domingo, 15 de julho de 2007

Três anos sem Haroldo Maranhão

Recebi ontem do amigo Elias Ribeiro Pinto, jornalista e cronista do Diário do Pará, um presente de aniversário: o seu artigo que seria publicado hoje na edição dominical do jornal, relembrando a importância do escritor paraense Haroldo Maranhão (foto), morto há três anos. Infelizmente, por problemas com a internet, só pude postar o artigo agora. Quem não leu o artigo na edição impressa ou na versão on-line do Diário do Pará, pode lê-la aqui no blog:



Autor de livros como Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, Cabelos no Coração, Rio de Raivas, Os Anões e As Peles Frias, que não podem faltar numa biblioteca essencial de literatura, principalmente entre leitores paraenses, exatamente num dia 15 de julho, há três anos, em 2004, morria o escritor Haroldo Maranhão, poucas semanas antes de completar 77 anos. Jornalista, escritor e advogado, Haroldo Maranhão nasceu em Belém, no dia 7 de agosto de 1927, filho do jornalista João Maranhão e de Carmem Lima Maranhão. Aos 13 anos já atuava como repórter policial no jornal A Folha do Norte, de propriedade de seu avô, Paulo Maranhão, onde chegou a ser redator-chefe. Ainda na Folha, fundou e dirigiu, de 1946 a 1951, o Suplemento Literário do jornal, “difundindo tudo o que de melhor e mais novo se fazia na literatura e na arte do país e do estrangeiro”, golpeando “o isolamento que ilhava a produção local”, registraria, décadas depois, Benedito Nunes. Em seguida, os dois amigos, ao lado de Mário Faustino, publicaram a revista Norte – que sobreviveu por três heróicos números, de 1951 a 1952.

Nos anos 50, Haroldo abriu as portas da Livraria Dom Quixote, na galeria do Palácio do Rádio, ponto de encontro de intelectuais belenenses. Como advogado, tornou-se procurador da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde viveu durante 40 anos. Haroldo faleceu em Piabetá (RJ) e foi enterrado na cidade do Rio de Janeiro. No texto a seguir, para revivermos e compartilharmos lembranças deste grande mestre das letras, professor de dignidade e de inabalável indignação (onde esta coubesse, e nunca lhe faltaram motivos para exercê-la), relembro alguns encontros que tive com o autor, desde o inaugural até o último.


Eu, Haroldo Maranhão e seu Rocinante Opala

Ainda estávamos na era do fax (que veio um pouco depois da era do jazz e da era da Tuna Luso de China, Waltinho e Fefeu) quando tive meu primeiro contato com Haroldo Maranhão. Foi através dele, do fax, que fiz aquela famosa entrevista com o escritor, o seu mais importante depoimento a um jornal, não por arte do entrevistador, mas simplesmente porque o entrevistado estava disposto a falar, ou melhor, escrever. E muito.

Quando Haroldo morreu, em 15 de julho de 2004, republiquei boa parte da entrevista aqui no DIÁRIO. Ela foi publicada, originalmente, em 23 de setembro de 1990, em A Província do Pará, sob o título “O Pará não morreu. Viva o Acará!”. O Acará aludia ao personagem principal de Cabelos no Coração, livro que Haroldo lançava então, naquele distante ano de 1990. Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, ou Filippe Patroni, ou Doutor Patroni, este o nome do personagem,
nascido no Acará, tal qual Batista Campos e Júlio Cezar Ribeiro de Souza. Muita cabeça para pouco município, dizia o Haroldo. “Uma coisa é ser acaraense, outra é ser paraense. Minha maior ambição é vir a ser acaraense. Benedito Nunes não se deu conta mas é acaraense, dos puros. Ignoro o que acontece por lá. Devem ser as
águas, a floresta, os igarapés, alguma coisa que circula no ar. Não sei. Pelo sim, pelo não, aconselho as grávidas a irem parir no Acará.” Não preciso dizer que o atual Acará não corresponde à geografia heróica e sentimental desse Acará prodigioso, patroniano, haroldiano.

Por falar em Benedito Nunes, em setembro daquele ano de 2004 assisti a uma palestra do mestre, no Instituto de Artes do Pará. Na mesa, além de Nunes, os poetas Age de Carvalho e Max Martins. O encontro homenageava Haroldo Maranhão. O que mais me tocou, ao final, foi quando um senhor se aproximou de mim, confirmou que eu era eu mesmo, e me agradeceu a reedição da entrevista, quando da morte do autor de Rio de Raivas. Graças a ela, disse-me, começou a ler Cabelos no Coração, livro, aliás, que carregava na ocasião, com a identificação na lombada de volume emprestado de biblioteca pública. Foi, naquela noite, a homenagem mais representativa ao grande escritor.

Mas voltemos, como eu dizia no primeiro parágrafo, ao contato inaugural com o autor de O Tetraneto Del-Rei. Eu não tinha fax. Quem transmitiu minhas perguntas ao Haroldo, residente no Rio de Janeiro, foi o superintendente da Província, Roberto Jares Martins, que também já nos deixou. Um dia depois de enviadas as perguntas, Jares recebeu as respostas, leu e me chamou. Li e logo percebi que era uma entrevista histórica. Haroldo mexia com a pasmaceira paraoara. Sobravam cipoadas até para o indolente entrevistador.

