domingo, 29 de junho de 2008

As aventuras e desventuras de um jornal experimental na Amazônia(*)

- Pode comemorar, somos campeões!
A voz no celular, direto de Roraima, confirmava a vitória de um projeto que, a princípio, poderia ser apenas mais um trabalho acadêmico ganhando um troféu (foto acima) num congresso estudantil. Mas a conquista do prêmio de melhor trabalho na categoria “jornalismo impresso” para o jornal experimental “CidadeMídia” da 1ª turma de graduação em Comunicação Social de Santarém, é muito mais que isso. Não só para os 30 acadêmicos que participaram do processo de elaboração, mas, historicamente (um dia isso será reconhecido) é a consolidação de um sonho que o próprio nome do jornal carrega em si.
Estou falando do Intercom Norte/2008, que aconteceu em Roraima e que pela primeira vez teve um trabalho de estudantes de jornalismo de Santarém concorrendo com outras faculdades. E no final, a vitória com direito a representar a região norte no Congresso do Intercom Nacional, que acontece de 02 a 06 de setembro de 2008, em Natal (RN). Intercom é a sigla da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação que há 30 anos reúne jornalistas, pesquisadores, professores e acadêmicos de jornalismo para debater os rumos dessa nobre profissão. O crescimento da entidade incentivou a realização de congressos regionais e dá oportunidade para que os acadêmicos apresentem trabalhos realizados em seu cursos, numa mostra paralela chamada Expocom. Não há prêmio em dinheiro, mas o trabalho recebe o reconhecimento da academia e fica registrado nos anais da Sociedade.
Mas o que pode haver de especial num jornal experimental feito por acadêmicos de uma faculdade? No caso de Santarém, como o título do jornal sugere, não é somente um nome, mas um conceito que começamos a debater na faculdade: como explicar uma cidade com tanta gente que vive da comunicação há mais de século e meio e que hoje ocupa o espaço em 5 emissoras de rádio, 7 canais de TV e cerca de 10 semanários com produção local? Santarém é uma verdadeira “cidade-mídia”, conceito que começou a ser defendido pelo jornalista Manuel Dutra e que foi assimilado pelos alunos do curso que ele coordenou por dois anos.
Mas chegar ao prêmio e almejar até um reconhecimento nacional, não foi fácil. Foram várias etapas de sofrimento desde a produção até a defesa do trabalho no congresso, mesmo tendo entre os estudantes pelo menos um terço de colegas com alguma experiência na comunicação local. Como eu, tantos outros sofreram para produzir um jornal em formato tablóide com 24 páginas. Dutra dividiu-nos em seis editorias, colocando cada um dos mais experientes como editor. E o que parecia que seria fácil, revelou-se um tormento. Afinal, apesar da experiência acumulada, era preciso reciclar conceitos e cortar vícios.
Na foto acima, o "avô" e os 30 "pais" do CidadeMídia.

As equipes foram às ruas, coletaram as informações e os textos passaram por um processo inicial de revisão. Depois de prontos, novos cortes ou simplesmente a ordem para fazer tudo de novo. Depois dos textos serem aprovados, fizemos uma diagramação coletiva em sala de aula, com a imagem do computador refletida no data-show. Um mês depois, estava pronta a criança saindo do prelo de uma gráfica e lambida como cria pelos 30 "pais". Dutra, o "avô-babão", com olhar enternecido também via um sonho se realizando.
Mas nem tudo eram flores. O jornal foi feito no 3º semestre do curso e só poderia concorrer no Intercom deste ano. Em janeiro, Dutra deixa o curso e seu substituto, um jovem professor sem experiência e de idéias equivocadas, quase põe tudo a perder. Em pé de guerra com todos os alunos ele acaba tendo que sair, não sem antes tentar sabotar nosso trabalho, que sequer foi indicado à direção do Intercom!
Perdemos o prazo da inscrição por causa disso, mas fizemos um apelo por e-mail à coordenação do evento explicando a situação que vivíamos. Enquanto a direção do encontro estudava nosso caso, eis que reabrem-se os prazos para novas inscrições! Não perdemos tempo e conseguimos que a coordenadora pro-tempore da faculdade fizesse aquilo que o coordenador demissionário não fizera. Agora estávamos a um passo do prêmio, certo? Errado, no meio do caminho havia um sistema on-line que não funcionava direito. Nós, como outros acadêmicos do norte, não pudemos registrar nossos trabalhos para concorrer ao prêmio. Frustração...
Após vários protestos por e-mails a coordenação, sensibilizada, consegue a tempo recuperar o sistema e voilá: o “CidadeMídia” aparece na lista dos concorrentes!
Começa então a organização da caravana, mas os altos custos da viagem e outros problemas pessoais, reduzem nosso grupo de 30 para apenas 3! Tudo bem, bastam poucos para defender o trabalho. Às vésperas da viagem, o sistema não registra mais nosso trabalho! Contatos telefônicos e mais protestos. Para completar, mais dois desfalques na equipe de viagem e a única colega apta a viajar segue sem ainda ter certeza se o trabalho será liberado. Até que um dia antes, lá está o “CidadeMídia” novamente na lista... Ao que parece problemas tecnológicos insistiam em nos dar sustos...
Albanira Coelho, jornalista e acadêmica segue sozinha, deixando 29 corações pulsando por aqui. Mas as desventuras do “CidadeMídia” ainda não haviam acabado...
O avião que leva nossa representante à Roraima não passa de Manaus. O mau tempo cancela os vôos e Albanira perde um dia do encontro, exatamente o momento de defender o trabalho! Pelo jeito não era nosso dia. Mas ao chegar em Roraima, corre ao local do evento e descobre que foi aberta nova oportunidade aos acadêmicos que tiveram problemas com o vôo de Manaus. Só que a exposição tinha que ser naquele lugar dentro de alguns minutos! Mas as bagagens ficaram no hotel! Albanira tenta ligar através de celular para que lhe tragam o material. O celular não tem crédito. “Me empreste seu celular”, diz ela a outra colega ao lado e consegue em poucos segundos que alguém se responsabilize em trazer o material, que chega com o prazo quase esgotado.
Na “arena”, a jornalista se vê sozinha com a claque de várias faculdades. Anunciada como sendo de Santarém/Pará, recebe a solidariedade de colegas de Belém. Faz a apresentação e sai do local com a impressão de que se saiu bem. No dia seguinte, seguindo a programação, chega ao local do enceramento para saber se o trabalho foi premiado. Mas a programação foi adiantada e já estão entregando os últimos prêmios. Acanhada, sem saber se ganhamos ou não, senta-se no fundo da platéia até que alguém lhe diz que logo no início chamaram alguém de Santarém que não compareceu!! Tremendo, Albanira se aproxima do coordenador e pergunta “que tal o CidadeMídia?”. E ele apenas diz: “Parabéns! Suba aqui e receba o prêmio!” A claque aplaude e Santarém está no podium. O troféu é nosso!
Para nós não é uma vitória da nossa turma, nem da nossa faculdade, mas uma vitória do jornalismo que se pratica nessa CidadeMídia chamada Santarém, e que ainda vai gerar outros capítulos...
Natal, aí vamos nós...
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(*)Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos publicada em 27.06.2008, no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Idéias nem sempre geniais devem ser totalmente esquecidas?(*)

O que diferencia uma boa idéia de uma loucura estapafúrdia? Acredito que depende muito do resultado que a tal idéia proporcionar. Na verdade, as grandes idéias estão sempre ligadas a momentos de loucura de determinadas pessoas. Daí, talvez, se forjem os grandes gênios da história.
Provavelmente muitas das loucuras que não tiveram bom resultados, foram esquecidas. As que deram certo transformaram-se em grandes inventos, coisas revolucionárias que transformaram as vidas das pessoas. Coisas como o avião de Santos Dumont, por exemplo. Mas sabe-se que antes dele, muitos “loucos de pedra” tentaram voar e se arrebentaram por aí.

Dia desses reassisti o filme “Chaplin”, do cineasta Richard Attenborough, que mostra a trajetória deste gênio do cinema a partir de sua autobiografia. Ver a vida de Charles Spencer Chaplin desde criança é determinante para definir de onde vem sua genialidade e porque sua “loucura” transformou-se numa obra prima. Mas o próprio Chaplin errava e para chegar ao ponto certo repetia trocentas vezes uma cena, até alcançar a perfeição.
Desde a concepção da idéia que gerou suas grandes obras até à produção de seus grandes filmes, Chaplin passou por muitos dilemas, mas nunca desprezou nenhuma das idéias (na foto acima, no filme "O Grande Ditador", de 1941). Este é o ponto a que quero chegar: não basta ser um gênio predestinado, é preciso antes de tudo ser obstinado, ter um pouco de sorte, mas principalmente nunca desistir de uma idéia, por mais louca que ela pareça...
A coisa funciona mais ou menos assim: você chega e diz para o seu chefe que se fizer algo de tal forma a empresa ganha e quem sabe o chefe seja lembrado como um grande empreendedor. O chefe aposta, mas avisa que se a idéia não der certo e ele for ridicularizado, terá que castigar o louco varrido... No fim das contas, o “gênio” está sozinho e tanto pode se dar mal quanto virar um astro!
Minha obstinação para alcançar certos objetivos, me causou muitos dissabores desde a adolescência. Lembro da vez em que cheguei em casa resoluto a comer aquele pacote de biscoitos finos que ficava guardado em cima do armário da cozinha. Todo mundo dormia em casa e essa era a chance de alcançar o objeto do desejo. Mas como combater a altura com meu meio metro de gente?
Pego um banco de madeira de pernas altas, subo e estico o braço. Ainda está longe. Desço, olho ao redor e encontro uma lata de manteiga daquelas grandes, recém aberta. A altura parece boa, mas as bordas da lata sem tampa são perigosas. O biscoito continua desafiando minha inteligência lá do alto da prateleira, até que dou de cara com uma tábua de cortar carne. Uma tampa perfeita para a lata. Subo na minha pirâmide improvisada e estico o braço e... nada! Ainda falta um pouco.
“Não é possível!”, esbravejo. Roda daqui roda de lá, o biscoito parece rir de mim, até que vejo uma outra lata de leite, média. Não penso duas vezes. Coloco em cima do meu projeto de torre Eiffel e subo os degraus da fama. Equilibrado sobre minha engenhoca estico o braço e pego a caixa de biscoitos! Que alegria, mas de repente, perco o equilíbrio e minha torre desmorona. O pé vai direto para a borda da lata de manteiga: resultado 12 pontos na palma do pé, uma noite de sermão do pai e uma semana de cama em casa. Foi uma péssima idéia? Nem tanto. “Gazetei” a aula por sete dias e ainda tive a chance de ficar em casa, sozinho, com uma nova empregada que acabou cuidando de mim muito bem...

