domingo, 2 de setembro de 2007

A volta do Bazar Brasileiro

Neste domingo tenho um encontro com o passado. Estarei retornando aos estúdios da Rádio Rural, à noite, no comando do programa cultural que criei há 22 anos juntamente com o grande amigo Dornélio Silva (foto abaixo à esquerda).
Bazar Brasileiro foi um espaço cultural importante no rádio santareno na década de 1980. Era um programa dominical com 5 horas de duração nas noites de domingo, que abria espaço para a cultura regional com música de qualidade, entrevistas com artistas da terra, poesias e muita informação. Era uma época sem internet e com muito idealismo.
A idéia do programa surgiu depois de uma conversa com o Jota Parente (foto abaixo à direita), diretor de programação da Rádio Rural àquela época. Eu já havia consolidado a carreira de repórter depois daquela estréia atabalhoada, e resolvi apostar minhas fichas num programa de rádio diferente.
Santarém vivia um momento de efervescência cultural com a criação das secretarias de cultura, estadual e municipal. Era uma época de realização de festivais de música, semanas de poesia e de um crescente movimento teatral e folclórico. Faltava um programa de rádio que abrisse espaço para essa cultura.
No final de 1984 havia um programa na Rádio Rural, aos sábados, chamado “Canta Brasil” que era apresentado pelo Jota Parente. Eu adorava o programa que ele fazia por idealismo, destacando músicas da MPB com pequenos comentários sobre sua importância no contexto musical. Mas as várias ocupações de Parente o fizeram desistir de continuar produzindo o programa. Fui até ele e me dispus a continuar o programa. Parente gostou de ver que um jovem de 22 anos gostava de MPB e se dispunha a produzir um programa sem patrocinador, num horário esquecido aos sábados e me deu crédito, liberando o programa para mim.
E foi minha primeira experiência como locutor de rádio (no jornalismo, minha participação era como repórter e redator). Gostei da coisa e resolvi ousar mais. Alguns meses depois procurei o Parente e pedi para ocupar o horário da noite de domingo, que não tinha um programa específico. Quando terminava a jornada esportiva aos domingos, o sonoplasta do horário ficava rodando uns LPs da Rádio Neederland (da Holanda, parceira internacional da Rural) com um programa enlatado que tinha músicas clássicas. Era um horário morto, desperdiçado. Só um louco como eu para querer ressuscitá-lo.
Apresentei a idéia de um programa cultural com entrevistas ao vivo de artistas locais, música de qualidade, informação e humor. Imaginei fazer um programa diferente em que eu pudesse conversar com os ouvintes, que acreditávamos serem em sua maioria do interior. Inspirado no estilo do programa Som Brasil apresentado pelo Rolando Boldrin na TV Globo (foto à esquerda), a proposta do programa era estabelecer um diálogo como se o locutor estivesse num balcão de uma mercearia atendendo seus "clientes". Aí vi a capa de um disco do Moraes Moreira (foto abaixo, à direita) lançado àquela época e adotei o nome do LP: Bazar Brasileiro. Tinha tudo a ver.
Enquanto eu discutia o programa com o Parente, Dornélio Silva tinha tido a mesma idéia de usar o mesmo horário, mas sem uma proposta definida e conversava com o gerente da Rural, Eduardo dos Anjos. Quando Parente e Eduardo se encontraram souberam das propostas dos dois lados e propuseram que nós dois trabalhássemos juntos na proposta. Como nossa relação pessoal era boa a simbiose foi perfeita e nascia um programa gostoso de fazer e de ouvir. Eu era a emoção e Dornélio a razão. Dupla imbatível.
Entre 1985 e 1988, apresentamos mais de 150 programas sempre aos domingos de sete à meia-noite! Entrevistamos quase todos os artistas locais e alguns nacionais que passavam por aqui para algum show. Mantivemos no ar a apresentação de poesias que nos eram enviadas por gente simples do interior e comentávamos as notícias do Fantástico (Globo) que assistíamos num televisor no estúdio, além de destacarmos as informações do jornais dominicais que circulavam em Santarém (O Liberal, Diário do Pará e A Província do Pará).
Em 1988, Dornélio voltou à Belém e eu fui morar na Grécia. O movimento cultural na cidade não queria perder o espaço e a Rural deu um jeito de manter o programa no ar com a mesma filosofia. Muita gente boa passou por lá comandando o Bazar Brasileiro, que saiu do ar em 1993! Eduardo dos Anjos, Jair Pedroso, João Otaviano Mattos, Anselmo Colares e Jérter Resende, foram alguns dos “sócios” do Bazar Brasileiro nesse período.

O desafio agora é retornar com o programa repaginado, numa época em que a internet faz parte de nossa vida e a cultura regional vive um momento de decadência. Para essa empreitada convidei o amigo Ormano Sousa, jornalista e professor (na foto acima, ao meu lado, nos estúdios da Rural), que foi um fã do programa à época e agora terá a chance de produzi-lo e apresentá-lo comigo. O horário já não será de 5 horas de programação, pois a Rádio Rural encerra sua programação dominical às 9 da noite, mas no acordo que tivemos com o diretor da emissora, padre Edilberto Sena, dependendo da resposta do público e do patrocínio que pretendemos buscar, podemos “esticar” o horário da rádio se for necessário.
Hoje à noite, na estréia, vamos apresentar a proposta do programa, que pretende entre outras coisas, resgatar o imaginário cultural da região, através de um concurso de "causos", abrindo espaço para que pessoas do interior e da cidade contem histórias e lendas de suas localidades. Para hoje, estamos tentando levar ao estúdio, nada mais nada menos do que Renato Teixeira (foto) o autor de “Romaria” que está em Santarém para encerrar a Feira da Cultura Popular na praça de São Sebastião. Se não for possível a presença dele ao vivo, já acertamos pelo menos uma entrevista gravada com o compositor paulista que está comemorando 40 anos de carreira.
Convido todos a sintonizar, hoje, o Bazar Brasileiro, às 19h30, na Rádio Rural, logo após a jornada esportiva. E quem estiver fora da cidade e não conseguir sintonizar pelo rádio, pode ouvir o programa na internet acessando este link: http://radiorural.v10.com.br/

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Poesia

Meus poucos e fiéis leitores dão uma forcinha comentando minhas crônicas aqui no Blog. Na última crônica vários deles mandaram suas impressões, alguns por e-mail e outros na minha página do Orkut.
Uma das que mais me chamou a atenção foi de um ex-colega do curso de Letras da Ufpa., poeta de mão cheia, Hamilton Fernandes (na foto com uma boina das que eu também gosto de usar), que hoje reside em Macapá e que de lá enviou uma linda poesia que reproduzo neste espaço:
Velho cais


O vento nas vagas

Vaga

Sem rumo

Seu retorno é anunciado

Pelo cheiro de maresia

Que exala nos cascos das

Embarcações

Aportadas no velho cais

Onde as ilusões embarcam

Para a viagem sem retorno

Velho cais

Quantas recordações

Trazes a este marinheiro

De viagem sem fim

Que sequer marinheiro é

Apenas sonhador

E por isso mesmo

Marinheiro-mor

Capitão de longo-curso,

Eterno curso, diria eu,

No eterno sonho

Eterna poesia

Sonhar de viagem sem fim

Onde o retorno do vento

É anunciado

Pelo cheiro de maresia

No velho cais das embarcações...


Stm, 05/01/2000


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Hamilton promete enviar, também, contos que produziu para o meu/nosso deleite. Tô esperando Hamilton!

terça-feira, 28 de agosto de 2007

INCOMPETENTES!