Nosso primeiro contato pessoal foi logo na semana seguinte a essa entrevista, quando o autor veio a Belém para lançar o dito Cabelos no Coração. Conhecemo-nos exatamente na noite de autógrafos, no Museu da Universidade Federal do Pará, na avenida Governador José Malcher.

Tornamos a nos ver um ano depois, em julho de 1991, no Rio de Janeiro, eu indo para a minha primeira Bienal do Livro. Aliás, pessoalmente, tive poucos mas luminosos, privilegiados encontros com Haroldo Maranhão. Como foi o caso desse segundo encontro, no Rio de Janeiro. Hospedei-me num hotel na avenida Nossa Senhora de Copacabana. E acabo de lembrar do nome, condoreiro, do hotel: Castro Alves.

Cheguei na madrugada seguinte à morte do cronista Paulo Mendes Campos. O dia, por isso, amanheceu-me melancólico. Mas logo me pus no rumo da Praia do Flamengo, onde ficava o apartamento do Haroldo, que me aguardava.

Recebeu-me na sala forrada de livros, muitos deles preciosos, raridades em matéria de dicionários, primeiras edições de Machado de Assis, de autores brasileiros modernistas, diversos com autógrafos para o próprio Haroldo. Este acervo, hoje, está na Sala Haroldo Maranhão, no Centur. Conversamos, fui espiar à janela, que dava para os jardins do Palácio do Catete (atual Museu da República), onde Getúlio Vargas se suicidou.

A Bienal era no Riocentro, que, apesar do nome, é longe pra burro, no Recreio dos Bandeirantes, bairro vizinho de Jacarepaguá, onde, cantava-se naquela música, acabavam seus dias os que não encontravam sua cara-metade. O escritor sossegou-me: ele me levaria até lá. Mas o meu sossego inquietou-se quando me confidenciou que há meses, anos, sei lá, não tirava o carro da garagem do prédio. No máximo, aquecia-o.

Descemos até a garagem. Na vaga reservada a seu apartamento, havia algo que lembrava um Opala. Conseguimos, depois de alguns minutos esquentando a máquina, desembaraçarmo-nos do labirinto subterrâneo, e lançamo-nos na selva selvagem do trânsito carioca. Foi a primeira e única vez que conheci o Haroldo Maranhão motorista. Como vocês podem ver, sobrevivi para contar a história.

Chegando ao Riocentro, circulamos por um par de horas na Bienal até o Haroldo dizer que precisava retornar. Fiquei até o final da tarde. De noitinha, na saída, a temperatura caiu tão repentinamente, baixou uma neblina tão densa, que o fato virou notícia no Jornal Nacional. Envolvido por aquela enternecida solidão que nos acomete quando estamos distantes de tudo e de todos, imerso naquele denso e atípico nevoeiro carioca, envolvido de mim, em mim, me aproximei, enquanto aguardava o transporte, de um trailer e pedi um conhaque vagabundo qualquer, mas um dos melhores e mais aconchegantes que tomei até hoje.

Tivemos outros encontros naquela ocasião. Acho que ainda a bordo do Opala – talvez herdeiro daquele Rocinante manchego, montaria de D. Quixote – prodigalizamos novas incursões, espécie de turismo literário. Ali, apontava-me, era a casa do Bruxo do Cosme Velho, o Machado de Assis que, naquele ano de 1991, era personagem de um novo romance do escritor, o último que Haroldo lançaria, Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, reeditado em 2004 pela Editora Planeta. Mais adiante, indicou-me que fulano, ou fulana, já não lembro quem, atirara-se de um prédio.

Nas pistas da Praia do Flamengo que corriam diante de seu edifício, morreram atropelados, disse-me, o poeta português António Botto, o jornalista e escritor Brito Broca e um terceiro cujo nome também não lembro (às vezes, o nome me surge, estampa-se, para tornar a escapulir, como agora). É possível que um ou outro tivesse tomado umas e outras a mais e, estonteados, ousaram cruzar aquelas pistas varejadas de carros em voraz velocidade.

Numa dessas incertas incursões terminamos, eu e Haroldo, num restaurante do Baixo Leblon onde jantamos uma deliciosa paella, acompanhada de chopes “na pressão’, como ele pedia aos garçons. Saímos meio de pileque. Percorre-me um calafrio agora ao imaginar que o Rocinante Opala talvez nos aguardasse defronte ao restaurante.

Também estive com o escritor num daqueles tradicionais restaurantes do antigo centro carioca. Quando fui em 2003 ao Rio (e falei com o Haroldo apenas por telefone, ele morando em Piabetá, distrito de Magé, um município não muito distante do Rio, e como lamento não ter ido, naquela ocasião, ao seu encontro), em mais uma Bienal, tentei localizar esse restaurante, enquanto caminhava pelas ruelas centrais. Nada. Só atinei mesmo com a Casa Lidador, de importados, onde chegamos a entrar para sondar alguns queijos ou vinhos.

