquer

A 1ª sessão do Tribunal do Júri de Santarém de 2006, sob a presidência do juiz Leonel Figueiredo Cavalcanti, que responde pela 6ª Vara Penal, terminou às 23h00 desta sexta-feira (10/03) e condenou os dois acusados da morte do soldado da Polícia Militar João Boaventura Farias de Siqueira, em Alenquer, há cerca de nove anos. Clausius Pinto Dias, conhecido por “Calcinha” foi condenado a 17 anos de reclusão e Edelvani Pinto Rodrigues a 22 anos.
O Ministério Público defendeu a tese de Homicídio Qualificado (art. 121, §2º, I e II c/c art. 29 do CPB) para os dois réus, enquanto a defesa apresentou quatro teses que foram derrotadas: negativa de autoria, insuficiência de provas, crime cometido sob violenta emoção e menor participação no delito.
Os dois réus não foram presos imediatamente em virtude de recurso impetrado pelo advogado Raimundo Renato Carvalho Maués em relação ao primeiro condenado e Apelação por novo júri para o segundo, podendo os dois aguardarem a decisão em liberdade, como já havia ocorrido com o terceiro réu do mesmo processo, Paulo Rangel da Silva Pinto, conhecido como “Paulo da Cosanpa”, que foi julgado e condenado em novembro do ano passado a 20 anos de cadeia.
O novo júri de Edelvani e Paulo ainda será definido pelo juiz do feito, enquanto que em relação a Clausius, o recurso deverá ser encaminhado à segunda instância.
Testemunha – A grande surpresa do tribunal foi o depoimento da testemunha Joelmicley Fernandes dos Santos, considerada testemunha ocular que negou seus depoimentos perante à polícia e ao juiz de Alenquer, quando apontou os três réus como autores do crime.
Ele disse que foi coagido pelo delegado de polícia Olavo Carneiro e pelo promotor Benedito Sá e pelo assistente de acusação Wálter Dolzanis para acusar os três. Num depoimento cheio de contradições, Joelmicley não convenceu os jurados que acabaram votando entre os quesitos propostos pelo promotor Mário Brasil, pelo falso testemunho, que vai lhe custar um procedimento criminal.

Contribuição linguística para zelosos edis (*)

Alter-do-chão já foi chamada de “Caribe da Amazônia”, mas há outro epíteto que mais se adequa à nossa Vila Borari: “Babel Tropical”. Não só pela eterna invasão de turistas de todas as partes do mundo, mas principalmente pelas polêmicas lingüísticas que lá se travam.

Pra começar, o próprio nome da vila até hoje é controverso e pelo menos uma das explicações para a sua origem seria a de que na primeira missa rezada por jesuítas portugueses em suas brancas areias teria sido usado um altar rente ao chão. Daí, o altar, no sotaque português interpretado pelos nativos, soar como “alter”... do chão. Nem sei isso é verdade, mas faz sentido.


Aí veio o tal do Sairé, que de repente virou “Çairé” por motivações de marketing, e causou um frisson linguístico e uma guerra cultural entre intelectuais ou não. Recentemente saiu o “Ç” e voltou o “S” e talvez numa próxima administração voltemos ao “Ç”. Tudo dependerá de que “lingüista político” estará no poder.


Agora chegou a vez de substituir a batalha de farinha do “Carnalter” por uma nova batalha lingüística. Diante da mediocridade do carnaval em Santarém, os blocos com nomes de duplo sentido praticamente quintuplicaram em menos de uma década de “Carnalter”. Só que isso criou um novo frisson entre nossos zelosos edis, que resolveram levantar a bandeira da moralidade contra essa ousadia popular.


Como se não houvesse mais nada de importante para se discutir no plenário da Câmara, três vereadores resolvem promover mais uma contenda linguística de cunho inquisitório, pela moral e pelos bons costumes de nossa gente...


