terça-feira, 6 de março de 2007

Um manifesto virtual em busca de uma reação real – parte II (*)

Ausente do espaço por conta de outros afazeres e pelo feriado de carnaval, dou continuidade à reflexão iniciada mês passado neste espaço sobre o manifesto virtual do jornalista santareno Manuel Dutra pela qualidade de vida em Santarém e que circula na internet. O manifesto toca em pelo menos dois problemas cruciais no que se refere à qualidade de vida em Santarém nos últimos anos: a necessidade de arborização da cidade e o fim da calamidade pública em que se transformou o trânsito, principalmente por causa da tragédia pública dos mutilados em acidentes de moto.
Como disse naquela ocasião, “coloco o espaço de minha coluna aqui no Diário do Tapajós, para trazer para o mundo ‘um pouco mais real’ da impressão em papel, onde pelo menos as palavras são ‘palpáveis’... E quem sabe conseguir outros adeptos para algumas das idéias e informações que circulam naquele blog”.
No artigo anterior dediquei maior parte das linhas ao tema do trânsito, mostrando o que se debateu até então. Hoje quero resgatar a questão da arborização e outros temas que fluíram até agora. Até porque, este tema pode ter uma maior participação do cidadão, independentemente das ações do Poder Público. Vale ressaltar que uma conquista neste item está prestes a se consolidar após o anúncio pela prefeitura municipal sobre a criação do Horto Municipal na área da Aeronáutica que foi repassada o município, nos bairros do Aeroporto Velho/Jardim Santarém. É bem verdade que a idéia sobre a utilização daquele local para um espaço desse tipo, era uma das condicionantes da Aeronáutica na negociação com a prefeitura desde outras gestões. Mas o fato da prefeita bancar a idéia reforça que as ações sugeridas no manifesto são urgentes e necessárias O alerta global contra o aquecimento, como se viu recentemente, já ecoa na cabeça dura de George Bush e faz parte dos debates dos poderosos de Davos (Suíça): eles estão com medo que aquecimento global atinja o traseiro de todos!
Voltando ao manifesto virtual de Dutra, tem sido interessante a contribuição do jovem designer industrial santareno, Aldrwin Hamad (foto), ao apresentar uma série de sugestões simples, demonstrando que existem cabeças arejadas pensando a cidade de forma mais prática, sem discursos proselitistas e demagógicos. Hamad enfatiza inicialmente, que seria necessário começar pela implantação de um sistema de drenagem e pavimentação das ruas em áreas mais elevadas da cidade, “evitando o acúmulo de detritos e areia nos pavimentos existentes das áreas de confluência dos fluxos pluviais”. Diz ainda que a utilização de pavimentação de concreto ao invés de pavimento flexível com asfalto, garante maior durabilidade, segurança e qualidade, além de contribuir em muito para redução do aquecimento. “Caso seja usado pavimento intertravado de concreto teremos ainda o benefício da redução da camada impermeabilizante que o asfalto cria”, finaliza ele.
Mas o ponto crucial das propostas do engenheiro, e que atingem o âmago das preocupações de Dutra, é a afirmação de que “os projetos de urbanização das vias públicas DEVEM conter como norma a arborização contínua com espécies adequadas e específicas para não interferir na queda de frutos nos veículos nem no desprendimento de muitas folhas para que venham obstruir as redes de escoamento pluvial”. Para ele, um estudo de especialistas poderia indicar que espécies seriam, contanto que em ruas mais estreitas seja obrigatório o plantio de árvores em áreas de calçadas entre o meio fio e o início da calçada de pedestres. [Aqui um parêntesis: eu acrescentaria à esta proposta de “árvores nas calçadas” a necessidade de, inicialmente termos calçadas! Quando comecei este Perípatos, a principal motivação era exatamente a falta de um “perípatos” como o da velha Atenas, para que se possa passear, filosofar e curtir a beleza da cidade. O que se tem hoje é apenas uma extensão das casas nas calçadas. Não há passeios públicos e o pedestre se vê obrigado e dividir o espaço do meio-fio com os tresloucados carros de nossa urbis. Fecha parêntesis.]
Hamad propõe ainda que em ruas mais largas e com canteiro central, devem haver, obrigatoriamente, “fileiras de árvores para sombra e não meramente decorativas como palmeiras imperiais ou açaí por exemplo, apesar de serem árvores lindas, não teriam a função de proporcionar um corredor de sombra”. Para ele, as espécies arbóreas seriam produzidas pelo próprio município (agora com o horto municipal). Ele chega a sugerir que tal plantio poderia utilizar “a mão-de-obra dos detentos da penitenciária agrícola” ou ainda dos ‘próprios alunos das escolas públicas”, como forma de criar um senso de responsabilidade a estes dois grupos.
Ele sugere também que se estude a viabilidade de uma medida que exija dos donos de terrenos baldios o plantio de árvores maiores, sem que fira o direito de propriedade. Talvez com um programa de incentivo fiscal na base de descontos no IPTU pra cada árvore plantada ou área sombreada, ou coisa parecida. Nesse ponto, eu teria uma discordância com o engenheiro. Acho que os terrenos baldios deveriam ter um tratamento mais incisivo, pois tem muita gente acumulando área apenas para fim de especulação e acabam criando um grande problema social, que se agrava quando os sem-teto resolvem invadir estas áreas. A cidade vive hoje o drama de milhares de famílias que poderiam ser despejadas da área do Maicá, por causa de uma suposta herança ou da pretensão de uma empresa em ocupar parte da área com um terminal graneleiro. Tudo isso começou de terrenos baldios e falta de uma política de gestão urbana. Houve uma época que um vereador (se não me engano, João Otaviano Mattos Neto) teria apresentado ou sugerido a apresentação de um projeto que obrigaria os donos de terrenos baldios a severas multas por não dar uma destinação aos seus terrenos.
As idéias de Hamad e de outros que assinaram o Manifesto de Dutra vão mais além do espaço que tenho aqui. Se você ainda não o leu o manifesto e nem o assinou, vale a pena entrar lá no blog do Jeso e acessar o link existente, para conhecer esta e outras propostas. E saiba também que Hamad e outros jovens preocupados com estas questões, já estão se reunindo para transformar em prática as preocupações elencadas no Manifesto de Dutra. Você pode contribuir também, fazendo a sua parte, mesmo que não queira participar diretamente do movimento. Basta plantar alguma árvore no seu quintal, na sua rua ou em qualquer lugar que tenha livre acesso.
Encerro minha contribuição neste espaço, e na próxima semana volto às crônicas humoradas e/ou filosóficas que caracterizam o Perípatos.
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 27.02.2007, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Um manifesto virtual em busca de uma reação real

