terça-feira, 19 de junho de 2007

Reminiscências de um maluco beleza (*)

Belém – Curtindo um pouco mais minhas férias não podia deixar de dar uma volta em Belém, onde um dia nasci há quase 44 anos (faltam vinte e poucos dias para aquela data...). E daqui faço um longo Perípatos ao passado...
Há duas semanas fui entrevistado na TV Santarém e um dos entrevistadores lançou uma pergunta na tentativa de esclarecer meu "lado polêmico" do início de carreira há 23 anos na Rádio Rural e minha vinculação com o PT, para fazer um parâmetro ao, digamos assim, "processo de despolemização" pelo qual eu haveria passado nos últimos anos.
Para isso, perguntou se eu ouvia muito Raul Seixas naquela época de PT e se o espírito "maluco beleza" do grande roqueiro baiano estaria no meu "DNA polêmico". Meio atônito com o estereótipo lancei outro estereótipo: "Não, minha influência era Chico Buarque". Disse ainda que Raul Seixas fez parte de outro período de minha vida e que Raul era rebeldia pura, mas estereotipada como aventura doidivanas, o que certamente eu não considerava naquele período dos anos 1980.Nesse momento teclo de um cybercafé no térreo do, ainda, imponente edifício Manoel Pinto da Silva onde morei dos dois aos quatorze anos. E aí não poderia deixar de me embalar em lembranças de minha infância/adolescência vividas neste prédio e na vizinha praça da República e seu túnel de mangueiras (já castigadas pelo tempo). E se não estou enganado, aqui mesmo onde estou existia uma loja de discos onde comprei a primeira "bolachinha" de minha coleção de mais de 300 LPs (Long-Plays) e compactos de vinil, com a suada mesadinha que recebia à época. E adivinhem quem foi o meu primeiro contemplado: ele mesmo, Raulzito!
As poucas famílias de migrantes gregos que se estabeleceram em Belém, formaram uma comunidade que morava em apartamentos neste edifício. Nossa família era a que morava no topo da grande pirâmide (apesar de na realidade econômica estar mais para base...), no 24º andar. As tradições gregas não permitiam que nos misturássemos com outros e só as famílias que tinham brasileiros formando um casal com grego(a), é que possibilitavam uma maior abertura para a cultura brazuca.Nessa época meus ouvidos ouviam muito mais música grega (até hoje sei algumas de cor). Mesmo assim eu procurava algumas referências musicais brasileiras, mas naquela idade o máximo que cheguei a gostar foi de músicas da 1ª fase romântica de Roberto Carlos (sim, um dia gostei de ouvir o Rei!) ou de Antonio Marcos, Márcio Greyck e outros cantores que seriam classificados de "brega romântico" ou "brega chique".
Em '73, meu pai era o único grego solteiro até então, mas já tendo uns três filhos com brasileiras (!). Finalmente decidiu regularizar sua situação e casou-se com uma das mães de seus filhos (não foi a minha). Foi quando conheci minha irmã que morava em Santarém com sua mãe, esta que passaria a me criar à partir daquela data. A primeira medida de minha madrasta foi abrir a porta da rua e me dar mais liberdade, inclusive para comprar um disco com meu próprio dinheiro! Sacrilégio para os costumes gregos!Mas porque escolhi logo o Raulzito? Me lembro que nessa época existia um programa de televisão na extinta TV Tupi, do famoso e polêmico apresentador Flávio Cavalcanti que tem sido tema de mestrados em universidades sobre sua importância na história da televisão ou por sua ligação com o regime militar. O fato é que nunca esqueço quando ele tocava uma música nova e se não gostava quebrava o disco no palco e dizia que aquilo era uma droga!
Foi o que ele fez com o disco KRIG-HA, BANDOLO!, de Raul Seixas, após executar a música Ouro de Tolo, a famosa letra quilométrica com o desabafo claustrofóbico de um cara de classe média, que Raul interpretava. Fiquei encucado com aquilo e me solidarizei com o Raulzito. Passei a prestar atenção em suas músicas, pois era a primeira vez que uma letra não-romântica (ou melhor, não-piégas) me sensibilizava. Eu não entendia bem o que ele dizia, mas algo me tocava em suas letras.Até que um dia ouvi Gitá: foi amor à primeira escuta!
Lá fui eu quebrar meu porquinho de barro e juntar as moedinhas para fazer meu primeiro investimento musical. Estava tão entusiasmado que nem esperei o velho e lento elevador com capacidade para 10 pessoas chegar. Saí correndo pelas escadarias 24 andares abaixo (eram mais de 500 degraus), treinando o esporte que os garotos mais gostavam de praticar no prédio: o pula-escada. Consistia em conseguir pular o maior número de degraus para encurtar a descida. Eu era recordista e conseguia pular dez degraus por vez, sem me esborrachar no chão! Bons tempos em que eu tinha corpo de sílfide e não de rolha de poço...
Chego esbaforido na lojinha, mão cheia de moedas (centavos de cruzeiros, não lembro quantos) e peço o disco do Raul, um compacto simples em vinil com apenas duas faixas: Gitá, de um lado e Não pare na pista, do outro. Subo de volta (desta feita pelo elevador) e o coração palpita: havia acabado de cometer a maior transgressão de minha vida! Talvez meu pai não gostasse e eu tomasse outra surra como da vez que desmontei a velha TV Zenith, para "consertá-la" e até hoje não entendo porque sobraram tantas válvulas...
Cheguei em casa fui para o quarto, peguei a pequena vitrolinha Philips e conversei com ela: "Amiguinha, você vai passear em um mundo novo... chega de Rebétiko!" (uma espécie de blues grego, a música que eu mais ouvia época).
A agulha começou a deslizar suavemente nos sulcos do pequeno compacto. A vitrolinha parecia aprovar o disco e o som saía baixinho pra ninguém me flagrar, mas foi sendo absorvido por meus ouvidos colados à única caixa de som mono. Os versos de Raul me inebriavam:
"Às vezes você me pergunta, porque é que eu sou tão calado/ não falo de amor quase nada, nem vivo sorrindo ao teu lado", o menino tímido que havia em mim, se refletia na canção.
"Você pensa mim toda hora/ me come, me cospe, me deixa/ talvez você não entenda, mas hoje eu vou lhe mostrar!", um tom de rebeldia querendo explodir em meu coraçãozinho de pré-adolescente de 11 anos...
"EU SOU A LUZ DAS ESTRÊLAS! EU SOU A COR DO LUAR/EU SOU AS COISAS DA VIDA/ EU SOU O MEDO DE AMAR!" (Quer ouvir, clique AQUI), Raul me invadia por completo e eu nunca mais seria o mesmo... Com Gitá, precocemente, eu dava um primeiro grito de liberdade que depois meio que se calou e só renasceu em Santarém ao som de Chico Buarque, enquanto eu andava em periferias e acreditava na luz de outras estrelas que deveriam mudar o meu mundo!Hoje a única estrela que ainda mora no meu coração é a do Botafogo! Solitariamente, como naquele dia em que descobri Raul...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós encarte regional do Diário do Pará.
P.S. Hoje é aniversário do Chico Buarque, 63 anos. Luz ao meu ídolo!

4 comentários:

Anônimo disse...

Oi amigo,
Adorei sua crônica. Tinha que ser sua...
Um grande beijo.

Cléia Galúcio, de Itaituba por e-mail

Juvencio de Arruda disse...

Eu também.
Estou te esperando prá viagem...eheh.
Abs

Anônimo disse...

Muito bom o artigo.
Interessante só agora saber como começou essa ligação com o Raulzito, mas na minha mente ainda estão vivas e reluzentes as lembranças de quando ainda era criança e ouvia tanto Raul quanto Chico embalar as converas do meu padrinho e minha mãe, as idas a praia, sua camisa colorida, os passeios na praça o cheiro de pipoca...
Os comentarios do meu padrinho a respeito da encenação de Geni e o Zepelin, seu cuidado com um grande livro branco de capa dura que falava a respeito do Chico, que eu nunca cheguei a ler,uma antiga fita k-7 que reunia uma porção de musicas, inclusive Gitá, que eu adorava, faz parte da minha trilha sonora...
Obrigada por me fazer lembrar de coisas, que com o passar do tempo são arquivadas, mas não são destruidas, e um belo dia se vai ao sotão e abre-se e é quase como viver as situações novamente, como o tempo dos gregos, eterno.
Valeusssss

Fernanda Gabriela, por e-mail

Jota Ninos disse...

Cléia, Juva e Gabriela, obrigado pelos comentários. Reviver Raulzito traz-nos boas recordações de um tempo em que sonhar era permitido...