terça-feira, 28 de novembro de 2006

A incrível história do homem-chip (*)

Estou sem celular há quase um mês desde o primeiro assalto à mão armada que sofri. Como não estava em meu planos financeiros ter que comprar um novo celular e tendo outras prioridades, vou adiando esse investimento ad eternum. Essa situação tem me causado um certo constrangimento, afinal o domínio da tecnologia nos dias de hoje, mesmo para os padrões amazônicos, é avassaladora e não estar “conectado” com o mundo através de um mísero chip passa a ser um atestado de incompetência. “Como você pode ficar sem celular?” ou “Ainda não tens internet em casa?”, são algumas das cobranças que recebo diariamente de alguns colegas ao constatarem minha inapetência tecnológica.
Na verdade, eu mesmo sinto a falta do suporte tecnológico em minha vida nas 24 horas do dia, afinal desde que aprendi a lidar com o computador usando o antigo sistema operacional MS-DOS e o editor PC-COM (isso nos idos de 90) nunca mais fui o mesmo. Hoje em dia não percebo o passar das horas à frente de um monitor, seja para escrever um artigo como esse, seja para consultas no trabalho, seja para “flutuar” na internet.
Essa minha paixão tecno-edipiano-platônico-voyeurista me acompanha desde a mais tenra idade quando mantive um “tórrido romance” com Zenith, uma televisão de 21 polegadas que foi minha babá digital nos idos de 1970. Ela praticamente me alfabetizou ao introduzir-me no mundo encantado de programas infantis (na época, mais inteligentes) como Vila Sésamo e a primeira versão do Sítio do Pica-pau Amarelo. Zenith era uma mulata rechonchuda cheia de válvulas. Sei disso porque um dia, aos 10 anos, resolvi “consertá-la” sozinho. Só não sei porque depois que fechei a tampa, muitas válvulas sobraram e ela nunca mais quis funcionar... E nem porque levei uma homérica surra do meu pai depois disso!
Já nos meus primeiros anos de Santarém (a partir de 1978) ocorreu um importante hiato de tecnologia em minha vida. Foi quando aprendi a nadar no rio Tapajós, jogar bola no asfalto e praticar militância nos bairros da periferia. Parecia que existia um mundo além da tela da televisão que eu não conhecia em Belém. Aboli a tecnologia radicalmente. Foi dessa época minha decisão de jogar o velho Seiko-cebolão do braço (aprendi com um velho amigo comunista que “usar relógio é ser escravo das horas”).
Havia me divorciado da televisão, apesar de, de vez em quando, manter uma relação fugidia com a velha telinha. Mas como precisava “aprender um ofício” para trabalhar, fui parar na velha escolinha de datilografia da professora Joana D´arc e comecei a paquerar aquelas máquinas, que ficavam “cheias de dedos” comigo. Não fui um aluno aplicado, e o pior: meu primeiro emprego acabou sendo atrás de um balcão vendendo parafusos e andando de bicicleta para fazer cobranças, o que me levou a não treinar o pouco que havia aprendido. Hoje não passo de um “dedógrafo”.
Quando ingressei no jornalismo como repórter da Rádio Rural, em 1984, minha paixão com a tecnologia se renovava. Voltei a me relacionar com as máquinas, por dever de ofício. Me apaixonei por uma Olivetti Lettera 32, minha companheira diária. Isso, sem contar com todas as parafernálias do estúdio (microfones, gravadores e rádios, todas de marcas estrangeiras), além do inseparável comunicador BTP Motorola para os famosos flashes ao vivo. Voltava a respirar tecnologia!
Mas voltando ao relato inicial, creio que nestes tempos hodiernos (adoro dessa palavra) viver sem tecnologia parece um absurdo. Dia desses, assistindo um documentário no Discovery Channel, fiquei impressionado com o avanço da nanotecnologia e sua importância para o homem do futuro. A matéria mostrava experiências com cápsulas contendo um pequeno chip que, introduzidas no corpo humano por via oral, poderão facilitar uma verdadeira viagem no interior do corpo humano para rastreamento e cura de determinadas doenças, algo como o que já havia visto num antigo filme de ficção científica, “Viagem Fantástica” (de 1966, com Arthur Kennedy e com o remake mais pro lado da comédia, “Viagem Insólita” de 1987, com Dennis Quaid e Meg Ryan), onde um submarino miniaturizado penetrava na corrente sangüínea de um cientista com a missão de alcançar seu cérebro e dissolver um coágulo que ameaçava sua vida!
Fico imaginando que não deve demorar muito para que produções ficcionistas do cinema e da TV se tornem realidade. Quando garoto, era fissurado pelo “Homem de Seis Bilhões de Dólares”, uma série da TV sobre um astronauta que perdia partes de seu corpo numa viagem ao espaço, sendo estas substituídas por mecanismos que o tornaram um quase-andróide. Creio que essa idéia inspirou também, o famoso “Robocop, o policial do futuro” dos anos 1980.
Quem sabe eu poderia ser cobaia de uma experiência como essa? Imaginem a notícia dada por um destes tablóides sensacionalistas:
A incrível história do homem-chip.
Um jornalista depois de assaltado perde seu celular. Dias depois seu computador pifa e, desconectado do mundo não atualiza seu Blog, seu Orkut, seu Flog, nem tampouco lê ou recebe e-mails.! O homem passa a ser ridicularizado por todos, que o apedrejam com celulares quebrados, controles remotos com defeito e máquinas digitais já sem uso (“Joga bytes na Geni”, eles cantam). Humilhado, o homem vive ao relento, dormindo entre monitores queimados e teclados já sem uso. Alimenta-se de mouses e pilhas sem bateria. Vaga pelas ruas da cidade implorando uma esmola: - Um cartão telefônico, pelo amor de Deus!
Um revolucionário padre, dirigente da ONG Finda - Frente de Inclusão Digital da Amazônia, recruta o indigente e o leva a um laboratório onde será usado para uma experiência única: tornar-se o homem-chip para liderar o MST – Movimento dos Sem-Tecnologia!
No lugar dos olhos e da boca, uma webcam 350k pixels USB com microfone embutido; As orelhas viram potentes caixinhas de som 5.1, surround; os cabelos são mini-antenas; e no cérebro um potente chip de silício com capacidade para dezenas de Wektabytes de memória RAM! Com toda essa potência, ele passa a insuflar as massas e organizar assentamentos tecnológicos, invadindo estações de TV e provedores de internet. Celulares serão expropriados da burguesia. Televisores virarão reféns dos “indigitalizados”. O caos tecnológico será instalado e...
Voltando à realidade, tal qual o homem-peixe, o homem-chip ainda não existe. Mas quem sabe um dia se materialize? Até lá, terei que me contentar em ser apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, como diria o velho sábio Belchior.
Alguém me empresta um cartão telefônico, ai?
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