Samuel Lima (foto ao lado), professor e jornalista santareno radicado em Santa Catarina, esteve recentemente em Santarém e participou de um encontro com jornalistas santarenos, quando afirmou que “estamos perdendo a capacidade de nos indignar”, diante da pasmaceira que o século XXI nos impõe, através da janela da grande mídia. Mas, vez por outra, somos sacudidos por alguém que, em nome de princípios que parecem ter se perdido num mundo longínquo um pouco ali, além da esquina, despertam-nos de uma iminente e perigosa letargia que pode corroborar com as palavras de Samuel.
No final de dezembro, outro jornalista que também saiu daqui e ajudou a escrever parte da história da comunicação dos últimos 30 anos, resolveu levantar essa poeira no mundo virtual, mas à espera de uma reação no mundo real. Falo do manifesto virtual que circula na internet, mais precisamente no blog do jornalista Jeso Carneiro, escrito por Manuel Dutra (foto abaixo), e que toca em pelo menos dois problemas cruciais no que se refere à qualidade de vida em Santarém nos últimos anos: a necessidade de arborização da cidade e o fim da calamidade pública em que se transformou o trânsito.
Depois de elencar sua ótica dos problemas, o jornalista sugere alguns pontos que deveriam ser assumidos pelos leitores daquele espaço cibernético, para se traduzirem em ações no mundo real. Diz inicialmente que cada comentário ao seu manifesto, deve ser entendido como uma inscrição automática “neste movimento que não pretende ser uma campanha (campanha é palavra desgastada, coisa que tem começo, meio e fim)”. Para Dutra, um movimento deve ser algo permanente, “uma imensa usina de idéias, sugestões e que, no médio prazo, produza efeitos práticos junto ao poder público e às forças organizadas da sociedade”.
O jornalista pede ainda que, ao participar do manifesto, qualquer internauta envie “idéias, sugestões, pensamento novo capaz de gerar ações novas e inovadoras” como forma de ser “um motivador de atitudes positivas das pessoas, individual e coletivamente”. E finaliza conclamando àqueles que abraçarem a idéia, de irem além da apresentação de sugestões, e tentarem se “reunir presencialmente para discussões e mesmo para a formação de um grupo organizado de luta pela qualidade de vida em Santarém”.
A nota de Dutra já tem mais de 20 comentários no próprio blog, mas já foi além disso: um grupo de pelo menos 20 pessoas de diferentes níveis e profissões, resolveu há duas semanas realizar um primeiro encontro para debater como as propostas de Dutra poderiam ser transformadas em ações concretas. Apesar de heterogeneidade do grupo que se reuniu em torno de uma mesa de bar, a conversa mostrou que existe gente de várias idades e pensamentos políticos com vontade de se indignar com o que se vê na cidade.
O segundo passo será organizar essa indignação e transformá-la em ação. Eu estive nesse primeiro encontro e aguardo ansioso pela próxima reunião. Mas não com a ânsia de apenas reunir e ficar num eterno blá-blá-blá, que muita gente têm feito nos últimos anos. Desse tipo de conversa estou escaldado. Há dois anos, eu, o professor Anselmo Colares (foto abaixo) e o próprio Jeso Carneiro, falávamos de reativar grupos de debates que existiram na década de 1980 em torno dos problemas da cidade. Chegamos a vislumbrar a criação de um fórum, mas acabamos nem dando um passo sequer nessa direção. Até que criamos espaços virtuais na internet, como os blogs, e esse fórum começou a ganhar corpo. Cibernético, por enquanto.
Como forma de contribuir para o debate, coloco o espaço de minha coluna aqui no Diário do Tapajós, para trazer para o mundo “um pouco mais real” da impressão em papel, onde pelo menos as palavras são “palpáveis”... E quem sabe conseguir outros adeptos para algumas das idéias e informações que circulam naquele blog, como por exemplo, a contribuição do médico Erick Jennings que afirmou “estamos formando uma legião de mutilados” ao comentar números que dispõe sobre acidentes de trânsito no Hospital Municipal. Segundo ele, só em 2006, foram registrados 3.142 acidentes de trânsito, dos quais 1.870 (60%) foram por moto. Ele diz ainda que pelo menos 390 pacientes de toda a região foram operados para correção de lesões graves, devido a esses acidentes com motos, sendo que desse total, segundo sua estimativa 234 pessoas (40%) seriam de Santarém! Ele constata ainda que “a taxa de morbidade para algumas seqüelas físicas, por pelo menos 1 ano, ultrapassa os 90%”, ou seja, “a cada 36 horas temos mais um mutilado na cidade”.
Eu mesmo, ao comentar o manifesto de Dutra, me referi a uma conversa que tive em dezembro com a prefeita Maria do Carmo (com Lula na foto ao lado), quando de sua visita à TV Tapajós onde trabalho na função de Assessor Corporativo de Comunicação da empresa, e toquei no tema “trânsito”, tendo como testemunha a empresária Vânia Maia. Sobre o fenômeno dos mototáxis, disse que surgiu em decorrência de dois fatores sociais extremamente graves: a falta de empregos para a juventude e a demanda reprimida do transporte coletivo urbano que não atende satisfatoriamente o cidadão, pois qualquer um sabe que esperar um ônibus após os horários do rush (início e final da manhã e da tarde), quando as empresas deliberadamente retiram das linhas grande parte de sua frota, é um martírio!
O desrespeito das empresas com o usuário é grande e desproporcional com todas as benesses que têm recebido do Poder Público em termos de aumento de passagem. A prefeita nos relatou que já havia naquele momento uma movimentação dos empresários por aumento de tarifa(!), mas garantiu que nem receberia em gabinete aqueles que ousarem falar disso, afinal eles ainda não cumpriram (como sempre fazem) com sua parte no último acordo com a prefeitura!
Acredito que Santarém necessita de um planejamento do trânsito e do serviço de transporte coletivo, antes que a balbúrdia que hoje se verifica nas ruas chegue ao nível do que ocorre em Belém, como já escrevi neste espaço há algum tempo.
Defendo que se pense na criação de mini-terminais de interligação rodoviária em alguns bairros-pólo, o que obrigaria as linhas de ônibus a circularem no trecho menor, com mais rapidez, e evitaria que todas as linhas convergissem para as ruas centrais, transformando-as em gargalos. Isso possibilitaria também, que um cidadão, por exemplo, pudesse sair do Amparo para a Jaderlândia, sem precisar pegar dois ônibus ou passar pelo Centro, já que o ticket comprado no terminal possibilitaria essa viagem de um extremo ao outro da cidade pelo mesmo valor. A prefeita disse que já teria tentado realizar algo nesse sentido, mas encontrou empecilhos para a liberação de verbas junto ao Governo Federal, sob a alegação de que “Santarém ainda não precisa de um sistema desse tipo”. Pode até ser verdade essa sensação do Governo Federal, mas não se pode pensar em algo para o futuro, quando o futuro já está batendo à nossa porta! Como explicar que o Governo Federal liberou verbas para um viaduto na Cuiabá com a Fernando Guilhon, apostando no caos do trânsito quando a BR-163 estiver asfaltada? Creio que o conceito é o mesmo.
Vânia Maia (foto abaixo) citou, nessa mesma conversa, a experiência que viu de perto em uma cidade do interior de São Paulo, onde microônibus atendem às populações dos bairros mais distantes enquanto os ônibus comuns fazem rotas em avenidas principais, desafogando estas vias. Sugeriu que a prefeita busque exemplos em outras cidades que possam servir de modelo às nossas necessidade. Se essa questão dos ônibus for resolvida, o mototáxi deixa de ser um problema e ai será preciso apenas um controle nas dezenas de milhares de motos que tomaram contas de nossas ruas e que ainda hoje, apesar da clandestinidade, mantém pontos de espera no centro sem que nada seja feito. E a população só deixará de utilizar esse serviço, quando o transporte coletivo for mais cidadão.
Na próxima semana, continuo apresentando as reflexões de outras pessoas que assinaram o manifesto de Dutra. Se você ainda não o leu e nem o assinou, não perca a oportunidade de se indignar.
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada na edição de 30.01.2007, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

Previsões imprevisíveis para 2007 (noves fora...) (*)

Volto a fazer meu Perípatos semanal depois de um breve recesso de fim-de-ano e de todos os excessos permitidos entre o Natal e o Reveillon.
Inicio o ano reflexivo, deixando de lado filosofias e passando para o campo do ocultismo(!). Sim, caro leitor, nestes dias de descanso reli antigos jornais de minha coleção pessoal e encontrei experiências de minhas atividades com esse mundo além da imaginação, numa tentativa de seguir a tradição desta época em que videntes e cartomantes tentam adivinhar o que vem pela frente.
Na década de 1980 cheguei a criar uma ciência oculta chamada de “Ninismo” que era baseada na “relatividade entre as constelações de Câncer e Sanitário (pra ver que merda dá...)” e fiz algumas projeções para os jornais que escrevia à época (“O Tapajós” e “A Gazeta do Tapajós”). Inspirado nisso, me concentrei e sentado em meu trono de inspiração cósmica, espremi e saíram algumas imagens de como será este ano de 2007 que já começou, principalmente no mundo da política, do esporte e do espetáculo... Pena que do ponto de vista da “numerologia ninista”, 2007 noves fora é nada...
Mas vamos a algumas previsões que brotaram desta minha mente perversa, para cada trimestre do ano:

JANEIRO a MARÇO

##Ana Júlia assume o Governo do Pará e prioriza ações em favor do Oeste do Pará, definindo investimento de bilhões de reais como nunca nem um governador fez. Os investimentos começam pela Cosanpa (Continuamos Sem Água Nessa Pérola Abandonada);
##Acabam os atrasos nos aeroportos. Empresas aéreas deixam de fazer overbooking e indenizam passageiros (isso não impede que eu perca meu medo de viajar de avião...);
##O carnaval de Alter-do-Chão passa a ser um evento mais familiar depois que a Câmara Municipal aprova a mudança dos nomes indecentes dos blocos. O “Há Jacu no pau” passa a se chamar “Existe uma ave cracídea num pedaço de madeira!”, o “Não dou meu Kuati” será “Nego-me a doar o mamífero procionídeo que me pertence”, enquanto o “Arranca Baço” passa a ser denominado “Tira o órgão linfóide situado no hipocôndrio esquerdo!” e o “Xeira o Periquito” ganha o nome mais adequado para os ouvidos sensíveis dos vereadores: “Aplica teu olfato numa ave psitacídea pequena”. Os vereadores Marcela Tolentino, Valdir Mathias Jr. e Reginaldo Campos sairão como destaques dos blocos;
##Everaldo Martins deixa de centralizar as ações do governo de Maria do Carmo, no trimestre, dando total autonomia ao secretariado;

ABRIL a JUNHO

##Depois do sucesso da Casa do Papai Noel, Maria do Carmo inaugura a Casa da Páscoa e a Casa do Forró, para o deleite de todos;
##Lula anuncia salário mínimo de 1.000 dólares no Dia do Trabalhador;
##Lira Maia em Brasília e Alexandre Von em Belém, fazem pronunciamentos em favor de Maria do Carmo e Ana Júlia e anunciam suas filiações ao PT. Jader Barbalho, por outro lado, entra no PSOL;
##São Raimundo, depois da desclassificação no Parazão, contrata Romário para que ele possa finalmente marcar seu milésimo gol no campeonato da Vera Paz;
Michael Jackson faz show no aniversário de Santarém e dá voltas no Trenzinho na Orla.
##Everaldo Martins deixa de centralizar as ações do governo de Maria do Carmo, no trimestre, dando total autonomia ao secretariado;

JULHO a SETEMBRO

## O Brasil é campeão no quadro de medalhas do Pan 2007 e nenhum tiro é ouvido nos morros;
##Antonio Rocha anuncia sua candidatura à prefeitura do... Lago Grande (quando o município for criado);
##Paissandu e Remo tomam de goleada da Tuna, acabam sendo rebaixados e vão jogar o campeonato da Vera Paz com o São Raimundo, enquanto a Tuna torna-se campeã invicta do Parazão;
##Câmara Federal vota o plebiscito pelo Estado do Tapajós;
##Everaldo Martins deixa de centralizar as ações do governo de Maria do Carmo, no trimestre, dando total autonomia ao secretariado;

OUTUBRO a DEZEMBRO

##Saddam Hussein ressurge das cinzas, invade os Estados Unidos e manda enforcar George Bush em pleno Central Park (o enforcamento é transmitido pela TV Al Jazeera);
##Botafogo é campeão brasileiro vencendo o Sport Recife na final. Na fórmula1, Rubinho Barrichello torna-se campeão enquanto Galvão se esgoela (Rubiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinho! Do Brasil!);
##Padre Edilberto Sena assume a direção da Cargill e expulsa o Greenpeace de Santarém;
##Almir Gabriel anuncia sua candidatura à presidência do Cazaquistão;
##Everaldo Martins deixa de centralizar as ações do governo de Maria do Carmo, no trimestre, dando total autonomia ao secretariado.

Depois de tanta energia desperdiçada para chegar a tão importantes informações, não me responsabilizo pelas conseqüências destas informações. Mas a previsão mais certa é que, este ano perderei peso, pelo menos uns 10... gramas...

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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada no Diário do Tapajós, edição de 09/01/2007, encarte regional do jornal Diário do Pará.