Acho que não tornamos a nos encontrar no Rio de Janeiro. Os demais contatos pessoais foram por aqui, em Belém. Por exemplo, em 2001, num depoimento do escritor à TV Cultura, gravado na casa de Benedito Nunes. Haroldo Maranhão passou quatro dias em Belém. Participou, naquele momento, da entrega oficial de sua biblioteca, então adquirida por R$ 150 mil pela Companhia Vale do Rio Doce e repassada à Biblioteca Pública Arthur Vianna.

Combinei uma entrevista com o Haroldo. O acertado era que o repórter passaria à noite, no hotel, para ouvir o escritor. Mas foi este que, imprevistamente, veio à toca do entrevistador. Sozinho em casa, tive que interromper o banho para atender quem batia. Era o próprio Haroldo Maranhão. Com o cabelo ainda ensaboado, o surpreso e improvisado anfitrião acomodou o ilustre visitante, da melhor forma possível, em meio à bagunça doméstica. Foi só o tempo de tirar o xampu da cabeça, arrepanhar umas roupas, ligar o gravador e iniciar a conversa, de pronto, pois as perguntas ainda seriam organizadas para a entrevista combinada, que se realizaria no hotel onde Haroldo estava hospedado.

Com uma agenda carregada, o autor de A Estranha Xícara chegou à minha casa extenuado. Era véspera do dia de seu regresso e dia seguinte ao longo depoimento na casa de Benedito Nunes, do qual também participei. Mas, disse-me, não poderia faltar ao compromisso assumido, ainda que para conceder ligeira entrevista. Foi o que ocorreu. Durante a conversa, por duas ou três vezes, nas breves interrupções para mudar de lado a fita do gravador, Haroldo queixava-se do cansaço, e tentava convencer o entrevistador de que já bastava (na transcrição, deixo registradas, em parênteses, essas intervenções, para situar o leitor do andamento da conversa, amena, ainda que toldada pelo compreensível esgotamento físico do entrevistado). Mas o entrevistador, insensível, insistia um pouco mais. As últimas perguntas foram feitas com Haroldo, já em pé, se encaminhando para a saída. Na pele de jornalista, ao final da conversa monitorada pelo gravador, mal tive tempo de abraçá-lo e de lhe desejar boa viagem. Eu não sabia, mas aquele seria o último encontro em que estivemos ao alcance de um abraço. Depois, longas conversas ao telefone, e períodos ainda mais longos sem nenhuma conversa. Até que me alcançou não mais seu abraço de amigo fraterno, mas a notícia de sua morte, naquele 15 de julho de 2004.

Três anos sem Haroldo Maranhão

Recebi ontem do amigo Elias Ribeiro Pinto, jornalista e cronista do Diário do Pará, um presente de aniversário: o seu artigo que seria

Autor de livros como Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, Cabelos no Coração, Rio de Raivas, Os Anões e As Peles Frias, que não podem faltar numa biblioteca essencial de literatura, principalmente entre leitores paraenses, exatamente num dia 15 de julho, há três anos, em 2004, morria o escritor Haroldo Maranhão, poucas semanas antes de completar 77 anos. Jornalista, escritor e advogado, Haroldo Maranhão nasceu em Belém, no dia 7 de agosto de 1927, filho do jornalista João Maranhão e de Carmem Lima Maranhão. Aos 13 anos já atuava como repórter policial no jornal A Folha do Norte, de propriedade de seu avô, Paulo Maranhão, onde chegou a ser redator-chefe. Ainda na Folha, fundou e dirigiu, de 1946 a 1951, o Suplemento Literário do jornal, “difundindo tudo o que de melhor e mais novo se fazia na literatura e na arte do país e do estrangeiro”, golpeando “o isolamento que ilhava a produção local”, registraria, décadas depois, Benedito Nunes. Em seguida, os dois amigos, ao lado de Mário Faustino, publicaram a revista Norte – que sobreviveu por três heróicos números, de 1951 a 1952.

Nos anos 50, Haroldo abriu as portas da Livraria Dom Quixote, na galeria do Palácio do Rádio, ponto de encontro de intelectuais belenenses. Como advogado, tornou-se procurador da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde viveu durante 40 anos. Haroldo faleceu em Piabetá (RJ) e foi enterrado na cidade do Rio de Janeiro. No texto a seguir, para revivermos e compartilharmos lembranças deste grande mestre das letras, professor de dignidade e de inabalável indignação (onde esta coubesse, e nunca lhe faltaram motivos para exercê-la), relembro alguns encontros que tive com o autor, desde o inaugural até o último.


Eu, Haroldo Maranhão e seu Rocinante Opala

Ainda estávamos na era do fax (que veio um pouco depois da era do jazz e da era da Tuna Luso de China, Waltinho e Fefeu) quando tive meu primeiro contato com Haroldo Maranhão. Foi através dele, do fax, que fiz aquela famosa entrevista com o escritor, o seu mais importante depoimento a um jornal, não por arte do entrevistador, mas simplesmente porque o entrevistado estava disposto a falar, ou melhor, escrever. E muito.