Essa é a manchete do principal jornal grego, o ELEFTEROTYPIA (Imprensa Livre), que leio na internet e que fala sobre a situação dramática que o povo grego vive, diante do incontrolável incêndio que já ameaça as ruínas da cidade de Olympia (na foto, uma estátua cercada de fogo), onde foram realizadas as primeiras olimpíadas pelos gregos da antigüidade.
A foto de satélite abaixo, mostra a extensão da fumaça cobrindo grande parte do território grego.

O governo do primeiro-ministro Kostas Karamanlis, do partido Nova Democracia (o Democratas de lá) é acusado de incompetente pela imprensa grega. Ele decretou estado de emergência e às vésperas de uma nova eleição nacional e corre o risco de ver sua candidatura à reeleição queimada no incêndio nacional.
Meu pai está morando lá, mas ainda não consegui contato com ele para saber mais detalhes.
O desespero toma conta do povo grego.

Uma estréia digna de um repórter atrapalhado (*)

Recebi a provocação de um leitor anônimo, através de carinhoso e-mail, pedindo que eu conte como foi minha estréia na Rádio Rural de Santarém, há 23 anos. Acho que esse anônimo sabe das coisas... E porque esconder?

Maio de 1984. O departamento de jornalismo da poderosa Rádio Rural precisava contratar um novo repórter. Um ex-seminarista nascido na vila de Cucurunã, o hoje bem sucedido publicitário Dornélio Silva, havia retornado há pouco tempo para sua cidade natal com um projeto de criar pintos, mas não deu certo: os pintos de Dornélio morreram (ele vai odiar isso...) e acabou indo trabalhar na Catequese Rural onde mantinha vínculos com os movimentos sociais. Dornélio teve a idéia de tentar indicar alguém que estivesse atuando nesse movimento, mas não conhecia ninguém pessoalmente.

Ele foi à uma das infindáveis reuniões de um desses grupos e perguntou: “Vocês não têm alguém que atue no movimento, que seja meio doido e saiba escrever alguma coisa para ser indicado e disputar uma vaga de repórter na Rural?”. Os líderes sindicais, em uníssono (num êxtase coletivo), gritaram: “Jota Ninos!” Não sei se era amor por minha performance como militante, pelo meu estilo aguerrido ou simplesmente para me ver pelas costas. Mal eles sabiam que ali nascia um repórter!

Eu era o cara que andava sempre de gravador, caneta e papel na mão, ou escrevendo atas ou gravando conversas. Uma memória ambulante que tinha sua utilidade no registro do movimento popular em panfletos, boletins e outros materiais impressos. Além disso, já vinha gravando semanalmente o programa de rádio Momento Sindical, do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, na Rádio Rural. Ao meu lado a também futura jornalista (e hoje diretora do Ideflor) Raimunda Monteiro, a eterna Raimundinha.


Naquele tempo eu tinha também uma barulhenta Mobylette Caloi prateada, motoneta precursora das scooters de hoje e que eu vivia empurrando nos areiões da periferia. Corpo esquálido (com uma protuberante barriguinha), óculos de John Lennon e cabelo idem, sandálias de dedo, calça jeans surrada e uma velha mochila fedorenta cheia de papel velho. Em suma, era um lixo ambulante se achando revolucionário!

Recebi a notícia com entusiasmo. Três dias depois lá estava eu me apresentando ao futuro chefe, Eriberto Santos. Ao chegar na rádio passei pelos estúdios onde tocava uma música que fazia sucesso naquela época, do Genival Lacerda: “mata o véio, mata o véio...” Torci o nariz. Soube então, que disputaria a vaga com outro candidato que apareceu por lá. Eriberto, solenemente, mas com aquele eterno sorriso de seresteiro, nos deu duas pautas diferentes.


Eu deveria entrevistar o novo coordenador da regional da Sespa que funcionava àquela época na avenida Barão do Rio Branco, onde hoje se compra vale-transporte. Em seguida, uma esticada ao Mercado Modelo (o Mercadão, naquela época, não existia) para saber como estava o preço do peixe, e por último, uma passagem na emergência do Sesp e na Delegacia de Polícia. Pautas corriqueiras de qualquer “foca”...
“Quem chegar primeiro, ganha a vaga”, disse meu editor. Saímos os dois candidatos chispando e ouvimos atrás de nós gargalhadas abafadas de radialistas que faziam apostas de quem desistiria primeiro...


Logo na primeira parada o primeiro chá de cadeira. A ilustre autoridade (nem me recordo quem era) me deixou plantado um bom tempo, esperando. Desesperado, olhava os minutos passarem e achei que se continuasse ali meu adversário acabaria chegando primeiro nas fontes de notícia e tchau emprego! Comecei a pensar com meus botões: será que foi uma cilada daquele editor para favorecer o outro? Era uma época em que todo revolucionário petista era paranóico e vivia pensando que o mundo estava contra si (cá pra nós, isso não mudou muito nos dias de hoje entre psois e pstus...).

Decidi me rebelar contra a pauta. “Vou ali e volto”, disse à solícita secretária. Olhei o relógio e vi que tinha pouco tempo para voltar à redação. As palavras de Eriberto ecoavam em minha cabeça: “Quem chegar primeiro, ganha a vaga.” Eu não podia perder a chance.


Em desembalada carreira montei minha possante Monareta e desci a Barão em direção à praça da Matriz, com intenção de dobrar no Cine Olympia e chegar ao Mercado Modelo (esse era o trajeto na época). Ia pensando: “como vou perguntar sobre peixes, se mal os conheço?”. Se Eriberto tivesse me pedido uma pauta sobre reuniões de sindicatos, eu daria um show. E continuei pensando, monareta na banguela, “como é mesmo o nome daquele peixe que o Eriberto disse, Jara...”

- Quiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii... A freada não conseguiu parar a motoneta. Por trás da matriz, dei de cara com um velhinho atravessando a rua. Ele caiu prum lado eu pro outro e a monareta na parede da igreja!

O choque no meio da rua. Carros páram, mulheres gritam. “Socorre o velhinho!”, disse uma beata. “Motoqueiro assassino!”, condenou a outra. Joelho ralado, calça rasgada, motoneta avariada e o velhinho caído no asfalto de cara no chão. A turba já pensa em me agredir. Vejo dois radialistas chegando ao local para dar o “furo”. Gérson Gregório e Bena Santana, que mal sabiam que estavam frente a um futuro colega, registravam a cena. Escutei a narrativa para o programa do Edinaldo Mota: “Motoqueiro irresponsável pode ter matado um velhinho aqui próximo à Matriz!”. Minha primeira notícia na rádio era eu mesmo!!!

Meio choroso olhava atônito a cena sem saber o que fazer, até levar um safanão de um homem-armário. “Levanta, guri. Socorre o velho, tchê!” O gaúcho me puxou o braço e quase ficou com ele nas mãos... Cheguei próximo do velhinho e ele respirava. Com a ajuda do gaúcho coloquei o velhinho na carroceria de sua picape e só tive tempo de dizer a uma funcionária da Matriz: “Cuide da minha moto!”. Ela balançou a cabeça positivamente, enquanto Bena Santana entrevistava os transeuntes.


Chego à emergência do Sesp. O velhinho é socorrido e passa bem. Continuo choroso. O gaúcho foi embora. O médico me consola, mas ao mesmo tempo me assusta. “É bom você ir registrar o caso na delegacia, vai que o velho morre...” Desabo em prantos, mas logo me refaço. Aproveito e pergunto como está o plantão. “Tirando esse acidente, tudo normal”, diz o plantonista. Na delegacia prefiro não registrar minha ocorrência e perder um tempo precioso. “Depois eu faço”, pensei. Precisava acreditar que tudo acabaria bem. Anoto alguns roubos de galinha e sigo em frente. Ouço quando um policial chega e diz: “Parece que um motoqueiro matou um velhinho lá na matriz!”. O delegado me olha e diz: “Jornalista, mete pau nesses malucos!”. “Xa’comigo, delega!”, digo eu todo íntimo, quase me borrando nas calças.