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

A luta (inglória) contra o regime da dieta (*)

Tudo começou quando vi aquela teta de mamãe. Sorvi o leite como se fora o néctar dos deuses. Uma teta não me bastava. Secava as duas diariamente e muito cedo ela teve que me desmamar para não morrer de inanição! Caiu em si de que parira um pequeno glutão.
Vejo minhas fotos de menino e não acredito nessa história que me contam, afinal sempre pareci mais magérrimo do que gostaria de ser. É bem verdade que já trazia uma protuberância abdominal que fazia de meu perfil uma espécie de “chapéu em pé, com a aba enterrada no chão”. O famoso “menino do buchão”. Mas à medida que crescia, resolvi distribuir minhas gorduras horizontal e verticalmente, sempre à base de alimentação da “melhor” qualidade (hot-dogs, x-qualquer coisa, pizzas, doces, macarronadas, pão, pizzas, x-qualquertudo, chocolate, pizzas, pizzas e pizzas).
Enfim, todo tipo de quitute, acepipe, guloseima que surgia era devidamente devorado. O crescimento horizontal do meu ser não acompanhou o crescimento vertical. Hoje tenho o que se chama de uma quase obesidade mórbida. Nos exames com os médicos, sou logo detonado na entrada: “Quer morrer?”, pergunta o médico quando vê que meus triglicerídios estão mais altos que as ações da Petrobrás na bolsa.
Ainda tenho um coração que pulsa bem, mas tudo indica que os caminhos a ele vão ficando mais entupidos. Sei que não posso tomar refrigerantes. Mas antes de desistir deles, sento numa lanchonete e penso sobre o assunto sorvendo uma garrafa de 600 e um bom sanduba...
Tenho dito por aí que minha atitude não é tão irresponsável e sim, ecológica! Afinal, se um dia vou morrer, porque não alimentar minhas carnes e oferecer mais húmus à terra que me acolherá? Quem sabe um cientista, no futuro, acabe descobrindo uma nova fruta suculenta nascida de um pomar próximo de minha cova, com proteínas como nunca se viu? Reivindico desde já que se chame, cientificamente, de ninus suculentus, ou com o nome popular de Ninosola (tipo acerola, carambola, graviola...)!
Mas deixando de lado estas divagações narcísicas, que tentam esconder um problema de fato, escrevo na verdade este artigo porque o final do ano está aí, e como sempre, as tentações alimentares se multiplicam. Haja panetones, perus, chesters, lasanhas e muito refrigerante! E como sempre aquela promessa que nunca se cumpre: no primeiro dia do ano, começo uma rígida dieta! (Hahahaha!!) Essa é a maior mentira do mundo.
Tenho consciência (pesada) de que nada faço para diminuir meu apetite exacerbado. E quanto mais tenso fico, mais glutão me torno. Não que eu queira chegar a ser esbelto como uma sílfide. Mas perder uns quilinhos proporcionaria menos cobranças ou olhares indiscretos e preconceituosos dos ditadores da dieta. As duas últimas gerações seguiram o padrão de corpos esbeltos e sarados (muito embora, pouco desprovidos de cérebros...). Como comportar mais de 100 quilos em menos de 1,70 de altura? Entretanto, como abrir mão daquela lasanha ou do pão nosso de cada dia (com manteiga, queijo e presunto)?
O grande problema é quando se vai renovar o armário. Recentemente, durante uma viagem à Belém, resolvi investir comprando novas roupas. Entro na loja, e um sorridente vendedor me mostra os atalhos entre “araras” cheias de calças e camisas. Escolho aquele que eu gosto e aí vem a fatídica pergunta: “Qual o tamanho?” Falo baixinho, pra ninguém ouvir, mas o vendedor não entende. “Qual o tamanho, senhor?”. Repito envergonhado, já com outros clientes ao meu redor, esticando as orelhas para ouvir. O vendedor não compreende e suplica desesperado: “Fale mais alto, por favor, seu tamanho!”. Irritado e possesso dou um grito “EXTRAAAAA LAAAARGOOOO!” Momentos de tensão. O garotão ao lado, atônito, deixa cair aquela bermuda de surfista magricela, um senhor mais a frente pára de experimentar a calça de malha justa. Viro a cabeça e sinto como se estivesse num paredão. Todos tentam disfarçar uma gargalhada segurando a boca com a mão. O vendedor arrasado logo me despreza, apontando para a loja em frente onde se lê: “Temos tamanhos gigantes”.
Me recuso a comprar nestas lojas. Não quero acreditar que esteja tão balofo. Saio indignado e ao dobrar na esquina ouço um cacarejar explosivo de clientes ensandecidos. Naquele momento penso em criar um grupo terrorista para acabar com a ditadura da magreza. Seria uma ramificação da “Al Qaeda” (quem sabe a “Al Caída”, como minha barriga...). E eu seria a encarnação mais gorda do Osama bin Laden (ou melhor, Osama bem Larguem...).
Porque tanta discriminação aos gordos? Num ônibus, uma borboleta discriminatória que quando não prende a barriga, prende os glúteos. Sem contar que os assentos dos ônibus, tal qual dos aviões, é feito só para corpos de Gisele Bündchen e não para um “bunda cheia”...
A minha maior alegria é quando encontro algumas figuras conhecidas com uma pança dez vezes maior que a minha. Aí sinto que ainda sou um homem magro. Mas me solidarizo com os companheiros. Precisamos nos unir e criar o PORCO – Partido dos Obesos Radicais Contra a Opressão! Abaixo o regime e viva o gordo, como já dizia nosso MAIOR representante, JÔ Soares!
Não que eu queira continuar engordando, mas não precisa haver tanta discriminação com a nossa raça... Prometo que tentarei não engordar mais. Mas só depois das festas do fim de ano... Afinal, 2007 tem tudo pra ser um ano magérrimo, como o próprio número sete o é. Já em 2008, tudo pode ser bem mais redondo como os zeros e oito...
Feliz panetone e um próspero chester pra todo mundo!
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós, edição regional do jornal Diário do Pará.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Cuidado, vem aí teu inimigo oculto!

(Desabafos natalinos)
“Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...”
Fim de ano é sempre uma festa! Parece que as agruras de um ano inteiro se dissipam, e de repente descobrimos que somos filhos de um mesmo pai e que ainda resta uma esperança para o mundo! De repente, o tal “espírito natalino” baixa em nós e deixamos de lado o “espírito de porco” que incorporamos por mais de 300 dias... “Feliz Natal e Próspero Ano Novo!” Mensagens se escancaram sem nada de subliminar, pois o que importa é a esperança. Até o último dia do ano, lutaremos para provar que no ano que vem tudo será diferente. Não importa que depois do Reveillon tudo volte ao normal...
“Esse ano quero paz no meu coração, quem quiser ter um amigo, que me dê a mão...”
As festas de fim de ano já começam pelas luzes na cidade. Os postes iluminados, as fachadas iluminadas, as árvores iluminadas. Fim de ano é a própria era do iluminismo! Tudo indica que, no final das contas, sempre há uma luz no fim do túnel (mesmo que a conta de luz fique mais cara). Não importa se seu time foi rebaixado no campeonato. Ano que vem ele será campeão da quinta divisão! Não importa se seu candidato não foi eleito. Os outros se incumbirão de cumprir as promessas que ficaram no meio do caminho. Não importa se seu salário não aumentou. Ano que vem ele aumenta ( o trabalho, também). Os antigos gregos já diziam: o que há de ser, será... Em meio a tantas esperanças, porque guardar rancor e escrever um artigo tão irônico?... Vamos, é Natal! É alegria! Pás, aos homens de boa vontade, para tirar esse entulho do nosso caminho!
“Quero ver você não chorar, não olhar pra trás, nem se arrepender do que faz...”
E como esquecer das confraternizações? Ontem, com os colegas de trabalho. Troca de presentes. Amigo oculto, inimigo invisível, presente secreto. “Meu amigo é...” Abraços, sorrisos, revelações. “Ó que cueca bonita, obrigado!”
Hoje é a confraternização do grupo de amigos. Churrasco, cerveja, amigo secreto, inimigo oculto, presente invisível. “Minha amiga é...” Beijinhos, olhares, frustrações. “Ó, esse era o lenço que faltava na minha coleção!”.
Amanhã, confraternização com a família. Irmã secreta, primo invisível, tia inimiga, avô oculto, presentes, presentes. “O meu amigo é...” Abraços efusivos no primo que eu detesto. A tia gorda, que não vejo há anos, depois de me dar aquele mesmo par de meias do ano passado, ainda sussurra em meu ouvido: “Quando vai casar, garotão?” Sorriso amarelo. A vontade é de mostrar a aliança no dedo e a foto dos seis filhos na carteira, mas engulo mais uma empadinha e deixo pra lá.
“Oi, lembra de mim?” Puxa, como não lembrar da prima Vera! Ela agora está um Verão.... Mas logo um “armário” se aproxima de mim. “Esse é meu marido”, diz ela candidamente. Sinto o ar fugir dos pulmões com o abraço do monstro. “Aê, primão!” Sobrevivo e engulo mais Cola, pois preciso unir as costelas espatifadas...
“Filho, adivinha o que comprei pra você?”. Faço de conta que não sei que é uma gravata cor de abóbora, igual a tantas que me deu nos últimos oito anos e digo, ternamente, ao vovô: “Um io-iô”! “Maiô?”, pergunta ele. “IO-IÔ!”, grito eu já quase perdendo a paciência com sua surdez. “Seu bobo, não é um maiô! Isso é coisa de mulher! Comprei foi uma gravata para o seu trabalho!”, revela o velhinho rindo com a dentadura saltitante. “Adorei, vô!”, digo falsamente. “NUNCA IMAGINEI QUE GANHARIA ISSO DO SENHOR”, ironizo gritando em seu ouvido. “Não meu neto, não foi no PENHOR, foi aquele empréstimo consignado mesmo!”. Desisto. Escapo do bom velhinho com a gravata na mão prestes a me enforcar...
“Noite feliz, noite feliz”...
Me deparo mais uma vez com a clássica cena da família em torno da mesa, cantando uma daquelas músicas de Natal que todas as lojas usam para vender cuecas, lenços, meias e gravatas para os amigos secretos, ocultos e invisíveis. Lembro que houve época em que me emocionava com tudo isso. Eu era criança e aguardava a noite de Natal com muita ansiedade. Só que o “bom velhinho” nunca me atendeu totalmente. Se pedia uma Ferrari miniatura com controle remoto, ganhava um fusquinha movido à corda. No lugar da motoneta elétrica, um patinete. O Playstation virou uma caixa de Divertirama com 20 jogos diferentes.
Agora vejo este quadro que lembra a Última Ceia onde todo mundo bebe e sorri. Não consigo decifrar o Código de Da Vinci e nem a frustração por presentes que não ganhei. Mas algo me engasga e tenho vontade de vomitar. Será que eu sou o único que não consegue se contagiar com a falsa alegria de todos os anos?
Seja no trabalho, no grupo de amigos, na família, todo mundo segue o mesmo ritual que contagia a civilização ocidental há séculos: reverenciar o nascimento de um menino chamado Jesus e principalmente, idolatrar um velho ridículo vestido de vermelho carregando um saco do tamanho do mundo!
É verdade que não existe personagem mais fascinante de nossa história que esse tal de Jesus, mas infelizmente, acho que continuamos colocando-o na mesma cruz todos os anos. Fágner já dizia nos seus tempos de universitário: “Uma vez por ano no Natal eles compram meus lindos cabelos e pensam que me conhecem, mas só me entristecem”... Nos iludimos que uma simples festa e a troca de presentes (muitos deles comprados nas promoções “dos pegue-pagues do mundo”, como diria o velho Raul Seixas) nos aproximem de um deus que muitos de nós acredita existir...
“Hoje é um novo dia, de um novo tempo(...)”
Depois do Natal, a contagem regressiva por um novo ano. Virão mais 365 dias assistindo aos mesmos noticiários sobre violência e corrupção. Continuarei não falando com o vizinho da casa ao lado. Prometerei perder 30 quilos, mas não deixarei de me empanturrar de carboidratos e outras guloseimas. Serei afável com os clientes da firma, que eu gostaria de pendurar num poste. Acreditarei que a prefeitura tapará o buraco da minha rua. E chegarei ao final do ano pronto para mais uma rodada de amigos secretos/ocultos/invisíveis com os mesmos presentes de sempre... Poderei suspirar: “Eu era infeliz, e como sabia...”
Apesar das amarguras, só me resta desejar a todos um Feliz Ano Velho!...
(P.S.: quem ainda quiser me dar um presente invisível/secreto/oculto, só falta uma cueca azul, um lenço amarelo e uma meia vermelha em minha coleção. A gravata pode ser cor de abóbora mesmo...)
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós, edição regional do jornal Diário do Pará.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