Quando Haroldo morreu, em 15 de julho de 2004, republiquei boa parte da entrevista aqui no DIÁRIO. Ela foi publicada, originalmente, em 23 de setembro de 1990, em A Província do Pará, sob o título “O Pará não morreu. Viva o Acará!”. O Acará aludia ao personagem principal de Cabelos no Coração, livro que Haroldo lançava então, naquele distante ano de 1990. Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, ou Filippe Patroni, ou Doutor Patroni, este o nome do personagem, nascido no Acará, tal qual Batista Campos e Júlio Cezar Ribeiro de Souza. Muita cabeça para pouco município, dizia o Haroldo. “Uma coisa é ser acaraense, outra é ser paraense. Minha maior ambição é vir a ser acaraense. Benedito Nunes não se deu conta mas é acaraense, dos puros. Ignoro o que acontece por lá. Devem ser as águas, a floresta, os igarapés, alguma coisa que circula no ar. Não sei. Pelo sim, pelo não, aconselho as grávidas a irem parir no Acará.” Não preciso dizer que o atual Acará não corresponde à geografia heróica e sentimental desse Acará prodigioso, patroniano, haroldiano.

Por falar em Benedito Nunes, em setembro daquele ano de 2004 assisti a uma palestra do mestre, no Instituto de Artes do Pará. Na mesa, além de Nunes, os poetas Age de Carvalho e Max Martins. O encontro homenageava Haroldo Maranhão. O que mais me tocou, ao final, foi quando um senhor se aproximou de mim, confirmou que eu era eu mesmo, e me agradeceu a reedição da entrevista, quando da morte do autor de Rio de Raivas. Graças a ela, disse-me, começou a ler Cabelos no Coração, livro, aliás, que carregava na ocasião, com a identificação na lombada de volume emprestado de biblioteca pública. Foi, naquela noite, a homenagem mais representativa ao grande escritor.

Mas voltemos, como eu dizia no primeiro parágrafo, ao contato inaugural com o autor de O Tetraneto Del-Rei. Eu não tinha fax. Quem transmitiu minhas perguntas ao Haroldo, residente no Rio de Janeiro, foi o superintendente da Província, Roberto Jares Martins, que também já nos deixou. Um dia depois de enviadas as perguntas, Jares recebeu as respostas, leu e me chamou. Li e logo percebi que era uma entrevista histórica. Haroldo mexia com a pasmaceira paraoara. Sobravam cipoadas até para o indolente entrevistador.

Nosso primeiro contato pessoal foi logo na semana seguinte a essa entrevista, quando o autor veio a Belém para lançar o dito Cabelos no Coração. Conhecemo-nos exatamente na noite de autógrafos, no Museu da Universidade Federal do Pará, na avenida Governador José Malcher.

Tornamos a nos ver um ano depois, em julho de 1991, no Rio de Janeiro, eu indo para a minha primeira Bienal do Livro. Aliás, pessoalmente, tive poucos mas luminosos, privilegiados encontros com Haroldo Maranhão. Como foi o caso desse segundo encontro, no Rio de Janeiro. Hospedei-me num hotel na avenida Nossa Senhora de Copacabana. E acabo de lembrar do nome, condoreiro, do hotel: Castro Alves.

Cheguei na madrugada seguinte à morte do cronista Paulo Mendes Campos. O dia, por isso, amanheceu-me melancólico. Mas logo me pus no rumo da Praia do Flamengo, onde ficava o apartamento do Haroldo, que me aguardava.

Recebeu-me na sala forrada de livros, muitos deles preciosos, raridades em matéria de dicionários, primeiras edições de Machado de Assis, de autores brasileiros modernistas, diversos com autógrafos para o próprio Haroldo. Este acervo, hoje, está na Sala Haroldo Maranhão, no Centur. Conversamos, fui espiar à janela, que dava para os jardins do Palácio do Catete (atual Museu da República), onde Getúlio Vargas se suicidou.

A Bienal era no Riocentro, que, apesar do nome, é longe pra burro, no Recreio dos Bandeirantes, bairro vizinho de Jacarepaguá, onde, cantava-se naquela música, acabavam seus dias os que não encontravam sua cara-metade. O escritor sossegou-me: ele me levaria até lá. Mas o meu sossego inquietou-se quando me confidenciou que há meses, anos, sei lá, não tirava o carro da garagem do prédio. No máximo, aquecia-o.

Descemos até a garagem. Na vaga reservada a seu apartamento, havia algo que lembrava um Opala. Conseguimos, depois de alguns minutos esquentando a máquina, desembaraçarmo-nos do labirinto subterrâneo, e lançamo-nos na selva selvagem do trânsito carioca. Foi a primeira e única vez que conheci o Haroldo Maranhão motorista. Como vocês podem ver, sobrevivi para contar a história.

Chegando ao Riocentro, circulamos por um par de horas na Bienal até o Haroldo dizer que precisava retornar. Fiquei até o final da tarde. De noitinha, na saída, a temperatura caiu tão repentinamente, baixou uma neblina tão densa, que o fato virou notícia no Jornal Nacional. Envolvido por aquela enternecida solidão que nos acomete quando estamos distantes de tudo e de todos, imerso naquele denso e atípico nevoeiro carioca, envolvido de mim, em mim, me aproximei, enquanto aguardava o transporte, de um trailer e pedi um conhaque vagabundo qualquer, mas um dos melhores e mais aconchegantes que tomei até hoje.