Pego um ônibus e desço até a regional da Sespa. Sou recebido pelo diretor. O joelho dói, o coração apertado, mas não posso perder o emprego. “Cuidado ao sair amigo, tem um motoqueiro maluco matando gente aí na Barão”!, me informa o médico. Quase mostro-lhe um cotoco, mas dou um sorriso amarelo e saio.

Volto à Matriz, agradeço a gentil senhora e pego o que sobrou da Monareta e sigo ao Mercado Modelo, aos trancos e barrancos. O Pirarucu continua caro. Melhor preço é o Acari. O joelho continua doendo. Sinto que vou desmaiar. A motoneta, já fumegando, me leva até à Rural que funcionava onde hoje é a entrada da TV Vida, na travessa dos Mártires. Entrego as reportagens ao Eriberto. Minhas pernas tremem. Vejo que o tempo marcado já extrapolou e tento explicar.

“Mas fostes tu a notícia do dia?”, diz Eriberto em gargalhada. “E o emprego?”, pergunto, já variando. “Perdi a vaga pro meu concorrente?”. Eriberto, com o olhar terno, arremata: “a vaga é tua cara, o outro desistiu e você apesar de passar por um acidente ainda trouxe todas as pautas. Parabéns, colega!”.


Meu batismo no jornalismo foi assim: com sangue, suor e lágrimas. O velhinho ficou bem e até ficamos amigos. Mas tive que suportar meus colegas de rádio me torturarem por vários meses com uma musiquinha que passou a ser meu prefixo, no início de carreira, por obra e graça de Edinaldo Mota que me apelidou de “repórter mata o véio”!


E haja Genival Lacerda, antes das notícias policiais...

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(*) Artigo inserido hoje em minha coluna semanal Perípatos, publicada no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará. A charge (mal feita) é uma montagem grosseira feita por mim sobre desenho anônimo obtido na internet.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Retorno

Depois de mais de 20 dias sem postar neste blog, resolvi aloprar: vão abaixo as três últimas crônicas que escrevi no Diário do Tapajós.
Este blog é assim, vai e vem, invade seu espaço sem pedir licença. Te excita, some e ressuscita.
Mas os meus poucos (e fiéis) leitores compreendem...
Deliciem-se, principalmente pela história de minha "prisão política"...

O “preso político” e o “ladrão de estimação”

Sabe aquela frase: “nem tudo é como parece ser”? O título dessa crônica cheio de aspas ilustra exatamente isso. Cada vez mais a gente vive de aparências no mundo de hoje e muitas vezes aquilo que imaginamos sobre alguém, pode não ser a realidade.
Pensando nisso lembrei de um fato ocorrido comigo quando tinha 18 anos (faz tempo...) e como quase virei notícia nacional por conta de um mal entendido...
Naquela época tinha decidido sair de casa e trabalhar por conta própria. Virei comerciário, balconista de uma loja de ferragens em Santarém. Com um salário em cruzeiros e inflação galopante era uma verdadeira aventura arriscar tal manobra, deixando o conforto da casa do papai. Mas para alugar uma casa, não poderia fazê-lo sem ter parcerias.
Juntei-me a dois colegas também comerciários, Edval Borges e João Batista Vieira. O primeiro vive hoje em Macapá e o segundo chegou a ser presidente do Sindicato dos Comerciários e atualmente é chefe de tributação da Prefeitura Municipal de Santarém. Naquela época, nós três participávamos do movimento sindical. Eu já era um militante com grande experiência, apesar da pouca idade, e integrava grupos de direção do sindicato e do PT.
Fizemos nossa pequena “república” num casebre de madeira no bairro do Santíssimo. Achamos que tínhamos feito um negócio da China, pois o aluguel era barato e o terreno era enorme: a frente ficava numa rua e os fundos davam em outra rua paralela.
Como passávamos o dia no trabalho nossa casa vivia desprotegida, mas nas primeiras semanas nada de anormal ocorria. Até o dia em que resolvemos dar uma utilidade ao vasto quintal: desmatamos e o transformamos numa bela área para jogar voleibol. Era época da seleção de prata de Bernardinho (hoje, técnico campeão) e Bernardo (o homem do saque “jornada nas estrelas”). Compramos bola, rede e convidamos uma turma de vizinhos para estrear nossa quadra.
A farra acabou se tornando semanal. Todos os domingos, vinha gente de vários cantos do bairro jogar em nossa quadra. E eu, apesar da agenda cheia de tantas reuniões, participava dos jogos e até arriscava dar saques à la Bernardinho, que quase sempre acabavam do outro lado da rua ou no quintal do vizinho... Como esportista eu era um excelente militante da causa operária...
Aliás, nessa época vivíamos momentos de tensão no movimento sindical. Havia ocorrido a morte de um sindicalista rural e eu fazia parte de um comitê que buscava resgatar a memória dele.
Mas aí, começou a ocorrer o inusitado em nossa casa. Todo dia, ao retornar do trabalho, notávamos que alguma coisa sumira de nossa casa sem que houvesse qualquer sinal de arrombamento. Um dia era uma roupa, outro dia um sapato e assim por diante. Constatamos que tínhamos agora um “ladrão de estimação”, que nos visitava enquanto trabalhávamos e nos furtava objetos que tínhamos comprado com nosso suado salário. Não cabia nenhum discurso marxista sobre mais-valia ou exploração do proletariado. O fato é que estávamos perdendo literalmente as calças! Provavelmente, nosso “ladrão de estimação” sabia que passávamos o dia fora de casa e talvez fosse um dos nossos “jogadores” de final de semana.
Os roubos foram crescendo em valor. Foi-se a bola de vôlei, a rede, e até minha velha vitrola de discos, estilo pasta 007! Precisávamos estancar a sangria. Pedimos a uma vizinha que ficasse “de moita” e nos avisasse caso notasse qualquer invasão.
Esse dia chegou. Estávamos no trabalho, quando a vizinha disse que nosso “ladrão de estimação” acabara de atacar. Decidimos que eu deveria pedir licença para resolver o problema. Peguei um táxi e fui até em casa. A vizinha disse que viu um garoto levantando uma telha de zinco e saindo com outra rede e bola de vôlei que acabáramos de comprar! E disse mais: era um dos meninos que jogava no terreno e morava numa casa na rua de trás. Já era até conhecido por praticar outros furtos na vizinhança.
Corri até à praça do Santíssimo onde havia um PM-Box. Expliquei aos policiais e pedi ajuda. Eles me convidaram a seguir no carro e indicar a casa de nosso “ladrão de estimação”. Entrei sem pensar que aquele ato poderia causar qualquer barulho. Sentei entre os dois policiais e seguimos até o endereço. No caminho, vi um conhecido que era líder de uma associação de moradores e militante de um sindicato. Acenei para ele com um leve sorriso, sem me dar conta do que isso geraria a maior confusão.
Ao chegar na casa do “ladrão de estimação”, ele estava sentado no muro. Ao ver o carro deu “bandeira”, saiu correndo e acabou preso. Ele ainda tinha em mãos os objetos roubados, que me foram devolvidos. Fui com ele no carro da PM até à delegacia da Interventoria (onde hoje funciona a Funcap), para o registro da ocorrência. Chegando à delegacia, vi na rua outro companheiro de luta que também participava de movimentos sociais. Também acenei, com um leve sorriso.
Saí feliz por ter recuperado os objetos e voltei pra casa, devidamente escoltado pela PM. Ao chegar lá, qual a minha surpresa: uma multidão de militantes do movimento já fechava a rua, com faixas e cartazes. Entre eles, os dois que haviam me visto no carro!
Os vizinhos, atônitos, não entendiam nada. Eu me dei conta então de que a rede de informações do movimento tinha agido rapidamente, a partir da informação precipitada dos dois colegas que me viram no carro da PM! Tinha virado um “preso político!