Resolvi fazer um pequeno estudo e propor nomes mais pudendos aos blocos, como sugestão à cruzada moralista dos nossos zelosos edis. Para isso, reli um dos fascinantes textos do sarcástico escritor carioca Millôr Fernandes, de seu livro “Tempo e Contratempo” (1954). Na crônica “Provérbios modernizados”, Millôr utiliza de seu estilo mordaz e reescreve de forma erudita ditados populares que do alto de sua singeleza “nos ensinam antigas lições”, como diria Vandré.

Assim, o velho ditado “De grão em grão a galinha enche o papo”, transforma-se num texto de refinamento científico digno de ouvidos intelectualizados: “De unidade de cereal em unidade de cereal, a ave de crista carnuda e asas curtas e largas da família das galináceas, abarrota a bolsa que existe nessa espécie por uma dilatação do esôfago e na qual os alimentos permanecem algum tempo antes de passarem à moela”. 


Seguindo o mesmo estilo “milloriano”, aqui vão minhas sugestões para os nomes de blocos do Carnalter, de forma a não ferir os sensíveis ouvidos de nossos ilustres representantes do Poder Legislativo no ano que vem:


1.Bloco “Existe uma ave cracídea num pedaço de madeira!” (“Há Jacu no pau”);

2.Bloco “Nego-me a doar o mamífero procionídeo que me pertence” (Não dou meu Kuati);


3.Bloco da “Ave Columbídea” (“A Pomba”);


4.Bloco “Aplica teu olfato numa ave psitacídea pequena” (“Xeira o Periquito”);


5.Bloco “Tira o órgão linfóide situado no hipocôndrio esquerdo!” (Arranca Baço”)



Espero ter contribuído com os senhores edis para que moralizemos nossa língua em pleno carnaval, pois como disse o próprio Millôr no mesmo texto: “Aquele que anuncia por palavra tudo que satisfaz ao seu ego, tende a perceber pelos órgãos da audição coisas que não se destinam a aumentar-lhe o sentimento de euforia” (traduzindo: “Quem diz o que quer, ouve o que não quer!”)
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(*)Artigo inserido hoje (10.03.2006) em minha coluna semanal Perípatos, publicada no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará. O artigo também gerou polêmica esta semana no Blog do Jeso.

sábado, 4 de março de 2006

Carnalter: democracia de farinha e asfalto (*)

Se havia alguma dúvida sobre qual o carnaval ideal para Santarém, os milhares de foliões de Momo que tomaram de assalto as estreitas ruas da vila de Alter do Chão, não deixaram pedra sobre pedra.
A verdadeira democracia carnavalesca emergiu da mistura da farinha de trigo (ou amido de milho, ou ainda, spray de espuma) ao asfalto, tudo isso regado a chuva, suor e álcool. O resto é artimanha para tirar dinheiro da prefeitura para os decadentes blocos que insistem no “carnaval-espetáculo”.
Apesar de não ter samba no pé, resolvi ver de perto o tão badalado “Carnalter” e me convenci do que sempre defendi em artigos e reportagens: está na hora de deixar o povo extravasar as intempéries de 360 dias, nos cinco dias mais alegres do ano.
Sem essa de “sambódromo”, “verbas para blocos”, “troféu para vencedores” ou a velha dúvida hamletiano-momesca (ser de enredo ou de empolgação?).
O Carnalter vem crescendo em importância nesse debate, desde as primeiras manifestações de alguns abnegados santarenos que, há uma década, buscavam uma alternativa de um carnaval sem frescuras. Foi quando surgiu a idéia dos blocos puxados por carros-som e com nomes de sentido duplo que expressam a síntese das festas dionisíacas e de um verdadeiro bacanal momesco, digno de Baco (Dioniso), deus da mitologia grega: “Há Jacu no pau”, “Não dou meu Kuati”, “Arranca Baço” ou outros ainda mais impublicáveis (por serem ainda mais diretos).
Este ano, foi a vez do bloco “A Pomba” surgir com centenas de brincantes e com uma organização de deixar muitos dos tradicionais blocos do carnaval de rua de Santarém, com a “pulga” atrás da orelha...
Com abadás, trio-elétrico, um sambinha em ritmo de frevo e até videoclipe na TV, não teve quem não quisesse entrar n´A Pomba (com perdão pela armadilha lingüística que a frase contém...)!
O Carnalter só não supera (por enquanto) o Carná Pauxis, de Óbidos, onde a mesma filosofia já faz daquela festa item obrigatório na agenda de turistas-foliões que buscam algo diferente e excitante, unindo a paisagem exótica da Amazônia ao delírio anarquista do carnaval, como nos velhos tempos, à base de farinha e asfalto.
Quando será que essa gente que comanda a cultura local vai atentar a isso? O Carnaval é uma festa popular e ganhou ares de espetáculo no Rio de Janeiro, onde o investimento do crime organizado e de políticos, transformou a festa num show milionário. Tentar seguir essa mesma filosofia e esquecer que estamos mais perto do carnaval nordestino (dos trios-elétricos baianos e dos frevos pernambucanos) do que do onírico carnaval carioca, é no mínimo falta de bom senso.
Será que é preciso novas quedas de secretários, brigas de dirigentes, atrasos, chuvas e um “espetáculo” pífio na orla dos tais “blocos”, para que se busque uma nova alternativa?
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(*)Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada na edição de ontem (03.03.06), do Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará. Leia mais sobre esse tema no post "Em busca dos textos perdidos".

