quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Dossiê PT - estórias que não gostaria de contar

Capítulo I - SER OU NÃO SER PT?
1981. Setembro. bairro da Interventoria. Começa oficialmente minha relação de paixão e ódio com o PT. Mais paixão do que ódio.
Naquele dia, participei da fundação do primeiro núcleo de base do PT - partido dos Trabalhadores. Eu, como muitos garotos de classe média, detestava política. Por isso, era difícil entender como estava ali numa reunião em um bairro de periferia presenciando um momento histórico para tanta gente humilde que apostava numa nova "ferramenta" de luta, como chamávamos o partido. Nem havia me filiado, mas estava alí com uma missão: mobilizar as bases para um dia chegarmos ao PODER!
2005. Quase setembro. O PT chegou ao poder, mas tudo parece um pesadelo. Aqui estou eu no meu blog iniciando uma jornada que pode ser considerada por alguns petistas históricos (e histéricos) como a "Apologia à delação". Não há prêmio para que eu exponha algumas dessas histórias. Não há "delação" do meu ponto de vista. Chamo de catarse, pois sinto que um sonho me foi roubado. "Tu já nem és militante do partido e até trabalhaste com o PFL", diria algum patrulheiro ideológico (e idiota) petista. Meia-verdade. Para mim ser PT nunca foi uma condição sine qua non do militante. Ser PT era um estado de espírito, antes de ser socialista, comunista ou simplesmente democrata. Ser PT, para mim, é cerrar os olhos e voltar ao tempo naquela reunião na Interventoria. Nunca houve em mim uma dúvida hamletiana sobre isso, até o momento que Roberto Jefferson começou a regurgitar um PT que não era meu.
O PT que eu ajudei a fundar, afundou...
Daí a necessidade de contar algumas das histórias que vivi de perto, mesmo que eu seja execrado pelos ex-companheiros. Fica a pergunta: peco eu por revelar essas histórias ou pecam os "companheiros" por não revelar as podridões que agora surgem em cadeia nacional? Que se explodam! Não terei meu PT de volta. Aliás, já não considero DESTE PT. Sou ainda o filiado 0988590, mantenho minha carteirinha nacional do PT, mas agora ela me parece mais um esqueleto no armário, ou melhor, na carteira. E é só. Meu compromisso é com a história que vi de perto, momentos bons ou ruins de um Dossiê que eu preferia não contar...
Para finalizar este primeiro capítulo, um resumo da pré-história do PT santareno:
Em meados da década de 70, a ala progressista da igreja católica iniciou peregrinações para conscientizar o povo oprimido das da área rural de Santarém. Dois freis franciscanos destacam-se nesta missão: Geraldo Pastana (o atual prefeito de Belterra) e Ranulfo Peloso (atualmente em São Paulo, trabalhando como assessor do PT).
O movimento toma corpo e um povo sedento de justiça segue os passos dos dois religiosos. A idéia e tomar a direção do Sindicato dos Trabahadores Rurais de Santarém, que há pouco havia sido fundado, mas era comandado por "pelegos". A situação das estradas e a carência de investimentos na produção rural, faz com que aquela gente acredite que Pastana e Peloso são os salvadores. tentam uma eleição, perdem, e descobrem que somente a fé e as palavras bonitas não bastam. É preciso uma organização mais estruturada para iniciar a jornada. Surgem os técnicos da FASE (Federação dos Órgãos de Assistência Social e Educacional), uma das maiores ONG´s sócio-educacionais do Brasil. A frente da ONG um intelectual pernambucano comunista, Antonio Vieira, de tendência stalinista (ou seja inspirada no ditador soviético Stalin), começa a dar as cartas e em menos de 10 anos forma um potente exército em torno de um símbolo eterno da luta sindical do norte do Brasil: a "Corrente Sindical Lavradores Unidos".
A "Corrente" passa a ser mais que um simples grupo de trabalhadores rurais organizados, para se tornar uma temida organização que começa a estender seus tentáculos em todos o movimento sindical e popular de Santarém e do Pará. Os freis Pastana e Peloso recrutam irmãos e companheiros e mantém com pulso forte as rédes desse movimento, até que em 1981, resolvem entrar no recém-criado Partido dos Trabalhadores. Com eles, uma outra família, vinda da Linha Gaúcha, representando os trabalhadores que foram jogados pelo Incra na Transamazônica: os Ganzer. Está formada a tríade que dominará e será por muitos anos, o esteio de um movimento que ainda hoje luta para manter o partido no PODER.
A antiga "Corrente", que hoje se chama "PT Pra Valer" já rachou. Os Ganzer e os Pastana ainda estão junto, mas os Peloso formaram outro grupo, a DS - Democracia Socialista (que alguém me corrija este nome, se souber). Mas ambos fazem parte da tendência maior, o famigerado CAMPO MAJORITÁRIO, responsável pelas mazelas petistas na era pós-Jefferson.
Ser ou não ser PT? Eis a questão.
No próximo capítulo: Como começou o processo de autofagia no PT Santarém...

2 comentários:

Jorge Parente disse...

Ninos primeiro os Pelosos de Santarém, são da AS- Articulação Socialista.
Se qiuseres eu faço laguns comentários sobre a fundação do PT e em particular da tomada do Sindicato pelo grupo dos pastana, pelosos e ganzer. até porque essa história passou boa parte dentro da minha casa, que servia como especie de hospedagem para os "companheiros" da FASE

Jeso carneiro disse...

Jorge Parente tem muitas e muitas histórias para contar sobre o embrião do PT em Santarém. Me contou várias quando morei em Belém por mais de quatro anos. Aliás, é bom que se frise: a alma socialista de Mário Jorge tem DNA vermelho com estrela branca. Vem do Cipoal esse seu espírito revolucionário e sonhador.