Tivemos outros encontros naquela ocasião. Acho que ainda a bordo do Opala – talvez herdeiro daquele Rocinante manchego, montaria de D. Quixote – prodigalizamos novas incursões, espécie de turismo literário. Ali, apontava-me, era a casa do Bruxo do Cosme Velho, o Machado de Assis que, naquele ano de 1991, era personagem de um novo romance do escritor, o último que Haroldo lançaria, Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, reeditado em 2004 pela Editora Planeta. Mais adiante, indicou-me que fulano, ou fulana, já não lembro quem, atirara-se de um prédio.

Nas pistas da Praia do Flamengo que corriam diante de seu edifício, morreram atropelados, disse-me, o poeta português António Botto, o jornalista e escritor Brito Broca e um terceiro cujo nome também não lembro (às vezes, o nome me surge, estampa-se, para tornar a escapulir, como agora). É possível que um ou outro tivesse tomado umas e outras a mais e, estonteados, ousaram cruzar aquelas pistas varejadas de carros em voraz velocidade.

Numa dessas incertas incursões terminamos, eu e Haroldo, num restaurante do Baixo Leblon onde jantamos uma deliciosa paella, acompanhada de chopes “na pressão’, como ele pedia aos garçons. Saímos meio de pileque. Percorre-me um calafrio agora ao imaginar que o Rocinante Opala talvez nos aguardasse defronte ao restaurante.

Também estive com o escritor num daqueles tradicionais restaurantes do antigo centro carioca. Quando fui em 2003 ao Rio (e falei com o Haroldo apenas por telefone, ele morando em Piabetá, distrito de Magé, um município não muito distante do Rio, e como lamento não ter ido, naquela ocasião, ao seu encontro), em mais uma Bienal, tentei localizar esse restaurante, enquanto caminhava pelas ruelas centrais. Nada. Só atinei mesmo com a Casa Lidador, de importados, onde chegamos a entrar para sondar alguns queijos ou vinhos.

Acho que não tornamos a nos encontrar no Rio de Janeiro. Os demais contatos pessoais foram por aqui, em Belém. Por exemplo, em 2001, num depoimento do escritor à TV Cultura, gravado na casa de Benedito Nunes. Haroldo Maranhão passou quatro dias em Belém. Participou, naquele momento, da entrega oficial de sua biblioteca, então adquirida por R$ 150 mil pela Companhia Vale do Rio Doce e repassada à Biblioteca Pública Arthur Vianna.

Combinei uma entrevista com o Haroldo. O acertado era que o repórter passaria à noite, no hotel, para ouvir o escritor. Mas foi este que, imprevistamente, veio à toca do entrevistador. Sozinho em casa, tive que interromper o banho para atender quem batia. Era o próprio Haroldo Maranhão. Com o cabelo ainda ensaboado, o surpreso e improvisado anfitrião acomodou o ilustre visitante, da melhor forma possível, em meio à bagunça doméstica. Foi só o tempo de tirar o xampu da cabeça, arrepanhar umas roupas, ligar o gravador e iniciar a conversa, de pronto, pois as perguntas ainda seriam organizadas para a entrevista combinada, que se realizaria no hotel onde Haroldo estava hospedado.

Com uma agenda carregada, o autor de A Estranha Xícara chegou à minha casa extenuado. Era véspera do dia de seu regresso e dia seguinte ao longo depoimento na casa de Benedito Nunes, do qual também participei. Mas, disse-me, não poderia faltar ao compromisso assumido, ainda que para conceder ligeira entrevista. Foi o que ocorreu. Durante a conversa, por duas ou três vezes, nas breves interrupções para mudar de lado a fita do gravador, Haroldo queixava-se do cansaço, e tentava convencer o entrevistador de que já bastava (na transcrição, deixo registradas, em parênteses, essas intervenções, para situar o leitor do andamento da conversa, amena, ainda que toldada pelo compreensível esgotamento físico do entrevistado). Mas o entrevistador, insensível, insistia um pouco mais. As últimas perguntas foram feitas com Haroldo, já em pé, se encaminhando para a saída. Na pele de jornalista, ao final da conversa monitorada pelo gravador, mal tive tempo de abraçá-lo e de lhe desejar boa viagem. Eu não sabia, mas aquele seria o último encontro em que estivemos ao alcance de um abraço. Depois, longas conversas ao telefone, e períodos ainda mais longos sem nenhuma conversa. Até que me alcançou não mais seu abraço de amigo fraterno, mas a notícia de sua morte, naquele 15 de julho de 2004.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Um poeta de Belém na Pérola

Recebi ontem um carinhoso e-mail do jornalista e cronista do Diário do Pará (onde também escrevo), Elias Ribeiro Pinto, informando que estará em Santarém, hoje, pela primeira vez, um dos grandes poetas de Belém, Ronaldo Franco (que também escreve às sextas no Diário).
Ronaldo traz alguns de seus livros e ficará hospedado no Santarém Palace. Quem quiser manter contato e adquirir alguma de suas obras poéticas autografadas, é só passar lá. Depois, ele dá uma esticada para conhecer nossa Alter...
Pelo jeito, vem poesia nova por aí com ares de Alter. Quem sabe você esbarra com ele por lá...