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Devolvam meu Olympia! (*)

Às vezes até esqueço que nasci em Belém, há 42 anos, e que vivi lá até o início de minha adolescência transitando na avenida Presidente Vargas e seguindo a Serzedello Corrêa, entre as praças da República e Batista Campos. Basta surgir uma notícia sobre coisas que vi e vivi para que eu caia numa nostalgia profunda e desconheça a cidade que me serviu de berço.
A notícia mais recente foi o fechamento do meu cinema favorito, o velho Olympia da praça da República, mais um que sucumbiu à modernidade das salas multiplex e dos confortos que DVD´s e Home Theater podem proporcionar à nova geração de “cinéfilos”, adoradores de Titanic´s e Van Dammes da vida... Fala-se que pelo menos não deve ser transformado em templo evangélico ou coisa parecida. Talvez um centro cultural.
O que dizer de um lugar onde vivi a magia com filmes infanto-juvenis da década de 70 e antes, que em nada se comparam com muitas das produções descartáveis de hoje? Havia uma aura de ingenuidade própria de uma geração de classe média que mal sabia que havia uma ditadura nas ruas batendo em gente, e vivenciavamos produções culturais de qualidade. Nada “emburrecedor” como as “comédias” de hoje que mostram adolescentes debilóides enamorados por tortas de maçãs!
Me esbaldei assistindo “Se meu fusca falasse”. Viajei ao lado de “Mary Poppins” e seu guarda chuva voador. Me empanturrei em “A fabulosa fábrica de chocolates” (versão original), além de me encantar com os desenhos de “Tom e Jerry”, da Warner e “A dama e o vagabundo”, da Disney.
Como esquecer as primeiras produções nacionais dos Trapalhões, quando ainda havia graça assistir Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum e Zacarias?
Ou ainda, adolescente, viver a época dos filmes-catástrofe da era spielbergueana (“Tubarão”, “Maremoto”, “Destino de Posseidon”, etc.).
Foi numa destas sessões que vivi meu próprio inferno astral: fui barrado na estréia do “Inferno na Torre”! Esse era o maior “mico” que um garoto da época podia pagar. “Olha pessoal, o João foi barrado!!! Ah!Ah!Ah!”. As risadas ecoaram por muito tempo em meus ouvidos. Apesar de ter uma idade incompatível com o filme (naquela época havia censura para todas as idades), sempre fui o baixinho da turma e o porteiro cismou em me proibir de entrar! Voltei pra casa chorando, baixinho, e do alto de meu apartamento no 24º andar do Manoel Pinto da Silva (esse pelo menos, continua lá, imponente), podia olhar o porteiro de cima pra baixo.... Como vingança, sempre que posso assisto aquele filme quando passa na TV (“Ah!Ah!Ah! pra você, porteiro!”).
Além dos filmes, o Olympia era especial pela bomboniére (o Mentex era indispensável nas matinés, quando tentávamos roubar um beijo no escurinho do cinema). E ao sair, aquele cachorro-quente na rua ao lado ou a compra de gibis do Homem-Aranha ou do Hulk, na banca de revistas completavam nosso deleite.
Por tudo isso é que eu brado, mesmo sem eco: “Devolvam meu Olympia!!”
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(*) Artigo inserido em minha coluna Perípatos, publicada na edição de hoje (24.02.2006), no Diário do Tapajós, edição regional do jornal Diário do Pará.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Polêmica educacional