A incrível história do homem-chip (*)

Estou sem celular há quase um mês desde o primeiro assalto à mão armada que sofri. Como não estava em meu planos financeiros ter que comprar um novo celular e tendo outras prioridades, vou adiando esse investimento ad eternum. Essa situação tem me causado um certo constrangimento, afinal o domínio da tecnologia nos dias de hoje, mesmo para os padrões amazônicos, é avassaladora e não estar “conectado” com o mundo através de um mísero chip passa a ser um atestado de incompetência. “Como você pode ficar sem celular?” ou “Ainda não tens internet em casa?”, são algumas das cobranças que recebo diariamente de alguns colegas ao constatarem minha inapetência tecnológica.
Na verdade, eu mesmo sinto a falta do suporte tecnológico em minha vida nas 24 horas do dia, afinal desde que aprendi a lidar com o computador usando o antigo sistema operacional MS-DOS e o editor PC-COM (isso nos idos de 90) nunca mais fui o mesmo. Hoje em dia não percebo o passar das horas à frente de um monitor, seja para escrever um artigo como esse, seja para consultas no trabalho, seja para “flutuar” na internet.
Essa minha paixão tecno-edipiano-platônico-voyeurista me acompanha desde a mais tenra idade quando mantive um “tórrido romance” com Zenith, uma televisão de 21 polegadas que foi minha babá digital nos idos de 1970. Ela praticamente me alfabetizou ao introduzir-me no mundo encantado de programas infantis (na época, mais inteligentes) como Vila Sésamo e a primeira versão do Sítio do Pica-pau Amarelo. Zenith era uma mulata rechonchuda cheia de válvulas. Sei disso porque um dia, aos 10 anos, resolvi “consertá-la” sozinho. Só não sei porque depois que fechei a tampa, muitas válvulas sobraram e ela nunca mais quis funcionar... E nem porque levei uma homérica surra do meu pai depois disso!
Já nos meus primeiros anos de Santarém (a partir de 1978) ocorreu um importante hiato de tecnologia em minha vida. Foi quando aprendi a nadar no rio Tapajós, jogar bola no asfalto e praticar militância nos bairros da periferia. Parecia que existia um mundo além da tela da televisão que eu não conhecia em Belém. Aboli a tecnologia radicalmente. Foi dessa época minha decisão de jogar o velho Seiko-cebolão do braço (aprendi com um velho amigo comunista que “usar relógio é ser escravo das horas”).
Havia me divorciado da televisão, apesar de, de vez em quando, manter uma relação fugidia com a velha telinha. Mas como precisava “aprender um ofício” para trabalhar, fui parar na velha escolinha de datilografia da professora Joana D´arc e comecei a paquerar aquelas máquinas, que ficavam “cheias de dedos” comigo. Não fui um aluno aplicado, e o pior: meu primeiro emprego acabou sendo atrás de um balcão vendendo parafusos e andando de bicicleta para fazer cobranças, o que me levou a não treinar o pouco que havia aprendido. Hoje não passo de um “dedógrafo”.
Quando ingressei no jornalismo como repórter da Rádio Rural, em 1984, minha paixão com a tecnologia se renovava. Voltei a me relacionar com as máquinas, por dever de ofício. Me apaixonei por uma Olivetti Lettera 32, minha companheira diária. Isso, sem contar com todas as parafernálias do estúdio (microfones, gravadores e rádios, todas de marcas estrangeiras), além do inseparável comunicador BTP Motorola para os famosos flashes ao vivo. Voltava a respirar tecnologia!
Mas voltando ao relato inicial, creio que nestes tempos hodiernos (adoro dessa palavra) viver sem tecnologia parece um absurdo. Dia desses, assistindo um documentário no Discovery Channel, fiquei impressionado com o avanço da nanotecnologia e sua importância para o homem do futuro. A matéria mostrava experiências com cápsulas contendo um pequeno chip que, introduzidas no corpo humano por via oral, poderão facilitar uma verdadeira viagem no interior do corpo humano para rastreamento e cura de determinadas doenças, algo como o que já havia visto num antigo filme de ficção científica, “Viagem Fantástica” (de 1966, com Arthur Kennedy e com o remake mais pro lado da comédia, “Viagem Insólita” de 1987, com Dennis Quaid e Meg Ryan), onde um submarino miniaturizado penetrava na corrente sangüínea de um cientista com a missão de alcançar seu cérebro e dissolver um coágulo que ameaçava sua vida!
Fico imaginando que não deve demorar muito para que produções ficcionistas do cinema e da TV se tornem realidade. Quando garoto, era fissurado pelo “Homem de Seis Bilhões de Dólares”, uma série da TV sobre um astronauta que perdia partes de seu corpo numa viagem ao espaço, sendo estas substituídas por mecanismos que o tornaram um quase-andróide. Creio que essa idéia inspirou também, o famoso “Robocop, o policial do futuro” dos anos 1980.
Quem sabe eu poderia ser cobaia de uma experiência como essa? Imaginem a notícia dada por um destes tablóides sensacionalistas:
A incrível história do homem-chip.
Um jornalista depois de assaltado perde seu celular. Dias depois seu computador pifa e, desconectado do mundo não atualiza seu Blog, seu Orkut, seu Flog, nem tampouco lê ou recebe e-mails.! O homem passa a ser ridicularizado por todos, que o apedrejam com celulares quebrados, controles remotos com defeito e máquinas digitais já sem uso (“Joga bytes na Geni”, eles cantam). Humilhado, o homem vive ao relento, dormindo entre monitores queimados e teclados já sem uso. Alimenta-se de mouses e pilhas sem bateria. Vaga pelas ruas da cidade implorando uma esmola: - Um cartão telefônico, pelo amor de Deus!
Um revolucionário padre, dirigente da ONG Finda - Frente de Inclusão Digital da Amazônia, recruta o indigente e o leva a um laboratório onde será usado para uma experiência única: tornar-se o homem-chip para liderar o MST – Movimento dos Sem-Tecnologia!
No lugar dos olhos e da boca, uma webcam 350k pixels USB com microfone embutido; As orelhas viram potentes caixinhas de som 5.1, surround; os cabelos são mini-antenas; e no cérebro um potente chip de silício com capacidade para dezenas de Wektabytes de memória RAM! Com toda essa potência, ele passa a insuflar as massas e organizar assentamentos tecnológicos, invadindo estações de TV e provedores de internet. Celulares serão expropriados da burguesia. Televisores virarão reféns dos “indigitalizados”. O caos tecnológico será instalado e...
Voltando à realidade, tal qual o homem-peixe, o homem-chip ainda não existe. Mas quem sabe um dia se materialize? Até lá, terei que me contentar em ser apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, como diria o velho sábio Belchior.
Alguém me empresta um cartão telefônico, ai?
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Água!!!!


O jornalista Milton Corrêa (foto), o popular Miltinho, editor do programa Rota 5 (TV Ponta Negra) e colunista de O Impacto, parece que acordou enfesado com a falta d´água em nossa cidade e resolveu "soltar os cachorros" para cima da Cosanpa e da passividade do povo diante desta tragédia urbana que Santarém vive há 30 anos!
Como acadêmico do curso de Jornalismo do Iespes, Miltinho escreveu um artigo irado lá no blog da turma. Vale a pena conferir, clicando AQUI.
E se você quiser recordar o que eu já falei sobre o tema há um ano atrás aqui no blog, clique AQUI.

terça-feira, 21 de novembro de 2006

O mestre do fogo e senhor dos quintais (*)