Renascer é tão importante quanto viver

Já passa da meia-noite, o dia é 13 de julho de 2007. Meu sono não vem. Dentro de poucas horas estarei renascendo aos 44 anos. Cismo em esperar a hora, na esperança de cruzar, transcendentalmente, com meu alterego mais jovem, lambuzado de placenta, num encontro entre o passado e o presente. Resolvi escrever neste meu pobre blog o que me vinha à cabeça. Aviso logo: se você não quiser perder tempo com babaquices de um quarentão ensimesmado, pare por aqui e vá para o orkut, pro MSN ou simplesmente desligue o computador. Depois não diga que não avisei....

Mas voltando a “jotaninar”, adoro o simbolismo dos números: 44 às 4 da manhã. Quaraquaquá. Já o 13, nasceu comigo e quem diria que seria uma sina política, da qual me livraria exatamente nesta data? [Daqui a pouco eu conto] Mas há outro número muito importante nesta simbologia “ninista”: o 21. Não, não é meu patrocinador. É apenas um pedaço de mim que me liga a outro passado lendário. [Daqui a pouco eu conto]

Como bom canceriano, sou um eterno arqueólogo da mente. Vivo buscando no passado as respostas para o meu presente, pouco me importando com o futuro. No futuro, fatalmente, voltarei ao presente que será passado e assim sucessivamente.

13 de julho de 1963. Quatro horas da madrugada. Lá estava eu, bebê recém-nascido, na Santa Casa de Misericórdia. Comigo devia haver pelo menos uma dezena de outros bebês chorões no berçário. Belém, Pará, Brasil. Minha cidade, como será que era? Ainda não consegui reconstituí-la, mas aos poucos vou encontrando pedaços aqui, acolá.

Minha mãe, Marapanim/Pará. Meu pai Xanthi/Grécia. Um encontro pouco provável se não fosse o espírito desbravador do velho Ninos, que resolveu se aventurar pela estrada que JK abriu, saindo da nova capital federal rumo ao norte. O marreteiro que vendia roupas no Ver-O-Peso se encontra com a cabocla da terra do carimbó em alguma alcova e o milagre da vida acontece. Quantos espermatoNinos matei no caminho? [na foto, eu e o velho grego disputando pra ver quem tem o nariz maior. Eu perdi...]

Como poderia imaginar que um dia, 15 anos depois, adotaria Santarém como minha terra? Aqui estou, 29 anos depois. Indo e sempre voltando para esta Pérola. [Belém é só o recôndito de minha alma e de minha calma que ainda não descobri. Lá ficaram o Kennedy, as praças da República e Batista Campos, o Cine Olympia e o Manuel Pinto da Silva, meu microcosmo infanto-juvenil]. Aqui aprendi a nadar, a dirigir, a lutar, a divergir, a não rezar, a permitir, a polemizar, a parir, a parar, a grunhir, a gozar...

Quaraquaquá! Quem diria. Parece que foi ontem que me vi meNino.

Mas voltando aos simbolismos numéricos: sabiam que em 13 de julho de 1501, Pedro Álvares Cabral regressou a Lisboa, após a descoberta do Brasil e da visita à Índia? E que na mesma data, em 1553, Duarte da Costa, segundo governador geral do Brasil, chegou a Salvador, na Bahia? E sabiam que, além disso, um dos líderes da revolução francesa, o médico e jornalista francês Jean Paul Marat, foi assassinado um dia antes de comemorar o 1º ano de seu grande feito? E que Santos-Dumont rodeou a torre Eiffel a bordo de um dirigível, mas acabou caindo, na altura de Boulogne, em 13 de julho de 1901? Em compensação, divido a data do aniversário – entre outros – com o ator hollywoodiano Harrison Ford, o eterno capitão Han Solo de Guerra nas Estrelas, que nasceu 21 anos antes que eu.

E daí? A quem interessa estas datas? Escrevi só para enfeitar o texto e mostrar um pouco de minha erudição de almanaque...

Mas voltando aos simbolismos numéricos: o 13 para mim sempre foi sorte-azar. Lembro que muitos aniversários não foram comemorados na infância por causa de uma caxumba, de um sarampo ou de uma simples disenteria que resolvia aparecer exatamente nesta data. Imagina um 13, como hoje, caindo numa sexta-feira! Dia de terror...

Mas já tenho um programa especial para marcar o sorte-azar dessa data (além do meu aniversário): hoje tiro o corpo fora de uma das minhas mais belas aventuras, que completa exatamente 25 anos e 139 dias – entrego, logo mais, ao presidente do diretório municipal de Santarém (alguém sabe quem é?) minha carta de desfiliação do PT. Foi bom enquanto durou. Como diria Lennon, em 1970: “O sonho acabou!”. Não o meu sonho, este eu vou continuar acalentando. Mas o sonho petista acabou. Relutei muito para tomar a decisão e decidi que essa seria uma data simbólica para realizar esse ato. Ponto final.