Entidades sindicais de todo o país já começavam a ser informadas da possível prisão de um “valoroso companheiro sindicalista comerciário”. Quem sabe até o companheiro Lula faria menção ao meu caso durante as manifestações de metalúrgicos que aconteciam em São Bernardo! A Anistia Internacional talvez já estivesse recolhendo assinaturas nas ruas de Londres pela “liberação imediata de um líder sindical da América Latina”. Até Lech Walesa, líder do Solidarnósc, na Polônia, prestava solidariedade a um “companheiro de luta que como eu, vive o dissabor de estar preso por sua militância pela liberdade dos trabalhadores”. Já estava sendo organizado inclusive um “Movimento Nacional pela Liberdade de Jota Ninos”!
Os manifestantes gritavam meu nome com ênfase e os PMs se entreolhavam sem saber o que acontecia. “São todos jogadores de vôlei da sua quadra?”, perguntou-me o soldado incrédulo. “Puxa, o campeonato de vocês deve ser famoso no bairro”, completou o sargento ao lado dele.
Com o sorriso amarelo, saí do carro e levantei as mãos na tentativa de esclarecer o mal entendido. A turba foi ao delírio: “Viva o Jota, ele é um patriota!”. Um companheiro, de óculos, pasta preta e camisa de mangas se aproxima e diz que é advogado. Havia sido contratado para me defender contra a “opressão do regime militar”. Me puxa de lado e fala em tom áspero aos PM: “Tenho direito de falar com meu cliente!”. Os PMs se entreolham sem entender.
De repente sou carregado pela multidão enquanto hinos são entoados, sem que tenha tempo de explicar o ocorrido. Jovens estudantes de braços dados cantam “Há soldados armados, amados ou não!(...)”. Vandré era o apropriado para aquela situação.
Um dos líderes do movimento levanta os braços e decreta: “vamos ouvir o companheiro Jota!”. Entre aplausos e um sorriso amarelo, tento explicar o imbróglio quando o soldado da PM me entrega a bola e a rede, dizendo: “Gostei do clima da sua turma, convida a gente para um próximo jogo. Eu saco igual ao Bernardinho...”
O carro saiu enquanto os companheiros apupavam “Covardes! Covardes!”. Todos me abraçavam, cumprimentando-me pela coragem de enfrentar “a repressão policial do regime militar”!
Imaginem a decepção depois que contei o que havia acontecido... Tive meu dia de “preso político”, sem nunca ter sido...

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(*) Artigo inserido no dia 07.08.2007, em minha coluna semanal Perípatos, publicada no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.
A fotomontagem (mal feita) é de minha autoria sobre caricatura de Don Tonino.

Paradigmas de ouro contra a mediocridade esportiva

Vou chover no molhado. Dizer o que outros – mais experientes do que eu no assunto – andam dizendo por aí depois de um pan-americano que deixou lições para quem dirige o esporte brasileiro.
O recado não é só para cartolas e técnicos, mas principalmente para os políticos que contaminam a eterna fonte de amadurecimento dos jovens, a prática esportiva, com a mesquinharia do cotidiano de corrupções quando desviam verbas que serviriam para construir quadras polivalentes e as transformam em piscinas de suas mansões.
Não há uma receita mágica para se chegar a uma performance como a dos países que lideram a disputa de medalhas em quase todos os pans: os capitalistas americanos e os comunistas cubanos usam praticamente das mesmas armas, já que o esporte faz parte da vida dos jovens dos dois países desde a infância. É política de governo, não lição de vida individual.
Já no caso brasileiro, sempre que um atleta chega ao podium é sempre o mesmo drama: “esta é a vitória de um atleta que vivia num subúrbio miserável ou numa comunidade rural longínqua, que não tinha nenhum tênis para praticar o esporte que mais amava, mas que lutou, perseverou e agora ganhou uma medalha”. Quantas vezes vimos a mesma narrativa dos locutores? Porque tem que ser sempre assim?
Aqui, a especulação imobiliária de um capitalismo selvagem, dita o crescimento desordenado das cidades, expulsando os campinhos de periferias. As escolas sem quadras, professores sem estímulo. No interior, a situação piora já que não existe sequer uma reforma agrária digna do nome para que as famílias possam se fixar, produzir e evoluir nas comunidades rurais. O que dizer dos jovens que herdam o trabalho escravo das lavouras sem poder sonhar ao menos com uma escola?
Saindo das considerações genéricas vou ao mais trivial dos esportes, o nosso futebol. Vimos num estádio lotado as meninas do Brasil dando show de futebol de campo, sem que haja sequer um campeonato nacional de respeito!
Aquele time teria feito uma campanha melhor que os ridículos jogadores da eterna Era Dunga! Essa era do futebol, pra quem não sabe, começou depois que a seleção de Telê falhou apesar de jogar bonito em 1982 e 1986. Aí chegou um tal de Lazzaroni e sacramentou que o negócio era jogar retrancado para ganhar a Copa de 1990 na Itália, com o “xerife” Dunga. Perdeu e o futebol brasileiro nunca mais foi o mesmo...
É verdade que ganhamos a Copa de 94, num horroroso empate e porque o craque italiano não era o Paolo Rossi de 82, e sim o Baggio, que chutou na trave!
Em 2002, conseguimos recuperar um pouco de nossa auto-estima depois do fiasco de 98 na França, mas foi só chegar 2006 e descobrimos que a Era Dunga não havia acabado. Pelo contrário, estava só começando... E a CBF nos brinda com quem? Ele mesmo, Dunga, o todo-poderoso!
Ganhamos da Argentina na Copa América e todo mundo logo esqueceu o futebol medíocre que jogamos. Esse é o nosso problema: temos memória muito curta.
Ah! se tivéssemos umas 11 Martas para colocar no lugar de preguiçosos Loves, Maicons e outros bagres que nos sobraram na “selecinha”!..
Marta (foto) é um nome que cito como símbolo de um grupo, pois o que vimos foi um futebol bonito como nos tempos de Pelé, em que a bola era tratada com mais carinho. O próprio “Rei” disse que ela é o “Pelé de saias” (o Édson não podia deixar de fazer o seu marketing, entende?).
Eu poderia analisar cada um dos exemplos surgidos de tanta gente desconhecida que nos brindou com medalhas e uma campanha inesquecível no Pan, mas o resultado seria o mesmo: precisamos fazer com que o esporte não seja um sonho que cada um individualmente busca alcançar.
O esporte tem que ser uma realidade de um trabalho coletivo, a ponto de que um dia o desportista possa chegar ao podium e ao invés de agradecer primeiro a Deus e depois ao seus pais, possa dizer: “agradeço ao meu país por ter me dado a chance de erguer esta bandeira e ganhar esta medalha!” Que possamos fazer do paradigma de ouro desse Pan, algo que transforme a mediocridade esportiva do país.
Patriotismo não é chorar pela bandeira que sobe só em época de Copa ou de jogos olímpicos. Patriotismo é poder ter orgulho de um país que está sempre presente, velando pelo futuro de seus filhos.
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(*) Artigo inserido no dia 31.07.2007, em minha coluna semanal Perípatos, publicada no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