Até as péssimas idéias, às vezes, geram bons frutos...

Mas eu cresci e continuei aprontando das minhas. No auge de minha “genialidade”, achei que tinha me tornado um verdadeiro Midas: tudo o que eu tocasse viraria ouro. Em 1986, quando fui demitido pela primeira vez de uma emissora de rádio por questões ideológicas, comecei a saborear as benesses de “ser mártir”. Havia saído da Rádio Rural, onde já tinha um programa de grande audiência. Era o mês de abril e no dia 1º de maio daquele ano a nova rádio AM da cidade, a Rádio Tropical, completava seu primeiro aniversário. Tentando se firmar como uma opção frente à líder de audiência, nada melhor do que contratar o “repórter polêmico’, como eu era conhecido. O amigo Jota Parente, que me conhecia desde a Rural e agora era gerente da Tropical, não duvidou: apostou naquele maluco.
Na primeira semana na emissora, enquanto preparávamos meu programa de estréia (que até hoje está lá, o Comando Tropical), a equipe de jornalismo me recebia como quem recebe um Messias. Qual era a fórmula para desancarmos o Jornal do Meio-Dia, da Rural, campeão de audiência? O chefe da equipe, o jornalista José Ibanês (hoje editor do Diário do Tapajós) me fez a pergunta e disse que precisávamos ousar, apresentar algo diferente, que balançasse a concorrência.
Do alto de minha genialidade não duvidei e lancei uma idéia: que tal o nosso jornal ter três apresentadores? Todos se entreolharam, mas antes que dissessem “não”, comecei a defender a idéia “brilhante” com tanta ênfase que convenci a equipe. E arrematei: “vamos fazer segredo da idéia e não contaremos nem mesmo para o Parente!”
Ibanês olha para os lados e começa a achar que eu sou realmente louco. “Mas e se...” Antes que a frase termine, eu arremato: “Xá comigo!” Afinal eu era ou não o Midas do rádio naquele momento? A equipe de Ibanês se convence e resolve embarcar na minha louca nau...
Dia seguinte, nosso jornal entra no ar. No estúdio, três locutores, Ibanês, eu e um terceiro colega (que prefiro não citar o nome para evitar problemas). Cada um com suas laudas nas mãos. Na técnica, José Mário Dutra, o “Dentinho”, um grande amigo que adorava minhas loucuras. Preparou as trilhas e estava empolgado com o projeto. As gravações dos repórteres estão no ponto.
Começa o jornal, com o anúncio de “um novo tempo no rádio.” As laudas vão saindo das mãos. O primeiro bloco de notícias locais se completa sem nenhum erro. Parece que a idéia vai dar certo. A gente está feliz, Ibanês torcendo para que Parente esteja ouvindo e eu começo a tufar, me achando “o cara”.
Vem o segundo bloco. Como sou sempre o primeiro a começar, leio a primeira frase da primeira notícia, Ibanês a segunda e o terceiro colega a terceira. Quando vou entrar na segunda notícia, um nome estrambótico de alguma autoridade russa se engasga na minha garganta. Tento repetir, mas começo a rir. Ibanês tenta se agüentar e continua a frase, mas se desmancha em gargalhadas. O terceiro colega também começa rindo e não termina a notícia. No lado de lá do “aquário” vemos o “Dentinho” estrebuchando de rir e antes de cair ao chão ainda consegue subir o BG (sigla de Back Ground, o som incidental que toca ao fundo de uma narrativa jornalística)...
No estúdio, os três apresentadores com ataque de risos olham um para o outro e ninguém toma iniciativa de recomeçar. Foi o BG mais longo do rádio! Ibanês já ri aterrorizado e torce para que Parente não esteja ouvindo a emissora. Eu já imagino minha segunda demissão em menos de uma semana, mas não consigo parar de rir. Até que o terceiro colega, mais controlado que os outros, consegue se levantar pede som no microfone e apenas decreta: “Termina aqui, o Jornal Tropical”.
A risada continua e resolvemos abandonar a brilhante idéia. Agora precisamos esperar a fúria de Jota Parente. Mas exatamente naquele dia, nem ele e nem o dono da emissora, o Dr. Ubaldo Corrêa ouviram o programa. Talvez o melhor da minha idéia foi ter sugerido que não contássemos nada da estréia.
Talvez só depois de ler essas linhas, o Jota Parente, hoje em Itaituba, acabe descobrindo porque naquela semana só faltamos engraxar os seus sapatos...

Mas um dia ainda apresento um radiojornal, com três apresentadores!
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(*) Artigo publicado em minha coluna semanal Perípatos, no encarte regional Diário do Tapajós de 17.06.2008, que circula com o jornal Diário do Pará.

Aos mestres, com carinho (a outros, nem tanto...) (*)

O título dessa crônica remete ao famoso filme estrelado pelo ator negro Sidney Poitier (foto abaixo), “Ao mestre, com carinho” (To sir, with love – 1969), uma das primeiras películas hollywoodianas que mostra a luta de um professor idealista, Mark Thackeray, tentando mudar a dura realidade de uma escola num bairro de operários. A crítica especializada diz que depois deste filme “vários outros seguiram o mesmo esquema de professor novato e alunos rebeldes”.Sempre quis escrever sobre o tema, talvez porque me vejo em poucos anos sair da condição de aluno para a de professor. Não que tenha sido um rebelde, muito pelo contrário. Mas tive grandes mestres que de alguma forma ajudaram a formar meu caráter. Mas como a toda regra há exceções, não poderia deixar de lembrar daqueles que também funcionaram de modo contrário.
Ser professor é o mesmo que ser jornalista: é preciso ser um pouco louco. Como de médico e de louco, todos temos um pouco... Mas nesse meio, há aqueles loucos que são mais lúcidos que os que se acham normais. Assim como, há aqueles que parecem lúcidos e que gostariam de ser loucos, e não percebem que são.. loucos de pedra!Como cinéfilo que sou, meu filme favorito sobre o tema é exatamente aquele que mostra um mestre em sua plenitude: o revolucionário professor de Literatura John Keating, de “Sociedade dos Poetas Mortos” (Dead Poet Society, 1989). Ao assistir o filme num cinema de Salônica (Grécia), não conseguia sair da cadeira. Resolvi assistir de novo! E depois dessa, foram mais cinco idas ao cinema para rever o mesmo filme, que mexeu com a minha geração (há poucos quilômetros de Salônica, naquela primeira vez, o muro de Berlim caía e no Brasil, Lula perdia a primeira eleição para Collor). Sempre que “Sociedade...” passa na TV, assisto com a mesma emoção da primeira vez, e sempre que posso, alugo o DVD para reassisti-lo (com a vantagem de poder ver os extras, numa edição especial que conta os bastidores do filme).
Nunca tive um mestre no estilo de Keating (abaixo, na famosa cena em que sobe nas carteiras), que na primeira aula mandou os alunos rasgarem a apresentação do livro de Literatura que tratava a poesia como se fosse um coisa burocrática. Inesquecível também sua lição em latim: carpe diem! (aproveite o dia!). E um grupo de meninos de uma escola conservadora da Inglaterra, de repente aprendeu a aprender, através da poesia e do culto à liberdade. O filme tem um fim trágico, mas termina com uma mensagem de esperança de que é possível fazermos mudanças dentro de nós, apesar das estruturas arcaicas da sociedade.
Tive alguns professores que se aproximaram dessa brilhante loucura de Keating. É bom poder lembrar de alguns deles, e também daqueles que atrapalharam.

Quando cursei o fundamental, em Belém (no já extinto colégio anglicano, John Kennedy), convivi com a inesquecível Tia Anne que cuidava das crianças desde o jardim de infância (hoje, com nossa tendência à americanização, chamam de “Baby Class”) até à quarta série, ensinando-nos português e matemática tocando violão com música de Jorge Benjor! Na quinta série, a grande professora Maria Lúcia Fernandes Medeiros que me incentivou a ler de Monteiro Lobato à Júlio Verne despertando-me para o mundo das letras, e principalmente da poesia. No final do ano, ela era a responsável pela programação cultural e eu, o ator principal, declamando poesias de Bandeira, Quintana, Drummond, ao som de Jobim, Chico Buarque e outros. Anos mais tarde, descobri que tinha se tornado uma importante escritora paraense, mas já faleceu.
Mas uma das maiores qualidades de um mestre é nos ensinar a descer do pedestal. No primário tive a professora Neuzilour que nos colocava em círculo e nos fazia escolher uma coordenação que seria responsável pela aula e pelas notas! Ela assistia à aula e ficava orientando de longe, numa loucura total de reverter os papéis em sala de aula.
Como esquecer também, a professora Liduina? Ouvi falar dela como professora do ensino médio e de repente a encontrei na faculdade. Liduina é daqueles seres humanos que defendem com paixão seus princípios filosóficos e morais, de tal forma que nos leva a repensar alguns valores. Às vezes pode até ser que seu engajamento acabe passando a idéia de maniqueísmo, pelo menos nas cabeças mais conservadoras. Mas Liduina, com singeleza e simpatia, é uma radical chique que nos faz pelo menos pensar sobre o outro lado da história: aquela que não é contada pelos perdedores.
Mais recentemente, tive o prazer de conviver com o mestre dos mestres, Manuel Dutra, que se não chegava a sugerir o rasgar de folhas de Keating e nem a aula “democrática’ de Neuzilor, não parava de falar sobre a necessidade de se “descer do pedestal”. Para ele, só assim é possível aprender e ensinar. Dutra, às vezes ranzinza, mas impondo um controle sobre a turma que faz com que ninguém esqueça dele. Sobre ele nem devo falar tanto, pois é para mim mais que um mestre, é um amigo. A maioria dos professores indicados por Dutra seguiu a mesma linha de trabalho e cativou a última turma de que faço parte.
Os “loucos de pedra”
Tive, como muitos devem ter tido, outros professores que marcaram em sala de aula, do fundamental à universidade, sempre por conseguirem andar na contramão do chamado ensino tradicional. Os que citei, são apenas alguns dos bons exemplos. Mas tive também alguns “loucos de pedra” que pouco ou nada contribuíram para a minha formação a não ser para me fazer rir ou chorar de raiva quando recordo de sua pequenez.Em sua maioria eram tipos mesquinhos, pedantes e que talvez tenham sido alunos CDF´s, mas que não captaram a essência de Paulo Freire e por isso mesmo eram inseguros. A estes últimos, por questões éticas, prefiro não citar os nomes, até porque alguns ainda andam por aí e não seria interessante vê-los espumando de raiva pro meu lado. Chamá-los-ei de X1, X2, e assim por diante.
X1 era aquele professor que chegava à sala de aula para dar uma matéria e acabava dando umas quinze! Era o tipo irritante que tentava mostrar que sabia de tudo, mas no final não sabia nada. Foi professor de português e começava a aula assim: “hoje vou falar sobre as palavras quanto à sua sílaba tônica. Existem as oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. Um exemplo de proparoxítona é a palavra ‘Lâmpada’, que foi inventada por Tomas Edison, famoso cientista americano nascido em 1847, na cidade de Milan, uma vila localizada no estado de Ohio, onde também nasceu o famoso escritor Ambrose Bierce, que escreveu o livro ‘Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek’, que fala de um episódio em ficção que teria ocorrido durante a guerra da secessão americana, que como vocês sabem teve com um de seus grandes líderes...”, e a aula ia por aí afora, sem que a gente soubesse porque diabos, afinal, ‘Lâmpada’ era considerada uma palavra proparoxítona!.
Teve também a X2, que louca e desvairada falava aos berros na sala de aula, dizendo sempre que sabia de tudo e que nós alunos não sabíamos de nada. Precisávamos de um método, e haja nos ensinar métodos de como aprender. Aulas maçantes, soníferas. Nos sentíamos meio-cobaias de alguma pesquisa psicológica.
X3 passava a aula toda tentando parecer moderninho. Com o giz na mão escrevia freneticamente algumas palavras no quadro e conseguia até dar uma aula interessante. Mas de repente, como um lunático passava a contar piadas sem graça, paquerava as meninas ou acertava um pedaço de giz na cabeça daquele aluno que dormia no fundo da sala. Ridicularizava todos com piadas de mau gosto, faltava muito nas aulas e acabou nos passando a idéia de que era meio “pinel”. Um dia entrou na política e virou até vereador... Doidos foram os eleitores...Houve também o X4, que começava a aula rezando. Meia hora de reza. “Jesus está chegando, precisamos louvá-lo”. Era um poeta, bem intencionado, dava uma aula boa, mas uma decepção pessoal o levou a procurar o evangelho como salvação. E achava que todos nós precisávamos de salvação. Um dia, do nada, revelou ser homossexual em plena sala de aula! Nada contra, mas a forma como a questão foi colocada foi tão piegas que nunca mais a turma conseguiu encará-lo.
E como esquecer do X5, aquele professor esquecido e desorganizados que nunca sabia que aula havia dado.! “Hoje vamos falar sobre a antiga Roma e sobre os doze Césares... Júlio César foi um desses imperadores, criando dinastias que levaram Roma ao apogeu e à destruição”. E a aula ia por aí afora, até que no final ele dizia: “Na próxima aula falaremos sobre o Cristianismo no Império Romano”. Semana seguinte lá estávamos nós e ele entrava em sala e começava: “Hoje vamos falar sobre a antiga Roma e sobre os doze Césares... Júlio César foi um desses imperadores, criando dinastias que levaram Roma ao apogeu e à destruição ...”. Atônitos, tentávamos dizer que ele já tinha dado aquela aula, mas o pobre não acreditava. No final dizia: “Na próxima aula falaremos sobre o Cristianismo no Império Romano”. Na outra semana, nossa esperança era que ele se lembrasse do tema. Lá vinha ele: “Hoje vamos falar sobre a antiga Roma e sobre os doze Césares... Júlio César foi um desses imperadores, criando dinastias que levaram Roma ao apogeu e à destruição ...”. Até hoje, pouco sei sobre “o Cristianismo no Império Romano”...X6 era o louco em pessoa. Primeiro nos dizia “nunca digam isso, porque isso não deve se dizer”. No dia seguinte dizia o contrário do que havia dito. Metódico ao extremo, adorava um visual empaletozado, mas às vezes chegava em sala sujo por andar jejuando e orando. Um fundamentalista cristão que falava de suas experiências de menino, assumindo ser da “geração Xuxa”. De repente perguntava a todos: “Sabem por que a Marlene brigou com a Xuxa?” Imaginem o nível da aula...
Em todos os casos de professores que se mostraram inseguros ou despóticos, não há como não se rebelar. Ninguém pode ser rebanho na mão de loucos como estes. De Hitleres e Bonapartes o mundo já cansou. Muitas vezes tive que me expor e até ser chamado de “rebelde sem causa”, por reagir a esses tipos.Aos verdadeiros mestres, o carinho. Aos impostores, o desprezo.
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(*) Artigo publicado em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 21.05.2008, no encarte regional Diário do Tapajós, que circula com a edição do jornal Diário do Pará. Charge de Coniglio, copiada da internet com texto adaptado por mim. As fotos são de divulgação da internet.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

NASCEU SALONIKI, A PRINCESINHA DA 4ª GERAÇÃO NINOS!


3,5 quilos de gente distribuídos em um corpinho de 49 centímetros! Eram mais de oito da noite, quando nasceu a mais nova integrante da família Ninos: SALONIKI. Já nasce com nome e jeito de princesa. Na foto acima, logo após o nascimento e ainda com as marcas vermelhas da luta inicial pela vida. Ela que é o fruto de um casal de namorados muito feliz nesse dia, Helena e Mádson.

SALONIKI é uma homenagem à princesa grega que era irmã de Alexandre, o grande. É também o nome da segunda maior cidade da Grécia, onde a família Ninos se estabeleceu depois da 2ª Guerra. Foi lá também que vivi durante três anos entre 1988/1991. O nome da cidade é Thessaloniki, em grego, mas também é chamada de Saloniki nome que resolvi sugerir para homenagear a primeira neta.
Na foto abaixo momento exato em que Saloniki dá o primeiro passeio em quatro rodas (da sala de parto à enfermaria).

Foram nove meses de espera, desde o anúncio da gestação aqui no blog. Minha primeira neta quase nasce numa sexta-feira 13, mas acabou chegando em pleno Dia dos Namorados. É o meu presente de aniversário com um mês de antecipação. O outro presente pode ser um babador... estou precisando!!!
Outros momentos da chegada de Saloniki Ninos, estarão num álbum especial que estou preparando. Estou muito cansado e preciso dormir o sono dos justos. Afinal sou um avô responsável e amanhã tenho que voltar a ver Saloniki... depois da mãe e da enfermeira, ela viu logo à frente o avô querido e sorriu, como mostra a foto abaixo.

Baba, baby!

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Que culpa têm meus tímpanos do “pinto pequeno” dos outros? (*)

Não sei se estou ficando um velho ranzinza (nem cheguei aos 45) ou se estou vivendo o apocalipse. O fato é que muitas coisas do nosso cotidiano me incomodam, principalmente quando meu direito é desrespeitado. Há tempos venho querendo escrever sobre o assunto, mas tinha prometido a mim mesmo evitar esse tipo de comentário pelo fato de atuar como serventuário da Justiça. De repente, percebi que isso é tolice: antes de ser funcionário da Justiça, sou um cidadão!
O título acima expressa exatamente isso: porque tenho que sofrer com o ruído infernal de aparelhagens de som possantes - que tantos filhinhos-de-papai insistem em nos impingir no dia-a-dia - só por causa de seus complexos de inferioridade? Que me desculpe a colega do andar de cima, mas existe uma galera de garotões acostumados a aparecer nas colunas sociais que deve sofrer com a crise freudiana do “pinto pequeno”. É a lei da compensação: o "cara" olha pra baixo e percebe que não é tão “turbinado” o quanto gostaria. Aí, papai lhe arranja a mesadinha do mês e o moleque compra um som “arretado” para se vangloriar diante dos outros. É o mínimo que se pode pensar de quem precisa exibir carrões com sons potentes, para impressionar as meninas. Talvez fosse mais interessante que os papais investissem o dinheiro com terapia ocupacional pros seus meninos... o dinheiro teria retorno e a sociedade agradeceria!
O pior de tudo é que ao se acharem no direito de promover a fuzarca, eles tripudiam o meu direito de me abster da barulheira. E haja barulheira! O agravante é que o gosto musical dessas tribos é duvidoso: de breganejo a axélypso...
Há aqueles que levam seu som para a orla, juntam alguns amigos e até se divertem numa boa. Sem incomodar os outros. Mas há alguns que exacerbam e fazem do seu som um trio elétrico de milhares de megatons, não se importando com os tímpanos dos pobres transeuntes...
E pra não dizer que não falei de flores, até em minha família tenho esse tipo de problema. Mas longe de mim incentivar, pelo contrário, pego no pé, me torno um chato, antiquado, dinossauro...
Ora, venhamos e convenhamos! A questão não é o barulho em si, mas quando e onde ele é produzido. Sou da geração 80 e quando era solteiro adorava som alto em meu apê para tocar meus vinis dos Titãs, Paralamas e até do RPM. É possível que já tenha até incomodado algum vizinho, mas era uma época em que um olhar bastava para que a gente se envergonhasse e mudasse de postura. Hoje, se eu resolver encarar um desses brega-boys, tô arriscado a parar num traumatologista (e se eles souberem ler, é possível que esse seja meu destino a partir de amanhã...)!
Em Alter do Chão tem uma placa (foto) que toda vez que vejo, morro de rir! Ela diz em letras garrafais: “PROIBIDO SOM ALTO. Lei 7347/1985. Art. 225 da Constituição Federal. Som permitido em decibéis: 65 diurno e 55 noturno”. E sempre ao lado da placa, dezenas de carrões enfileirados, rugem a trocentos decibéis. Ignóbeis! E onde estará o ISAM – Instituto Socioambiental de Santarém – para coibir os abusos? Será que ao menos eles têm um decibilímetro para auferir a potência dos sons? O ISAM faz algumas blitze, talvez aplique uma multa aqui e acolá, para algum carro de propaganda que se exceda. E só!
Mas falando em leis, convivo diariamente com elas e todas são bonitas. Não quero falar como um funcionário da Justiça, mas como um cidadão: acho que não precisamos de mais leis, precisamos de quem as faça cumprir. No caso, o Estado, através de seus fiscais: as polícias, o Ministério Público e órgãos de apoio. A Justiça entra quando a contenda precisa de quem modere uma solução, ou precise de punição.
A lei citada na placa de Alter (7.347) é a que “disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente” e outros direitos civis. Ou seja, é através do que diz essa lei que podemos processar alguém que fere os nossos direitos. Mas, talvez, a maioria de nós ache que não adianta acionar a Justiça, abarrotada de tantos processos. E a impunidade continua.
Já o art. 225 da CF, também citado na placa de Alter, diz que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. Bonito, não? Poluição sonora é uma das piores poluições e que nos afeta diariamente, quase de forma imperceptível (não é o caso das parafernálias sonoras). O que falta para que as autoridades façam valer esse direito de todos?
Fico feliz de ter ouvido recentemente um novo delegado de polícia assumir o comando de suas equipes vociferando: “vamos combater principalmente a proliferação de aparelhagens!” Se não for rompante de quem quer visibilidade eleitoral, com certeza pode fazer história. Um juiz que passou por Santarém recentemente, tornou-se o terror dos brega-boys: trancafiou um deles na penitenciária por alguns dias e mandou outros tantos para a delegacia de polícia, pelo menos para se explicarem ao delegado de plantão. Seu exemplo, destacado em jornais do sul, levou a uma ação da polícia e do Ministério Público em aplicar não a lei das contravenções penais cujas penas são brandas, e sim a Lei ambiental (9605/98), em seu poderoso art. 54 que pode dar cadeia de até 10 anos!
Ao invés disso o que vemos é que a orla fluvial de Santarém virou o centro do pandemônio diário. Pregadores ensandecidos prometem o reino dos céus EM ALTO E BOM SOM. (como diz um publicitário amigo meu: será que Deus é surdo?); empresas promovem produtos em blitzes barulhentas, no alto de trios elétricos abarrotados de louras siliconadas; até uma ONG ambiental (!) promove a “luta pelo desenvolvimento sustentável do meio ambiente, sem poluição” usando potentes caixas de som que, pasmem, poluem o meu ambiente! E no meio de tudo, não podiam faltar os brega-boy e suas máquinas possantes. Tudo aos olhos das autoridades (que também participam da festa!).
Voltando a Alter do Chão, nos último carnaval a brincadeira do trigo (que divide opiniões), teve um quesito a mais para bagunçar o coreto de vez: os brega-boys e seus pintos pequenos estavam lá, no meio da multidão, atrapalhando a bagunça esbranquiçada! Precisavam mostrar suas geringonças para as moçoilas e provar que algo neles é maior do que se pensa...
Ou seja, a sociedade toda parece ter o “pinto pequeno”. Ou será que eu morri e esqueci de deitar?
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada no dia 06.05.2008, no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará.

sábado, 3 de maio de 2008

A lágrima que veio do outro lado do oceano

1º de maio, feriado, dia de botar em dia coisas pendentes. Como estava sem postar os últimos artigos que escrevi nas duas semanas passadas, pretendia fazê-lo naquele dia. Mas um telefone, de longe, interrompeu meus planos.
A notícia já era de certa forma esperada: minha tia Maria (na foto abaixo, eu e ela em sua casa, na Grécia) acabara de falecer em Salônica (GR). Em respeito à memória dela, preferi não postar nada naquele dia que levasse ao riso. Só hoje, resolvi escrever sobre sua morte e postar as duas crônicas abaixo.
Aos 89 anos ainda incompletos, tia Maria encontrava-se em coma há algumas semanas e já havia sido desenganada pelos médicos. Meu pai, que foi pra lá há um ano para ficar perto dela por causa da doença que a impossibilitava de se locomover sofria a perda da irmã mais velha, a única que ele não conseguiu trazer para morar no Brasil na década de 1950, quando os Ninos escolheram este país para recomeçar a vida após o fim da traumática 2ª guerra mundial.
Convivi com tia Maria durante os três anos que estive na Grécia (1988/1991). Não foi fácil. Tinha um gênio difícil e não conseguia se adaptar ao nosso estilo brasileiro de viver. Além do mais, nunca teve filhos e não sabia lidar com um jovem rebelde como eu era. Por conta disso acabamos nos desentendendo e, como é praxe na família Ninos (geniosa...) ficamos “de mal” estes anos todos, sem poder aparar as arestas antes de sua morte.
Eu já havia tentado conversar com ela em outras ocasiões, mas esta mantinha-se distante. Quando esteve aqui, há sete anos, mal me cumprimentou no dia do meu aniversário! Confesso que por conta do precipício que se criou entre nós, a lágrima pela morte dela não rolou imediatamente na quinta-feira, após eu receber a notícia de sua morte. Depois de algum tempo entalada no canto do olho, a lágrima surgiu aos poucos, contida é verdade, num misto de dor e alívio. É que pelos relatos de meu pai, a tia estava sofrendo muito na cama com dores lancinantes, apesar de tentar manter a velha fleuma aristocrática e o orgulho helênico (beirando a arrogância) que sempre lhe foram marcantes. Em resumo, mantinha de forma admirável seus princípios morais até os últimos instantes de sua vida.
Posso dizer que apesar dos problemas entre nós, tia Maria teve um grande significado em minha vida, pelo menos por ter me acolhido em sua casa por aqueles três anos de um auto-exílio forçado por minhas posturas de repórter polêmico que incomodaram alguns poderosos da região.
Muita coisa mudou em mim depois do retorno do outro lado do oceano. Outro dia talvez eu conte algumas histórias hilariantes que vivemos, e que fizeram o contraponto aos momentos de tensão entre a representante da velha Europa e o menino sonhador da América do Sul.
Que tia Maria descanse em paz!

Eu, Tiradentes e uma música presa na garganta (*)

Muita gente não sabe, mas escrevo poesias desde a adolescência. E muitas das poesias surgiam cantaroladas, mas a música acabava perdida no esquecimento ficando o rascunho no papel. Foi assim que fiz da palavra meu ofício, passando de um poeta chinfrim a um jornalista médio e chegando a um escrivão judicial razoável. Também criei composições musicais e até tive algum sucesso em festivais de música, mas uma de minhas frustrações até hoje, foi não ter me tornado um intérprete de algumas dessas composições. Talvez, eu tenha evitado que muita gente viesse a sofrer com meus acordes desafinados...
Em pleno feriadão de Tiradentes, lembrei de como ele me foi útil para driblar a censura da Polícia Federal no final da ditadura militar (1984, general Figueiredo) e tentar um vôo mais alto para me firmar como compositor de MPB. O nome da composição era “Desafio” e fazia uma homenagem a um líder sindical rural de Santarém, o Avelino Ribeiro da Silva, morto dois anos antes numa tocaia, por causa de um conflito de terra. Resolvi mudar o título para “Tiradentes” e troquei a frase “bala de fuzil” por “forca que subiu” e, bingo! Consegui levar a música à final do festival de música de Santarém! Eis a letra:
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Tiradentes (Desafio)
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Quando uma luz brilhar
Foi um filho que partiu
E mãe-terra vai chorar
Pois foi ela quem pariu
Mas do solo vai brotar
Outro homem do Brasil!
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(Refrão)
E haja ódio pra parar
Essa força que surgiu
Da boca de quem gritar
Tanta dor que já sentiu
O peito vai se estampar
Cor de sangue infantil
Que jorra um dia sem parar
E transborda feito rio...
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Quando o coração parar
Foi a forca que subiu
(Foi a bala do fuzil)
Que calou esse penar
Por cantar seu desafio
Mas a chama vai queimar
E acender nosso pavio...
(Refrão)

-

Mas o mais interessante dessa minha participação não foi driblar a censura da PF e sai do meu parceiro. Eu já trabalhava como repórter na Rádio Rural e conheci um locutor que apresentava o Jornal do Meio Dia, mas que era meio louco e tinha vontade de brilhar numa banda de rock. Tinha até nome artístico: Dioclau Wonder (!), que vinha a ser um anagrama de Cláudio, mais o "Maravilha" em inglês... Mostrei a composição que havia feito e ele aprovou. Após inscrever e classificar para a primeira fase, me empolguei e disse que queria interpretá-la com ele no dia do festival. Ele, meio que concordou...
Tentamos ensaiar com o conjunto oficial do festival, mas o arranjo que o meu parceiro havia feito era muito louco e ninguém conseguia chegar no tom que ele queria. Como cantava em bandas e conhecia a rapaziada que tocava nas noites, me levou embaixo do braço à casa do Paulo Jofre, o popular Paulinho dos Teclados (talvez ele nem se lembre disso) que à época fazia dupla com o Wilsinho Fona à beira da piscina do então Tropical Hotel (hoje Amazon Park). Cláudio, ou melhor, Dioclau, me apresentou como compositor ao Paulinho e pediu para que ele gravasse um play-back do arranjo que fizera. Paulinho conseguiu, depois de muito custo, entender o estranho arranjo do Dioclau. A idéia dele era que nós cantássemos sobre o play-back em pleno festival!
Com a fita em mãos, passamos a nos encontrar na casa dele para ensaiar. Eu entrava com a segunda voz, esganiçada, que perto da voz dele, quase de tenor, sumia. Ele tinha muita paciência e ia me ensinando como fazer. Fui ganhando coragem e aos poucos já me sentia um Chico Buarque chinfrim.
Chegou o dia da apresentação. Fomos os dois na minha motoneta até à praça São Sebastião, onde um grande público aguardava o surgimento de uma nova estrela da MPB! No caminho, Dioclau me surpreendeu: “Jota, tu não vais cantar...” Freei a moto e disse: “O quê?”. Estávamos a uns 200 metros da praça e dava para ouvir os candidatos sendo chamados, enquanto iniciávamos um intenso debate sobre a imposição do meu parceiro. “Se tu cantares, a gente não passa para a outra fase!”, me dizia ele convicto. Revoltado eu me sentia traído e retrucava: “Porque não me dissestes antes?”. Ficamos brigando e resolvi ter um chilique de artista. “Se eu não cantar, tu também não cantas!”. Afinal eu era o dono da letra e da música, ele só tinha feito o arranjo.
Tínhamos ensaiado e eu achava que estava pronto. “Tua voz não dá!”, me dizia o parceiro. Ao fundo ouvíamos o apresentador dizendo: “E agora, a música Tiradentes, de Jota Ninos e Dioclau Wonder, vamos aplaudir!”. Os aplausos ecoaram, mas o palco estava vazio. Continuávamos discutindo. “Chamamos mais uma vez, Jota Ninos e Dioclau Wonder!”, repetia o apresentador. Desci do meu pedestal e me rendi, ao perceber que acabaríamos sendo desclassificados! “Sobe na moto!”, determinei. Chegamos a tempo e Dioclau deu um show. A música foi classificada, mas um jurado que me conhecia, me chamou a atenção. “Tua música passou, porque não encontramos nada no regulamento sobre play-back, mas vê se evita isso na final!”
Fiz as pazes com o parceiro e nos preparamos para a final. Falei pra ele sobre a recomendação do amigo jurado, pois o júri da final seria gente da capital. Dioclau deu com os ombros e disse que não pretendia cantar com o conjunto, pois eles não acertariam seu arranjo. “Xa’comigo, vou com o play-back do Paulinho e ninguém vai perceber”. Resolvi acreditar...
Mas aí tive uma idéia: “que tal fazermos um mis-en-cène com um enforcamento ao vivo, para despistar os jurados?”. A idéia louca caiu nas graças do parceiro. Mandamos fazer uma túnica branca, um capuz preto e uma corda com nó de forca. No dia da final, lá estava o Dioclau cantando e eu nos bastidores. De repente, no final da música, quando o refrão está sendo repetido, Dioclau sai correndo do palco e voltou vestido com a túnica. Na última estrofe do refrão, entro eu de capuz preto e corda na mão. Boto no pescoço do “Tiradentes”, que se pendura até o chão cantando a última frase “E acender nosso pavio...”.
Aplausos do público. Eu estava realizado. Não cantei, mas dei um toque cênico à apresentação, que era minha especialidade. Mas os jurados não engoliram: “o júri informa que a música Tiradentes foi desclassificada, por usar play-back”, sentenciou o apresentador.
Tiradentes foi enforcado, novamente, em plena praça São Sebastião...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 22.04.2008, no Diário do Tapajós, encarte do Diário do Pará (a fotomontagem mal feita, como sempre, é de minha autoria, com imagem roubada da internet).

O ex-burocrata da ONU que “dialoga” com a Matinta Perêra (*)

Hoje, aqui em minha coluna semanal, publico um dos textos (inédito até agora) que produzi ano passado como estudante do curso de Jornalismo do Iespes, durante a disciplina “Reportagem e Entrevista” da jornalista e professora Socorro Veloso, uma paraense que hoje vive em São Paulo e que deu grande contribuição aos futuros colegas do curso. Trata-se de uma reportagem enquadrada no gênero perfil, que escrevi a partir de uma pessoa do nosso cotidiano tapajônico. Escolhi o engenheiro, cronista e poeta Eymar Franco, que me rendeu um personagem inusitado. Acompanhe o texto:

Pouso Alto. A velha placa de madeira à beira do Km 15 da rodovia BR-163, que liga Santarém (PA) à Cuiabá (MT), na localidade rural de Cipoal (um “quase” bairro de Santarém), indica o nome do sítio de 5,5 hectares logo à frente. Remete ao nome de uma cidade mineira carregada de uma simbologia esotérica que só pode ser explicada pela emblemática figura de seu morador, um burocrata paraense que no anos 1980 – no auge de uma promissora carreira no exterior – trocou as salas de conferências da ONU (Organização das Nações Unidas) mundo afora, por um retorno às suas origens no rio Tapajós.
O pomar de frutas cítricas (hoje são mais de 500 pés de laranjeiras, limoeiros e tangerineiras, ¼ do que restou dos áureos tempos quando chegou a produzir e exportar para a região) de Pouso Alto, exala um perfume convidativo a quem, como eu, senta na varanda para ouvir estórias (ou histórias?) de seus “diálogos” com a lendária figura amazônica da Matinta Perêra e de sua experiência com a eubiose, uma ramificação brasileira da teosofia, doutrina esotérica que defende a existência de uma fonte única e eterna para todo conhecimento e demonstra a identidade essencial entre os grandes mitos das culturas mundiais.
Prestes a completar 86 anos, em 17 de setembro, Eymar Cunha Franco (na foto ao lado, nos tempos de burocrata, numa viagem à Grécia) é agrônomo aposentado, escritor e poeta (três livros já publicados). Conversa com certa dificuldade, apoiado sempre por sua segunda esposa, a ex-comerciária e prima em segundo grau Ana Cecília Tavares Franco, 30 anos mais nova. “Ela é, hoje, minha razão de viver”, me diz Eymar com um olhar lânguido e apaixonado ao se referir à Cecília, que convive com ele há oito anos. Recuperando-se de uma queda sofrida há dois meses em sua casa e que afetou sua coluna – mas não seu humor – ele resume o momento que vive:
- Cheguei numa fase da vida em que me sinto plenamente realizado e, como diz um amigo, quero que o resto se f...”, diz às gargalhadas, acompanhadas de uma forte tosse proveniente do vício de fumar pelo menos um maço de cigarros por dia e de um olhar repreensivo, e ao mesmo tempo cúmplice, da esposa, por proferir um palavrão na frente do jornalista.
Pertencente à família Franco, o menino nascido na fazenda Urucurituba, no município de Aveiro, a 12 horas de barco de Santarém, aos nove anos seguiu para estudar na capital do Estado, iniciando seu vôo alto na careira internacional. Hoje, é um velho sábio que faz da crendice popular sua melhor companheira no Pouso Alto.
Códex Alimentarius - Combinando a erudição adquirida nas viagens a diversos países do mundo com a sabedoria do povo amazônida e suas lendas, Eymar relembra o espírito empreendedor de seu bisavô, Alberto José da Silva Franco, comerciante português que chegou ao Pará em 1836, no meio da revolução popular conhecida como Cabanagem (1835/1840) que combatia a elite lusitana no poder. Em seu livro de memórias “O Tapajós que eu vi” (ICBS, 1998), ele conta que o patriarca dos Franco foi um das centenas de portugueses que saíram de Belém naquele período e refugiaram-se na região. Às margens do rio Tapajós, adquiriu uma área de terra onde até hoje existe uma Casa Grande (foto abaixo), símbolo do Brasil Império. Mas foi para lá que ele pediu para voltar, no momento em que representava o Brasil em importantes grupos de estudo mundiais.
Eymar foi funcionário por mais de 40 anos do Ministério da Agricultura, passando por diversas funções até ser indicado para representar o Brasil no Códex Alimentarius, fórum internacional de normalização de alimentos estabelecido pela FAO e OMS, órgãos das Nações Unidas para a agricultura e saúde, respectivamente. Criado em 1963 com a finalidade de proteger a saúde dos consumidores e assegurar práticas eqüitativas no comércio regional e internacional de alimentos, o Códex obrigou Eymar a participar de incansáveis reuniões nos EUA, Suíça e dezenas de outros países, além das viagens por todos os estados brasileiros para disseminação das normas. Isso levou o velho agrônomo, especializado em controle de produtos vegetais e com faro adquirido na vida da fazenda, a preferir o retorno para assumir a Base Física do Ministério da Agricultura em Fordlândia (Aveiro), sob protestos de sua chefia que o considerava louco.
Na área adquirida pelo magnata americano Henry Ford, para a implantação de um mal sucedido empreendimento de produção de látex nas primeiras décadas do século passado e reassumida pelo governo brasileiro já em decadência, Eymar aliou seu conhecimento e responsabilidade para liderar os ociosos trabalhadores que sequer cuidavam da preservação da Vila Americana, um casario de madeira no meio da floresta com arruamento e sistema de água e luz que muitas cidades amazônicas não tinham. Depois de revitalizar a vila, Eymar decidiu se estabelecer em Santarém.
Diálogos com Matinta – “Sou cético em relação à política e à situação que vejo no país e na Amazônia”, declara Eymar ao explicar sua “mania de conversar com a Matinta Perera”. Ele afirma que os “diálogos” são “uma fuga dessa realidade que nos cerca, através da alegoria amazônica”. A lenda da Matinta Perera é uma das histórias que ouvia dos caboclos do Tapajós desde menino. Nos “diálogos”, muitos deles já publicados em jornais locais, Eymar “discute” alguns problemas da atualidade com a Matinta, personagem da mitologia amazônica representada por uma velha vestida de preto, com os cabelos bastante assanhados caídos no rosto, que costuma sair ao escurecer, de preferência nas noites sem luar, em busca de tabaco e assustando as pessoas através de um forte assobio.
“Dia desses”, fala sério Eymar, “a Matinta andou me dizendo que não gosta do George Bush, pois ele é um perigo para a Amazônia”. Quão sábia é a Matinta, penso eu. Outro dos “diálogos”, que estão sendo reunidos para a produção de um livro de crônicas, faz da Matinta (figura abaixo) sua cúmplice no ato de fumar:

(...)

- Tu precisas escrever uma carta! – Resmungou [a Matinta] puxando o esfiapado casaco preto, para agasalhar melhor a sua corcunda.

- Carta? – perguntei - Para quem?

- Ora, pros teus pariceros.

- Está bem. - concordei - E devo dize o que?

- Diz pra eles acabar com essa bobagem de botar anúncio na televisão, dizendo que fumar é prejudiciar à saúde. Quem não sabe disso,hein?

(...)

- E quer saber mais? Eu e o meu compadre Curupira, fumamos há séculos e estamos aqui para provar que fumar não encurta a vida de ninguém.

E continuou:

- Tu sabes o que mata as pessoa de enfarte?

- Não – Respondi-lhe.

- É tensão, ambição, ganância, medo, gordura e preguiça. Isso que o governo deveria dizer ao povo, ao invés de gastar dinheiro com propaganda contra o fumo.

(...)

O ceticismo em relação a tudo que viu o aproximou da teosofia e o fez se filiar à SBE (Sociedade Brasileira de Eubiose) - da qual hoje já desligado -, criada pelo teósofo brasileiro Henrique José de Souza. “O homem é um ser mental, que pode canalizar suas forças interiores para a prática de atos que modifiquem seu redor”, profetiza. Ele conta que participando desse movimento estudou várias religiões e chegou a conclusões de que todas emergem de um mesmo tronco, mas têm sua base nessa força interior do homem.
Lembra de ter visto um homem com tais poderes quando menino em sua fazenda, e que, sabendo controlá-los, com um simples olhar fazia uma cobra ficar estática! Diz que esse magnetismo pessoal faz com que certos homens se destaquem e sejam, às vezes, confundidos com seres divinos. “Jesus Cristo era um ser especial, mas não acredito no dom divino que lhe foi conferido e propagado pela religião que se criou em torno dele. Ele tinha dons especiais que sabia canalizar para levar uma mensagem de fé e de esperança para seu povo”, afirma.
Nesse contexto, depois de horas de um bate-papo gostoso, porque não acreditar que o velho Eymar encarne a própria Matinta Perera?
No Pouso Alto, um velho sábio, já deitado em sua rede, fuma de olho em seus laranjais e antes que eu me despeça me chama da janela para relembrar, com seu ar carismático e brincalhão: “Quero que o resto se f...”.
Acredito estar vendo a própria Matinta olhando pra mim...
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(*) Artigo inserido em minha coluna Perípatos em 11.04.2008, publicada no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

domingo, 30 de março de 2008

O fusquinha flamejante e o “complexo de ocarub”(*)

Brasileiro gosta de carro, é o que dizem as propagandas por aí. E talvez seja verdade. Pelo menos da minha parte nunca tive objeção a essas máquinas. Mas minha relação com carros tem seus altos e baixos...
Lembro do primeiro carro da família, um Corcel de duas portas comprado no início dos anos 70. Foi nele que tomei algumas aulas de como... não dirigir.
Meu pai me botava no colo (era muito baixinho para pisar nos pedais) quando íamos para as praias fora de Belém (Marudá era a preferida) e me deixava segurar o volante na estrada. A intenção era que eu ganhasse confiança e pudesse ter senso de direção, no carro e na vida. Mas acho que até hoje meu senso de direção ainda é meio atabalhoado. Assim, depois de várias vezes em que escapei de arrancar algumas árvores pelo caminho fui proibido pela família, em votação unânime, de voltar a sentar no colo do papai-motorista.
Mas não escapei de acidentes automobilísticos, apesar de não estar no volante. Foram dois, sempre, na estrada entre Belém e as praias. Saí ileso nas duas vezes, mas vi algumas pessoas da família feridas. Pelo menos não aconteceu fatalidade maior. No último, o Corcel virou uma sanfona e eu fiquei preso nas ferragens, mas sem me machucar.
Talvez por isso, criei um certo complexo com carros por algum tempo. Aos 21, resolvi ter uma velha Mobyllette (aquela da minha estréia como repórter, que já contei aqui). Era o começo de minha paixão pelas duas rodas. Além dela tive duas Honda CG 125 e achei que não precisava de quatro rodas. Me bastavam os quatro olhos... Até que um dia caí de quatro por um velho fusquinha azul, anos 70, que acabei arrematando por uma bagatela.
Isso aconteceu quando resolvi ter uma família no início dos anos 90 e o fusquinha veio a calhar. O problema é que ele vivia mais tempo na oficina do que rodando por aí. Tinha um problema crônico que ninguém conseguia resolver: vivia pegando fogo, sozinho! Acho que ele tinha um complexo de Tocha Humana, aquele personagem do Quarteto Fantástico. “Tem que trocar a fiação”, me dizia o eletricista toda vez que eu levava para fazer um reparo. Como custava caro e eu não estava nadando em dinheiro, ia adiando o serviço à base de gambiarras.
Além do complexo flamejante, meu carrinho conviveu por um bom tempo com outro complexo que todo santareno tem ao andar nas nossas maltratadas ruas e que foi detectado por um professor de Latim que tive na UFPa. (Raimundo Nonato) que vivia dizendo: “o pior dos buracos de Santarém é que ninguém faz recapeamento geral do asfalto: só se faz operação tapa-buraco”. Daí, segundo ele, surge o que ele chamava de “complexo de ocarub”, que nada mais é do que um palíndromo dessa palavra, ou seja, um buraco ao contrário! “Pior que um buraco – dizia o professor - é o buraco apenas tapado que cria dezenas de obstáculos nas ruas e que acabam com a suspensão dos carros”.
Ele tinha razão. Para andar em Santarém um carro comum sofre muito, ou desviando de buracos ou trepidando sobre centenas de “ocarub”... É o primeiro cartão-postal que qualquer visitante da cidade logo conhece ao descer do aeroporto! Triste realidade dos trópicos!
Mas voltando ao fusquinha, seis meses depois e pequenos incêndios aqui e acolá, achei que era hora de passá-lo adiante. Um mecânico me ofereceu uma ninharia por ele, mas resisti. Um certo dia dava voltas pela cidade, ciceroneando meu irmão recém-chegado a Santarém. De repente, o carro parou num bairro de periferia: prego de português! Estávamos sem gasolina!
Lá fomos nós, empurrando o carro pelo areião até o próximo posto. Chegamos ao local num dia em que um caminhão fazia o abastecimento do posto e vários carros aguardavam a vez. O cheiro de gasolina era intenso. “Bota dez reais!” (era o que eu tinha no bolso), disse ao frentista que me pediu para esperar um pouco enquanto atendia outros clientes. Meu irmão de língua pra fora já estava arrependido de me visitar. O calor era intenso e enquanto aguardávamos o atendimento do frentista virei a chave na ignição ligando a bateria, para acionar o ventilador. Meu irmão foi tomar um refri e eu sentei no fusquinha admirando a movimentação, meio que inebriado com a gasolina.
De repente, vejo meu irmão correndo em minha direção, fazendo sinais desesperados. Frentistas correram do posto para a rua! Motoristas abandonaram seus carros! E eu sem entender nada, até sentir um cheiro já conhecido: o fusquinha havia começado a pegar fogo, dentro do posto de gasolina!
A labareda subiu pelo teto, já chamuscado. Desliguei a chave e peguei o extintor, mas estava vazio! Os homens gritavam “sai daí!”. Meu irmão veio me acudir. Desesperado, peguei um carote com água perto de uma bomba de gasolina e apontei em direção ao fogo, mas um frentista gritou agoniado “isso é querosene!”. Parei no meio do caminho.
Até que meu irmão teve a idéia salvadora: correu para a rua – sem asfalto – e carregou uma pequena quantidade de terra do areião com as mãos espalmadas em concha e jogou sobre o fogo. Fiz o mesmo e os frentistas também. Depois de alguns minutos e milhares de palavrões, conseguimos debelar as chamas. Não entendi porque os frentistas não me permitiram mais colocar gasolina... E lá fomos, eu e meu irmão, empurrando o fusquinha até o próximo posto...
No dia seguinte vendi o carrinho por uma ninharia. Meu irmão nunca mais quis andar de carro comigo.
Só recentemente resolvi comprar um carro com menos problemas. Continuo enfrentando apenas o “complexo de ocarub”. A gente acaba se acostumando com a herança que nossos administradores deixam a cada governo. Pelo menos incêndio, nunca mais.
É bom andar no meu carrinho e rir dessa história, relembrando o velho fusquinha flamejante.
Mas espera aí, que cheiro é esse?...
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(*)Artigo inserido esta semana em minha coluna semanal Perípatos, publicada no encarte regional Diário do Tapajós, do jornal Diário do Pará. A "tentativa de charge" foi mal feita por mim, um péssimo webdesigner, a partir de fotos montadas.

domingo, 16 de março de 2008

30 anos de Santarém – uma viagem inesquecível! (*)

Essa é a primeira postagem no blog em 2008 e o texto marca também minha volta ao encarte regional do Diário do Pará.
Andei muito ocupado nesse início de ano e só agora começo a organizar meu tempo. Espero poder retomar o mínimo de um ritmo de postagens, principalmente este mês quando o blog completa 3 anos no ar (em 31.03).
O texto marca meus 30 anos de Santarém, como você pode ler a seguir:



Era uma manhã do dia 15 de março de 1978. Pela primeira vez eu pisava em solo santareno, exatamente no píer do cais do porto onde ancorou o N/M Augusto Montenegro (na foto um dos catamarãs da Enasa, o "Pará", do mesmo modelo do "Augusto Montenegro"), um dos velhos trambolhos da Enasa que já não navegam mais, proveniente de Belém.
Era o fim de uma viagem inesquecível – e atropelada – e o início de uma nova jornada em minha vida, poucos meses antes de completar 15 anos. Mas chegar em Santarém foi uma verdadeira odisséia amazônica! E é sobre essa viagem que vou escrever aqui, depois de tanto tempo longe das crônicas...
A decisão de minha família deixar Belém e vir parar em Santarém foi tomada em 1977. Naquele ano, os negócios do velho grego Georgios Joannis Ninos, meu pai, iam de mal a pior. Fechara seu grande comércio – duas lojas num mesmo ponto comercial, o restaurante Nino-Lanche e o Nino-Tex, venda de confecções. Era praticamente o único ponto que não tinha um banco ou financeira na 15 de novembro, onde se concentravam as principais agências bancárias no comércio de Belém.
Um dia recebi a notícia: vamos viajar à Santarém. Mas onde diacho era isso? Relutei, chorei, mas não havia jeito. Meses depois lá estava eu e meu pai embarcando no N/M Augusto Montenegro... Os outros iriam depois.
Era uma noite de 10 de março de 1978, sexta-feira. A previsão de chegada a Santarém era no dia 13, segunda-feira, quando deveria me apresentar num colégio chamado “Rodrigues dos Santos”. Como era muito supersticioso logo profetizei: “dia 13? Vai dar azar... Esse barco vai afundar e pela primeira vez vou faltar à aula!” Fui repreendido pelo meu pai por não perder a mania de achar que o 13 era azar pra mim. Mas tinha minhas razões: nasci num dia 13 e sempre no meu aniversário, amanhecia doente!!! Só podia ficar impressionado com a “coincidência”....
Mas a viagem começou maravilhosa. Serpenteávamos pelo Amazonas, descendo até sua parte mais baixa e víamos a selva como nunca havíamos visto: colorida, intensa, um verde vagomundo como descrito por Benedito Monteiro.
Mas a maravilha que nos cercava não era a mesma do barco. Já nessa época o velho catamarã estava bem sucateado e o serviço de bordo era péssimo. A comida uma porcaria. Passei mal e botei tudo pra fora na primeira noite, enquanto dormia numa velha rede! Espetáculo grotesco...
Rede lavada no dia seguinte, mas sem ter enxugado por completo. Lá vou eu dormir num corredor do barco próximo à cabine de comando para poder pegar vento e secar um pouco mais a rede. Cheirinho insuportável a me provocar as mesmas náuseas. Jejum, para evitar novo revertério em minhas entranhas. Começo a odiar essa tal de Santarém...
Chegamos à Gurupá e um incidente hilário: o navio pararia por uma hora e poderíamos esticar as pernas um pouco em terra. Vários passageiros descem e passeiam próximo ao cais. Mas eu e meu pai resolvemos andar um pouco mais. Começamos a subir uma ladeira que parecia rua principal e fomos nos distanciando. Comentávamos o que nos esperava na nova terra... Quando, de repente, o barco apitou! Lá fomos nós, ladeira abaixo, em desembalada carreira, esbaforidos, para chegar a tempo de embarcar. Quanto mais corríamos, mais o barco parecia distante... Na verdade ele já havia saído, com nossas bagagens, dinheiro e a rede vomitada! Meio metro de língua pra fora, chegamos ao cais e o navio no meio do rio. Desolação e vergonha: a profecia cada vez mais próxima. Começava a odiar ainda mais Santarém!
De repente um homem chega num jipe e comovido com nossa situação, nos chama para a única lancha da cidade. Ele mesmo guiou a lancha e nos levou até o navio que parou para nos esperar. Soubemos depois que o homem era o prefeito da cidade (o nome, não recordo)! Não se fazem mais políticos como antigamente...
A viagem prossegue e na madrugada do dia 13, quando estávamos nos limites do município de Prainha, a catástrofe: o navio bate sua quilha em uma grande tora de madeira dessas que viajam rio afora! O comandante joga o barco à beira e o encalha num banco de areia. Estou dormindo e quase todo mundo acorda para ver o que aconteceu. Um idiota passa na minha rede, me sacode com força e grita em meus ouvidos: ”Acorda, moleque! Estamos afundando!” Imaginem despertar desta forma. Choroso e com medo (eu nem sabia nadar) busco meu pai em meio a tanta gente, mas o velho Ninos, como sempre, mantém a calma e diz que está tudo bem. Mas não estava.
A água começa a alagar o compartimento dos fluviários da embarcação. Buscam um maçarico para emendar, mas maçarico não há! Tentam pedir socorro pelo rádio, mas o rádio quebrou! E agora, João? A profecia se cumpriu?
Como sempre, o brasileiro é criativo e os fluviários usaram seus colchões para tapar o buraco da quilha. Depois de quase um dia e meio parados, surge um outro barco que nos reboca até o destino final. Ainda não teria um fim trágico de um Titanic... Definitivamente, eu odiava Santarém!
Quando avistei do catamarã da Enasa a frente da cidade, a primeira exclamação que me veio à cabeça foi: Égua! Eu, até então, não tinha noção do que era Santarém e tinha a mesma impressão que muitos belenenses têm até hoje: uma “cidadezinha” do interior, com apenas uma “ruazinha” e alguns casebres ou palafitas... Mas o que eu via era uma cidade grande e bonita, com uma orla invejável e muita movimentação. Foi paixão à primeira vista!
O jovem filho de um grego e de uma cabocla de Marapanim, nascido em Belém, começava a se apaixonar por uma pérola que eu nem sabia que existia. Naquele dia nascia um novo cidadão santareno, sem diploma e sem documento... Nem importava a viagem desastrada.
Santarém para mim é “Tara”, (com o “tezão”), que para quem não lembra era a fazenda de Scarlet O´Hara, a complexa personagem do filme “E o vento levou...” Ela dizia no fim do filme que podia passar pelas piores privações e fracassos, mas sempre que retornasse e pisasse em sua terra/Tara, revigoraria suas forças e seguiria em frente. Passaram-se 30 anos desde então, e hoje Belém é apenas um lugar onde vou passar férias e respirar um pouco de meu passado infanto-juvenil vivido no perímetro Praça da República/Praça Batista Campos.
Minha “Tara” é Santarém! Nos dois sentidos...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal, publicada sexta-feira (14.03) no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Diana Pequeno e a versão de Bob Dylan

Mais uma mensagem de final de ano para os leitores do blog. É a minha primeira tentativa de adicionar um vídeo que encontrei por acaso no YouTube.
Trata-se de um clipe montado por algum internauta que tem ao fundo a bela canção "Blowing in the wind" ("Soprando no vento"), de Bob Dylan, numa versão feita pela cantora baiana Diana Pequeno da qual sou fã nº 0, como já expliquei aqui no blog.
Não sei se vai dar certo, mas vai lá...

Duas mensagens, um motivo

Corações Distantes

Um sábio pergunta aos seus discípulos:
- Porque as pessoas gritam, quando estão aborrecidas?
- Porque perdem a calma - disse um deles.
- Mas, porque gritar quando a outra pessoa está ao teu lado? - retrucou o Mestre - Não é possível falar-lhe em voz baixa? Porque gritar a uma pessoa, quando se está aborrecido?
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E ele mesmo respondeu, diante do silêncio dos discípulos:
- Quando duas pessoas estão aborrecidas, seus corações se afastam muito. Para cobrir esta distância precisam gritar para poder escutar-se. Quanto mais aborrecidas estejam, mais forte terão que gritar para escutar-se um ao outro, através desta grande distância.
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Em seguida, disse:
- E o que acontece quando duas pessoas se enamoram? Elas não se gritam, mas sim, se falam suavemente, porque? Porque seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Quando se enamoram, acontece mais alguma coisa?
- Não falam, somente sussurram e ficam mais perto ainda de seu amor - respondeu um discípulo.
- Certo - concordou o mestre - E finalmente não necessitam sequer sussurrar, somente se olham e isto é tudo. Assim é quando duas pessoas, que se amam, estão próximas.
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E o sábio finalizou:
- Quando discutirem, não deixem que seus corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais. Chegará um dia, em que a distância será tanta, que não mais encontrarão o caminho de volta.

Os dois cachorros

Um velho índio descreveu certa vez seus conflitos internos:

- "Dentro de mim existem dois cachorros, um deles é cruel e mau, o outro é passivo e muito bom. Os dois estão sempre brigando."

Quando então lhe perguntaram qual dos cachorros ganharia a briga, o sábio índio parou, refletiu e respondeu:
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- "Aquele que eu alimento."



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QUE EM 2008, DEIXEMOS DE ALIMENTAR NOSSOS INSTINTOS MAIS NEGATIVOS E MANTENHAMOS NOSSOS CORAÇÕES MAIS PRÓXIMOS!

domingo, 23 de dezembro de 2007

Canto de Várzea canta no Bazar Brasileiro

Retornando a postar no blog depois de mais de 40 dias , informo que estarei conversando com alguns dos integrantes do grupo Canto de Várzea (foto acima) logo mais, às 19h30, em meu programa Bazar Brasileiro, na Rádio Rural AM de Santarém (710 OM). Deverão estar presentes ao estúdio João Otaviano Matos Neto, Beto Paixão e Eduardo Serique, três dos principais integrantes do grupo que lançou o CD “Canto de Várzea, 25 anos”, num grande show no Iate Clube de Santarém na noite da última sexta-feira (21/12).
O CD foi lançado pela Secretaria de Estado de Cultura através do Selo Paranatinga que tem como objetivo divulgar e promover o registro da obra de grupos musicais tradicionais do Estado, além de homenagear o poeta santareno Ruy Paranatinga Barata.
O Canto de Várzea completou 25 anos de história, já tendo passado por ele vários músicos, interpretes e compositores santarenos. Atualmente é formado pelos músicos Emir Bemerguy Filho, Beto Paixão, Antônio Álvaro, Nicolau Paixão, João Otaviano, Everaldo Martins Filho, Otacílio Amaral e Samuel Lima.
Na sexta-feira, além do lançamento do CD - que contou com as participações dos cantores Maria Lídia e Zé Azevedo, que também têm laços com o grupo apesar de suas carreiras solo - foi feita a gravação para um DVD que será lançado em breve.
Acompanhe a entrevista com o pessoal do Canto de Várzea logo mais na Rádio Rural, que terá também a presença do radialista Dornélio Silva (foto menor), um dos fundadores do programa de passagem por Santarém. Se estiver fora de Santarém, tente o link http://radiorural.v10.com.br/, nem sempre funciona, mas quem sabe você tenha sorte...
Amanhã eu divulgo aqui no blog trechos da entrevista para quem não conseguir acompanhar a entrevista ao vivo.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Agradecimento

Agradeço a todos os amigos que mandaram mensagens no blog e "babaram" comigo na minha nova vida de vovô. Helena também agradece e para não fazer injustiça, não posso deixar de citar o nome do pai do futuro bebê (como se quisesse me apoderar do seu filho - coisas de avô babão...) : Mádson também está feliz com o moleque.


Quem ainda não leu as mensagens ou ainda quiser "babar" comigo, basta visitar a caixinha de comentários de minha crônica ou a da poesia abaixo, ou ainda os comentários que foram feitos lá no Blog do Jeso, meu grande divulgador.


Aguardo receitas de mingau... rsrsr!

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O filho que eu quero ter

É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer

Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr
E assim, chorando, acalentar
O filho que eu quero ter

Dorme, meu pequenininho
Dorme que a noite já vem
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar
Quando eu chegar lá de onde vim

Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim

Dorme, menino levado
Dorme que a vida já vem
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu

E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz a me embalar
Num acalanto de adeus

Dorme, meu pai, sem cuidado
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter
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Vinícius de Moraes, o nosso poetinha (que entre outras qualidades era Botafoguense).
Essa aí é uma de suas mais lindas poesias na minha opinião (depois de Operário em Construção e Rosa de Hiroshima) e que, de certa forma, combina com a crônica escrita no post abaixo.
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Essa poesia de Vinícius foi lindamente musicada por seu eterno parceiro Toquinho e gravada por ele em disco, mas a minha versão preferida é a de Chico Buarque de Holanda (na foto, com seu compadre Vinícius) no disco Sinal Fechado (1974).
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Quer ouvir? Clique AQUI.

A plenitude do ser na plena juventude do renascer(*)

“- Pai, tô grávida!”
Naquele dia eu havia dormido pai e acordado avô! A revelação dita em tom meio alegre e meio nervoso pela garotinha que vi nascer há 21 anos, me fez despertar para um novo mundo. Para quem andava meio acabrunhado com sinais de que a velhice vinha insistindo em bater à minha porta e dizer “oi” em plenos 44 anos, através de dores, e doenças, cansaços e estresses, agora surgia a certeza de que a vida me mostrava um novo caminho que há tanto eu perseguia: a plenitude do ser.
Há pelo menos 15 dias venho curtindo a idéia de ser avô aos 45! O neto anunciado virá ao mundo entre junho e julho do próximo ano, quando estarei completando esta idade, quem sabe até venha embrulhado em papel de presente, no próximo 13 de julho...
Já andei espalhando a notícia por aí, mas preciso andar com um lenço na mão para evitar me afogar na própria baba... Não podia continuar andando de boca em boca com tal notícia. De repente, em meio a tantas babas de “pappú” (vovô, em grego), me lembrei que também sou jornalista e que escrevo artigos num jornal e no meu blog. Então: boca no trombone para anunciar meu primeiro “engonós” (neto, em grego)! Mais um greguinho-amazônida no forno...
O anúncio desse neto me recorda o nascimento de minha primogênita – a mãe dele – que chamei de Helena (na foto abaixo, ao lado do avô-coruja) em homenagem à famosa princesa que uniu os reis da Grécia contra a mítica Tróia. Eu tinha, então, 23 anos e num dos – muitos – arroubos românticos regados à testosterona, acabei gerando uma princesinha que deu um novo alento àquela vida pós-adolescente de então. Foi depois de seu nascimento que comecei a perceber que o mundo não era feito só de aventuras. Mesmo assim, ou talvez por isso, acabei me aventurando para conhecer o mundo helênico que meu pai havia deixado atrás. Fui em busca das raízes gregas para juntá-las aos cipós amazônicos e consolidar um novo homem (não sei se consegui...).
Mas, infelizmente, minha relação com a primeira filha foi feita de altos e baixos, exatamente por levar uma vida atribulada entre jornalismo e política e nem sempre dar maior atenção à família. Quantas vezes eu esqueci(!) de buscar a linda menina loira na escolinha da professora Helena Bezerra, debruçado que estava editando matérias para um jornal que quase ninguém assistia, depois do “Jô onze e meia” no SBT? Para a minha sorte, a xará dela cuidava da menina até o desalmado pai comparecer de moto e levar a menina chorosa pra casa...
Mas deixemos de lado estas lembranças e concentremos-nos na plenitude do ser.
Um dos temas recorrentes em minhas vãs filosofias é a morte e antes dela a velhice. Envelhecer para mim nunca foi problema. O problema é que a velhice é o corredor que nos leva à morte e até hoje não me convenci de que quero chegar ao final desse corredor. Talvez por isso vivi perigosamente, como quem quisesse desafiar a morte, apesar de morrer (ops) de medo dela...
Envelhecer é ficar mais sábio. Hoje me sinto mais seguro de mim e não temo em expressar minhas opiniões abertamente. Não mais como um kamikaze dos tempos de rebeldia sem causa e de polêmicas sem nexo. Agora estou mais para um samurai. Só não sei se estou pronto para um dia cometer um haraquiri... Quem sabe quando finalmente me aprofundar nas filosofias orientais que há muito persigo, consiga encontrar essas respostas.
A busca pela eterna juventude sempre se prendeu à busca pela imortalidade. E mais uma vez a sabedoria dos meus antepassados gregos deixa uma lição, através do belo mito de Eos e Tithonus. Eos era a deusa da Aurora (a palavra latina aurora vem do grego auôs, que é uma outra forma de éôs). Ela era irmã de Hélios, o Sol, e de Selene, a Lua. Conta a lenda que Eos se apaixonou por um mortal célebre por sua beleza, Tithonus, irmão do rei de Tróia, Príamo. Para poder amá-lo por toda a eternidade suplicou a Zeus, deus dos deuses, que transformasse seu amado em um ser imortal como ela. Mas a apaixonada Eos se esqueceu de pedir para que ele também não envelhecesse. Tithonus, feito imortal, foi envelhecendo e ficando cada vez mais velho, tão velho que foi definhando, definhando e sem forças nem para se mexer de seu quarto até que Eos, apiedada da sorte que reservara ao seu amado transformou-o numa cigarra.
A lição que fica é que a morte faz parte da vida e não há como escapar dela. Numa das sempre superinteressantes reportagens de minha revista favorita, publicada há 5 anos, a jornalista Maria Fernanda Vomero afirmava que “é um paradoxo: a valorização da vida e a ilusão de eterna beleza e jovialidade trazidas pela vida moderna acabam gerando, por meio do apego a tudo isso, muito mais tristeza e sofrimento pelo fim inevitável da existência do que felicidade pelo mais de vida que proporcionam.”
A matéria tratava sobre a morte e como nós, principalmente os ocidentais, convivemos com o tema transformando-a em tabu desde a infância. Não ensinamos nossos filhos a conviverem com a morte, daí nosso medo da vida. "O medo da morte nos força a viver - a nos relacionarmos, a procriarmos, a criarmos, a construirmos coisas que nos transcendam", afirma na mesma reportagem a socioantropóloga Luce Des Aulniers, responsável pela disciplina de Estudos Sobre a Morte, da Universidade de Quebec, em Montreal, Canadá.
Mais do que nunca começo a me convencer que a única forma de se eternizar é através de nossos feitos ou de nossa prole. O filho que gera o neto, que gera o bisneto e todas as gerações que virão. Eu por exemplo, posso ser, talvez, a concepção dos sonhos de meu bisavô grego que fugiu do lado turco no território disputado por gregos e otomanos para não perder – literalmente – a cabeça numa espada durante a guerra entre os dois povos no início do século XIX e se eternizar (nem ele sabia) em solo amazônico!
A plenitude do meu ser começou com Helena e se espalhou pelos outros filhos que gerei (Thiago e Georgios) e até a que criei (Carla). Todos meus pequeNinos destinos no futuro. Daí o título acima que me leva a pensar na plenitude do ser como conseqüência da plena juventude do eterno renascer.
Agora é pensar nas fraldas, nos carrinhos, nos carinhos, na mamadeira e nas brincadeiras com o primeiro neto. De muitos que certamente virão...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Peripatos, que circula logo hoje no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.