- Ao se falar em gestão, como fica o papel da 5ª URE que sempre foi vítima de indicações políticas desconsiderando capacidade técnica, para ser apenas trampolim de eternos candidatos derrotados, que usam da estrutura apenas para transformar professores em cabos eleitorais?
Esse é um dos questionamentos que levantei esta semana no Blog do Jeso, sobre a recente publicação do ranking do ENEM, que mostra a decadência das escolas públicas de ensino médio em Santarém. Pedagogos de renome em nossa cidade estão debatendo o assunto, no blog mais democrático destas plagas.
Acesse, leia, reflita, comente e recomende.

Um trote tatibitate travestido de melô (*)

“Cê tá de sacanagem comigo!...”
A enigmática frase encerra mais uma das porcarias que nos enfiam pelo rádio e materializa o sentimento de quem quer ouvir música de verdade. As rádios estão realmente de sacanagem com a gente, emprenhando nossos ouvidos de baboseiras que sequer podem ser consideradas músicas.
Esse o caso do novo “hit” do verão nas rádios FM, o tal do “Melô do tio” ou “Trote do tio” (na verdade o nome é "Trote da Eliana". Se quiser ouvir a bomba, clique AQUI), uma farsa eletrônica com um diálogo tatibitate entre uma suposta criança e um idiota acerca de um bebê que estaria ficando sem ar porque a outra criança teria lhe dado comida de cachorro!
O diálogo é embalado por uma música incidental sampleada e recheado de recursos eletrônicos de mixagem sonora (que os DJ´s adoram usar), descobre-se ao final que tudo não passa de um trote telefônico. Ou melhor, um trote musical a quem quer desfrutar de uma boa música.
O tal “trote” já não pára de tocar nas rádios, e, como rastilho de pólvora, a novidade passa a contaminar um sem número de jovens que acham “legal a parada”, passando a pedir que o radialista reprograme o “sucesso”. Numa rápida espiadinha no Google descobri que o tal melô já é líder em várias listas de músicas mais tocadas pelas FM´s Brasil afora.
Ou seja, o idiotismo e a mediocridade entre os programadores de música deixou de ser exceção para ser regra. Afinal, uma excrescência como essa só tem espaço dentro de uma concepção consumista e descartável que humilha a inteligência dos ouvintes.
Por outro lado, há de se convir que se tal “obra” encontra eco na audiência, o problema é ainda mais grave: grande parte da juventude que acompanha a programação radiofônica acaba se encantando com porcarias como essa que só cabem em cérebros de minhoca. É o que eu chamo de “geração MTV”.
Isso já vem acontecendo gradativamente nas últimas décadas com produções como as do dublê de apresentador e cantor Sérgio Mallandro, a “Florentina”, do palhaço-”cantor” Tiririca ou a “Egüinha Pocotó” de um tal MC Serginho que se faz acompanhar de um travesti esquelético conhecido como Lacraia. Cada qual teve seu auge nas programações radiofônicas e televisivas, enquanto foi novidade. Depois sumiu.
Nessas horas dá até pra ter saudade de quando a produção musical de segunda classe se resumia ao besteirol da Xuxa ou às babaquices do Tchans da vida. Aliás, é possível que ali estivesse apenas começando um grande complô pela banalização cultural.
Com o surgimento dos Mamonas Assassinas, esse tipo de produção escrachada travestida de música chegou a ganhar um quê de inteligência. Mas não passava de uma banalidade mais bem elaborada e que acabou virando “cult” por causa da morte prematura do grupo num acidente aéreo.
O que ainda falta acontecer? Quem sabe se dentro de algum tempo não teremos que ouvir pelo rádio “músicas” inspiradas em dejetos fecais, flatulências, vômitos, escarros e outras excrescências humanas?
Será que nossos ouvidos continuarão servindo de penico?!
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(*)Artigo inserido hoje (17.02.2006), em minha coluna semanal Perípatos, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Em busca dos textos perdidos

Um dos poucos leitores dos textos de meu blog, ao acessar minha página estes dias, soube que o jornal Diário do Pará disponibilizou um link para o encarte regional do Diário do Tapajós.
Como não inseri o texto completo de meus últimos artigo, o amigo foi tentar lê-los através do link que eu coloquei aqui, mas sofreu uma decepção: o link só levava ao último texto inserido lá na edição on-line do Diário. Ou seja, quem não entrar na semana da publicação do meu texto, só poderá ler o último texto inserido!
Diante disso, passo a publicar a íntegra dos últimos textos, para quem não os acompanhou quando estavam disponíveis no link do Diário.
E a partir de agora não cometerei mais este erro. Achei que o Diário manteria um arquivo de tudo o que foi linkado. Lêdo engano.
Vai primeiro o artigo sobre o Carnaval, publicado em 20.01.2006:

Aqui, nem tudo acaba em samba...

O assunto que dominou (e sempre domina) os noticiários neste início de ano (e somente agora) é o carnaval de Santarém. Ninguém fala mais nisso depois que o carnaval acaba.
Carnaval? Que carnaval? Há muito tempo que a quadra momesca em nossa cidade não passa de uma tragicomédia de erros.
Este ano, com a saída do competente (um dos poucos da atual administração) coordenador de Cultura, Roberto Vinholte, o tal do “carnaval santareno” ganhou ainda mais em tragédia, mas no final, sem dúvida, não passará de uma triste comédia.
Até meados da década de 1980, o carnaval de rua manteve o glamour e chegou a ostentar inclusive um discutível título de “um dos melhores do norte”. Época em que havia até “escolas de samba” e um apoio maciço de verbas da prefeitura, que pouco eram fiscalizadas.
O investimento de prefeitos que não tinham nenhum compromisso com o bem público (pois nem eleitos eram, já que Santarém foi Área de Segurança Nacional até 1985), transformou o carnaval em uma fonte de renda para “carnavalescos” e, provavelmente, em fonte de desvio de recursos para políticos.
Com a volta da democracia, a farra também começou a ruir: surgia em 1986, de um lado, a ASAC - Associação Santarenas de Agremiações Carnavalescas, que tinha como objetivo organizar os desfiles e intermediar a relação com o Poder Público e do outro, a Secretaria Municipal de Cultura.
Só que o que poderia ser sonho acabou virando pesadelo: o diálogo deixou de existir pois a maioria dos integrantes da ASAC, principalmente seu fundador, o advogado Geraldo Sirotheau, eram opositores do então prefeito eleito, Ronaldo Campos e o primeiro gestor de cultura, o historiador João Veiga dos Santos, que apesar da bagagem cultural era tão irascível e autoritário quanto seu prefeito no trato das questões culturais.
Resumo da ópera: o samba começava a entrar no descompasso e a relação do poder público e de quem faz o carnaval foi ficando conturbada a cada carnaval. O “carnaval santareno” definha até hoje como manifestação cultural, e entrou na esfera da disputa política ou, no mínimo, da busca de recursos para a sanha de meia dúzia de “carnavalescos”.
Que me perdoem os brincantes dos blocos, mas boa parte das agremiações é liderada por pessoas que não tem o verdadeiro compromisso cultural e muito menos tino organizacional. Com isso, o que se vê é um espetáculo canhestro e o eterno debate se queremos um carnaval “de enredo” ou “de empolgação”.
Quem sabe não seja hora de acabar com o que já não existe? Ou então, voltar a sofrer horas na avenida a espera do próximo bloco que pouco se difere dos “sujos”, verdadeiros foliões de Momo que nada tem a ver com toda essa polêmica.
Afinal, o povo nessa história toda (e em outras), já sambou faz tempo...
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Agora, o artigo do dia 27.01.2006:
Ervas daninhas renascem mais fortes, quando adubadas