Há mudanças que vem para o bem, outras não. Mudar de casa pode significar não tão-somente mudar de ares, como também de hábitos. No meu caso, especificamente, cada mudança de endereço que tenho feito nos últimos 15 anos (desde que formei uma família) significou um alento de página virada. Há momentos em que para recordar um determinado fato basta associar à casa que morei à época do fato (“O filho caçula nasceu na Aldeia ou na Prainha?” e “Qual era a nossa casa quando a filha mais velha passou no vestibular?” ou ainda, “Onde assistimos aquele jogo em que o Roberto Carlos arrumou a meia e deixou o francês meter um gol?”).
Mas se existe uma coisa nesse negócio de mudar de endereço que é estressante, é a própria mudança. O dia da mudança: o caminhão velho, o colchão velho à amostra, o cachorro estressado que não pára de latir, o carregador que despenca com o guarda-roupa, o cachorro estressado correndo atrás do carregador, o motora querendo apressar a mudança para pegar outro carreto (e se possível, evitar que consigamos transportar tudo de uma vez), a filha que vê a caixa de esmaltes cair na calçada, aquela cueca que não devia ficar à mostra, o cachorro estressado mordendo o próprio dono, os vizinhos olhando o pandemônio, o carregador derrubando mais um armário, o fio do telefone que insiste em se enroscar no armário mal arrumado, o carregador cantando a empregada enquanto o fogão despenca da carroceria, o cachorro estressado correndo atrás do vizinho, o filho caçula deixando a caixa de cd’s se espalhar na rua, o carregador usando Neruda como suporte do armário mal encaixado, o cachorro fugindo para a rua vizinha com os filhos atrás...
Visão do inferno! A chegada ao novo endereço é sempre acompanhada por olhos atentos. Os novos vizinhos julgam quem chega pelo que desce do caminhão. Caixa de livros: será que ele é juiz, promotor advogado ou professor? E a mulher, será que vai bater papo com a gente sobre a novela das oito ou não colocará o nariz fora da porta? E os filhos? Serão anjinhos ou demônios? Cachorros? Seis? Não é possível! Será que eles têm muitos bens para guardar? Computador? Serão intelectuais, ou gostam só de sites pornô na internet? E o que é aquele colchão todo esfarrapado, gente?
Passado o susto inicial, alojam-se os móveis, arrumam-se os livros, o sofá, a televisão, uma pizza e o resto fica para amanhã... Primeiro fim de semana na casa nova é sempre a mesma coisa: rearrumar tudo quase do mesmo jeito que estava na casa anterior, apesar de nos sentirmos totalmente renovados com o novo espaço...
Na última mudança que fizemos, acerca de duas semanas, resolvi cooperar um pouco mais com a ordenação do espaço do que o normal. Tomei conta do quintal e ajudei os filhos a capinar e queimar o mato. Trabalho duríssimo para um pseudo intelectual sedentário que mal afasta o traseiro de um computador. Meu cotidiano é marcado pelo cansaço mental e pelo acúmulo de calorias pelo corpo mal ajambrado. Assim, capinar um quintal é uma tarefa parecida aos Doze Trabalhos de Hércules.
Primeiro, “penteio” o mato com um ancinho. Junto montes de folhas secas, carrego pedaços de madeira e formo monturos. O filho caçula acompanha. O mais velho, com terçado, explora a ala oriental do grande quintal derrubando touceiras de flores já mortas e seus espinhos vivos. Formigas-de-fogo disputam o mesmo espaço conosco. Nosso novo latifúndio nos faz sentir num ínfimo pedaço de floresta amazônica no coração urbano da cidade.
A tarde vai terminando. O monturo de restos de quintal já se avoluma no centro. Os meninos esperam a ordem do “senhor dos quintais” para tacar fogo. As labaredas logo surgem e o fascínio toma conta de nós. Esse artigo nasceu neste momento. Enquanto as chamas crepitavam e transformavam em cinzas o que ficou depositado no chão do quintal, nossos olhos se iluminavam e de repente, continuávamos aumentando o monturo, assim que ele baixava.
Sobre as cinzas mais folhas e gravetos, pedaços de madeiras. Novas chamas, faíscas, fumaça. O poder do fogo inebria. Os meninos se cansam da brincadeira, mas o menino que existe em mim não consegue parar. Freneticamente continuo alimentando aquele fogo que parecer surgir de dentro de mim.
O corpo cansado encontra forças para se arrastar por entre os mais de trinta metros de quintal em busca de gravetos e folhas. E se há algum matinho que ainda não viu ancinho, lá estou eu arrancando ervas daninhas, restos de troncos. Como se estivesse petrificado pelo poder do fogo, me recuso em deixá-lo apagar.
Me sinto o próprio “mestre do fogo”. Um Hades tupiniquim que não ouve quando a família chama para degustar mais uma pizza. A noite caiu, mas o fogo não. Se depender do “mestre do fogo e senhor dos quintais”, não!
Os olhos lacrimejam, os braços fatigados continuam a arrastar o ancinho. A pá já não levanta as folhas com o mesmo poder, mas o fogo continua impulsionando meu ser. Porque será que o fogo tem esse poder de arrancar de um pacífico cidadão a vontade de queimar pobres folhinhas mortas? Seria eu uma reencarnação de um inquisidor Torquemada, olhando aqueles hereges gravetos farfalharem ao contato combustível e tornarem-se cinzas que o leve vento carrega?
Nem me importo com os vizinhos, que já devem estar incomodados com os rolos de fumaça penetrando suas janelas. Boas vindas estas! Meu lado Nero não deixa folha sobre folha no quintal. Ao final, exausto, olho minha “obra”: um quintal limpo e preparado para receber meu seis cachorros!
À noite durmo e tenho pesadelos: gravetos ensandecidos com o rabo em chamas me perseguem. Vizinhos riem e ao invés de água jogam gasolina sobre mim. Escorrego no quintal e resvalo por um buraco que me leva ao formigueiro. Sou recebido por formigas-de-fogo que me aplaudem. Me sinto o novo senhor do fogo, estendo as mão e me jogam uma tocha que me queima!
Acordo em pé na cama com a lâmpada quente na mão. O cachorro late e avisa que é hora de voltar ao cartório. Já não sou senhor dos quintais. No máximo senhor da burocracia. Que vontade de tocar fogo naqueles malditos papéis...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Agradecimentos

Agradeço aos elogios e à solidariedade de todos que leram o artigo anterior.
Todos os comentários que recebi, seja no blog, seja por e-mail, estão na caixinha de comentários abaixo do texto, com os devidos agradecimentos. Vale a pena ler alguns... E quem quiser pode continuar comentando, que eu responderei lá mesmo...
Posso dizer que para um "ex-virgem" em assaltos, tive um bom acompanhamento psicológico...

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Reflexões de um neo-assaltado beijando o asfalto

Sempre me gabei de nunca ter sido assaltado em toda a minha vida, fosse no Brasil ou no exterior por onde andei. Na verdade sentia uma ponta de inveja dos colegas que me relatavam os assaltos sofridos e tentava esbanjar um ar de superioridade diante de minha “virgindade” no assunto. Isso acabou me fazendo sentir até discriminado em certas rodas e me levou a imaginar o que pensavam de mim os que já haviam passado por essa experiência (“você não é digno de conviver em nosso meio, seu... “desassaltado”!).

Por conta disso, vivia imaginando qual seria minha atitude diante de um assalto à mão armada. Daria uma de galã hollywoodiano e sairia dando sopapos no “meliante”? Dialogaria com ele e o convenceria a deixar sua vida marginal? Ou apenas me borraria de medo e suplicaria pela minha vida, tentando convencê-lo de que quatro bocas me esperavam famintas em casa? Toda minha dúvida existencial sobre o tema caiu por terra, literalmente, quando fui obrigado a deitar no chão por um assaltante armado na noite da última segunda-feira (06/11/06).

Como todas as noites, sai da faculdade onde estudo e me dirigi ao cyber-café (aliás, porque se chamam cyber-cafés se nem café têm para vender?) mais próximo para atualizar um de meus blogs na internet. Nesta noite, tinha a parceria de um dos colegas de turma, Joyciano Marinho, que como eu era também neófito na condição de assaltado. Após visitarmos o blog da nossa turma de jornalismo, descemos pela mesma rua escura que tantas vezes passei, em direção à minha casa. O papo acadêmico fluía entre abobrinhas da sala de aula e a divagação sobre os problemas do mundo. Eis que surge em nossa frente a realidade nua e crua, da qual só conhecíamos através de relatos ou de filmes.

O assaltante, um garoto de pouco mais de 20 anos, poderia ser meu filho ou irmão de Joyciano. Do alto de sua figura magérrima, o rompante de senhor de nossas vidas com uma arma na mão: “Mermão, vamu deitando no chão e passando a carteira se não passo bala!”. Estáticos, fomos aos poucos entendendo que acabávamos de entrar nas estatísticas de vítimas de assalto. Pensei comigo: vibro por não ser mais “diferente” dos meus colegas assaltados e abraço o ladrão por me proporcionar este momento ímpar ou simplesmente desmaio? Nem me lembrava das opções anteriores. Minhas pernas bambas não permitiam esboçar qualquer reação hollywoodiana. Mal consegui envergá-las para me ajoelhar. Mãos na cabeça, prostramo-nos no frio asfalto da rua deserta e mal iluminada. Literalmente, beijamos o asfalto. A sensação era narcotizante. As palavras do garoto, soltando impropérios soavam longe. Me lembrei de um dos únicos porres que tomei na vida quando adolescente: enquanto levava um pito, minha cabeça parecia os carrilhões de Nazaré no dia do Círio em Belém.

“Tira a camisa, mermão, mas num olha pra mim”, vociferava nosso algoz. Arrancamos as camisas pólo suadas e sujas de terra e jogamos em sua direção. “Camisa é melhor no mato”, filosofa nosso pivete ensandecido, antes de arremessá-las em direção ao muro que margeia a calçada maltratada, tomada por arbustos. “Cês também, pro mato e sem olhar pra mim”, sentencia nosso feitor da meia-noite. “Num sou daqui e tô fazendo uma “limpa” na área, mermão!”, explica ele.

Sentimo-nos io-iôs nas mãos do assaltante. Continuamos calmos, apesar de, passado o susto inicial, já alimentarmos um certo ódio e uma vontade louca de atacá-lo. Mas entre nós dois e ele há uma arma apontada, reinando soberana e doida para fumegar ao menor vacilo. Prostrados, agora no mato, ouvimos o garoto sofregamente buscando dinheiro nos porta-cédulas. Encontra dois míseros reais que eu ainda carregava no final da noite e os surrupia. De repente, encontra algo que lhe chama a atenção: um porta-documentos com brasão da República, usado geralmente por funcionários públicos da área de segurança. A cor vermelha do couro parece acender no assaltante o ódio de Aris, o Deus da Guerra na mitologia grega, ao gritar de forma sarcástica e meio tatibitate: “O que temos aqui? Um PM! Já “puxei” cadeia e tenho raiva de PM. Acho que hoje vou matar PM”. Pela primeira vez, sentindo o perigo rondando minha cabeça, falo com firmeza em direção ao assaltante dizendo que não sou da PM e sim funcionário da Justiça. Caio em mim, ao pensar que o dito cujo não deveria diferenciar um do outro. “Cala a boca! Eu atiro!”, grita ele.

Me calo com as mãos na cabeça. O sangue parece querer explodir minha cabeça antes da bala que acho estar a caminho. Tento pensar nos filhos que tenho, no livro que não escrevi e na árvore que ainda não plantei. Talvez seja tarde para todos os arrependimentos. Quão pequeno sou naquele momento! Minha vida pouco vale diante da sanha de um menino criado nas ruas, adotado por traficantes, marginal de uma sociedade hipócrita. De nada me adianta filosofar. A morte parece certa.
“Bora, mermão, pega as bolsa e joga os celular, rápido!” O assaltante me desperta, clemente, dando-me mais uma chance de viver minha miserável vida. Basta eu me livrar do pequeno aparelho que trago na bolsa e que para ele pode representar um alívio em forma de drogas a serem trocadas em qualquer boca-de-fumo das redondezas. Rapidamente tiro o celular e jogo, sem levantar a cabeça. Meu colega, renitente, acaba cedendo e também joga o seu. Não vejo o semblante de Joyciano mas imagino seu rosto, sempre compenetrado em sala de aula lendo Aristóteles ou Nietzche, fazendo um esforço para entender tudo aquilo. Antes de sermos abordados, me falava de projetos ambientais sustentáveis para melhor a vida dos nativos da região e evitar injustiças sociais.