Outro simbolismo de que falei lá em cima: o 21, esse número incrível que me acompanha há 44 anos. Pouca gente sabe, mas hoje vou revelar um segredo do qual me orgulho: tenho algo que a Cicarelli também tem! Não, não são meus lábios. E nem fui flagrado transando numa praia. É que tenho um dedo a mais no meu pé direito, totalizando 21 dedos! Seria um sinal? Seria eu um ser especial? Espacial? E sempre que alguém descobre meu pequerrucho, saltitando por cima da tira de minhas Havaianas, a primeira pergunta surge como uma guilhotina francesa: porque não cortaram ao nascer? E eu me pergunto: porque essa ânsia mórbida de cortar um pedaço de mim?

A explicação para não cortá-lo está numa velha lenda grega que meu pai contava. Ocorre que depois dos 300 anos de dominação do Império Otomano os gregos reconquistaram a liberdade em 1821, mas não se conformavam em não poder usufruir de Constantinopla (Istambul), que ficou do lado de lá, depois do tratado abalizado pelas potências da Europa. Surge então um rei chamado Constantinos que lidera uma louca revolução em busca dos territórios perdidos. Os soldados gregos avançam e conseguem chegar do outro lado do mar Egeu, em Esmirna (terra de Homero), mas exaustos, são obrigados a recuar e os turcos saem cortando cabeças e encharcando o solo de sangue grego. Constantinopla continuará a ser Istambul e ponto final.

O detalhe: Constantinos tinha 21 dedos e ficou a lenda que só um novo rei com tal quantidade de dedos poderia reconquistar Constantinopla! Imagina a cara do meu pai, ao me ver no berçário, em Belém, com os 21 dedinhos à mostra! Infelizmente fui um fracasso. Estive na Grécia, passeei como turista por Istambul, mas não tive nem coragem de me alistar no exército grego, condição sine qua non para conseguir minha dupla nacionalidade. O que dirá liderar uma revolução grega... [na foto, eu e a Acrópole, 1991]

O sono se apodera de meus olhos. Acho que não conseguirei me encontrar com meu eu “emplacentado”. Só me resta fazer como todos estarão fazendo hoje, lá no Maracanã, na festa especialmente preparada para mim:

“Parabéns, Jota! Cadê o bolo?”

terça-feira, 10 de julho de 2007

Links

Criei no menu do lado esquerdo deste blog, como pode ser visto na imagem abaixo, uma série de links que levam aos artigos e crônicas mais acessados e comentados aqui postados.
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O dia em que quase pisei num podium (*)