Narciso acha feio o que não é espelho

A frase do título, para quem entende de música brasileira, é uma das mais bonitas da obra Sampa, de Caetano Veloso, o baiano que melhor descreveu São Paulo. Ela surge como constatação aos versos: “Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto/ Chamei de mau gosto o que vi de mau gosto, mau gosto” e é a mais pura tradução do Narcisismo, um dos termos freudianos para explicar características do ser humano em relação a condição mórbida do indivíduo que tem interesse exagerado pelo próprio corpo.
O termo narcisismo, de Freud, tem suas origens numa das mais belas e tristes lendas da mitologia grega e surgiu provavelmente da superstição grega segundo a qual contemplar a própria imagem prenunciava má sorte. Narciso era um belo jovem, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope e ao nascer, o adivinho Tirésias profetizou que ele teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura. Indiferente aos sentimentos alheios, Narciso desprezou o amor de várias mulheres, entre elas a ninfa Eco. Seu egoísmo provocou o castigo dos deuses: um dia, ao observar o reflexo de seu rosto nas águas de uma fonte, apaixonou-se pela própria imagem e ficou a contemplá-la até morrer e em seu lugar surgiu a flor conhecida pelo seu nome.
Podemos concluir que vivemos hoje na Era de Narciso.
Desde a década de 1980, o culto ao corpo da chamada Geração Saúde e a programação televisiva enfatizando cada vez mais a necessidade de esculpir uma beleza estética em detrimento de uma harmonia entre corpo e mente contribuiu com a construção desse imaginário. A ditadura da beleza de Xuxas e morenas e loiras do Tchan, esculpiu ainda mais, desde a infância, a necessidade por um padrão estético que nos diferencie dos demais. Uma diferença construída a partir de um modelo único. Acaba-se aderindo à modas e perde-se a individualidade.
Academias abarrotadas, disputas nas vitrines pelas roupas da moda e está implantada a ditadura visual. A juventude já não se preocupa com o intelecto. Basta que as “minas” sejam gatas e os “manos” sejam “sarados”.
O Narcisismo toma conta do dia-a-dia e programas como os Big Brothers da vida, só ajudam a insuflar a necessidade do espelho. A tecnologia das câmeras digitais e dos flogs na internet, contribuem ainda mais na popularização desse culto à imagem.
Um celular na mão e nenhuma idéia na cabeça. Essa é imagem contra-parafraseada à versão glauberiana. Hoje basta um aparelhinho destes para que estejamos sempre batendo fotos, de preferência de nós mesmos. É só fazer um passeio em qualquer lugar público e constatar de que 11 em 10 grupos de jovens não vivem sem isso.
Tudo isso de que falo pode parecer apenas a frustração de um ogro, cuja imagem nem cabe numa telinha... Na verdade, convivi com uma geração que não se preocupava tanto com a estética da imagem, e sim com a estética das palavras. Para isso, bastando ler. Qualquer coisa, de bula de remédio a dicionário do Aurélio.
Há quem diga que uma imagem vale mais que mil palavras. Depende muito do que se quer dizer com a imagem. Se ela está no contexto de um texto sim. Mas a imagem pela imagem é um desperdício.
Essa ditadura estética da vaidade acaba abalando até mesmo quem deveria conviver harmonicamente com os efeitos da natureza. Envelhecer virou sinônimo de morrer em vida. Daí, a beleza e a jovialidade passa a ser medida pela quantidade de silicone, ou para quem não tem dinheiro, pela quantidade de enchimentos em roupas!
Nas lojas, as “desbundadas” podem encontrar inclusive enchimentos para os glúteos! Estão nos roubando até a possibilidade de adorar uma beleza natural, já que às vezes podemos estar admirando um belo par de silicones ou um enchimento de nylon.
Entretanto, o que há de mais no corpo, às vezes tem de menos na cabeça.
Daí a existência de playboys com seus carrões envenenados, com aparelhagens a mil decibéis infernizando nossos ouvidos. Pobres meninos, que provavelmente são pouco desprovidos de tutano e músculo peniano, precisando compensar com suas aparelhagens. A sociedade tolera o abuso, mas de vez em quando a Justiça freia os ânimos narcísicos que invadem o direito dos outros.
Mas esqueçam o que eu digo. Daqui há pouco serei chamado de despeitado, mesmo que me considere um narcisista.
É que para mim o que vejo no espelho é bonito. Por dentro e por fora, sem precisar de enchimentos ou de sons em alto volume...
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(*) Artigo inserido no dia 17.07.2007, em minha coluna semanal Perípatos, publicada no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará. A gravura é uma reprodução da obra de Caravaggio.

domingo, 15 de julho de 2007

Três anos sem Haroldo Maranhão

Recebi ontem do amigo Elias Ribeiro Pinto, jornalista e cronista do Diário do Pará, um presente de aniversário: o seu artigo que seria publicado hoje na edição dominical do jornal, relembrando a importância do escritor paraense Haroldo Maranhão (foto), morto há três anos. Infelizmente, por problemas com a internet, só pude postar o artigo agora. Quem não leu o artigo na edição impressa ou na versão on-line do Diário do Pará, pode lê-la aqui no blog:



Autor de livros como Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, Cabelos no Coração, Rio de Raivas, Os Anões e As Peles Frias, que não podem faltar numa biblioteca essencial de literatura, principalmente entre leitores paraenses, exatamente num dia 15 de julho, há três anos, em 2004, morria o escritor Haroldo Maranhão, poucas semanas antes de completar 77 anos. Jornalista, escritor e advogado, Haroldo Maranhão nasceu em Belém, no dia 7 de agosto de 1927, filho do jornalista João Maranhão e de Carmem Lima Maranhão. Aos 13 anos já atuava como repórter policial no jornal A Folha do Norte, de propriedade de seu avô, Paulo Maranhão, onde chegou a ser redator-chefe. Ainda na Folha, fundou e dirigiu, de 1946 a 1951, o Suplemento Literário do jornal, “difundindo tudo o que de melhor e mais novo se fazia na literatura e na arte do país e do estrangeiro”, golpeando “o isolamento que ilhava a produção local”, registraria, décadas depois, Benedito Nunes. Em seguida, os dois amigos, ao lado de Mário Faustino, publicaram a revista Norte – que sobreviveu por três heróicos números, de 1951 a 1952.

Nos anos 50, Haroldo abriu as portas da Livraria Dom Quixote, na galeria do Palácio do Rádio, ponto de encontro de intelectuais belenenses. Como advogado, tornou-se procurador da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde viveu durante 40 anos. Haroldo faleceu em Piabetá (RJ) e foi enterrado na cidade do Rio de Janeiro. No texto a seguir, para revivermos e compartilharmos lembranças deste grande mestre das letras, professor de dignidade e de inabalável indignação (onde esta coubesse, e nunca lhe faltaram motivos para exercê-la), relembro alguns encontros que tive com o autor, desde o inaugural até o último.


Eu, Haroldo Maranhão e seu Rocinante Opala

Ainda estávamos na era do fax (que veio um pouco depois da era do jazz e da era da Tuna Luso de China, Waltinho e Fefeu) quando tive meu primeiro contato com Haroldo Maranhão. Foi através dele, do fax, que fiz aquela famosa entrevista com o escritor, o seu mais importante depoimento a um jornal, não por arte do entrevistador, mas simplesmente porque o entrevistado estava disposto a falar, ou melhor, escrever. E muito.

Quando Haroldo morreu, em 15 de julho de 2004, republiquei boa parte da entrevista aqui no DIÁRIO. Ela foi publicada, originalmente, em 23 de setembro de 1990, em A Província do Pará, sob o título “O Pará não morreu. Viva o Acará!”. O Acará aludia ao personagem principal de Cabelos no Coração, livro que Haroldo lançava então, naquele distante ano de 1990. Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, ou Filippe Patroni, ou Doutor Patroni, este o nome do personagem,
nascido no Acará, tal qual Batista Campos e Júlio Cezar Ribeiro de Souza. Muita cabeça para pouco município, dizia o Haroldo. “Uma coisa é ser acaraense, outra é ser paraense. Minha maior ambição é vir a ser acaraense. Benedito Nunes não se deu conta mas é acaraense, dos puros. Ignoro o que acontece por lá. Devem ser as
águas, a floresta, os igarapés, alguma coisa que circula no ar. Não sei. Pelo sim, pelo não, aconselho as grávidas a irem parir no Acará.” Não preciso dizer que o atual Acará não corresponde à geografia heróica e sentimental desse Acará prodigioso, patroniano, haroldiano.

Por falar em Benedito Nunes, em setembro daquele ano de 2004 assisti a uma palestra do mestre, no Instituto de Artes do Pará. Na mesa, além de Nunes, os poetas Age de Carvalho e Max Martins. O encontro homenageava Haroldo Maranhão. O que mais me tocou, ao final, foi quando um senhor se aproximou de mim, confirmou que eu era eu mesmo, e me agradeceu a reedição da entrevista, quando da morte do autor de Rio de Raivas. Graças a ela, disse-me, começou a ler Cabelos no Coração, livro, aliás, que carregava na ocasião, com a identificação na lombada de volume emprestado de biblioteca pública. Foi, naquela noite, a homenagem mais representativa ao grande escritor.

Mas voltemos, como eu dizia no primeiro parágrafo, ao contato inaugural com o autor de O Tetraneto Del-Rei. Eu não tinha fax. Quem transmitiu minhas perguntas ao Haroldo, residente no Rio de Janeiro, foi o superintendente da Província, Roberto Jares Martins, que também já nos deixou. Um dia depois de enviadas as perguntas, Jares recebeu as respostas, leu e me chamou. Li e logo percebi que era uma entrevista histórica. Haroldo mexia com a pasmaceira paraoara. Sobravam cipoadas até para o indolente entrevistador.

Nosso primeiro contato pessoal foi logo na semana seguinte a essa entrevista, quando o autor veio a Belém para lançar o dito Cabelos no Coração. Conhecemo-nos exatamente na noite de autógrafos, no Museu da Universidade Federal do Pará, na avenida Governador José Malcher.

Tornamos a nos ver um ano depois, em julho de 1991, no Rio de Janeiro, eu indo para a minha primeira Bienal do Livro. Aliás, pessoalmente, tive poucos mas luminosos, privilegiados encontros com Haroldo Maranhão. Como foi o caso desse segundo encontro, no Rio de Janeiro. Hospedei-me num hotel na avenida Nossa Senhora de Copacabana. E acabo de lembrar do nome, condoreiro, do hotel: Castro Alves.

Cheguei na madrugada seguinte à morte do cronista Paulo Mendes Campos. O dia, por isso, amanheceu-me melancólico. Mas logo me pus no rumo da Praia do Flamengo, onde ficava o apartamento do Haroldo, que me aguardava.

Recebeu-me na sala forrada de livros, muitos deles preciosos, raridades em matéria de dicionários, primeiras edições de Machado de Assis, de autores brasileiros modernistas, diversos com autógrafos para o próprio Haroldo. Este acervo, hoje, está na Sala Haroldo Maranhão, no Centur. Conversamos, fui espiar à janela, que dava para os jardins do Palácio do Catete (atual Museu da República), onde Getúlio Vargas se suicidou.

A Bienal era no Riocentro, que, apesar do nome, é longe pra burro, no Recreio dos Bandeirantes, bairro vizinho de Jacarepaguá, onde, cantava-se naquela música, acabavam seus dias os que não encontravam sua cara-metade. O escritor sossegou-me: ele me levaria até lá. Mas o meu sossego inquietou-se quando me confidenciou que há meses, anos, sei lá, não tirava o carro da garagem do prédio. No máximo, aquecia-o.

Descemos até a garagem. Na vaga reservada a seu apartamento, havia algo que lembrava um Opala. Conseguimos, depois de alguns minutos esquentando a máquina, desembaraçarmo-nos do labirinto subterrâneo, e lançamo-nos na selva selvagem do trânsito carioca. Foi a primeira e única vez que conheci o Haroldo Maranhão motorista. Como vocês podem ver, sobrevivi para contar a história.

Chegando ao Riocentro, circulamos por um par de horas na Bienal até o Haroldo dizer que precisava retornar. Fiquei até o final da tarde. De noitinha, na saída, a temperatura caiu tão repentinamente, baixou uma neblina tão densa, que o fato virou notícia no Jornal Nacional. Envolvido por aquela enternecida solidão que nos acomete quando estamos distantes de tudo e de todos, imerso naquele denso e atípico nevoeiro carioca, envolvido de mim, em mim, me aproximei, enquanto aguardava o transporte, de um trailer e pedi um conhaque vagabundo qualquer, mas um dos melhores e mais aconchegantes que tomei até hoje.

Tivemos outros encontros naquela ocasião. Acho que ainda a bordo do Opala – talvez herdeiro daquele Rocinante manchego, montaria de D. Quixote – prodigalizamos novas incursões, espécie de turismo literário. Ali, apontava-me, era a casa do Bruxo do Cosme Velho, o Machado de Assis que, naquele ano de 1991, era personagem de um novo romance do escritor, o último que Haroldo lançaria, Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, reeditado em 2004 pela Editora Planeta. Mais adiante, indicou-me que fulano, ou fulana, já não lembro quem, atirara-se de um prédio.

Nas pistas da Praia do Flamengo que corriam diante de seu edifício, morreram atropelados, disse-me, o poeta português António Botto, o jornalista e escritor Brito Broca e um terceiro cujo nome também não lembro (às vezes, o nome me surge, estampa-se, para tornar a escapulir, como agora). É possível que um ou outro tivesse tomado umas e outras a mais e, estonteados, ousaram cruzar aquelas pistas varejadas de carros em voraz velocidade.

Numa dessas incertas incursões terminamos, eu e Haroldo, num restaurante do Baixo Leblon onde jantamos uma deliciosa paella, acompanhada de chopes “na pressão’, como ele pedia aos garçons. Saímos meio de pileque. Percorre-me um calafrio agora ao imaginar que o Rocinante Opala talvez nos aguardasse defronte ao restaurante.

Também estive com o escritor num daqueles tradicionais restaurantes do antigo centro carioca. Quando fui em 2003 ao Rio (e falei com o Haroldo apenas por telefone, ele morando em Piabetá, distrito de Magé, um município não muito distante do Rio, e como lamento não ter ido, naquela ocasião, ao seu encontro), em mais uma Bienal, tentei localizar esse restaurante, enquanto caminhava pelas ruelas centrais. Nada. Só atinei mesmo com a Casa Lidador, de importados, onde chegamos a entrar para sondar alguns queijos ou vinhos.

Acho que não tornamos a nos encontrar no Rio de Janeiro. Os demais contatos pessoais foram por aqui, em Belém. Por exemplo, em 2001, num depoimento do escritor à TV Cultura, gravado na casa de Benedito Nunes. Haroldo Maranhão passou quatro dias em Belém. Participou, naquele momento, da entrega oficial de sua biblioteca, então adquirida por R$ 150 mil pela Companhia Vale do Rio Doce e repassada à Biblioteca Pública Arthur Vianna.

Combinei uma entrevista com o Haroldo. O acertado era que o repórter passaria à noite, no hotel, para ouvir o escritor. Mas foi este que, imprevistamente, veio à toca do entrevistador. Sozinho em casa, tive que interromper o banho para atender quem batia. Era o próprio Haroldo Maranhão. Com o cabelo ainda ensaboado, o surpreso e improvisado anfitrião acomodou o ilustre visitante, da melhor forma possível, em meio à bagunça doméstica. Foi só o tempo de tirar o xampu da cabeça, arrepanhar umas roupas, ligar o gravador e iniciar a conversa, de pronto, pois as perguntas ainda seriam organizadas para a entrevista combinada, que se realizaria no hotel onde Haroldo estava hospedado.