5 comentários:

Carline :) disse...

Adorei o "Joga bytes na Geni"! Sensacional hehehe

Nesta semana, que tal a gente marcar com a Danni uma Cerpinha no arraial da Nossa Senhora da Conceição?

Anônimo disse...

Você é mesmo um paspalhão. Lá quero saber se não tem condição de comprar um celular, ou se não consegue emagrecer. Você é um ser desprezível e dispensável à humanidade. Não sei nem porque perco meu tempo enviando esta mensagem. Mas tudo bem. Além de metido a filosofo, não passa de um bobão, desses gordos nerd's que não têm nada o que fazer ou contribuir com esta pobre e medíocre sociedade santarena e passa o tempo escrevendo artigos e pensatas, é assim que vocês chamam esse lixo, que nãi influenciam em nada na vida dessa gente. Pensa nisso e toma um chá de simancol, dublê infeliz de fiolósofo grego.

Anônimo disse...

Ninos, parabéns pela sua incrível criatividade em transformar as coisas do cotidiano em belos textos, gostosos de ler.
A propósito: cartão telefônico é coisa do passado! rsssss.
Brincadeirinha.
Eu também fico a imaginar que daqui a pouco, seremos engolidos pela tecnologia!
Abraços,

Cleuma Lima

Thiago mendes disse...

Interessante seu texto, mas acredito que hoje em dia mesmo com o avanço da conectividade entre as pessoas através do celular, é uma opção de cada um tê-lo ou não. Isso vai de encontro ao estilo de vida que a pessoa procura ter.

cleide disse...

Oii jota ninos sou filha do AVELINO RIBEIRO DA SILVA e gostaria muito de entrar em contato com voce li a historia onde vc fala da vida de meu pai .........

li a letra da musica fiquei muito emocionada ! em saber que vc esteve com ele ! hj moro em IGARAPAVA,SP
tenho contato com os ganzer por email aguardoo seu contato vou mandar os email de todas minha irmã DOGLACI2006@HOTMAIL.COM , MARLENE.SILV@TERRA.COM.BR E ARIANNESOUSA@HOTMAIL.COM NOSSOS NOMES São CLEIDE RIBEIRO DA SILVA
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