Às vésperas do Pan 2007, cuja abertura será no dia do meu aniversário, me pego pensando se o mundo não perdeu um grande atleta. Mas ao lembrar de meu retrospecto nessa área chego à conclusão de que como atleta sempre fui uma negação. Ou pior, uma aberração. Mesmo assim, tive uma única chance de brilhar e desperdicei.
Não fui feito para a prática esportiva e desde a mais tenra idade sonhei em conseguir pelo menos um feito atlético para que eu pudesse ser lembrado eternamente. Mas como um moleque pançudo, zarolho e desajeitado poderia progredir em algum esporte? Apesar disso decidi me empenhar no futebol, nosso esporte bretão. Dos sete aos 14 anos, me apliquei jogando “futebol de tampinha de refrigerante” no recreio da escola, na tentativa de que algum “olheiro” do nosso time visse que eu tinha algum futuro.
Meu professor de educação física naquele tempo era o Clauriberto Levy, que hoje é instrutor de trânsito em Santarém (dia desses descobrimos essa nossa ligação daquele tempo) e, reconhecendo meu talento, sempre que chegava a hora escalar os times tinha uma vaga certa para os meus dotes... goleiro, a única vaga que sobrava.
Fiz grandes apresentações e mostrei um grande potencial para buscar as bolas... no fundo das redes. Uma vez cheguei a participar de um fato inédito pelo qual sou lembrado até hoje. Num “rachão” durante a aula de ginástica lá estava eu, solitário, embaixo da trave do pequeno campinho do velho colégio Jonh Kennedy, em Belém. Era final de jogo e naquele dia eu havia resistido muito, levando somente dois gols (era um recorde, pois nunca ficava sem engolir pelo menos cinco frangos...).
Minha equipe resolve ir pro tudo ou nada para tentar o empate numa cobrança de escanteio do outro lado. Fico sozinho na área aguardando um contra-ataque. O escanteio é cobrado lá e algum zagueiro consegue cabecear para fora da área. A bola quica e o beque do outro time dá um chutão pra frente na minha direção. Com efeito, a bola vai em direção à lateral do campo. Corro para agarrá-la, mas na beira do gramado havia uma velha árvore cuja raiz insistia em invadir a lateral. Muito jogadores já tinham sido vítimas de tropeções, mas ela nunca foi expulsa ou sequer advertida pelo juiz! Naquele dia ela se superou: rebateu a bola cobrindo este pobre goal keeper. Gooooooooooooooooollllllll! Que vergonha, até uma árvore fazia gol em mim!
Fui muito criticado, e como não podia viver eternamente barrado no time, me designaram uma nova função: a de ficar na ponta... esquecida. A famosa “banheira”. Por várias vezes fiquei sozinho com o goleiro e perdi gols feitos! Nessa posição, tinha um outro colega tão zarolho do que eu, mas que era minha maior alegria: ele conseguia ser pior do que eu, se é que isso era possível. Até o dia em que ele me superou, no episódio em que perdi a chance de subir pela primeira vez num podium.
1976. Nossa turma tem uma das melhores equipes de futebol do colégio naqueles tempos. Eu me orgulhava disso, apesar de não participar das estatísticas dessa performance. Estávamos na sexta série e naquele ano comentava-se que éramos um dos favoritos à medalha de futebol de campo. Bastava superar o maior favorito: a oitava série. Os jogos aconteceram no gramado do ginásio Souza Franco. Havíamos escalado o que havia de melhor. Escolhemos que a camisa do time seria a do Botafogo (minha sina). A ordem era que todos fossemos vestidos com a camisa, mesmo que ficássemos somente na torcida.
Eu pensei em nem ir com medo de dar azar ao time (sempre que ia aos gramados torcer pelo Paysandu, ele apanhava daquela outra coisa). Me considerava um verdadeiro pé-frio. Por isso, acabei nem comprando a camisa. Mas na última hora, achei que não devia deixar o time e ser chamado de “furão”. Fui, mesmo sem estar com a estrela solitária no peito.
Quando chego lá, nosso time está prestes a enfrentar a toda poderosa 8ª série. Para minha surpresa vejo que há desfalques, alguns jogadores não estão lá. O que aconteceu? Chego junto ao banco de reservas e encontro com o colega zarolho sozinho, paramentado de Botafogo!
- O que aconteceu? – pergunto atônito.
-Três dos nossos ficaram doentes e outros dois não vieram – respondeu-me com um sorriso no rosto.
- E por que estás sorrindo? – digo com ar de reprovação.
- É que me colocaram na reserva.... Se tiveres uma camisa do Botafogo também podes sentir esse gostinho!
Não podia ser verdade. Vi escorrer entre minhas mãos a possibilidade de, ao menos, sentar naquele banco e poder curtir aquele momento. Nessa hora, o capitão do time chega e me confirma em sussurros uma frase que até hoje ecoa nos meus ouvidos: “Consegue uma camisa do Botafogo que na primeira chance tu entras, pois és menos ruim do que ele”, apontando pro outro colega que, feliz da vida, balançava uma bandeirinha alvinegra. Ser chamado de “menos ruim” pelo capitão, era um verdadeiro elogio!
Sai atrás de alguém que tivesse uma camisa do Botafogo. Servia até mesmo uma do Atlético Mineiro ou qualquer outro time que pudesse disfarçar. O jogo seguia e eu corria feito louco em meio às arquibancadas em busca da tal camisa. Havia todas as cores, mas nenhuma era alvinegra. Desisti, já com uma lágrima misturando-se ao suor do meu rosto franzino. Aliás, pelo pique que havia dado certamente já nem teria condições de entrar no campo. Só me restava sentar e assistir.
De repente, nosso melhor atacante sofre uma falta e fica sem condições de voltar a campo. O capitão do time olha para o banco e vê o amigo zarolho e sua bandeirinha, com um lumiar nos olhos. Me vê na arquibancada, faz sinal puxando sua camisa como quem pergunta, “conseguiu?” Balanço a cabeça negativamente e ele, desconsolado, faz aquele sinal de “não tem tu, vai tu mesmo”. È a glória do mais zarolho da turma e minha decepção. Não sabia se era melhor ele entrar fazer besteiras e eu continuar sendo chamado de “menos ruim” ou se era melhor torcer para que ele fizesse um gol salvador e nosso time fosse campeão. Fiquei dividido entre torcer contra ou a favor.
E o imprevisível aconteceu.
O time resistiu até o final e ninguém conseguia fazer gols. Nos últimos minutos, a equipe da 8ª série foi em peso para o nosso campo numa cobrança de escanteio. A bola resvala na mão do nosso goleiro e o zagueiro dá aquele chutão pra frente com todas as suas forças. O único zagueiro deles que ficou para trás fura no chute no meio do campo e cai no chão e a bola segue em direção à grande área do adversário.
O colega zarolho, desengonçado, sai correndo atrás da bola. Como sempre, ele jogava de óculos (como eu também) e no pique os perde em campo! A bola quica na frente dele e, sem noção de onde está (era mais míope do que eu) corre para o outro lado no momento em que o goleiro corria em direção à bola! Esse “jogo de corpo” do zarolho acaba enganando o goleiro e a bola passa por ele quicando, bate na cabeça do zarolho - que cai desmaiado ao chão - e entra no gol! Gooooooooooooooooooooollllllllllllllllll!
Não sabia se ria ou chorava. Eu poderia estar lá, por ser “menos ruim” que o zarolho. Talvez tivesse feito aquele gol (pelo menos não havia uma árvore para me driblar). Talvez tivesse sido eu, o carregado como herói. Talvez tivesse sido eu ali no podium, recebendo aquela medalha... Talvez...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará.