domingo, 5 de outubro de 2008

MANUAL PARA ELEITORES INCAUTOS/2008

Há quase três meses sem atualizar o blog, por causa de diversos afazeres profissionais, vinha preparando uma nova reestréia para esse período de campanha eleitoral com a reedição do meu “Manual para Eleitores Incautos”, versão 2008 (a exemplo do que fiz nas eleições de 2006).
Acabei me envolvendo com uma consultoria política e, só hoje, no dia das eleições, passo a postar os textos que havia preparado a partir de minha experiência de atuação nos últimos 26 anos em eleições municipais, seja como militante partidário, seja como jornalista, seja como assessor de comunicação, seja como “marqueteiro político” ou seja ainda, como consultor político.
As informações contidas em meu “Manual” baseiam-se em dados estatísticos a partir de resultados eleitorais e de levantamentos em sites especializados em política e eleições. As anotações foram preparadas para minha participação hoje, pela Rádio Rural, no trabalho de apuração dos votos, que começa logo que o trabalho nas seções eleitorais acabar.
Espero que os textos ainda sirvam como fonte para aqueles que vão às urnas hoje, votar consciente.

Candidatos a prefeito e vereadores – comparativos com 2004

Todos já estão cansados de saber que são quatro os candidatos à prefeitura de Santarém este ano:

Maria do Carmo, promotora pública, que concorre à reeleição numa coligação de 12 partidos (PT-PMDB-PR-PDT-PPS-PSB-PRB-PTB-PMN-PP-PSC-PcdoB), chamada “A Mudança Vai Avançar”. Seu vice é o ex-secretário municipal de Transportes José Antonio Rocha (PMDB);

Lira Maia, engenheiro agrônomo, que tenta um terceiro mandato numa coligação de 4 partidos (DEM-PSDB-PV-PSDC) com o nome de “Coligação do Povo”. Seu vice é o também enegenheiro agrônomo e vereador Luiz Otávio Macêdo;

Joaquim Hamad, piloto de aviação que já disputou campanhas de vereador e deputado federal e se apresenta numa coligação de apenas 2 partidos (PTC-PRTB) com o nome de “Renova Santarém”. Seu vice é o microempresário Carlos Afonso Calassina Yassin;

Márcio Pinto, professor e bacharel em Direito atuando no Fórum de Santarém, além de presidente licenciado do Sintepp/Santarém (Sindicato dos Professores Estaduais), que lidera o PSOL sem coligação. Seu vice Jorge Messias do Nascimento Flexa..

A disputa está acirrada, mas segundo todas as pesquisas já divulgadas o embate final é entre Maria do Carmo e Lira Maia. Os dois dizem que vencem. Um dos dois vencerá, talvez de forma apertada. Mas o eleitor pode surpreender e acabar dando uma vitória maiúscula para um dos dois. Essa eleição pode fechar um ciclo de 16 anos de disputa entre os dois candidatos. nas próximas eleições, quando provavelmente teremos 2º turno, um novo ciclo deve ser iniciado e talvez sem a presença dos dois.
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O número de partidos envolvidos na campanha deste ano é de 19. Em 2004, eram16.
Dois partidos mudaram de nome de lá para cá: o PFL passou a se chamar DEM; e o PL (após se fundir com o antigo Prona, do eterno Enéas) passou a ter como sigla o PR.
Dos partidos que disputaram a eleição municipal há quatro anos, dois não participam dessa campanha: o PT do B e o PSL. Mas cinco novas siglas disputam estas eleições: PSDC, PMN, PRB, PC do B e PSOL. Informações sobre os partidos mais à frente.
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Dos 19 partidos das eleições deste ano, apenas três não se coligaram na disputa de vereadores: PMDB, PDT e PSOL. Os demais formaram 6 coligações diversas, o que significa que contarão os votos como se fosse um só partido, quando da temível matemática proporcional (entenda mais sobre Quociente Eleitoral e Quociente Partidário clicando AQUI). As coligações são:

“Renova Santarém” (PTC-PRTB), com apenas dois candidatos a vereador (um do PTC e um do PRTB);
“Santarém em Desenvolvimento” (PT-PR), com 25 candidatos a vereador (seis do PR e dezenove do PT);
“Coligação PP/PSC/PCDOB/PTB”, com 23 candidatos a vereador (cinco do PC do B, treze do PP, três do PSC, e dois do PTB);
“Coligação DEM/PV”, com 27 candidatos a vereador (vinte do DEM e sete do PV);
“A Santarém Que Você Quer” (PMN-PPS-PRB-PSB), com 27 candidatos a vereador (seis do PMN, seis do PPS, quatorze do PSB e um do PRB);
“Coligação PSDB/PSDC”, com 24 candidatos a vereador (dezessete do PSDB e sete do PSDC);
O PDT e o PMDB concorrem com 20 candidatos a vereador cada. O PSOL apenas com oito candidatos.
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Em 2004, a lista de vereadores foi composta com 176 candidatos, mesmo número deste ano. Entretanto, pelo menos um candidato teve seu registro negado em última instância (TSE) e perdeu o direito de disputar as eleições já nesta semana (detalhes mais à frente). No início da campanha, eram 182 candidatos, sendo que 174 tiveram seus registros aceitos. Dois candidatos impugnados recorreram das decisões e ficaram constando da lista até o final, inclusive fazendo campanha. Outros seis foram impugnados e/ou desistiram de concorrer.
Dos candidatos que concorrem este ano às 14 vagas na Câmara Municipal, 41 participaram da eleição de 2004. Os demais, em sua grande maioria, são neófitos na política. Dos 14 eleitos em 2004, somente 10 tentam a reeleição, três desistiram e um concorre a vice-prefeito.


Nomes que mais se destacam com chances de se eleger à Câmara

Essa lista é um palpite meu, após um estudo sobre as coligações e os nomes que se sobressaíram nas campanhas. Não vou afirmar que estejam eleitos, mas com possibilidades em relação aos outros. Os nomes surgiram a partir de observações minhas e de conversas com outras pessoas que tem experiência em política.
Inicialmente, é bom frisar que o quociente eleitoral deste ano deve ficar acima de 11 mil votos. Assim, analisando os partidos e coligações, posso afirmar categoricamente que o PSOL, o PRTB e o PTC não vão eleger nenhum vereador, exatamente por terem poucos candidatos e em sua maioria inexpressivos, sem condição de alcançar o quociente eleitoral. Os demais partidos e coligações, pelas minhas projeções, teriam os seguintes resultados:

A “Coligação PSDB/PSDC” corre o risco, também, de não eleger nenhum candidato. Em 2004 elegeu dois vereadores, que não estão concorrendo este ano. Mas se alcançar o quociente, elegeria pelo menos um vereador. Os mais cotados para a única vaga seriam o ex-vereadores Osvaldo de Andrade, Marco Aurélio e Chiquinho da Umes, correndo por fora a professora Terezinha Pacheco, todos do PSDB. O PSDC não tem nomes com expressão para contrapor os já citados;
A “Coligação PP/PSC/PCDOB/PTB” é outra que corre o mesmo risco da coligação anterior, mas por ter nomes mais expressivos pode conseguir eleger pelo menos um vereador. Os mais cotados são Gerlande Corrêa Castro e Silvio Amorin (PP) e Geovani Aguiar (PSC). PTB e PC do B não têm nomes que possam fazer frente aos já citados;
A “Coligação DEM/PV” deve eleger um a dois vereadores. Uma terceira vaga é quase remota. Os mais cotados são: Erasmo Maia, Henderson Pinto e Anaelson Carrolino (DEM) e Valdir Matias Jr. (PV).
A “Coligação A Santarém Que Você Quer” pode eleger dois ou três vereadores. Uma quarta vaga é remota. Os mais cotados na disputa são o médico Nélio Aguiar (PMN), o vereador Reginaldo Campos e o ex-vereador Laudenor Albarado (PSB). Outros nomes não tem tanta expressividade, mas podem ocorrer surpresas.
A “Coligação Santarém em Desenvolvimento”, é uma das mais fortes e com mais nomes na disputa. Deve eleger três a quatro vereadores. Os mais cotados são: Emir Aguiar (PR), Professora Farias, Rivelino Mota e Ivete Bastos (PT). Correndo por fora, mas com grandes chances vêm mais quatro candidatos do PT: Cassiano Amazonas, Bárbara Matos, Milton Peloso e Carlos Jaime. Com menor chance a vereadora Odete Costa.
O PDT deve eleger apenas um vereador, e os mais cotados são a vereadora Marcela Tolentino e o bacharel em Direito Bruno Pará. Correndo por fora, o ex-vereador Evandro Cunha.
O PMDB deve eleger dois ou três vereadores. Na disputa estão José Maria Tapajós, Maurício Corrêa e Erlon Rocha. Correndo por fora, mas com chances remotas, Manoel Diniz e Ronan Liberal Jr.
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A eterna indigesta sopa de letrinhas e de números

O historiador Voltaire Schilling diz que “oficialmente, os partidos políticos já existem no Brasil há mais de cento e sessenta anos. Nenhum deles, porém, dos bem mais de duzentos que surgiram nesse tempo todo, durou muito. Não existem partidos centenários no país, como é comum, por exemplo, nos Estados Unidos, onde democratas (desde 1790) e republicanos (desde 1837) alternam-se no poder. E o motivo disso, dessa precariedade partidária, da falta de enraizamento histórico dos programas nas camadas sociais é a inconstância da vida política brasileira” (Site Educaterra). Os primeiros partidos, diz ele ainda, surgiram exatamente em 1837, ainda no Segundo Reinado e representavam os conservadores (Saquaremas) e os liberais (Luzias).
Atualmente, estão registrados junto ao TSE – Tribunal Superior Eleitoral, responsável pela organização eleitoral no Brasil, 29 agremiações partidárias que formam uma grande “sopa de letrinhas e de números”. Do histórico PMDB ao novíssimo PSOL, são 27 anos de uma história de pluripartidarismo iniciada durante o último governo militar após o processo de abertura política do presidente João Figueiredo que trouxe de volta ao Brasil diversos exilados políticos. Eles representam tendências ideológicas da ultradireita à ultra esquerda, mas é quase um consenso de que não precisaríamos mais que dez partidos para isso, o que significa que a grande maioria não passa de legendas de aluguel, utilizadas para fins eleitoreiros e esquemas de corrupção. Abaixo um pouco do histórico dos partidos que participam das eleições em Santarém, este ano:

O Partido Republicano Brasileiro (PRB-10) foi fundado por bispos da Igreja Universal depois que alguns deputados de sua bancada evangélica se envolveram nos dois últimos escândalos nacionais. A figura mais ilustre deste partido é o atual vice-presidente do Brasil, José Alencar, que compõe mais uma vez a chapa de Lula. Em Santarém, concorre pela primeira vez com apenas um candidato a vereador.
O Partido Progressista (PP-11) foi o antigo “maior partido da América Latina”, braço da Ditadura. Depois de diversas “cirurgias políticas” e de perder grandes lideranças como Sarney e ACM para o PFL que não aceitavam o domínio do ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf, denominou-se PPR e PPB até chegar ao minúsculo PP, fundado em 16.11.1995, mas ainda mantém a mesma cara malufista, embora esteja envolvido em novos escândalos financeiros como o do Mensalão e das Sanguessugas. É um partido à direita, mas que tenta sobreviver à sombra de quem está no poder (inclusive o PT, que já foi seu arqui-inimigo). Um dos líderes do partido em Santarém é o vereador Luiz Alberto.
O Partido Democrático Trabalhista (PDT-12) surgiu uma semana depois do PTB, quando o então ex-exilado Leonel Brizolla perdeu aquela sigla para a deputada Ivete Vargas. Remanescente do getulismo, Brizolla queria ser um novo caudilho nacional e fundou o PDT com um viés socialista, diferente do trabalhismo getulista. Até sua morte, o PDT era um partido com a cara do Brizolla. Hoje, meio sem identidade, tenta sobreviver na selva de siglas e encontrar um novo referencial ideológico. Em Santarém, o comando do PDT desde 1992 é do advogado e empresário Osmando Figueiredo.
O Partido dos Trabalhadores (PT-13) foi a maior surpresa no cenário pós-Ditadura. Foi fundado em 11.02.1982, tendo como base o crescente movimento sindical brasileiro, foco da resistência popular à Ditadura. Com um líder carismático, o ex-metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva, atual presidente do Brasil e um discurso que evoluiu da ultra-esquerda ao centro , chegou ao poder mas sofreu um grande revés em seu principal patrimônio: a credibilidade. Envolvido no chamado Escândalo do Mensalão, perdeu o charme de partido da honestidade. É o partido da atual prefeita de Santarém, Maria do Carmo.
O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB-14) ressurgiu em 03.11.1981 tentando resgatar a imagem de seu maior líder, o ditador Getúlio Vargas. Foi exatamente a sobrinha-neta dele, a falecida deputada Ivete Vargas que refundou o populismo trabalhista, transformado numa legenda recheada de líderes empresariais que tem defendido a participação política mais constante da iniciativa privada na vida pública. É um dos partidos que sempre esteve envolvido em escândalos nacionais, a maioria deles com as digitais do já cassado deputado Roberto Jefferson. Em Santarém, o PTB pela primeira vez tem uma representação pífia na disputa pela Câmara municipal com apenas dois candidatos, demonstrando que encontra-se quase em decadência em relação a outros anos quando chegou até a disputar a prefeitura e ter deputado federal eleito por dois mandatos.
O Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB-15) foi fundado em 30.06.1981 e nasceu sob as bases do histórico MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido que representava a oposição ao regime militar implantado no Brasil entre 1964/1984, e se consolidou com a eleição (ainda de forma indireta) do primeiro presidente civil pós-Ditadura (Tancredo Neves, que morreu antes de assumir). Conhecido como “guarda-chuva das esquerdas” durante a Ditadura, o PMDB passou a ser uma colcha de retalhos formada hoje em sua maioria por políticos de centro, oligarquias regionais e muitos oportunistas de plantão. É ainda o partido com a maior representação em todo país, organizado em todos os municípios e comandando a maioria deles. Desde o fim do regime militar, vive à sombra do Poder compondo ou ajudando a derrubar os presidentes eleitos neste período democrático. Quando não elege os líderes regionais, coopta, ou seja, atrai esses líderes usando a pressão de suas bancadas legislativas. Santarém já assistiu, em sua recente história política, pelo menos dois casos de prefeitos eleitos por outras siglas que no meio do mandato acabaram cedendo à essa pressão. No Pará, tem um de seus maiores líderes nacionais, o deputado federal Jader Barbalho. Em Santarém tem como principais líderes o deputado Antonio Rocha e o atual vereador Ruy Corrêa.
O Partido Socialista Cristão (PSC-20) foi fundado em 15/05/1985 e é um partido com pouca expressão nacional, mas que tem crescido nos últimos anos. Em Santarém tem como um de seus líderes o ex-vereador Geovane Aguiar.
O Partido da República (PR-22) surgiu da fusão do PL e Prona. Nasceu defendendo a reforma tributária e o fim da intervenção econômica do governo. Pautado nos ideais liberais do falecido deputado carioca Álvaro Valle (PL), defendia uma maior seleção de seus quadros, inclusive com um “vestibular para os candidatos”, mas foi derrotado pelo pragmatismo e acabou invadido por líderes religiosos evangélicos, até se envolver nos dois últimos grandes escândalos nacionais (Mensalão e Sanguessugas), que o levaram à fusão para renovar a sigla. Em Santarém, as principais lideranças do partido são o ex-deputado federal Hilário Coimbra e o vereador Emir Aguiar
O Partido Popular Socialista (PPS-23) foi fundado em 19.03.1992 e sobre as ruínas do antigo PCB – Partido Comunista Brasileiro, fundado 70 anos antes. Aproveitando os ares de redemocratização do leste europeu, pós-queda do Muro de Berlim, surge um novo partido que tenta manter a filosofia socialista, mas sem os velhos jargões utópicos. Aproxima-se do socialismo real europeu, que predomina em países como Espanha e França. Aos poucos os PPS adquire hábitos mais ao centro, e namora com a social democracia, não diferindo o discurso do PSDB, do qual inclusive tem sido um grande aliado. Em Santarém é liderado pelo músico Guilherme “Taré”.
O Partido Democratas (DEM-25/antigo PFL) foi fundado em 11.09.1986 defendendo a doutrina do liberalismo econômico. Seus principais líderes eram remanescentes do partido de sustentação do regime militar, o antigo PDS, e haviam se rebelado contra o malufismo que dominou a antiga sigla, quando o ex-governador Paulo Maluf usou de seus métodos aliciadores para tentar chegar à presidência da República. O PFL representa hoje um dos setores mais reacionários e conservadores da política nacional, mas não tem tido poder suficiente para se impor no cenário nacional, o que o leva a depender de outras forças partidárias, ora o PMDB, ora o PSDB. A representação do adesismo demo é a figura do falecido cacique baiano Antonio Carlos Magalhães (ACM). Em Santarém é liderado pelo deputado federal Lira Maia
O Partido Social Democrata Cristão (PSDC-27), fundado em 30/03/1995, pelo ex-deputado constituinte José Maria Eymael. Disputa a primeira eleição este ano em Santarém.
Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB-28), foi fundado 27/11/1994, a partir da fusão com de dois partidos o PRT e o PST. Tem como líder local o microempresário e candidato a vice-prefeito Carlos Yassin.
o Partido da Mobilização Nacional (PMN-33) foi fundado em 21/04/1984 e tem um amplo viés nacionalista. Surgiu em Santarém há dois anos e esta é a primeira disputa municipal em que se envolve. Tem à frente o médico Nélio Aguiar.
O Partido Socialista Brasileiro (PSB-40) foi refundado em 01.07.1988, já que também havia existido antes do getulismo. Tem sido a sombra do PT desde a primeira disputa nacional em 1989, quando ainda era liderado pelo ex-governador pernambucano Miguel Arraes. Nos últimos anos rendeu-se ao pragmatismo partidário e começou a aceitar lideranças regionais que de socialistas não tem nada, como Ciro Gomes, empresário e político cearense que saiu passou pelo antigo PDS, pelo PSDB e pelo PPS, já como ministro de Lula. O PSB também foi envolvido no escândalo das Sanguessugas e no Pará seu maior líder, o ex-senador Ademir Andrade, responde a um intricado processo de suposta corrupção na CDP (Companhia das Docas do Pará) que estava sob seu comando (escândalo pelo qual chegou a ser preso). Em Santarém, o principal líder é o vereador Reginaldo Campos.
O Partido Verde (PV-43), que tem com um de seus eternos líderes o jornalista e ex-guerrilheiro Fernando Gabeira, por exemplo, é fundado em 30.09.1993, a partir do crescente movimento ambientalista brasileiro pós-Eco/92, o grande evento realizado em nosso país em que o debate ecológico entrou em cena. Foi um passo para criar aqui, um partido de tendência ecológica aos moldes europeus, mas seu ideário fica muito distante da vanguarda ambientalista da Europa e hoje não passa com pouca expressão. É liderado em Santarém pelo economista e vereador Valdir Matias Júnior.
O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB-45) é outro partido surgido após a promulgação da última Constituição Brasileira. Em 24.08.1989, antigos líderes peemedebistas com tradição de centro esquerda, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Mário Covas, divergem do pragmatismo peemedebista e criam um partido que pretende trazer para o Brasil o socialismo democrático, que na época imperava na Europa e era apontado como uma solução menos traumática que o socialismo utópico petista. Na primeira eleição a presidência, com Mário Covas, o partido não tem boa performance e se alia ao PT no 2º turno contra Fernando Collor. Mais tarde, alia-se ao liberalismo do PFL e consolida sua liderança nacional em dois mandatos de FHC (1994/2002), tendo como principal trunfo a estabilização monetária e a criação do Real. Seu discurso fica cada vez mais liberal, o que o afasta do socialismo democrático europeu e o aproxima do liberalismo conservador da ex-dama de ferro da Inglaterra, Margareth Thatcher. Com a ascensão do PT ao poder, assume um discurso ainda mais raivoso e direitista. Em Santarém, é liderado pelo deputado estadual Alexandre Von
O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL-50) foi fundado em 15/09/2005, quando ex-lideranças do PT foram expulsas por não aceitar os novos rumos do partido em direção ao centro. A maior líder desse grupo é a senadora alagoana Heloísa Helena, que arregimentou vários deputados que se afinavam ao seu discurso e que representavam algumas alas de ultra-esquerda dentro do PT. Disputa sua primeira eleição, tentando se impor como uma nova alternativa de esquerda, mas seu discurso é tão arcaico quanto o dos demais partidos nanicos de esquerda, fósseis de um marxismo utópico e irresponsável. Tem como referências em Santarém o candidato a prefeito Márcio Pinto e o estudante Maike Vieira.
O Partido Comunista do Brasil (PC do B-65) surgiu oficialmente em 23.06.1988, mas já existia há décadas. Nascido de uma divergência do antigo PCB (Partido Comunista Brasileiro), viveu na clandestinidade durante a Ditadura e consolidou-se nas ruas dos centros urbanos através de ações armadas espetaculares como o seqüestro de um embaixador americano. Hoje é um partido-satélite do PT e se posiciona cada vez mais à centro-esquerda. Até o momento não teve o nome de nenhum de seus líderes envolvido em grandes escândalos nacionais. O presidente da Câmara Federal, deputado Aldo Rebelo, é o seu maior líder. Em Santarém surge este ano, mas não tem nenhum líder reconhecido até o momento.

domingo, 13 de julho de 2008

Aos 45 do primeiro tempo... a metáfora da vida

A vida é uma eterna partida de futebol, metaforicamente falando. Ora fazemos gol, ora engolimos frango. Dentro desse raciocínio, posso dizer que hoje cheguei aos 45 minutos do primeiro tempo de minha vida e já começo o segundo tempo deste jogo, que eu espero que tenha acréscimos, prorrogação e decisão em pênaltis! Nada de interromper o jogo antes do final, senhor juiz (digo isso como bom botafoguense, eternamente perseguido pela arbitragem)!

Aprendi a acreditar numa força interior que vive em moto-contínuo e nos impulsiona sempre à frente. Há quem chame isso de deus ou de destino. Eu chamo simplesmente de fé. Acreditar na força interior é para mim o mais importante para que nós, “jogadores de futebol” possamos pensar em ganhar um campeonato. E não importa se o nosso time é o Santos de Pelé ou o Tabajara do Bussunda, pois o que importa mesmo é competir! Se puder dar goleada, tudo bem. Mas é sempre bom saber que um dia é do goleador e outro é do goleiro. O melhor mesmo seria um empate aristotélico: “a virtude é buscar o meio-termo”.

Além da fé, todo jogador talvez precise ter também um pouco de sorte, muito embora haja quem não acredite nela. Me considero um jogador sortudo. Nasci num dia 13 e por muitos anos achava que isso era sinal de azar. Até porque quase sempre no meu aniversário eu ficava doente! A superstição sobre o 13 me acompanhou vida afora (inclusive nas opções partidárias), mas ao final descubro que essa preocupação zagalliana é inútil. Talvez por isso tenha até abusado da minha “sorte” colocando em risco muitos lances desta partida de futebol que venho jogando há 45 anos (ou minutos...). Quem sabe agora que o meu “primeiro tempo” acabou, não volto a campo jogando com mais cautela?

Falando em sorte, posso dizer que me espelho no meu pai (foto ao lado). Ele nunca acreditou nela, mas de certa forma ela esteve quase sempre ao seu lado, por mais que nem sempre lhe fosse totalmente benéfica. Ele sempre diz: “Quando eu era prisioneiro dos búlgaros, na 2ª guerra mundial, vi amigos definharem e morrerem, o que me levava a achar que o próximo seria eu e que não passaria dos meus 18 anos, e então pedi com todas as minhas forças que Deus me deixasse chegar pelo menos aos 40, para ter tempo de realizar algumas coisas na vida, mas como passei dos 80 já estou no lucro”. Filosofia de um velho grego, hoje aos 87 anos, mais saudável do que eu.
A minha sorte, que eu sempre achei ser azar, traduz-se na família que consegui montar ainda que de forma atabalhoada, juntando “cacos” pelo caminho. Tive dois filhos com mulheres diferentes e um dia casei e ganhei logo mais uma filha da “produção independente” de minha esposa. Completamos a família com mais um filho nascido após o casamento e que se tornou o elo de ligação entre os outros irmãos. Não é fácil manter uma família tão sui generis como essa, mas acho que conseguimos. Hoje, um dos filhos me deu a alegria de ser avô aos 45! A pequena Saloniki (na foto abaixo, disputando comigo para ver quem tem a língua maior) completou ontem um mês de vida (quem quiser ver o álbum completo de fotos da minha neta, clique AQUI. Só não digam que ela se parece comigo, pois isso seria uma judiação com a menina...).

Chego aos 45 minutos deste jogo da vida ao lado de Graça (que também faz 45 no dia 31, ou seja, ela é o meu 13 invertido), de Carla (a filha que me adotou como pai e também virou jornalista), de Helena (a bela mãe de Saloniki), de Thiago (o filho que ainda parece confuso, como quando eu tinha sua idade) e Georgios, o filho-síntese, nosso pequeno fil(h)ósofo grego.

Estou de férias e depois de alguns dias por aqui resolvendo problemas pessoais, vou me encontrar mais tarde com parte da família que se encontra em Manaus, onde vou passar uma semana. Estas férias só não serão as melhores porque, por um descuido imperdoável meu acabei não realizando uma tarefa que era de minha responsabilidade e por isso prejudiquei os sonhos dos colegas de faculdade. Como todo mundo já deve saber, nossa turma de jornalismo, a 1ª de Santarém, conquistou um prêmio regional num encontro científico, com direito a representar o norte do Brasil na versão nacional. Um golaço do qual participei como atacante, driblando vários obstáculos e chegando à meta do adversário. Só que enquanto comemorávamos o gol, me descuidei com o tempo e acabei perdendo o prazo para inscrever o trabalho na etapa nacional! Frangaço! Fiquei arrasado, como o jogador que erra o pênalti decisivo. Já me desculpei com a turma. Foram todos corteses e me perdoaram, mas eu bem que merecia um cartão vermelho...

Mas enfim, como eu disse no começo, ora fazemos gol, ora engolimos frango. Já estou preparado para entrar em campo depois do intervalo do primeiro tempo. No país do futebol, nada melhor do que suar a camisa e continuar acreditando que a vida é uma bola. E que a nós cabe buscar a meta do adversário para fazer um gol. Ou não.

Tudo na vida não passa de uma metáfora. Como diria nosso ministro Gilberto Gil, “Uma meta existe para ser um alvo/Mas quando o poeta diz: "Meta"/Pode estar querendo dizer o inatingível”...
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P.S. o desenho lá no início é uma cópia mal feita por mim sobre o trabalho do caricaturista Francisco Soza, que retratou o grande craque do Botafogo, Garrincha.

domingo, 29 de junho de 2008

As aventuras e desventuras de um jornal experimental na Amazônia(*)

- Pode comemorar, somos campeões!
A voz no celular, direto de Roraima, confirmava a vitória de um projeto que, a princípio, poderia ser apenas mais um trabalho acadêmico ganhando um troféu (foto acima) num congresso estudantil. Mas a conquista do prêmio de melhor trabalho na categoria “jornalismo impresso” para o jornal experimental “CidadeMídia” da 1ª turma de graduação em Comunicação Social de Santarém, é muito mais que isso. Não só para os 30 acadêmicos que participaram do processo de elaboração, mas, historicamente (um dia isso será reconhecido) é a consolidação de um sonho que o próprio nome do jornal carrega em si.
Estou falando do Intercom Norte/2008, que aconteceu em Roraima e que pela primeira vez teve um trabalho de estudantes de jornalismo de Santarém concorrendo com outras faculdades. E no final, a vitória com direito a representar a região norte no Congresso do Intercom Nacional, que acontece de 02 a 06 de setembro de 2008, em Natal (RN). Intercom é a sigla da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação que há 30 anos reúne jornalistas, pesquisadores, professores e acadêmicos de jornalismo para debater os rumos dessa nobre profissão. O crescimento da entidade incentivou a realização de congressos regionais e dá oportunidade para que os acadêmicos apresentem trabalhos realizados em seu cursos, numa mostra paralela chamada Expocom. Não há prêmio em dinheiro, mas o trabalho recebe o reconhecimento da academia e fica registrado nos anais da Sociedade.
Mas o que pode haver de especial num jornal experimental feito por acadêmicos de uma faculdade? No caso de Santarém, como o título do jornal sugere, não é somente um nome, mas um conceito que começamos a debater na faculdade: como explicar uma cidade com tanta gente que vive da comunicação há mais de século e meio e que hoje ocupa o espaço em 5 emissoras de rádio, 7 canais de TV e cerca de 10 semanários com produção local? Santarém é uma verdadeira “cidade-mídia”, conceito que começou a ser defendido pelo jornalista Manuel Dutra e que foi assimilado pelos alunos do curso que ele coordenou por dois anos.
Mas chegar ao prêmio e almejar até um reconhecimento nacional, não foi fácil. Foram várias etapas de sofrimento desde a produção até a defesa do trabalho no congresso, mesmo tendo entre os estudantes pelo menos um terço de colegas com alguma experiência na comunicação local. Como eu, tantos outros sofreram para produzir um jornal em formato tablóide com 24 páginas. Dutra dividiu-nos em seis editorias, colocando cada um dos mais experientes como editor. E o que parecia que seria fácil, revelou-se um tormento. Afinal, apesar da experiência acumulada, era preciso reciclar conceitos e cortar vícios.
Na foto acima, o "avô" e os 30 "pais" do CidadeMídia.

As equipes foram às ruas, coletaram as informações e os textos passaram por um processo inicial de revisão. Depois de prontos, novos cortes ou simplesmente a ordem para fazer tudo de novo. Depois dos textos serem aprovados, fizemos uma diagramação coletiva em sala de aula, com a imagem do computador refletida no data-show. Um mês depois, estava pronta a criança saindo do prelo de uma gráfica e lambida como cria pelos 30 "pais". Dutra, o "avô-babão", com olhar enternecido também via um sonho se realizando.
Mas nem tudo eram flores. O jornal foi feito no 3º semestre do curso e só poderia concorrer no Intercom deste ano. Em janeiro, Dutra deixa o curso e seu substituto, um jovem professor sem experiência e de idéias equivocadas, quase põe tudo a perder. Em pé de guerra com todos os alunos ele acaba tendo que sair, não sem antes tentar sabotar nosso trabalho, que sequer foi indicado à direção do Intercom!
Perdemos o prazo da inscrição por causa disso, mas fizemos um apelo por e-mail à coordenação do evento explicando a situação que vivíamos. Enquanto a direção do encontro estudava nosso caso, eis que reabrem-se os prazos para novas inscrições! Não perdemos tempo e conseguimos que a coordenadora pro-tempore da faculdade fizesse aquilo que o coordenador demissionário não fizera. Agora estávamos a um passo do prêmio, certo? Errado, no meio do caminho havia um sistema on-line que não funcionava direito. Nós, como outros acadêmicos do norte, não pudemos registrar nossos trabalhos para concorrer ao prêmio. Frustração...
Após vários protestos por e-mails a coordenação, sensibilizada, consegue a tempo recuperar o sistema e voilá: o “CidadeMídia” aparece na lista dos concorrentes!
Começa então a organização da caravana, mas os altos custos da viagem e outros problemas pessoais, reduzem nosso grupo de 30 para apenas 3! Tudo bem, bastam poucos para defender o trabalho. Às vésperas da viagem, o sistema não registra mais nosso trabalho! Contatos telefônicos e mais protestos. Para completar, mais dois desfalques na equipe de viagem e a única colega apta a viajar segue sem ainda ter certeza se o trabalho será liberado. Até que um dia antes, lá está o “CidadeMídia” novamente na lista... Ao que parece problemas tecnológicos insistiam em nos dar sustos...
Albanira Coelho, jornalista e acadêmica segue sozinha, deixando 29 corações pulsando por aqui. Mas as desventuras do “CidadeMídia” ainda não haviam acabado...
O avião que leva nossa representante à Roraima não passa de Manaus. O mau tempo cancela os vôos e Albanira perde um dia do encontro, exatamente o momento de defender o trabalho! Pelo jeito não era nosso dia. Mas ao chegar em Roraima, corre ao local do evento e descobre que foi aberta nova oportunidade aos acadêmicos que tiveram problemas com o vôo de Manaus. Só que a exposição tinha que ser naquele lugar dentro de alguns minutos! Mas as bagagens ficaram no hotel! Albanira tenta ligar através de celular para que lhe tragam o material. O celular não tem crédito. “Me empreste seu celular”, diz ela a outra colega ao lado e consegue em poucos segundos que alguém se responsabilize em trazer o material, que chega com o prazo quase esgotado.
Na “arena”, a jornalista se vê sozinha com a claque de várias faculdades. Anunciada como sendo de Santarém/Pará, recebe a solidariedade de colegas de Belém. Faz a apresentação e sai do local com a impressão de que se saiu bem. No dia seguinte, seguindo a programação, chega ao local do enceramento para saber se o trabalho foi premiado. Mas a programação foi adiantada e já estão entregando os últimos prêmios. Acanhada, sem saber se ganhamos ou não, senta-se no fundo da platéia até que alguém lhe diz que logo no início chamaram alguém de Santarém que não compareceu!! Tremendo, Albanira se aproxima do coordenador e pergunta “que tal o CidadeMídia?”. E ele apenas diz: “Parabéns! Suba aqui e receba o prêmio!” A claque aplaude e Santarém está no podium. O troféu é nosso!
Para nós não é uma vitória da nossa turma, nem da nossa faculdade, mas uma vitória do jornalismo que se pratica nessa CidadeMídia chamada Santarém, e que ainda vai gerar outros capítulos...
Natal, aí vamos nós...
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(*)Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos publicada em 27.06.2008, no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Idéias nem sempre geniais devem ser totalmente esquecidas?(*)

O que diferencia uma boa idéia de uma loucura estapafúrdia? Acredito que depende muito do resultado que a tal idéia proporcionar. Na verdade, as grandes idéias estão sempre ligadas a momentos de loucura de determinadas pessoas. Daí, talvez, se forjem os grandes gênios da história.
Provavelmente muitas das loucuras que não tiveram bom resultados, foram esquecidas. As que deram certo transformaram-se em grandes inventos, coisas revolucionárias que transformaram as vidas das pessoas. Coisas como o avião de Santos Dumont, por exemplo. Mas sabe-se que antes dele, muitos “loucos de pedra” tentaram voar e se arrebentaram por aí.

Dia desses reassisti o filme “Chaplin”, do cineasta Richard Attenborough, que mostra a trajetória deste gênio do cinema a partir de sua autobiografia. Ver a vida de Charles Spencer Chaplin desde criança é determinante para definir de onde vem sua genialidade e porque sua “loucura” transformou-se numa obra prima. Mas o próprio Chaplin errava e para chegar ao ponto certo repetia trocentas vezes uma cena, até alcançar a perfeição.
Desde a concepção da idéia que gerou suas grandes obras até à produção de seus grandes filmes, Chaplin passou por muitos dilemas, mas nunca desprezou nenhuma das idéias (na foto acima, no filme "O Grande Ditador", de 1941). Este é o ponto a que quero chegar: não basta ser um gênio predestinado, é preciso antes de tudo ser obstinado, ter um pouco de sorte, mas principalmente nunca desistir de uma idéia, por mais louca que ela pareça...
A coisa funciona mais ou menos assim: você chega e diz para o seu chefe que se fizer algo de tal forma a empresa ganha e quem sabe o chefe seja lembrado como um grande empreendedor. O chefe aposta, mas avisa que se a idéia não der certo e ele for ridicularizado, terá que castigar o louco varrido... No fim das contas, o “gênio” está sozinho e tanto pode se dar mal quanto virar um astro!
Minha obstinação para alcançar certos objetivos, me causou muitos dissabores desde a adolescência. Lembro da vez em que cheguei em casa resoluto a comer aquele pacote de biscoitos finos que ficava guardado em cima do armário da cozinha. Todo mundo dormia em casa e essa era a chance de alcançar o objeto do desejo. Mas como combater a altura com meu meio metro de gente?
Pego um banco de madeira de pernas altas, subo e estico o braço. Ainda está longe. Desço, olho ao redor e encontro uma lata de manteiga daquelas grandes, recém aberta. A altura parece boa, mas as bordas da lata sem tampa são perigosas. O biscoito continua desafiando minha inteligência lá do alto da prateleira, até que dou de cara com uma tábua de cortar carne. Uma tampa perfeita para a lata. Subo na minha pirâmide improvisada e estico o braço e... nada! Ainda falta um pouco.
“Não é possível!”, esbravejo. Roda daqui roda de lá, o biscoito parece rir de mim, até que vejo uma outra lata de leite, média. Não penso duas vezes. Coloco em cima do meu projeto de torre Eiffel e subo os degraus da fama. Equilibrado sobre minha engenhoca estico o braço e pego a caixa de biscoitos! Que alegria, mas de repente, perco o equilíbrio e minha torre desmorona. O pé vai direto para a borda da lata de manteiga: resultado 12 pontos na palma do pé, uma noite de sermão do pai e uma semana de cama em casa. Foi uma péssima idéia? Nem tanto. “Gazetei” a aula por sete dias e ainda tive a chance de ficar em casa, sozinho, com uma nova empregada que acabou cuidando de mim muito bem...

Até as péssimas idéias, às vezes, geram bons frutos...

Mas eu cresci e continuei aprontando das minhas. No auge de minha “genialidade”, achei que tinha me tornado um verdadeiro Midas: tudo o que eu tocasse viraria ouro. Em 1986, quando fui demitido pela primeira vez de uma emissora de rádio por questões ideológicas, comecei a saborear as benesses de “ser mártir”. Havia saído da Rádio Rural, onde já tinha um programa de grande audiência. Era o mês de abril e no dia 1º de maio daquele ano a nova rádio AM da cidade, a Rádio Tropical, completava seu primeiro aniversário. Tentando se firmar como uma opção frente à líder de audiência, nada melhor do que contratar o “repórter polêmico’, como eu era conhecido. O amigo Jota Parente, que me conhecia desde a Rural e agora era gerente da Tropical, não duvidou: apostou naquele maluco.
Na primeira semana na emissora, enquanto preparávamos meu programa de estréia (que até hoje está lá, o Comando Tropical), a equipe de jornalismo me recebia como quem recebe um Messias. Qual era a fórmula para desancarmos o Jornal do Meio-Dia, da Rural, campeão de audiência? O chefe da equipe, o jornalista José Ibanês (hoje editor do Diário do Tapajós) me fez a pergunta e disse que precisávamos ousar, apresentar algo diferente, que balançasse a concorrência.
Do alto de minha genialidade não duvidei e lancei uma idéia: que tal o nosso jornal ter três apresentadores? Todos se entreolharam, mas antes que dissessem “não”, comecei a defender a idéia “brilhante” com tanta ênfase que convenci a equipe. E arrematei: “vamos fazer segredo da idéia e não contaremos nem mesmo para o Parente!”
Ibanês olha para os lados e começa a achar que eu sou realmente louco. “Mas e se...” Antes que a frase termine, eu arremato: “Xá comigo!” Afinal eu era ou não o Midas do rádio naquele momento? A equipe de Ibanês se convence e resolve embarcar na minha louca nau...
Dia seguinte, nosso jornal entra no ar. No estúdio, três locutores, Ibanês, eu e um terceiro colega (que prefiro não citar o nome para evitar problemas). Cada um com suas laudas nas mãos. Na técnica, José Mário Dutra, o “Dentinho”, um grande amigo que adorava minhas loucuras. Preparou as trilhas e estava empolgado com o projeto. As gravações dos repórteres estão no ponto.
Começa o jornal, com o anúncio de “um novo tempo no rádio.” As laudas vão saindo das mãos. O primeiro bloco de notícias locais se completa sem nenhum erro. Parece que a idéia vai dar certo. A gente está feliz, Ibanês torcendo para que Parente esteja ouvindo e eu começo a tufar, me achando “o cara”.
Vem o segundo bloco. Como sou sempre o primeiro a começar, leio a primeira frase da primeira notícia, Ibanês a segunda e o terceiro colega a terceira. Quando vou entrar na segunda notícia, um nome estrambótico de alguma autoridade russa se engasga na minha garganta. Tento repetir, mas começo a rir. Ibanês tenta se agüentar e continua a frase, mas se desmancha em gargalhadas. O terceiro colega também começa rindo e não termina a notícia. No lado de lá do “aquário” vemos o “Dentinho” estrebuchando de rir e antes de cair ao chão ainda consegue subir o BG (sigla de Back Ground, o som incidental que toca ao fundo de uma narrativa jornalística)...
No estúdio, os três apresentadores com ataque de risos olham um para o outro e ninguém toma iniciativa de recomeçar. Foi o BG mais longo do rádio! Ibanês já ri aterrorizado e torce para que Parente não esteja ouvindo a emissora. Eu já imagino minha segunda demissão em menos de uma semana, mas não consigo parar de rir. Até que o terceiro colega, mais controlado que os outros, consegue se levantar pede som no microfone e apenas decreta: “Termina aqui, o Jornal Tropical”.
A risada continua e resolvemos abandonar a brilhante idéia. Agora precisamos esperar a fúria de Jota Parente. Mas exatamente naquele dia, nem ele e nem o dono da emissora, o Dr. Ubaldo Corrêa ouviram o programa. Talvez o melhor da minha idéia foi ter sugerido que não contássemos nada da estréia.
Talvez só depois de ler essas linhas, o Jota Parente, hoje em Itaituba, acabe descobrindo porque naquela semana só faltamos engraxar os seus sapatos...

Mas um dia ainda apresento um radiojornal, com três apresentadores!
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(*) Artigo publicado em minha coluna semanal Perípatos, no encarte regional Diário do Tapajós de 17.06.2008, que circula com o jornal Diário do Pará.

Aos mestres, com carinho (a outros, nem tanto...) (*)

O título dessa crônica remete ao famoso filme estrelado pelo ator negro Sidney Poitier (foto abaixo), “Ao mestre, com carinho” (To sir, with love – 1969), uma das primeiras películas hollywoodianas que mostra a luta de um professor idealista, Mark Thackeray, tentando mudar a dura realidade de uma escola num bairro de operários. A crítica especializada diz que depois deste filme “vários outros seguiram o mesmo esquema de professor novato e alunos rebeldes”.Sempre quis escrever sobre o tema, talvez porque me vejo em poucos anos sair da condição de aluno para a de professor. Não que tenha sido um rebelde, muito pelo contrário. Mas tive grandes mestres que de alguma forma ajudaram a formar meu caráter. Mas como a toda regra há exceções, não poderia deixar de lembrar daqueles que também funcionaram de modo contrário.
Ser professor é o mesmo que ser jornalista: é preciso ser um pouco louco. Como de médico e de louco, todos temos um pouco... Mas nesse meio, há aqueles loucos que são mais lúcidos que os que se acham normais. Assim como, há aqueles que parecem lúcidos e que gostariam de ser loucos, e não percebem que são.. loucos de pedra!Como cinéfilo que sou, meu filme favorito sobre o tema é exatamente aquele que mostra um mestre em sua plenitude: o revolucionário professor de Literatura John Keating, de “Sociedade dos Poetas Mortos” (Dead Poet Society, 1989). Ao assistir o filme num cinema de Salônica (Grécia), não conseguia sair da cadeira. Resolvi assistir de novo! E depois dessa, foram mais cinco idas ao cinema para rever o mesmo filme, que mexeu com a minha geração (há poucos quilômetros de Salônica, naquela primeira vez, o muro de Berlim caía e no Brasil, Lula perdia a primeira eleição para Collor). Sempre que “Sociedade...” passa na TV, assisto com a mesma emoção da primeira vez, e sempre que posso, alugo o DVD para reassisti-lo (com a vantagem de poder ver os extras, numa edição especial que conta os bastidores do filme).
Nunca tive um mestre no estilo de Keating (abaixo, na famosa cena em que sobe nas carteiras), que na primeira aula mandou os alunos rasgarem a apresentação do livro de Literatura que tratava a poesia como se fosse um coisa burocrática. Inesquecível também sua lição em latim: carpe diem! (aproveite o dia!). E um grupo de meninos de uma escola conservadora da Inglaterra, de repente aprendeu a aprender, através da poesia e do culto à liberdade. O filme tem um fim trágico, mas termina com uma mensagem de esperança de que é possível fazermos mudanças dentro de nós, apesar das estruturas arcaicas da sociedade.
Tive alguns professores que se aproximaram dessa brilhante loucura de Keating. É bom poder lembrar de alguns deles, e também daqueles que atrapalharam.

Quando cursei o fundamental, em Belém (no já extinto colégio anglicano, John Kennedy), convivi com a inesquecível Tia Anne que cuidava das crianças desde o jardim de infância (hoje, com nossa tendência à americanização, chamam de “Baby Class”) até à quarta série, ensinando-nos português e matemática tocando violão com música de Jorge Benjor! Na quinta série, a grande professora Maria Lúcia Fernandes Medeiros que me incentivou a ler de Monteiro Lobato à Júlio Verne despertando-me para o mundo das letras, e principalmente da poesia. No final do ano, ela era a responsável pela programação cultural e eu, o ator principal, declamando poesias de Bandeira, Quintana, Drummond, ao som de Jobim, Chico Buarque e outros. Anos mais tarde, descobri que tinha se tornado uma importante escritora paraense, mas já faleceu.
Mas uma das maiores qualidades de um mestre é nos ensinar a descer do pedestal. No primário tive a professora Neuzilour que nos colocava em círculo e nos fazia escolher uma coordenação que seria responsável pela aula e pelas notas! Ela assistia à aula e ficava orientando de longe, numa loucura total de reverter os papéis em sala de aula.
Como esquecer também, a professora Liduina? Ouvi falar dela como professora do ensino médio e de repente a encontrei na faculdade. Liduina é daqueles seres humanos que defendem com paixão seus princípios filosóficos e morais, de tal forma que nos leva a repensar alguns valores. Às vezes pode até ser que seu engajamento acabe passando a idéia de maniqueísmo, pelo menos nas cabeças mais conservadoras. Mas Liduina, com singeleza e simpatia, é uma radical chique que nos faz pelo menos pensar sobre o outro lado da história: aquela que não é contada pelos perdedores.
Mais recentemente, tive o prazer de conviver com o mestre dos mestres, Manuel Dutra, que se não chegava a sugerir o rasgar de folhas de Keating e nem a aula “democrática’ de Neuzilor, não parava de falar sobre a necessidade de se “descer do pedestal”. Para ele, só assim é possível aprender e ensinar. Dutra, às vezes ranzinza, mas impondo um controle sobre a turma que faz com que ninguém esqueça dele. Sobre ele nem devo falar tanto, pois é para mim mais que um mestre, é um amigo. A maioria dos professores indicados por Dutra seguiu a mesma linha de trabalho e cativou a última turma de que faço parte.
Os “loucos de pedra”
Tive, como muitos devem ter tido, outros professores que marcaram em sala de aula, do fundamental à universidade, sempre por conseguirem andar na contramão do chamado ensino tradicional. Os que citei, são apenas alguns dos bons exemplos. Mas tive também alguns “loucos de pedra” que pouco ou nada contribuíram para a minha formação a não ser para me fazer rir ou chorar de raiva quando recordo de sua pequenez.Em sua maioria eram tipos mesquinhos, pedantes e que talvez tenham sido alunos CDF´s, mas que não captaram a essência de Paulo Freire e por isso mesmo eram inseguros. A estes últimos, por questões éticas, prefiro não citar os nomes, até porque alguns ainda andam por aí e não seria interessante vê-los espumando de raiva pro meu lado. Chamá-los-ei de X1, X2, e assim por diante.
X1 era aquele professor que chegava à sala de aula para dar uma matéria e acabava dando umas quinze! Era o tipo irritante que tentava mostrar que sabia de tudo, mas no final não sabia nada. Foi professor de português e começava a aula assim: “hoje vou falar sobre as palavras quanto à sua sílaba tônica. Existem as oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. Um exemplo de proparoxítona é a palavra ‘Lâmpada’, que foi inventada por Tomas Edison, famoso cientista americano nascido em 1847, na cidade de Milan, uma vila localizada no estado de Ohio, onde também nasceu o famoso escritor Ambrose Bierce, que escreveu o livro ‘Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek’, que fala de um episódio em ficção que teria ocorrido durante a guerra da secessão americana, que como vocês sabem teve com um de seus grandes líderes...”, e a aula ia por aí afora, sem que a gente soubesse porque diabos, afinal, ‘Lâmpada’ era considerada uma palavra proparoxítona!.
Teve também a X2, que louca e desvairada falava aos berros na sala de aula, dizendo sempre que sabia de tudo e que nós alunos não sabíamos de nada. Precisávamos de um método, e haja nos ensinar métodos de como aprender. Aulas maçantes, soníferas. Nos sentíamos meio-cobaias de alguma pesquisa psicológica.
X3 passava a aula toda tentando parecer moderninho. Com o giz na mão escrevia freneticamente algumas palavras no quadro e conseguia até dar uma aula interessante. Mas de repente, como um lunático passava a contar piadas sem graça, paquerava as meninas ou acertava um pedaço de giz na cabeça daquele aluno que dormia no fundo da sala. Ridicularizava todos com piadas de mau gosto, faltava muito nas aulas e acabou nos passando a idéia de que era meio “pinel”. Um dia entrou na política e virou até vereador... Doidos foram os eleitores...Houve também o X4, que começava a aula rezando. Meia hora de reza. “Jesus está chegando, precisamos louvá-lo”. Era um poeta, bem intencionado, dava uma aula boa, mas uma decepção pessoal o levou a procurar o evangelho como salvação. E achava que todos nós precisávamos de salvação. Um dia, do nada, revelou ser homossexual em plena sala de aula! Nada contra, mas a forma como a questão foi colocada foi tão piegas que nunca mais a turma conseguiu encará-lo.
E como esquecer do X5, aquele professor esquecido e desorganizados que nunca sabia que aula havia dado.! “Hoje vamos falar sobre a antiga Roma e sobre os doze Césares... Júlio César foi um desses imperadores, criando dinastias que levaram Roma ao apogeu e à destruição”. E a aula ia por aí afora, até que no final ele dizia: “Na próxima aula falaremos sobre o Cristianismo no Império Romano”. Semana seguinte lá estávamos nós e ele entrava em sala e começava: “Hoje vamos falar sobre a antiga Roma e sobre os doze Césares... Júlio César foi um desses imperadores, criando dinastias que levaram Roma ao apogeu e à destruição ...”. Atônitos, tentávamos dizer que ele já tinha dado aquela aula, mas o pobre não acreditava. No final dizia: “Na próxima aula falaremos sobre o Cristianismo no Império Romano”. Na outra semana, nossa esperança era que ele se lembrasse do tema. Lá vinha ele: “Hoje vamos falar sobre a antiga Roma e sobre os doze Césares... Júlio César foi um desses imperadores, criando dinastias que levaram Roma ao apogeu e à destruição ...”. Até hoje, pouco sei sobre “o Cristianismo no Império Romano”...X6 era o louco em pessoa. Primeiro nos dizia “nunca digam isso, porque isso não deve se dizer”. No dia seguinte dizia o contrário do que havia dito. Metódico ao extremo, adorava um visual empaletozado, mas às vezes chegava em sala sujo por andar jejuando e orando. Um fundamentalista cristão que falava de suas experiências de menino, assumindo ser da “geração Xuxa”. De repente perguntava a todos: “Sabem por que a Marlene brigou com a Xuxa?” Imaginem o nível da aula...
Em todos os casos de professores que se mostraram inseguros ou despóticos, não há como não se rebelar. Ninguém pode ser rebanho na mão de loucos como estes. De Hitleres e Bonapartes o mundo já cansou. Muitas vezes tive que me expor e até ser chamado de “rebelde sem causa”, por reagir a esses tipos.Aos verdadeiros mestres, o carinho. Aos impostores, o desprezo.
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(*) Artigo publicado em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 21.05.2008, no encarte regional Diário do Tapajós, que circula com a edição do jornal Diário do Pará. Charge de Coniglio, copiada da internet com texto adaptado por mim. As fotos são de divulgação da internet.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

NASCEU SALONIKI, A PRINCESINHA DA 4ª GERAÇÃO NINOS!


3,5 quilos de gente distribuídos em um corpinho de 49 centímetros! Eram mais de oito da noite, quando nasceu a mais nova integrante da família Ninos: SALONIKI. Já nasce com nome e jeito de princesa. Na foto acima, logo após o nascimento e ainda com as marcas vermelhas da luta inicial pela vida. Ela que é o fruto de um casal de namorados muito feliz nesse dia, Helena e Mádson.

SALONIKI é uma homenagem à princesa grega que era irmã de Alexandre, o grande. É também o nome da segunda maior cidade da Grécia, onde a família Ninos se estabeleceu depois da 2ª Guerra. Foi lá também que vivi durante três anos entre 1988/1991. O nome da cidade é Thessaloniki, em grego, mas também é chamada de Saloniki nome que resolvi sugerir para homenagear a primeira neta.
Na foto abaixo momento exato em que Saloniki dá o primeiro passeio em quatro rodas (da sala de parto à enfermaria).

Foram nove meses de espera, desde o anúncio da gestação aqui no blog. Minha primeira neta quase nasce numa sexta-feira 13, mas acabou chegando em pleno Dia dos Namorados. É o meu presente de aniversário com um mês de antecipação. O outro presente pode ser um babador... estou precisando!!!
Outros momentos da chegada de Saloniki Ninos, estarão num álbum especial que estou preparando. Estou muito cansado e preciso dormir o sono dos justos. Afinal sou um avô responsável e amanhã tenho que voltar a ver Saloniki... depois da mãe e da enfermeira, ela viu logo à frente o avô querido e sorriu, como mostra a foto abaixo.

Baba, baby!

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Que culpa têm meus tímpanos do “pinto pequeno” dos outros? (*)

Não sei se estou ficando um velho ranzinza (nem cheguei aos 45) ou se estou vivendo o apocalipse. O fato é que muitas coisas do nosso cotidiano me incomodam, principalmente quando meu direito é desrespeitado. Há tempos venho querendo escrever sobre o assunto, mas tinha prometido a mim mesmo evitar esse tipo de comentário pelo fato de atuar como serventuário da Justiça. De repente, percebi que isso é tolice: antes de ser funcionário da Justiça, sou um cidadão!
O título acima expressa exatamente isso: porque tenho que sofrer com o ruído infernal de aparelhagens de som possantes - que tantos filhinhos-de-papai insistem em nos impingir no dia-a-dia - só por causa de seus complexos de inferioridade? Que me desculpe a colega do andar de cima, mas existe uma galera de garotões acostumados a aparecer nas colunas sociais que deve sofrer com a crise freudiana do “pinto pequeno”. É a lei da compensação: o "cara" olha pra baixo e percebe que não é tão “turbinado” o quanto gostaria. Aí, papai lhe arranja a mesadinha do mês e o moleque compra um som “arretado” para se vangloriar diante dos outros. É o mínimo que se pode pensar de quem precisa exibir carrões com sons potentes, para impressionar as meninas. Talvez fosse mais interessante que os papais investissem o dinheiro com terapia ocupacional pros seus meninos... o dinheiro teria retorno e a sociedade agradeceria!
O pior de tudo é que ao se acharem no direito de promover a fuzarca, eles tripudiam o meu direito de me abster da barulheira. E haja barulheira! O agravante é que o gosto musical dessas tribos é duvidoso: de breganejo a axélypso...
Há aqueles que levam seu som para a orla, juntam alguns amigos e até se divertem numa boa. Sem incomodar os outros. Mas há alguns que exacerbam e fazem do seu som um trio elétrico de milhares de megatons, não se importando com os tímpanos dos pobres transeuntes...
E pra não dizer que não falei de flores, até em minha família tenho esse tipo de problema. Mas longe de mim incentivar, pelo contrário, pego no pé, me torno um chato, antiquado, dinossauro...
Ora, venhamos e convenhamos! A questão não é o barulho em si, mas quando e onde ele é produzido. Sou da geração 80 e quando era solteiro adorava som alto em meu apê para tocar meus vinis dos Titãs, Paralamas e até do RPM. É possível que já tenha até incomodado algum vizinho, mas era uma época em que um olhar bastava para que a gente se envergonhasse e mudasse de postura. Hoje, se eu resolver encarar um desses brega-boys, tô arriscado a parar num traumatologista (e se eles souberem ler, é possível que esse seja meu destino a partir de amanhã...)!
Em Alter do Chão tem uma placa (foto) que toda vez que vejo, morro de rir! Ela diz em letras garrafais: “PROIBIDO SOM ALTO. Lei 7347/1985. Art. 225 da Constituição Federal. Som permitido em decibéis: 65 diurno e 55 noturno”. E sempre ao lado da placa, dezenas de carrões enfileirados, rugem a trocentos decibéis. Ignóbeis! E onde estará o ISAM – Instituto Socioambiental de Santarém – para coibir os abusos? Será que ao menos eles têm um decibilímetro para auferir a potência dos sons? O ISAM faz algumas blitze, talvez aplique uma multa aqui e acolá, para algum carro de propaganda que se exceda. E só!
Mas falando em leis, convivo diariamente com elas e todas são bonitas. Não quero falar como um funcionário da Justiça, mas como um cidadão: acho que não precisamos de mais leis, precisamos de quem as faça cumprir. No caso, o Estado, através de seus fiscais: as polícias, o Ministério Público e órgãos de apoio. A Justiça entra quando a contenda precisa de quem modere uma solução, ou precise de punição.
A lei citada na placa de Alter (7.347) é a que “disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente” e outros direitos civis. Ou seja, é através do que diz essa lei que podemos processar alguém que fere os nossos direitos. Mas, talvez, a maioria de nós ache que não adianta acionar a Justiça, abarrotada de tantos processos. E a impunidade continua.
Já o art. 225 da CF, também citado na placa de Alter, diz que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Bonito, não? Poluição sonora é uma das piores poluições e que nos afeta diariamente, quase de forma imperceptível (não é o caso das parafernálias sonoras). O que falta para que as autoridades façam valer esse direito de todos?
Fico feliz de ter ouvido recentemente um novo delegado de polícia assumir o comando de suas equipes vociferando: “vamos combater principalmente a proliferação de aparelhagens!” Se não for rompante de quem quer visibilidade eleitoral, com certeza pode fazer história. Um juiz que passou por Santarém recentemente, tornou-se o terror dos brega-boys: trancafiou um deles na penitenciária por alguns dias e mandou outros tantos para a delegacia de polícia, pelo menos para se explicarem ao delegado de plantão. Seu exemplo, destacado em jornais do sul, levou a uma ação da polícia e do Ministério Público em aplicar não a lei das contravenções penais cujas penas são brandas, e sim a Lei ambiental (9605/98), em seu poderoso art. 54 que pode dar cadeia de até 10 anos!
Ao invés disso o que vemos é que a orla fluvial de Santarém virou o centro do pandemônio diário. Pregadores ensandecidos prometem o reino dos céus EM ALTO E BOM SOM. (como diz um publicitário amigo meu: será que Deus é surdo?); empresas promovem produtos em blitzes barulhentas, no alto de trios elétricos abarrotados de louras siliconadas; até uma ONG ambiental (!) promove a “luta pelo desenvolvimento sustentável do meio ambiente, sem poluição” usando potentes caixas de som que, pasmem, poluem o meu ambiente! E no meio de tudo, não podiam faltar os brega-boy e suas máquinas possantes. Tudo aos olhos das autoridades (que também participam da festa!).
Voltando a Alter do Chão, nos último carnaval a brincadeira do trigo (que divide opiniões), teve um quesito a mais para bagunçar o coreto de vez: os brega-boys e seus pintos pequenos estavam lá, no meio da multidão, atrapalhando a bagunça esbranquiçada! Precisavam mostrar suas geringonças para as moçoilas e provar que algo neles é maior do que se pensa...
Ou seja, a sociedade toda parece ter o “pinto pequeno”. Ou será que eu morri e esqueci de deitar?
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada no dia 06.05.2008, no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará.

sábado, 3 de maio de 2008

A lágrima que veio do outro lado do oceano

1º de maio, feriado, dia de botar em dia coisas pendentes. Como estava sem postar os últimos artigos que escrevi nas duas semanas passadas, pretendia fazê-lo naquele dia. Mas um telefone, de longe, interrompeu meus planos.
A notícia já era de certa forma esperada: minha tia Maria (na foto abaixo, eu e ela em sua casa, na Grécia) acabara de falecer em Salônica (GR). Em respeito à memória dela, preferi não postar nada naquele dia que levasse ao riso. Só hoje, resolvi escrever sobre sua morte e postar as duas crônicas abaixo.
Aos 89 anos ainda incompletos, tia Maria encontrava-se em coma há algumas semanas e já havia sido desenganada pelos médicos. Meu pai, que foi pra lá há um ano para ficar perto dela por causa da doença que a impossibilitava de se locomover sofria a perda da irmã mais velha, a única que ele não conseguiu trazer para morar no Brasil na década de 1950, quando os Ninos escolheram este país para recomeçar a vida após o fim da traumática 2ª guerra mundial.
Convivi com tia Maria durante os três anos que estive na Grécia (1988/1991). Não foi fácil. Tinha um gênio difícil e não conseguia se adaptar ao nosso estilo brasileiro de viver. Além do mais, nunca teve filhos e não sabia lidar com um jovem rebelde como eu era. Por conta disso acabamos nos desentendendo e, como é praxe na família Ninos (geniosa...) ficamos “de mal” estes anos todos, sem poder aparar as arestas antes de sua morte.
Eu já havia tentado conversar com ela em outras ocasiões, mas esta mantinha-se distante. Quando esteve aqui, há sete anos, mal me cumprimentou no dia do meu aniversário! Confesso que por conta do precipício que se criou entre nós, a lágrima pela morte dela não rolou imediatamente na quinta-feira, após eu receber a notícia de sua morte. Depois de algum tempo entalada no canto do olho, a lágrima surgiu aos poucos, contida é verdade, num misto de dor e alívio. É que pelos relatos de meu pai, a tia estava sofrendo muito na cama com dores lancinantes, apesar de tentar manter a velha fleuma aristocrática e o orgulho helênico (beirando a arrogância) que sempre lhe foram marcantes. Em resumo, mantinha de forma admirável seus princípios morais até os últimos instantes de sua vida.
Posso dizer que apesar dos problemas entre nós, tia Maria teve um grande significado em minha vida, pelo menos por ter me acolhido em sua casa por aqueles três anos de um auto-exílio forçado por minhas posturas de repórter polêmico que incomodaram alguns poderosos da região.
Muita coisa mudou em mim depois do retorno do outro lado do oceano. Outro dia talvez eu conte algumas histórias hilariantes que vivemos, e que fizeram o contraponto aos momentos de tensão entre a representante da velha Europa e o menino sonhador da América do Sul.
Que tia Maria descanse em paz!

Eu, Tiradentes e uma música presa na garganta (*)

Muita gente não sabe, mas escrevo poesias desde a adolescência. E muitas das poesias surgiam cantaroladas, mas a música acabava perdida no esquecimento ficando o rascunho no papel. Foi assim que fiz da palavra meu ofício, passando de um poeta chinfrim a um jornalista médio e chegando a um escrivão judicial razoável. Também criei composições musicais e até tive algum sucesso em festivais de música, mas uma de minhas frustrações até hoje, foi não ter me tornado um intérprete de algumas dessas composições. Talvez, eu tenha evitado que muita gente viesse a sofrer com meus acordes desafinados...
Em pleno feriadão de Tiradentes, lembrei de como ele me foi útil para driblar a censura da Polícia Federal no final da ditadura militar (1984, general Figueiredo) e tentar um vôo mais alto para me firmar como compositor de MPB. O nome da composição era “Desafio” e fazia uma homenagem a um líder sindical rural de Santarém, o Avelino Ribeiro da Silva, morto dois anos antes numa tocaia, por causa de um conflito de terra. Resolvi mudar o título para “Tiradentes” e troquei a frase “bala de fuzil” por “forca que subiu” e, bingo! Consegui levar a música à final do festival de música de Santarém! Eis a letra:
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Tiradentes (Desafio)
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Quando uma luz brilhar
Foi um filho que partiu
E mãe-terra vai chorar
Pois foi ela quem pariu
Mas do solo vai brotar
Outro homem do Brasil!
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(Refrão)
E haja ódio pra parar
Essa força que surgiu
Da boca de quem gritar
Tanta dor que já sentiu
O peito vai se estampar
Cor de sangue infantil
Que jorra um dia sem parar
E transborda feito rio...
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Quando o coração parar
Foi a forca que subiu
(Foi a bala do fuzil)
Que calou esse penar
Por cantar seu desafio
Mas a chama vai queimar
E acender nosso pavio...
(Refrão)

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Mas o mais interessante dessa minha participação não foi driblar a censura da PF e sai do meu parceiro. Eu já trabalhava como repórter na Rádio Rural e conheci um locutor que apresentava o Jornal do Meio Dia, mas que era meio louco e tinha vontade de brilhar numa banda de rock. Tinha até nome artístico: Dioclau Wonder (!), que vinha a ser um anagrama de Cláudio, mais o "Maravilha" em inglês... Mostrei a composição que havia feito e ele aprovou. Após inscrever e classificar para a primeira fase, me empolguei e disse que queria interpretá-la com ele no dia do festival. Ele, meio que concordou...
Tentamos ensaiar com o conjunto oficial do festival, mas o arranjo que o meu parceiro havia feito era muito louco e ninguém conseguia chegar no tom que ele queria. Como cantava em bandas e conhecia a rapaziada que tocava nas noites, me levou embaixo do braço à casa do Paulo Jofre, o popular Paulinho dos Teclados (talvez ele nem se lembre disso) que à época fazia dupla com o Wilsinho Fona à beira da piscina do então Tropical Hotel (hoje Amazon Park). Cláudio, ou melhor, Dioclau, me apresentou como compositor ao Paulinho e pediu para que ele gravasse um play-back do arranjo que fizera. Paulinho conseguiu, depois de muito custo, entender o estranho arranjo do Dioclau. A idéia dele era que nós cantássemos sobre o play-back em pleno festival!
Com a fita em mãos, passamos a nos encontrar na casa dele para ensaiar. Eu entrava com a segunda voz, esganiçada, que perto da voz dele, quase de tenor, sumia. Ele tinha muita paciência e ia me ensinando como fazer. Fui ganhando coragem e aos poucos já me sentia um Chico Buarque chinfrim.
Chegou o dia da apresentação. Fomos os dois na minha motoneta até à praça São Sebastião, onde um grande público aguardava o surgimento de uma nova estrela da MPB! No caminho, Dioclau me surpreendeu: “Jota, tu não vais cantar...” Freei a moto e disse: “O quê?”. Estávamos a uns 200 metros da praça e dava para ouvir os candidatos sendo chamados, enquanto iniciávamos um intenso debate sobre a imposição do meu parceiro. “Se tu cantares, a gente não passa para a outra fase!”, me dizia ele convicto. Revoltado eu me sentia traído e retrucava: “Porque não me dissestes antes?”. Ficamos brigando e resolvi ter um chilique de artista. “Se eu não cantar, tu também não cantas!”. Afinal eu era o dono da letra e da música, ele só tinha feito o arranjo.
Tínhamos ensaiado e eu achava que estava pronto. “Tua voz não dá!”, me dizia o parceiro. Ao fundo ouvíamos o apresentador dizendo: “E agora, a música Tiradentes, de Jota Ninos e Dioclau Wonder, vamos aplaudir!”. Os aplausos ecoaram, mas o palco estava vazio. Continuávamos discutindo. “Chamamos mais uma vez, Jota Ninos e Dioclau Wonder!”, repetia o apresentador. Desci do meu pedestal e me rendi, ao perceber que acabaríamos sendo desclassificados! “Sobe na moto!”, determinei. Chegamos a tempo e Dioclau deu um show. A música foi classificada, mas um jurado que me conhecia, me chamou a atenção. “Tua música passou, porque não encontramos nada no regulamento sobre play-back, mas vê se evita isso na final!”
Fiz as pazes com o parceiro e nos preparamos para a final. Falei pra ele sobre a recomendação do amigo jurado, pois o júri da final seria gente da capital. Dioclau deu com os ombros e disse que não pretendia cantar com o conjunto, pois eles não acertariam seu arranjo. “Xa’comigo, vou com o play-back do Paulinho e ninguém vai perceber”. Resolvi acreditar...
Mas aí tive uma idéia: “que tal fazermos um mis-en-cène com um enforcamento ao vivo, para despistar os jurados?”. A idéia louca caiu nas graças do parceiro. Mandamos fazer uma túnica branca, um capuz preto e uma corda com nó de forca. No dia da final, lá estava o Dioclau cantando e eu nos bastidores. De repente, no final da música, quando o refrão está sendo repetido, Dioclau sai correndo do palco e voltou vestido com a túnica. Na última estrofe do refrão, entro eu de capuz preto e corda na mão. Boto no pescoço do “Tiradentes”, que se pendura até o chão cantando a última frase “E acender nosso pavio...”.
Aplausos do público. Eu estava realizado. Não cantei, mas dei um toque cênico à apresentação, que era minha especialidade. Mas os jurados não engoliram: “o júri informa que a música Tiradentes foi desclassificada, por usar play-back”, sentenciou o apresentador.
Tiradentes foi enforcado, novamente, em plena praça São Sebastião...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 22.04.2008, no Diário do Tapajós, encarte do Diário do Pará (a fotomontagem mal feita, como sempre, é de minha autoria, com imagem roubada da internet).

O ex-burocrata da ONU que “dialoga” com a Matinta Perêra (*)

Hoje, aqui em minha coluna semanal, publico um dos textos (inédito até agora) que produzi ano passado como estudante do curso de Jornalismo do Iespes, durante a disciplina “Reportagem e Entrevista” da jornalista e professora Socorro Veloso, uma paraense que hoje vive em São Paulo e que deu grande contribuição aos futuros colegas do curso. Trata-se de uma reportagem enquadrada no gênero perfil, que escrevi a partir de uma pessoa do nosso cotidiano tapajônico. Escolhi o engenheiro, cronista e poeta Eymar Franco, que me rendeu um personagem inusitado. Acompanhe o texto:

Pouso Alto. A velha placa de madeira à beira do Km 15 da rodovia BR-163, que liga Santarém (PA) à Cuiabá (MT), na localidade rural de Cipoal (um “quase” bairro de Santarém), indica o nome do sítio de 5,5 hectares logo à frente. Remete ao nome de uma cidade mineira carregada de uma simbologia esotérica que só pode ser explicada pela emblemática figura de seu morador, um burocrata paraense que no anos 1980 – no auge de uma promissora carreira no exterior – trocou as salas de conferências da ONU (Organização das Nações Unidas) mundo afora, por um retorno às suas origens no rio Tapajós.
O pomar de frutas cítricas (hoje são mais de 500 pés de laranjeiras, limoeiros e tangerineiras, ¼ do que restou dos áureos tempos quando chegou a produzir e exportar para a região) de Pouso Alto, exala um perfume convidativo a quem, como eu, senta na varanda para ouvir estórias (ou histórias?) de seus “diálogos” com a lendária figura amazônica da Matinta Perêra e de sua experiência com a eubiose, uma ramificação brasileira da teosofia, doutrina esotérica que defende a existência de uma fonte única e eterna para todo conhecimento e demonstra a identidade essencial entre os grandes mitos das culturas mundiais.
Prestes a completar 86 anos, em 17 de setembro, Eymar Cunha Franco (na foto ao lado, nos tempos de burocrata, numa viagem à Grécia) é agrônomo aposentado, escritor e poeta (três livros já publicados). Conversa com certa dificuldade, apoiado sempre por sua segunda esposa, a ex-comerciária e prima em segundo grau Ana Cecília Tavares Franco, 30 anos mais nova. “Ela é, hoje, minha razão de viver”, me diz Eymar com um olhar lânguido e apaixonado ao se referir à Cecília, que convive com ele há oito anos. Recuperando-se de uma queda sofrida há dois meses em sua casa e que afetou sua coluna – mas não seu humor – ele resume o momento que vive:
- Cheguei numa fase da vida em que me sinto plenamente realizado e, como diz um amigo, quero que o resto se f...”, diz às gargalhadas, acompanhadas de uma forte tosse proveniente do vício de fumar pelo menos um maço de cigarros por dia e de um olhar repreensivo, e ao mesmo tempo cúmplice, da esposa, por proferir um palavrão na frente do jornalista.
Pertencente à família Franco, o menino nascido na fazenda Urucurituba, no município de Aveiro, a 12 horas de barco de Santarém, aos nove anos seguiu para estudar na capital do Estado, iniciando seu vôo alto na careira internacional. Hoje, é um velho sábio que faz da crendice popular sua melhor companheira no Pouso Alto.
Códex Alimentarius - Combinando a erudição adquirida nas viagens a diversos países do mundo com a sabedoria do povo amazônida e suas lendas, Eymar relembra o espírito empreendedor de seu bisavô, Alberto José da Silva Franco, comerciante português que chegou ao Pará em 1836, no meio da revolução popular conhecida como Cabanagem (1835/1840) que combatia a elite lusitana no poder. Em seu livro de memórias “O Tapajós que eu vi” (ICBS, 1998), ele conta que o patriarca dos Franco foi um das centenas de portugueses que saíram de Belém naquele período e refugiaram-se na região. Às margens do rio Tapajós, adquiriu uma área de terra onde até hoje existe uma Casa Grande (foto abaixo), símbolo do Brasil Império. Mas foi para lá que ele pediu para voltar, no momento em que representava o Brasil em importantes grupos de estudo mundiais.
Eymar foi funcionário por mais de 40 anos do Ministério da Agricultura, passando por diversas funções até ser indicado para representar o Brasil no Códex Alimentarius, fórum internacional de normalização de alimentos estabelecido pela FAO e OMS, órgãos das Nações Unidas para a agricultura e saúde, respectivamente. Criado em 1963 com a finalidade de proteger a saúde dos consumidores e assegurar práticas eqüitativas no comércio regional e internacional de alimentos, o Códex obrigou Eymar a participar de incansáveis reuniões nos EUA, Suíça e dezenas de outros países, além das viagens por todos os estados brasileiros para disseminação das normas. Isso levou o velho agrônomo, especializado em controle de produtos vegetais e com faro adquirido na vida da fazenda, a preferir o retorno para assumir a Base Física do Ministério da Agricultura em Fordlândia (Aveiro), sob protestos de sua chefia que o considerava louco.
Na área adquirida pelo magnata americano Henry Ford, para a implantação de um mal sucedido empreendimento de produção de látex nas primeiras décadas do século passado e reassumida pelo governo brasileiro já em decadência, Eymar aliou seu conhecimento e responsabilidade para liderar os ociosos trabalhadores que sequer cuidavam da preservação da Vila Americana, um casario de madeira no meio da floresta com arruamento e sistema de água e luz que muitas cidades amazônicas não tinham. Depois de revitalizar a vila, Eymar decidiu se estabelecer em Santarém.
Diálogos com Matinta – “Sou cético em relação à política e à situação que vejo no país e na Amazônia”, declara Eymar ao explicar sua “mania de conversar com a Matinta Perera”. Ele afirma que os “diálogos” são “uma fuga dessa realidade que nos cerca, através da alegoria amazônica”. A lenda da Matinta Perera é uma das histórias que ouvia dos caboclos do Tapajós desde menino. Nos “diálogos”, muitos deles já publicados em jornais locais, Eymar “discute” alguns problemas da atualidade com a Matinta, personagem da mitologia amazônica representada por uma velha vestida de preto, com os cabelos bastante assanhados caídos no rosto, que costuma sair ao escurecer, de preferência nas noites sem luar, em busca de tabaco e assustando as pessoas através de um forte assobio.
“Dia desses”, fala sério Eymar, “a Matinta andou me dizendo que não gosta do George Bush, pois ele é um perigo para a Amazônia”. Quão sábia é a Matinta, penso eu. Outro dos “diálogos”, que estão sendo reunidos para a produção de um livro de crônicas, faz da Matinta (figura abaixo) sua cúmplice no ato de fumar:

(...)

- Tu precisas escrever uma carta! – Resmungou [a Matinta] puxando o esfiapado casaco preto, para agasalhar melhor a sua corcunda.

- Carta? – perguntei - Para quem?

- Ora, pros teus pariceros.

- Está bem. - concordei - E devo dize o que?

- Diz pra eles acabar com essa bobagem de botar anúncio na televisão, dizendo que fumar é prejudiciar à saúde. Quem não sabe disso,hein?

(...)

- E quer saber mais? Eu e o meu compadre Curupira, fumamos há séculos e estamos aqui para provar que fumar não encurta a vida de ninguém.

E continuou:

- Tu sabes o que mata as pessoa de enfarte?

- Não – Respondi-lhe.

- É tensão, ambição, ganância, medo, gordura e preguiça. Isso que o governo deveria dizer ao povo, ao invés de gastar dinheiro com propaganda contra o fumo.

(...)

O ceticismo em relação a tudo que viu o aproximou da teosofia e o fez se filiar à SBE (Sociedade Brasileira de Eubiose) - da qual hoje já desligado -, criada pelo teósofo brasileiro Henrique José de Souza. “O homem é um ser mental, que pode canalizar suas forças interiores para a prática de atos que modifiquem seu redor”, profetiza. Ele conta que participando desse movimento estudou várias religiões e chegou a conclusões de que todas emergem de um mesmo tronco, mas têm sua base nessa força interior do homem.
Lembra de ter visto um homem com tais poderes quando menino em sua fazenda, e que, sabendo controlá-los, com um simples olhar fazia uma cobra ficar estática! Diz que esse magnetismo pessoal faz com que certos homens se destaquem e sejam, às vezes, confundidos com seres divinos. “Jesus Cristo era um ser especial, mas não acredito no dom divino que lhe foi conferido e propagado pela religião que se criou em torno dele. Ele tinha dons especiais que sabia canalizar para levar uma mensagem de fé e de esperança para seu povo”, afirma.
Nesse contexto, depois de horas de um bate-papo gostoso, porque não acreditar que o velho Eymar encarne a própria Matinta Perera?
No Pouso Alto, um velho sábio, já deitado em sua rede, fuma de olho em seus laranjais e antes que eu me despeça me chama da janela para relembrar, com seu ar carismático e brincalhão: “Quero que o resto se f...”.
Acredito estar vendo a própria Matinta olhando pra mim...
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(*) Artigo inserido em minha coluna Perípatos em 11.04.2008, publicada no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

domingo, 30 de março de 2008

O fusquinha flamejante e o “complexo de ocarub”(*)

Brasileiro gosta de carro, é o que dizem as propagandas por aí. E talvez seja verdade. Pelo menos da minha parte nunca tive objeção a essas máquinas. Mas minha relação com carros tem seus altos e baixos...
Lembro do primeiro carro da família, um Corcel de duas portas comprado no início dos anos 70. Foi nele que tomei algumas aulas de como... não dirigir.
Meu pai me botava no colo (era muito baixinho para pisar nos pedais) quando íamos para as praias fora de Belém (Marudá era a preferida) e me deixava segurar o volante na estrada. A intenção era que eu ganhasse confiança e pudesse ter senso de direção, no carro e na vida. Mas acho que até hoje meu senso de direção ainda é meio atabalhoado. Assim, depois de várias vezes em que escapei de arrancar algumas árvores pelo caminho fui proibido pela família, em votação unânime, de voltar a sentar no colo do papai-motorista.
Mas não escapei de acidentes automobilísticos, apesar de não estar no volante. Foram dois, sempre, na estrada entre Belém e as praias. Saí ileso nas duas vezes, mas vi algumas pessoas da família feridas. Pelo menos não aconteceu fatalidade maior. No último, o Corcel virou uma sanfona e eu fiquei preso nas ferragens, mas sem me machucar.
Talvez por isso, criei um certo complexo com carros por algum tempo. Aos 21, resolvi ter uma velha Mobyllette (aquela da minha estréia como repórter, que já contei aqui). Era o começo de minha paixão pelas duas rodas. Além dela tive duas Honda CG 125 e achei que não precisava de quatro rodas. Me bastavam os quatro olhos... Até que um dia caí de quatro por um velho fusquinha azul, anos 70, que acabei arrematando por uma bagatela.
Isso aconteceu quando resolvi ter uma família no início dos anos 90 e o fusquinha veio a calhar. O problema é que ele vivia mais tempo na oficina do que rodando por aí. Tinha um problema crônico que ninguém conseguia resolver: vivia pegando fogo, sozinho! Acho que ele tinha um complexo de Tocha Humana, aquele personagem do Quarteto Fantástico. “Tem que trocar a fiação”, me dizia o eletricista toda vez que eu levava para fazer um reparo. Como custava caro e eu não estava nadando em dinheiro, ia adiando o serviço à base de gambiarras.
Além do complexo flamejante, meu carrinho conviveu por um bom tempo com outro complexo que todo santareno tem ao andar nas nossas maltratadas ruas e que foi detectado por um professor de Latim que tive na UFPa. (Raimundo Nonato) que vivia dizendo: “o pior dos buracos de Santarém é que ninguém faz recapeamento geral do asfalto: só se faz operação tapa-buraco”. Daí, segundo ele, surge o que ele chamava de “complexo de ocarub”, que nada mais é do que um palíndromo dessa palavra, ou seja, um buraco ao contrário! “Pior que um buraco – dizia o professor - é o buraco apenas tapado que cria dezenas de obstáculos nas ruas e que acabam com a suspensão dos carros”.
Ele tinha razão. Para andar em Santarém um carro comum sofre muito, ou desviando de buracos ou trepidando sobre centenas de “ocarub”... É o primeiro cartão-postal que qualquer visitante da cidade logo conhece ao descer do aeroporto! Triste realidade dos trópicos!
Mas voltando ao fusquinha, seis meses depois e pequenos incêndios aqui e acolá, achei que era hora de passá-lo adiante. Um mecânico me ofereceu uma ninharia por ele, mas resisti. Um certo dia dava voltas pela cidade, ciceroneando meu irmão recém-chegado a Santarém. De repente, o carro parou num bairro de periferia: prego de português! Estávamos sem gasolina!
Lá fomos nós, empurrando o carro pelo areião até o próximo posto. Chegamos ao local num dia em que um caminhão fazia o abastecimento do posto e vários carros aguardavam a vez. O cheiro de gasolina era intenso. “Bota dez reais!” (era o que eu tinha no bolso), disse ao frentista que me pediu para esperar um pouco enquanto atendia outros clientes. Meu irmão de língua pra fora já estava arrependido de me visitar. O calor era intenso e enquanto aguardávamos o atendimento do frentista virei a chave na ignição ligando a bateria, para acionar o ventilador. Meu irmão foi tomar um refri e eu sentei no fusquinha admirando a movimentação, meio que inebriado com a gasolina.
De repente, vejo meu irmão correndo em minha direção, fazendo sinais desesperados. Frentistas correram do posto para a rua! Motoristas abandonaram seus carros! E eu sem entender nada, até sentir um cheiro já conhecido: o fusquinha havia começado a pegar fogo, dentro do posto de gasolina!
A labareda subiu pelo teto, já chamuscado. Desliguei a chave e peguei o extintor, mas estava vazio! Os homens gritavam “sai daí!”. Meu irmão veio me acudir. Desesperado, peguei um carote com água perto de uma bomba de gasolina e apontei em direção ao fogo, mas um frentista gritou agoniado “isso é querosene!”. Parei no meio do caminho.
Até que meu irmão teve a idéia salvadora: correu para a rua – sem asfalto – e carregou uma pequena quantidade de terra do areião com as mãos espalmadas em concha e jogou sobre o fogo. Fiz o mesmo e os frentistas também. Depois de alguns minutos e milhares de palavrões, conseguimos debelar as chamas. Não entendi porque os frentistas não me permitiram mais colocar gasolina... E lá fomos, eu e meu irmão, empurrando o fusquinha até o próximo posto...
No dia seguinte vendi o carrinho por uma ninharia. Meu irmão nunca mais quis andar de carro comigo.
Só recentemente resolvi comprar um carro com menos problemas. Continuo enfrentando apenas o “complexo de ocarub”. A gente acaba se acostumando com a herança que nossos administradores deixam a cada governo. Pelo menos incêndio, nunca mais.
É bom andar no meu carrinho e rir dessa história, relembrando o velho fusquinha flamejante.
Mas espera aí, que cheiro é esse?...
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(*)Artigo inserido esta semana em minha coluna semanal Perípatos, publicada no encarte regional Diário do Tapajós, do jornal Diário do Pará. A "tentativa de charge" foi mal feita por mim, um péssimo webdesigner, a partir de fotos montadas.