Foram-se os celulares, ficaram os ouvidos e bocas. Um último recado de nosso verdugo ao tucupi: “Tô saindo, mas vou ficar de olho em vocês. Se levantarem a cabeça, ficam sem ela”. Poesia marginal?

Os minutos em que ficamos parados naquele mato, sem camisa e sem celulares, pareciam eternos. Nenhum de nós tinha coragem de olhar para cima. Talvez quiséssemos dormir ali mesmo e acordar achando que tudo não passou de um pesadelo. Levantamos e caminhamos como dois perdidos numa noite suja, rumo à Seccional de Polícia a um quilometro dali. Tentamos entender cada um dos segundos de agonia e o que poderíamos ter feito. Cada um de nós com um sentimento de ódio mesclado ao alívio de sentir a cabeça no lugar. Concluímos que não fazer nada, fez a diferença entre a vida e a morte.

Minha relação com o submundo do crime, até hoje, sempre foi de caráter profissional ou voluntário, seja como repórter policial no início de minha carreira jornalística, seja como escrivão judicial atualmente, acumulando com a função social de membro do Conselho da Comunidade. Nunca cara-à-cara, na condição de vítima. Antes visitava presos nas delegacias. Hoje percorro corredores da penitenciária de Cucurunã conversando com caras amontoados em celas fétidas que vêem em mim sua única esperança de contato com o mundo lá fora. Talvez esse menino já tenha estado numa dessas celas. Se não esteve, quem sabe um dia estará, e eu o ouvirei, tirando dúvidas sobre seu processo.

A noite continua. Outros assaltos ainda acontecerão. Gente há de morrer e sobreviver. Essa é a lei da selva capitalista. A nós, resta acreditar que nossa hora ainda não chegou...

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

Em defesa de Odair

O empresario Olavo Neves comenta a nota anterior:
Amigo Ninos,
Tenho acompanhado com grande apreensão inúmeras cobranças disparadas ao atual Vice-Governador sobre seu posicionamento acerca da questão Estado do Tapajós.
Ora, creio que Odair já deu inúmeras provas de seu comprometimento com a causa, e cobrança deste assunto é contraproducente no momento, pois tal anseio de nossa região é rejeição certa na grande parte do Estado (pelo menos por enquanto!).
Precisamos aprender a trabalhar estrategicamente. Colocar o atual Vice-Governador em saia justa seguramente será extremamente danoso para sua imagem e conseqüentemente para nossa região; e como resultado o distanciamento ainda maior da realização de nosso grande sonho.
Lembremos que Odair é Vice-Governador do Estado e, como tal, seu compromisso é para com todo Pará.
Vamos ser inteligentes e negociar nossos interesses de forma adequada, pois acredito piamente no comprometimento de Odair com nossa Santarém e Região.
Já diz um provérbio chinês: - “Duas mãos devem estar mais ocupadas que uma língua”.
Forte Abraço!
Olavo das Neves
Comentario: concordo plenamente com Olavo e em nenhum momento pensei em colocar Odair em saia justa. Muito pelo contrario. Acho que ele tem muito a contribuir com a luta da posicao em que esta, sem precisar se expor demais. De qualquer forma obrigado por comentar, o blog ja estava com saudade de sua presenca...

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

O dia seguinte à democracia multicolorida que invadiu as ruas da cidade

A frieza dos números dos candidatos aliada à complexidade de siglas com letras que nada nos dizem, fazem do processo eleitoral brasileiro, há cada dois anos, um emaranhado de promessas com rostos que conhecemos de outros carnavais. O palanque eletrônico, das rádios e TV’s, nos apresenta homens produzidos a partir de idéias mirabolantes ou não, que tentam traçar um destino que sequer temos certeza se queremos para a nossa cidade ou nosso país.
Este ano, mais uma vez enfrentamos este processo que começa sempre um pouco antes das férias de julho, em convenções partidárias onde inimigos de ontem podem ser aliados de amanhã e vice-versa, desembocando no dia da eleição que em alguns casos tem até repeteco (o tal do 2° turno), como ocorreu domingo em todo o Brasil na eleição presidencial e em especial nos 10 estados (incluído o Pará) que escolheram governadores.
A democracia é necessária e está além dos palanques. Nasce nas ruas, onde a liberdade de expressão é multicor. Militantes pagos ou não, tentam nos convencer com a fusão de cores entre amarelo, vermelho e outras predominantes das ideologias existentes, que cada proposta é melhor que a outra. Mas o que importa mesmo é o dia seguinte à apuração das urnas.
Fiz um perípatos pela cidade antes e depois da apuração no domingo. Reencontrei velhos amigos conduzindo bandeiras nunca dantes levantadas e outros que ainda agarram-se às mesmas idéias de todo o sempre. A razão é pura emoção e não importa a cor das ideologias. Não importam os vencedores ou os supostos derrotados porque – abusando do lugar-comum – todos são vitoriosos.
Às cores partidárias juntam-se os números das pesquisas, os comentários de quem tenta entender tudo, os resultados que podem até surpreender. O sorriso e o desespero da militância são coloridos.
Deixando de lado a divagação em prosa poética, falemos dos resultados concretos: o vermelho do PT se sobrepôs ao amarelo do PSDB que já vinha se desbotando ao longo dos últimos 12 anos no Pará, mesma situação já verificada em nível nacional e municipal em eleições anteriores. Esse novo predomínio “encarnado” cria uma sensação favorável ao futuro de Santarém, algo que já vem sendo chamado de “alinhamento cósmico de estrelas petistas”, no caso, o presidente reeleito Luis Inácio Lula da Silva, a governadora eleita Ana Júlia Carepa e a prefeita de Santarém Maria do Carmo que tenta se livrar de um mórbido ocaso.
Além de Ana Júlia no governo estadual, Santarém e a região Oeste do Pará terão um legítimo representante ao lado do gabinete da governadora, seu vice, o santareno Odair Corrêa. Sua eleição é ainda mais emblemática por conta do que ele representou em todos estes anos, participando da organização de um dos vários comitês surgidos por aqui para discutir o projeto de emancipação política da região, com a criação do tão sonhado Estado do Tapajós. Mas que ninguém se iluda que esse discurso permeie os atos de Odair após a posse. Ao jurar sob a Constituição do Pará ele e a governadora (como qualquer um que se eleja a esse cargo), assumem o compromisso pela indissolubilidade do Estado do Pará.
A verdadeira contribuição dos dois será impedir que as políticas do Estado se concentrem apenas na capital como nos governos anteriores, deixando que as regiões culturalmente distintas entre si tenham a possibilidade de discutir o processo de redivisão ou reorganização das unidades federativas da Amazônia, iniciado ainda no Brasil-Império quando a grande Província do Grão Pará e Maranhão transformou-se em pelo menos três Estados: Amazonas, Pará e Maranhão.
A tarefa de mobilização em torno desta idéia ficará por conta dos deputados eleitos ainda no primeiro turno, que só no Oeste do Pará representam quase 25% da Assembléia Legislativa. Mas será que esta união ainda é possível diante do resultado desta eleição? As “bancadas separatistas” do Oeste e do Sul do Pará serão hegemônicas ou as cores partidárias voltarão a influenciar essa ideologia capenga?
O fato é que as cores nem sempre formam um belo arco-íris, que aliás sempre foi o sinal de que depois da tempestade vem a bonança.
É bom lembrar que logo após as eleições, onde a democracia multicolorida fez a festa, chegam dias que representam o lado negro da força: além da festa das bruxas (o Halloween da cultura ianque), nesta semana os dias de reflexão envolvem a lembrança dos mortos, o Dia de Finados, um feriado para homenagens póstumas que envolve nuvens sombrias a serem dissipadas...
Ou não...
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Esse texto deveria estar na edição de terça-feira (31/10) no Diário do Tapajós, mas por problemas técnicos no envio à Belém, a edição não circulou. Hoje, novamente ocorreu o mesmo problema e a edição também não circulou. Divulgo o texto aqui, para que não fique tão defasado. A coluna Perípatos que escrevo no jornal, volta terça-feira com outro tema.
Neste feriadão de Finados (02/11), estarei participando à partir das 08h00 da manhã do programa Mesa Redonda, da 94 FM, comandado pelo jornalista Sampaio Brelaz, que terá como tema o resultado do 2º turno das eleições. Além de mim, estarão presentes mais quatro convidados. O programa pode ser acompanhado pela internet, no site http://notapajos.globo.com/ através do link 94 FM ao vivo.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Em busca da “terapia do caos” (*)

Fazia algum tempo que eu não andava pelo centro da cidade num início de semana. Aproveitei, ontem, o ponto facultativo determinado pelo Tribunal de Justiça do Estado (do qual sou funcionário) à todas as comarcas do Pará, em razão do “Recírio de Nazaré” que tradicionalmente se realiza em Belém, e dei umas voltas a pé pela área central da cidade entre o velho Mercado Modelo e a praça São Sebastião.
Quase sempre quando ocorrem essas folgas inusitadas, aproveito para organizar processos em meu cartório ou arrumar minha casa. Na melhor das hipóteses, durmo até mais tarde e depois curto TV e Internet até voltar ao batente.
No cartório, minha rotina é viver arrumando pilhas de processos, relendo as histórias dos crimes e capitulação penal. Tento botar em ordem centenas de pastas de documentos, carimbos e relatórios. Da mesma forma, nos computadores (do trabalho e de casa) organizo milhares de textos, imagens, músicas e vídeos em pastas padronizadas. Em casa, na medida do possível, arrumo o que há muito está armazenado em caixas de minha “papeloteca” (um quarto com quinquilharias, livros, jornais, revistas e textos diversos, inclusive artigos e poesias que escrevi e que acumulo desde a adolescência!).
Apesar de detestar a burocracia – que é parte do meu cotidiano num cartório criminal – adoro colecionar papéis em suas mais variadas formas, de folderes publicitários à coleção de santinhos de candidatos (!), de jornais carcomidos pelo tempo a fotos desbotadas pela umidade. Minha mulher vive ameaçando tocar fogo em tudo, mas sabe que eu queimaria junto e acaba desistindo...
Esse cotidiano ainda não é perfeitamente arrumado, mas segue um padrão mínimo de organização. Só que a busca do perfeccionismo metódico deixa seqüelas na minha cabeça e de repente começo a me sentir um tanto “robótico”. As idéias fluem e vou tentando armazená-las na cabeça como se abrisse pastas e arquivos. As lembranças de fatos de um passado distante ou recente são acondicionados em uma memória virtual de neurônios, à espera de transformarem-se em textos que “imprimo” com primeira caneta que encontrar numa folha qualquer, isso quando não tenho um computador à minha frente.
Mas ontem resolvi sair em busca do que eu chamo de “terapia do caos”, ou seja, ver de perto a bagunça que impera no centro da cidade e respirar um pouco da confusão para contrabalançar o equilíbrio e a serenidade que tenho buscado freneticamente. Uma espécie de relax às avessas.
Fazer esse perípatos pelo nosso centro ainda não chega a ser perigoso como andar na área central de Belém, mais caótica que a nossa. Mesmo assim, em pouco mais de três horas tenho que driblar o trânsito na Rui Barbosa onde os ônibus e os moto-táxis disputam o mesmo espaço com pedestres; atravessar os corredores de redes estendidas e bolsas falsificadas do que um dia se chamou “Complexo Arquitetônico da Conceição”, que abrange as praças Monsenhor José Gregório (Matriz), da Bandeira (sem bandeira), do Relógio (sem relógio) e Bettendorf (ou será Paulo Rodrigues?), tudo isso transformado num verdadeiro camelódromo onde se compra de bijuteria (despu)dourada a aparelhos de DVD “made in Taiwan”; me acotovelar com pessoas apressadas, ser abordado por hippies e seus ornamentos ou enfrentar filas de uma lotérica onde todo mundo acalenta o mesmo sonho: ficar milionário e comprar uma ilha só pra si; ou ainda, massacrar os ouvidos com a propaganda volante ensurdecedora, que vende de tecidos a candidatos ao Governo ou conviver com a barulheira das caixas de som de igrejas evangélicas que disputam fiéis na Rui Barbosa (o Cineramma sucumbiu e acabou virando um templo!) ou os vendedores da Lameira Bittencourt, nossa rua central do comércio equivalente à João Alfredo da capital, que tentam nos arrastar aos berros para dentro de suas lojas.
É aí que me deparo com outra visão caótica, mas que tem um objetivo diferente: a rua central do comércio está tomada de tapumes e homens trabalhando freneticamente com marretas para quebrar o piso. É a obra municipal, menina dos olhos da prefeitura e dos comerciantes, que é tocada com vigor em meio a uma campanha política e às vésperas das festas de fim-de ano. Já vi a maquete do projeto chamado pela atual administração de Belocentro e se tudo for feito como está previsto, pode ser o começo do fim do caos. Perco minha “terapia”, mas ganho uma cidade mais decente.
O projeto é uma obra simples que qualquer administrador sério já deveria ter realizado. Mas, antes tarde do que nunca. Só que é preciso que se ressalte que não basta embelezar a rua principal do comércio, que do jeito que está lembra mais os corredores do mercado de Istambul (Turquia) em que já andei há 15 anos, onde comprar é quase um suplício. É preciso que o Belocentro se estenda até à Rui Barbosa, que se continuar do jeito que está pode vir a ser um clone da avenida Presidente Vargas, de Belém, um gargalo de gente e ferro fundido que mais parece a visão do inferno de Dante!
E não serão somente obras como a do Belocentro que poderão diminuir a sensação de caos que se vive em nossa área central. É preciso que seja implementada uma política de segurança constante, com um pouco de disciplina controlada pelos agentes de trânsito e da tão sonhada Guarda Municipal que até hoje não saiu do papel para organizar nossos logradouros públicos. Quem sabe após o conturbado Plano Diretor, possa-se vislumbrar tais mudanças.
Uma cidade como Santarém, que pretende ser capital, deveria começar mostrando que sua área central pode ser menos caótica e mais humana. Enquanto isso não acontece, vou de vez em quando por lá, nos próximos pontos facultativos, fazer minha “terapia do caos”. Mas, sinceramente, preferiria não ter essa opção...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 24.10.2006, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Dez anos sem Kauré, um ano com Kauré (*)

11 de outubro de 2006, quarta-feira, véspera do feriado de Aparecida e do Dia das Crianças.
Um grupo de amigos se reúne em torno de algumas garrafas e pratos com doces, para comemorar a criança que há dentro de nós. Um misto de alegria e tristeza paira no ar, pois naquele momento rememoramos os 10 anos da perda de um artista local e grande amigo, ao mesmo tempo que concluímos o primeiro ano do ciclo cultural surgido em nome dessa lembrança.
Kauré é mais que uma lenda indígena amazônida em torno de um pássaro, também conhecido como Coleirinha ou Tem-tenzinho, que é considerado um símbolo de fortuna e felicidade doméstica representada por pedaços de seu ninho, transformado em talismã. Kauré, para aquele grupo de amigos reunidos há uma semana numa casa da Aldeia, é como uma fênix cultural que ressurge das cinzas de um passado recente e tenta se firmar como alternativa para arte e a cultura.
Kauré é um velho amigo que se foi há 10 anos depois de ser acometido de um câncer nas vias nasais e lutar desesperadamente pela vida. Era Manuel Maria Duarte, o popular Kauré, jovem ator que não pôde concluir alguns de seus sonhos, entre eles terminar o Curso de Ciências Sociais na UFPa. Fã de Renato Russo, coincidentemente morreu no mesmo dia do astro pop, este levado pela AIDS.
Dois anos depois daquela tragédia para muitos atores que acompanharam a trajetória de Kauré, um dos fundadores da ATAS – Associação do Teatro Amador de Santarém, o grupo de amigos a que me referi no início resolveu montar um novo grupo de teatro em Santarém. Alenilson Ribeiro, pedagogo, Márcia Corrêa, bancária, e as irmãs Nira e Nilce Pires, coreógrafa e atriz respectivamente, remanescentes que eram do já extinto Gruteja (Grupo de Teatro José de Anchieta), fundaram em 1998 o Grupo Teatral Kauré (GTK), em homenagem àquele velho amigo.
Minha relação com o grupo e com Kauré sempre foi próxima, ao ponto de me unir a eles no ano passado e decidirmos juntos dar um novo passo cultural: transformar o grupo de teatro amador em Instituto Cultural.
A fundação oficial, com votação de estatuto e eleição de diretoria, aconteceu num espaço mágico: o Centro Cultural João Fona, cedido pelo artista plástico e diretor da casa, Laurimar Leal, que também se filiou ao grupo como um dos fundadores. A solenidade, que teve como mestre de cerimônia e membro fundador do grupo o professor Anselmo Colares, foi presidida pelo também amigo do grupo, Roberto Vinholte (então coordenador municipal de cultura). Ele empossou a diretoria e anunciou os artistas que apresentaram shows em homenagem ao novo grupo cultural, entre estes os músicos João Otaviano Matos Neto e Zé Azevedo, nosso menestrel nordestino.
Das lembranças do menino Kauré, surgiu uma ONG cultural que comemorou, na mesma data de sua morte, o primeiro ano de vida, e que ainda engatinha tentando vencer barreiras burocráticas e financeiras para sobreviver. O nome do grupo é quilométrico e pomposo: Instituto Kauré de Pesquisa e Promoção do Patrimônio Artístico-Cultural da Amazônia (INKA), que se propõem investir nas 7 Artes Clássicas, através de projetos sociais de inclusão entre populações carentes.
Mas de onde surgiu esse apelido, que transformou-se no nosso talismã? Contam as pessoas que se relacionavam com a família de Kauré, que quando menino ele insistia em andar com um velho pipo de borracha na boca. Não havia quem conseguisse arrancar-lhe aquele passatempo. Dizem que se jogassem o pipo na rua ele ia buscar e botava na boca de novo. Aí, a velha sabedoria cabocla voltou a funcionar. A avó resolveu dar sumiço do pipo e para que este não abrisse o berreiro, dizia ao infante: “Foi Kauré que levou teu pipo, meu filho”. Sem entender o que vinha ser o tal Kauré, o menino, meio assustado, foi se conformando e acabou adotando o nome daquela entidade amazônica que levou seu passatempo favorito.
Essa história me lembra muito o enredo do melhor filme de todos os tempos (segundo os maiores experts do cinema mundial): Cidadão Kane. Lá, ao invés do pipo, o magnata constrói um império das comunicações e morre praticamente sozinho (depois de tornar-se um tirano), pronunciando uma palavra que ninguém consegue associar à nada em sua vida: Botão de Rosa (Rosebud, em inglês). Ao final fica-se sabendo que era o nome escrito numa prancha de snowboard (para esquiar na neve), que ele segurava quando foi separado da mãe e começou uma nova vida.
Mas voltando à nossa realidade, a equipe que hoje forma o Instituto Kauré (além dos já citados), conta ainda com alguns jovens do bairro da Aldeia e prepara um projeto baseado em oficinas artísticas a serem ministradas em bairros da periferia, onde se quer levar, aos poucos, o primeiro contato com jovens adolescentes com as chamadas 7 Artes Clássicas (Música, Poesia, Dança, Escultura, Pintura, Teatro e Cinema).
Na festa do 1º aniversário, além de lembrar do patrono do grupo, homenageamos um dos atores de teatro amador mais experientes de Santarém, e que atualmente se integrou ao nosso grupo: Ernandes Nascimento, que completou em 2006 25 anos de plena atividade nos diversos grupos teatrais do bairro da Aldeia. Ernandes foi contemplado com o diploma Amigo do Kauré, uma singela homenagem do Instituto Kauré que será entregue anualmente a personalidades culturais de nossa cidade, pelos serviços prestados à cultura e às nossas atividades. No encontro, decidimos também homenagear com o mesmo diploma o ex-coordenador de cultura Roberto Vinholte, o padre Boeing, que deixou a paróquia de São Raimundo e hoje trabalha em Alenquer (membro e advogado do Instituto) e o artista plástico Laurimar Leal. Os diplomas serão entregues aos homenageados pessoalmente pelo presidente do INKA Alenilson Ribeiro, sem nenhuma solenidade de pompa e apenas com o nosso reconhecimento público.
Podemos afirmar, sem dúvida, que em todos os encontros já realizados (e os que ainda virão), vemos sempre aquele menino do pipo andando entre nós, com o mesmo olhar e sorriso marotos e aquelas tiradas que faziam todos morrer de rir, principalmente quando afirmava de forma bandalha em alusão ao seu nome de batismo: “Minha arte tem dois sexos – uns dias sou Manuel, em outros sou Maria”.
Kauré, a estrela que brilha em nosso palco.
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(*) Artigo inserido (17.10) em minha coluna semanal Perípatos, publicada no Diário do Tapajós, suplemento regional do Diário do Pará.

Coragem ultramarina

Meu maltratado Blog, fica tão desolado por eu não conseguir atualizá-lo com mais freqüência. Mesmo assim, tenho alguns abnegados leitores, que insistem em visitar este espaço, aguardando o momento em que conseguirei me impor um pouco de disciplina e dedicar algum tempo a este pequeno espaço virtual de política e cultura.
Em pouco mais de 18 meses no ar, cerca de 7.800 acessos foram registrados e sei que há momentos em que estes acessos aumentam, quando atualizo e informo aos amigos por e-mail que tem novidades no blog. Como já disse outra vez, paciência. Um dia chego lá...
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E pra minha surpresa, recebi há alguns dias um comentário numa das caixinhas virtuais deste blog, da poetisa (ou poeta?) portuguesa, que conheci no Blog do Jeso. Publico o e-mail completo, um desabafo acompanhado de poesia:
Bom dia, Jota
Queria fazer aqui um comentário, sobre as manobras da Midia... Jeso no seu blog publicou parte apenas de um poema meu.... Terá sido manobra de Midia??? Aqui o envio na integra.
A Coragem de ser o primeiro...
Besouro/Carocha
Carapaça Tem
Em tocha
E lume também
Primeiro Bem
Junto sentado
No desconhecido Além
Coragem
De Ser o Primeiro
Neste Veleiro
Que não é de ninguém
Deixa a ilusão muito aquém
Mas diz a razão: Quem quer esta emoção perder?
Só o Primeiro
Com vontade de vencer
O livro da ilusão
Implementado no nosso viver.
Momentos não têm
Saber também não
Vivem na ilusão
Sem nada aprender
Tocar não pode
Mexer também não
Olhar? Nem ver !
Castigo!!!
Não fez o que eu queria não!....
Eis o refrão
Da constante
Canção
sem perdão.
Do tradicional viver
Desta Nação.
Café/carioca limão?
Não pode não!!!
Castigo sem perdão.
Vou ser o primeiro??
Acho que não...
Laranja/lima
Petisco que não rima
Cada um sem emoção
Que a Lua não pode
Querer o Luar não!
Chora que disco
Não H-ouve não!
É que essa menina
Sem Paz
ȓVitrola arranhada
Que não existe mais
E toca a canção
Mais animada
Desta Nação !!!!...”
A laranja veio
De terno coração
Não existe primeiro
Que queira acabar
Vossa ilusão!
CORAGEM
Vou ser o Primeiro!
Hum.....
Acho que não vou ser não....
JHelena Morujão
11/10/2006
Comentário: bonita poesia da Helena. Conheci um pedaço dela no Blog do Jeso. Perguntei a ele o que houve para o verso não sair inteiro e ter essa reação de Helena, e ele me disse que foi um mal entendido e que estaria se desculpando com ela. De qualquer forma, obrigado Helena "Lenny" Morujão pela poesia. CORAGEM!

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Comentários sobre o Fator HP

O artigo que escrevi um dia antes da eleições sobre os possíveis resultados já influindo no próximo pleito municipal, ganharam repercussão fora do blog e acabaram sendo reverberadas nos debates em que participei, quando analisei os resultados pela Rádio Rural, TV Tapajós e pela 94 FM.
Destaco e-mail recebido do advogado Deodoro Tavares, ex-lider local do PT, parabenizando-me pelo artigo e também do sociólogo Tibério Aloggio, na caixa de comentário do artigo.
Como o artigo foi linkado no Blog do Jeso, foi de lá que recebia melhor provocação de um leitor chamado Cyber Cidadão. A resposta só dei hoje, é pode ser lida lá mesmo.

Um ano de andanças jornalísticas e passeios filosóficos (*)

Volto a escrever nesta coluna depois de três semanas de afastamento, por motivos alheios à minha vontade, e me deparo com o meu calendário pessoal denunciando: já faz um ano que escrevo esta coluna!
O Perípatos estreou neste encarte do Diário do Tapajós no dia 03.10.2005, na primeira semana depois que deixei a editoria do jornal, assumida pela equipe da Agência Pódium, comandada pelo colega jornalista José Ibanês. Meus afazeres como Escrivão Judicial no Fórum de Santarém, tornavam meu tempo incompatível com a edição de um jornal, ainda que bi-semanal. Mas para não perder meu elo de ligação com o que mais gosto de fazer, me propus continuar vinculado ao jornal como colunista.
De lá para cá foram cerca de 50 artigos, sobre os mais diversos assuntos. Alguns mais lúdicos outros mais lógicos. Fui até cobrado por alguns assíduos leitores de manter um estilo menos formal. Espero poder retomar, a partir da próxima semana, o objetivo a que me propus no artigo de estréia, que seria a de “filosofar caminhando”, anotando o que vejo nesta cidade e abrindo para o debate.
Todos os artigos aqui publicados, foram inseridos em meu blog na internet, onde a troca de idéias tem se dado de forma mais instantânea. Repito abaixo o texto de estréia e depois comento:
“Um novo passeio filosófico
Começo aqui e agora um novo caminho jornalístico, nesta coluna de nome esquisito. Pra quem me conhece ou estudou um pouco de filosofia grega, deve saber que a palavra é de origem grega, como eu.
Ao retornar da Grécia, onde vivi entre 1988/1991, imaginei trilhar novos caminhos baseados nos ensinamentos filosóficos de meus ancestrais gregos, principalmente Aristóteles de quem me tornei fã. Estudei na universidade que leva seu nome, em Salônica, visitei as ruínas do castelo onde Alexandre, o grande, recebeu seus ensinamentos e sempre que ia para Atenas, não deixava de visitar a ladeira norte da Acrópolis, onde podia andar no antigo perípatos, o caminho coberto que fazia parte do Liceu, ginásio dedicado a Apolo Lykeios no qual o filósofo teria começado a ensinar sua doutrina.
Segundo consta nos apontamentos históricos, as aulas e discussões ocorriam naquele passeio coberto (em grego, perípatos), surgindo assim a filosofia peripatética de Aristóteles, baseada no diálogo com seus discípulos, enquanto caminhavam.
Aristóteles premiava o diálogo e a divulgação do conhecimento para a consecução do saber, ou seja, tudo que saía dos debates nas longas caminhadas era transformado em algo escrito. A leitura de outras obras embasava suas teorias, deixando de lado o empirismo de outros sábios, como Platão, seu mentor.
Vai daí a idéia que eu tinha em escrever sobre esta cidade, a partir de caminhadas, filosofando sobre esta “pérola abandonada”, meu Olimpo de observações. Não que eu possa chegar aos pés de um Aristóteles! Nem é essa a intenção. Na verdade, através do que eu possa escrever, seja feita uma homenagem ao método empregado pelo grande mestre.
Como não tenho um veículo próprio há muito tempo e precisava caminhar para queimar “algumas gordurinhas”, me propus a conhecer a cidade de ponta-a-ponta vendo os detalhes bons ou maus e fazendo juízo de valor. Sem discípulos, encontro as pessoas que me contam estórias e me dão opiniões. Elas não buscam um sábio, mas querem um porta-voz jornalista para suas ansiedades.
No meu perípatos do dia-a-dia encontrei o primeiro percalço: as calçadas de Santarém. Como andar numa cidade cujas calçadas são extensão das casas e cada pessoa a molda à sua imagem e semelhança? Cheguei a pelo menos uma conclusão: se a filosofia ocidental, predominantemente marcada pelos ensinamentos aristotélicos, dependesse do “perípatos da pérola”, já teria se acabado num tropeção... Triste vida de um filósofo dos trópicos...
Mas continuarei por aqui, no Diário do Tapajós, andando neste perípatos, ou melhor, driblando todos os empecilhos que possa imaginar nossa vã filosofia..”
Este Perípatos é feito de alma, na mais pura essência aristotélica.
Na definição aristotélica, a alma é todo princípio vital de qualquer organismo. No homem é também a força da Razão. É imortal, puro pensamento, inviolado pela realidade. É independente da memória. A alma é, portanto, enteléquia (“essência da alma”, em grego) primeira de um corpo natural e orgânico. A alma intelectiva, diz Aristóteles, parece ser uma espécie diferente de alma. Para melhor definir a alma, ele a dividiu em três tipos: alma vegetativa, alma sensitiva e a alma racional. A alma racional seria exclusiva do homem, a sensitiva, pertenceria também aos animais, e a vegetativa, comum a todos os seres vivos.
A criação nasce do impulso criativo e da ânsia pela expressão emocional. A arte imita a vida. O prazer intelectual é o bem maior que podemos alcançar.
Em sua Ética, Aristóteles pergunta: como o homem deve viver, do que precisa para uma boa vida? Qual é o seu bem supremo? A resposta é: a felicidade (eudaimonia). Ele cita três formas em que se crê no alcance da felicidade: uma vida de prazeres ou gozos, uma vida com honra, ou política, e uma vida como filósofo. Aristóteles descarta a honra como felicidade, pois esta não é uma coisa interior, mas sim uma coisa que é conferida à pessoa por terceiros. Toda ação tende para um fim. Temos virtude porque agimos corretamente. Nada deve ser em falta ou em excesso, tudo no meio termo, ou moderadamente. A amizade é um auxílio à felicidade, que só encontramos pura em nós e do conhecimento da nossa alma. Aristóteles fala do homem ideal, que não se preocupa em demasiado, mas dá a vida nas grandes crises. Não tem maldade, não gosta de falar, enfim é pouco vaidoso.
Na Ética a Nicômaco, Aristóteles fornece a seguinte relação de vicio e de virtude:
1) a mansidão é o ponto médio entre a iracúndia (irritação) e a impassibilidade;
2) a coragem é o ponto médio entre a temeridade e a covardia;
3) a verecúndia (vergonha) é o ponto médio entre a imprudência e a timidez;
4) a temperança é o ponto médio entre a intemperança e a insensibilidade;
5) a indignação é o ponto médio entre a inveja e o excesso oposto que não tem nome;
6) a justiça é o ponto médio entre o ganho e a perda;
7) a liberalidade é o ponto médio entre a prodigalidade e a avareza;
8) a veracidade é o ponto médio entre a pretensão e o auto-desprezo;
9) a amabilidade é o ponto médio entre a hostilidade e a adulação;
10) a seriedade é o ponto médio entre a complacência e a soberba;
11) a magnanimidade é o ponto médio entre a vaidade e a estreiteza da alma;
12) a magnificência é o ponto médio entre a suntuosidade e a mesquinharia.
Nessas ações, a virtude ética é a justa medida que a razão impõe a sentimentos, ações ou atitudes, que sem o devido controle, tendem para o excesso. A justiça é considerada por Aristóteles como a virtude ética mais importante.
Perípatos é tudo isso...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada na edição de hoje do Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.