A democracia brasileira ainda é frágil.
Se compararmos nosso estágio político com o da evolução do Homem poderíamos dizer que saímos apenas do período Paleolítico ou Idade da Pedra Lascada (Ditadura) para o período intermediário da evolução da espécie humana, o Mesolítico (Eleição direta).
Em suma, vivemos numa era mezzo lascada, mezzo polida, como convém a uma boa pizza de político, mais longe da Idade da Pedra Polida (Neolítico) do que possa imaginar nossa vã filosofia. Afinal, eleição não é tudo.
Depois da eleição indireta do Tancredo e do (des)governo Sarney, caímos num poço profundo chamado Collor, encharcado de dólares e sangue. Lodaçal. Mas, logo nos recuperamos e ao “tirá-llo” do poder acreditou-se que o mal foi cortado pela raiz. Lêdo engano: outros escândalos ainda estavam por vir. E veio o Escândalo dos Anões do orçamento e mais cassações...
Passado esse período, mais uma vez acreditou-se que a democracia começava a ser consolidada quando chegou o “reinado” de FHC e seu PSDB. Novos escândalos só não vieram à tona (como o caso da privatização das Teles) porque o Real encobriu a real condição do Brasil. Lula não passava de um “sapo barbudo” e o PT continuava a ser uma utopia pós-muro de Berlim.
Oito anos de enganação depois e quase nenhuma cassação de político, chegamos ao Poder (assim acreditamos)! O Brasil dava exemplo no cenário mundial e Lula era o herói preparado por Duda para nos redimir... até que a lama voltou a escoar por um valerioduto.
Renúncias e cassações de políticos envolvidos com a corrupção voltam a nos dar o alento de que a depuração do processo político está a um passo, mas sempre existe um político disposto a ser o nosso “Freddy Kruger”, aquele monstro hollywoodiano que assombra adolescentes com seus pesadelos.
Além das armações nos bastidores da CPI, vem um deputado (do Pará, o indefectível Nicias Ribeiro) propor o aumento das bancadas de alguns estados. Mais deputados: a solução!? E não é só isso: agora uma emenda no Senado pode aumentar as vagas em nossas Câmaras Municipais!
Sou um democrata convicto e tenho que acreditar que sairemos desse estágio quase letárgico, para uma era em que plantar idéias e sonhos seja o caminho para colher a felicidade. Como já disse um poeta “tanta flor nasce do esterco, perfumando a escuridão”!

Mas como em toda a plantação é preciso acabar com as ervas daninhas, antes que elas acabem conosco. Adubá-las pode ser perigoso: elas renascem mais fortes e ao invés de ervas podem se tornar plantas carnívoras.
Que venha a Idade das Flores sem espinhos!
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Agora é a vez do texto do dia 03.02.2006:

Governador chega hoje à Santarém. E daí?

Como jornalista, há mais de 20 anos acompanho as passagens meteóricas de nossos governadores por esta região, geralmente em períodos que antecedem campanhas políticas. Por isso, a passagem do governador Simão Jatene, hoje, de nada servirá, a não ser para mais um show de demagogia devidamente registrado em vídeo para gerar aquelas peças publicitárias que mostram um Pará que a gente nunca vê por aqui.
Para quem vai acompanhar este périplo pela primeira vez, é bom que tenha em mãos um roteiro, para não sair do figurino.
Tudo começa no aeroporto: Jatene desce acenando, talvez de boné e uma camisa de mangas nas cores do PSDB (amarelo e/ou azul). Coisa de marqueteiro...
Não faltará a indefectível fila de bajuladores estaduais e “aspones” (alguns tentando posar de papagaios-de-pirata, por serem candidatos a candidato) na cerimônia do “beija-mão” já no saguão do aeroporto, orquestrada pelas palmas de um efusivo Surdão (“Muito Bem!).
À frente da turba, decerto estará nossa ilustre prefeita Maria “sorridente” do Carmo, se sentindo pinto no lixo! Dever de ofício?
No hall de entrada, repórteres afoitos coletarão respostas previsíveis à perguntas que sempre se repetem. Tomara que desta vez Jatene não seja grosseiro com nenhum coleguinha, como já foi em outras vezes. Como pessoa, ele até é um tipo bonachão. Diria até que como governador, Jatene é um excelente boêmio. Combina com ele muito mais uma rodada de cantoria ou uma pesca no rio do que os compromissos protocolares. Talvez por isso ele às vezes se estresse e esteja ensaiando o discurso “já me vú”...
Depois, assinatura de papéis para a liberação de verbas que hão de vir para obras que hão de ser feitas. Não perguntem sobre conclusão, pois isso é um exercício de futurologia.
Fora do aeroporto, faixas com dizeres ufanistas do tipo “Obrigado, governador!”. No tempo em que o PT era um partido de massas, haveria uma manifestação já na Fernando Guilhon, próximo ao Santarenzinho. Hoje não convém...
Visitas às obras. Não importa que o canteiro seja o mesmo visitado da última vez. Fotos aos montes. O governador é um astro pop! Gravação de entrevistas nas TV´s locais, para repetir as mesmas lorotas de sempre.
Ao final do dia, as chamadas “classes produtivas” de Santarém, recepcionarão o governador na Associação. Baterão palmas ao discurso brilhante. Alguns chegarão a se derramar em elogios. Quem sabe até com uma comenda. Convém só falar mal dele quando já não estiver aqui. A surpresa será se um deles levantar irado e esculachar o governador. Mas isso é utopia, todo empresário sabe onde o imposto dói...
Nova comitiva até o aeroporto. Adeuzinho na escada do avião... missão cumprida. O Oeste do Pará agora é outro!
Passagens de governadores por Santarém são uma festa. Os “mocorongos” (no sentido mais pejorativo que possa haver) vão ao seu encontro em busca de algum espelhinho...
Afinal ainda vivemos no período da colonização...
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Por fim, o texto da semana passada (10.02.2006): que ainda pode ser lido no link, mas que a partir de amanhã deve ser excluído:

A Síndrome da Cabanagem atropela o debate amazônico

Pulmão do Mundo”, “Última fronteira”, “Celeiro do Brasil”. As denominações são várias e a intenção é apenas uma: a Amazônia não tem o direito de se desenvolver e deve ser preservada para “servir o país e o mundo”. O amazônida fica reduzido à condição de mero espectador do progresso alheio.
O debate já ocorre há décadas, mas foi à partir da Conferência Eco-92 realizada no Rio de Janeiro (1992), que ficou mais clara a existência de dois grandes blocos nessa discussão: os ambientalistas e os desenvolvimentistas. Os primeiros, representados por ONG’s (Organizações Não-Governamentais) ambientalistas financiadas por entidades estrangeiras. Os segundos, tendo à frente empresários do setor madeireiro e agropecuário.
A verdade é que a falta de uma política governamental mais clara para a Amazônia, ajudou a acirrar o debate e até hoje não há um meio termo. O senso comum é que todos querem um futuro melhor do que presenciamos hoje, sem que isso signifique a destruição de nossos recursos naturais.
Mas para que se chegue a um denominador comum, seria necessário o bom senso de ambas as partes, desarmando-se de quaisquer objetivos partidários para analisar friamente os projetos que começam a ser implantados ou planejados para a região. Não adianta ser somente contra ou somente a favor. Tanto os ambientalistas, quanto os desenvolvimentistas, devem ter o discernimento sobre que desenvolvimento queremos e a que custo.
A criação de um pólo agrícola na região é, sem dúvida, interessante do ponto de vista do desenvolvimento e criação de divisas. Mas não se pode esquecer a agricultura familiar, o que não significa manter a cultura de subsistência ou as práticas de puro extrativismo predador. Enquanto ONG’s criticam a criação desse pólo sem apresentar propostas racionais, os projetos caminham e às vezes são implantados “na marra”.
Depois que o caldo entorna, é difícil reparar os erros. Até hoje não vi nenhuma ONG questionar a possível produção de produtos transgênicos na região. Estão mais preocupados de vociferar contra a implantação dos pólos agroindustriais, mas não atentam para um problema maior que pode advir da produção dos transgênicos (experiências devem estar sendo realizadas, mas ninguém fala sobre o assunto).
O mesmo vale para a construção de estradas, ampliação de portos ou barragens. Assim como a delimitação de áreas através da criação de Florestas Nacionais (Flona), Reservas Extrativistas (Resex) e outros tipos de áreas de conservação ou preservação ambiental.
Não podemos ser contra o desenvolvimento e nem contra propostas que visem defender nosso patrimônio natural. O que está faltando é que todos sentem e discutam a Amazônia de dentro para fora, não de fora para dentro. Devemos discutir o que queremos para a nossa região, sem a interferência de projetos megalômanos que não levam em conta as questões regionais ou a intromissão de agentes externos que investem dólares para manter-nos como um gueto de biodiversidade ou um aquário de estudos.
Vivemos ainda sob a égide do que chamo de Síndrome da Cabanagem: tivemos a oportunidade de ser um país-Amazônia, fomos sufocados por nossa própria desorganização e viramos massa de manobra de elites políticas compromissadas com esquemas putrefatos ou ainda, com grupos organizados que escondem intenções escusas atrás de boas propostas de defesa da cidadania.
Que Amazônia, afinal, queremos?
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UFA! UMA OVERDOSE DE TEXTOS, NÃO?
Amanhã insiro o mais novo, que estará sendo publicado nesta sexta-feira.
Um abraço ao amigo Jota Parente, ligado aqui no blog, lá de Itaituba...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

A Síndrome da Cabanagem atropela o debate amazônico

"Pulmão do Mundo”, “Última Fronteira”, “Celeiro do Brasil”. As denominações são várias e a intenção é apenas uma: a Amazônia não tem o direito de se desenvolver e deve ser preservada para “servir o país e o mundo”. O amazônida fica reduzido à condição de mero espectador do progresso alheio".
Trecho de meu último artigo inserido em minha coluna Perípatos, publicada na sexta-feira (10/02/2006) no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.
Leia o artigo completo clicando AQUI.

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Governador chega hoje a Santarém. E daí?

"Como jornalista, há mais de 20 anos acompanho as passagens meteóricas de nossos governadores por esta região, geralmente em períodos que antecedem campanhas políticas. Por isso, a passagem do governador Simão Jatene, hoje, de nada servirá, a não ser para mais um show de demagogia devidamente registrado em vídeo para gerar aquelas peças publicitárias que mostram um Pará que a gente nunca vê por aqui".
Este é o trecho inicial de meu artigo sobre a visita de Jatene à Santarém, publicado na coluna Perípatos no Diário do Tapajós, na última sexta-feira, suplemento regional do Diário do Pará. Leia o artigo completo clicando AQUI.