Com uma agenda carregada, o autor de A Estranha Xícara chegou à minha casa extenuado. Era véspera do dia de seu regresso e dia seguinte ao longo depoimento na casa de Benedito Nunes, do qual também participei. Mas, disse-me, não poderia faltar ao compromisso assumido, ainda que para conceder ligeira entrevista. Foi o que ocorreu. Durante a conversa, por duas ou três vezes, nas breves interrupções para mudar de lado a fita do gravador, Haroldo queixava-se do cansaço, e tentava convencer o entrevistador de que já bastava (na transcrição, deixo registradas, em parênteses, essas intervenções, para situar o leitor do andamento da conversa, amena, ainda que toldada pelo compreensível esgotamento físico do entrevistado). Mas o entrevistador, insensível, insistia um pouco mais. As últimas perguntas foram feitas com Haroldo, já em pé, se encaminhando para a saída. Na pele de jornalista, ao final da conversa monitorada pelo gravador, mal tive tempo de abraçá-lo e de lhe desejar boa viagem. Eu não sabia, mas aquele seria o último encontro em que estivemos ao alcance de um abraço. Depois, longas conversas ao telefone, e períodos ainda mais longos sem nenhuma conversa. Até que me alcançou não mais seu abraço de amigo fraterno, mas a notícia de sua morte, naquele 15 de julho de 2004.

Três anos sem Haroldo Maranhão

Recebi ontem do amigo Elias Ribeiro Pinto, jornalista e cronista do Diário do Pará, um presente de aniversário: o seu artigo que seria

Autor de livros como Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, Cabelos no Coração, Rio de Raivas, Os Anões e As Peles Frias, que não podem faltar numa biblioteca essencial de literatura, principalmente entre leitores paraenses, exatamente num dia 15 de julho, há três anos, em 2004, morria o escritor Haroldo Maranhão, poucas semanas antes de completar 77 anos. Jornalista, escritor e advogado, Haroldo Maranhão nasceu em Belém, no dia 7 de agosto de 1927, filho do jornalista João Maranhão e de Carmem Lima Maranhão. Aos 13 anos já atuava como repórter policial no jornal A Folha do Norte, de propriedade de seu avô, Paulo Maranhão, onde chegou a ser redator-chefe. Ainda na Folha, fundou e dirigiu, de 1946 a 1951, o Suplemento Literário do jornal, “difundindo tudo o que de melhor e mais novo se fazia na literatura e na arte do país e do estrangeiro”, golpeando “o isolamento que ilhava a produção local”, registraria, décadas depois, Benedito Nunes. Em seguida, os dois amigos, ao lado de Mário Faustino, publicaram a revista Norte – que sobreviveu por três heróicos números, de 1951 a 1952.

Nos anos 50, Haroldo abriu as portas da Livraria Dom Quixote, na galeria do Palácio do Rádio, ponto de encontro de intelectuais belenenses. Como advogado, tornou-se procurador da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde viveu durante 40 anos. Haroldo faleceu em Piabetá (RJ) e foi enterrado na cidade do Rio de Janeiro. No texto a seguir, para revivermos e compartilharmos lembranças deste grande mestre das letras, professor de dignidade e de inabalável indignação (onde esta coubesse, e nunca lhe faltaram motivos para exercê-la), relembro alguns encontros que tive com o autor, desde o inaugural até o último.


Eu, Haroldo Maranhão e seu Rocinante Opala

Ainda estávamos na era do fax (que veio um pouco depois da era do jazz e da era da Tuna Luso de China, Waltinho e Fefeu) quando tive meu primeiro contato com Haroldo Maranhão. Foi através dele, do fax, que fiz aquela famosa entrevista com o escritor, o seu mais importante depoimento a um jornal, não por arte do entrevistador, mas simplesmente porque o entrevistado estava disposto a falar, ou melhor, escrever. E muito.

Quando Haroldo morreu, em 15 de julho de 2004, republiquei boa parte da entrevista aqui no DIÁRIO. Ela foi publicada, originalmente, em 23 de setembro de 1990, em A Província do Pará, sob o título “O Pará não morreu. Viva o Acará!”. O Acará aludia ao personagem principal de Cabelos no Coração, livro que Haroldo lançava então, naquele distante ano de 1990. Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, ou Filippe Patroni, ou Doutor Patroni, este o nome do personagem, nascido no Acará, tal qual Batista Campos e Júlio Cezar Ribeiro de Souza. Muita cabeça para pouco município, dizia o Haroldo. “Uma coisa é ser acaraense, outra é ser paraense. Minha maior ambição é vir a ser acaraense. Benedito Nunes não se deu conta mas é acaraense, dos puros. Ignoro o que acontece por lá. Devem ser as águas, a floresta, os igarapés, alguma coisa que circula no ar. Não sei. Pelo sim, pelo não, aconselho as grávidas a irem parir no Acará.” Não preciso dizer que o atual Acará não corresponde à geografia heróica e sentimental desse Acará prodigioso, patroniano, haroldiano.

Por falar em Benedito Nunes, em setembro daquele ano de 2004 assisti a uma palestra do mestre, no Instituto de Artes do Pará. Na mesa, além de Nunes, os poetas Age de Carvalho e Max Martins. O encontro homenageava Haroldo Maranhão. O que mais me tocou, ao final, foi quando um senhor se aproximou de mim, confirmou que eu era eu mesmo, e me agradeceu a reedição da entrevista, quando da morte do autor de Rio de Raivas. Graças a ela, disse-me, começou a ler Cabelos no Coração, livro, aliás, que carregava na ocasião, com a identificação na lombada de volume emprestado de biblioteca pública. Foi, naquela noite, a homenagem mais representativa ao grande escritor.

Mas voltemos, como eu dizia no primeiro parágrafo, ao contato inaugural com o autor de O Tetraneto Del-Rei. Eu não tinha fax. Quem transmitiu minhas perguntas ao Haroldo, residente no Rio de Janeiro, foi o superintendente da Província, Roberto Jares Martins, que também já nos deixou. Um dia depois de enviadas as perguntas, Jares recebeu as respostas, leu e me chamou. Li e logo percebi que era uma entrevista histórica. Haroldo mexia com a pasmaceira paraoara. Sobravam cipoadas até para o indolente entrevistador.

Nosso primeiro contato pessoal foi logo na semana seguinte a essa entrevista, quando o autor veio a Belém para lançar o dito Cabelos no Coração. Conhecemo-nos exatamente na noite de autógrafos, no Museu da Universidade Federal do Pará, na avenida Governador José Malcher.

Tornamos a nos ver um ano depois, em julho de 1991, no Rio de Janeiro, eu indo para a minha primeira Bienal do Livro. Aliás, pessoalmente, tive poucos mas luminosos, privilegiados encontros com Haroldo Maranhão. Como foi o caso desse segundo encontro, no Rio de Janeiro. Hospedei-me num hotel na avenida Nossa Senhora de Copacabana. E acabo de lembrar do nome, condoreiro, do hotel: Castro Alves.

Cheguei na madrugada seguinte à morte do cronista Paulo Mendes Campos. O dia, por isso, amanheceu-me melancólico. Mas logo me pus no rumo da Praia do Flamengo, onde ficava o apartamento do Haroldo, que me aguardava.

Recebeu-me na sala forrada de livros, muitos deles preciosos, raridades em matéria de dicionários, primeiras edições de Machado de Assis, de autores brasileiros modernistas, diversos com autógrafos para o próprio Haroldo. Este acervo, hoje, está na Sala Haroldo Maranhão, no Centur. Conversamos, fui espiar à janela, que dava para os jardins do Palácio do Catete (atual Museu da República), onde Getúlio Vargas se suicidou.

A Bienal era no Riocentro, que, apesar do nome, é longe pra burro, no Recreio dos Bandeirantes, bairro vizinho de Jacarepaguá, onde, cantava-se naquela música, acabavam seus dias os que não encontravam sua cara-metade. O escritor sossegou-me: ele me levaria até lá. Mas o meu sossego inquietou-se quando me confidenciou que há meses, anos, sei lá, não tirava o carro da garagem do prédio. No máximo, aquecia-o.

Descemos até a garagem. Na vaga reservada a seu apartamento, havia algo que lembrava um Opala. Conseguimos, depois de alguns minutos esquentando a máquina, desembaraçarmo-nos do labirinto subterrâneo, e lançamo-nos na selva selvagem do trânsito carioca. Foi a primeira e única vez que conheci o Haroldo Maranhão motorista. Como vocês podem ver, sobrevivi para contar a história.

Chegando ao Riocentro, circulamos por um par de horas na Bienal até o Haroldo dizer que precisava retornar. Fiquei até o final da tarde. De noitinha, na saída, a temperatura caiu tão repentinamente, baixou uma neblina tão densa, que o fato virou notícia no Jornal Nacional. Envolvido por aquela enternecida solidão que nos acomete quando estamos distantes de tudo e de todos, imerso naquele denso e atípico nevoeiro carioca, envolvido de mim, em mim, me aproximei, enquanto aguardava o transporte, de um trailer e pedi um conhaque vagabundo qualquer, mas um dos melhores e mais aconchegantes que tomei até hoje.

Tivemos outros encontros naquela ocasião. Acho que ainda a bordo do Opala – talvez herdeiro daquele Rocinante manchego, montaria de D. Quixote – prodigalizamos novas incursões, espécie de turismo literário. Ali, apontava-me, era a casa do Bruxo do Cosme Velho, o Machado de Assis que, naquele ano de 1991, era personagem de um novo romance do escritor, o último que Haroldo lançaria, Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, reeditado em 2004 pela Editora Planeta. Mais adiante, indicou-me que fulano, ou fulana, já não lembro quem, atirara-se de um prédio.

Nas pistas da Praia do Flamengo que corriam diante de seu edifício, morreram atropelados, disse-me, o poeta português António Botto, o jornalista e escritor Brito Broca e um terceiro cujo nome também não lembro (às vezes, o nome me surge, estampa-se, para tornar a escapulir, como agora). É possível que um ou outro tivesse tomado umas e outras a mais e, estonteados, ousaram cruzar aquelas pistas varejadas de carros em voraz velocidade.

Numa dessas incertas incursões terminamos, eu e Haroldo, num restaurante do Baixo Leblon onde jantamos uma deliciosa paella, acompanhada de chopes “na pressão’, como ele pedia aos garçons. Saímos meio de pileque. Percorre-me um calafrio agora ao imaginar que o Rocinante Opala talvez nos aguardasse defronte ao restaurante.

Também estive com o escritor num daqueles tradicionais restaurantes do antigo centro carioca. Quando fui em 2003 ao Rio (e falei com o Haroldo apenas por telefone, ele morando em Piabetá, distrito de Magé, um município não muito distante do Rio, e como lamento não ter ido, naquela ocasião, ao seu encontro), em mais uma Bienal, tentei localizar esse restaurante, enquanto caminhava pelas ruelas centrais. Nada. Só atinei mesmo com a Casa Lidador, de importados, onde chegamos a entrar para sondar alguns queijos ou vinhos.

Acho que não tornamos a nos encontrar no Rio de Janeiro. Os demais contatos pessoais foram por aqui, em Belém. Por exemplo, em 2001, num depoimento do escritor à TV Cultura, gravado na casa de Benedito Nunes. Haroldo Maranhão passou quatro dias em Belém. Participou, naquele momento, da entrega oficial de sua biblioteca, então adquirida por R$ 150 mil pela Companhia Vale do Rio Doce e repassada à Biblioteca Pública Arthur Vianna.

Combinei uma entrevista com o Haroldo. O acertado era que o repórter passaria à noite, no hotel, para ouvir o escritor. Mas foi este que, imprevistamente, veio à toca do entrevistador. Sozinho em casa, tive que interromper o banho para atender quem batia. Era o próprio Haroldo Maranhão. Com o cabelo ainda ensaboado, o surpreso e improvisado anfitrião acomodou o ilustre visitante, da melhor forma possível, em meio à bagunça doméstica. Foi só o tempo de tirar o xampu da cabeça, arrepanhar umas roupas, ligar o gravador e iniciar a conversa, de pronto, pois as perguntas ainda seriam organizadas para a entrevista combinada, que se realizaria no hotel onde Haroldo estava hospedado.

Com uma agenda carregada, o autor de A Estranha Xícara chegou à minha casa extenuado. Era véspera do dia de seu regresso e dia seguinte ao longo depoimento na casa de Benedito Nunes, do qual também participei. Mas, disse-me, não poderia faltar ao compromisso assumido, ainda que para conceder ligeira entrevista. Foi o que ocorreu. Durante a conversa, por duas ou três vezes, nas breves interrupções para mudar de lado a fita do gravador, Haroldo queixava-se do cansaço, e tentava convencer o entrevistador de que já bastava (na transcrição, deixo registradas, em parênteses, essas intervenções, para situar o leitor do andamento da conversa, amena, ainda que toldada pelo compreensível esgotamento físico do entrevistado). Mas o entrevistador, insensível, insistia um pouco mais. As últimas perguntas foram feitas com Haroldo, já em pé, se encaminhando para a saída. Na pele de jornalista, ao final da conversa monitorada pelo gravador, mal tive tempo de abraçá-lo e de lhe desejar boa viagem. Eu não sabia, mas aquele seria o último encontro em que estivemos ao alcance de um abraço. Depois, longas conversas ao telefone, e períodos ainda mais longos sem nenhuma conversa. Até que me alcançou não mais seu abraço de amigo fraterno, mas a notícia de sua morte, naquele 15 de julho de 2004.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Um poeta de Belém na Pérola

Recebi ontem um carinhoso e-mail do jornalista e cronista do Diário do Pará (onde também escrevo), Elias Ribeiro Pinto, informando que estará em Santarém, hoje, pela primeira vez, um dos grandes poetas de Belém, Ronaldo Franco (que também escreve às sextas no Diário).
Ronaldo traz alguns de seus livros e ficará hospedado no Santarém Palace. Quem quiser manter contato e adquirir alguma de suas obras poéticas autografadas, é só passar lá. Depois, ele dá uma esticada para conhecer nossa Alter...
Pelo jeito, vem poesia nova por aí com ares de Alter. Quem sabe você esbarra com ele por lá...

Renascer é tão importante quanto viver

Já passa da meia-noite, o dia é 13 de julho de 2007. Meu sono não vem. Dentro de poucas horas estarei renascendo aos 44 anos. Cismo em esperar a hora, na esperança de cruzar, transcendentalmente, com meu alterego mais jovem, lambuzado de placenta, num encontro entre o passado e o presente. Resolvi escrever neste meu pobre blog o que me vinha à cabeça. Aviso logo: se você não quiser perder tempo com babaquices de um quarentão ensimesmado, pare por aqui e vá para o orkut, pro MSN ou simplesmente desligue o computador. Depois não diga que não avisei....
Mas voltando a “jotaninar”, adoro o simbolismo dos números: 44 às 4 da manhã. Quaraquaquá. Já o 13, nasceu comigo e quem diria que seria uma sina política, da qual me livraria exatamente nesta data? [Daqui a pouco eu conto] Mas há outro número muito importante nesta simbologia “ninista”: o 21. Não, não é meu patrocinador. É apenas um pedaço de mim que me liga a outro passado lendário. [Daqui a pouco eu conto]

Como bom canceriano, sou um eterno arqueólogo da mente. Vivo buscando no passado as respostas para o meu presente, pouco me importando com o futuro. No futuro, fatalmente, voltarei ao presente que será passado e assim sucessivamente.
13 de julho de 1963. Quatro horas da madrugada. Lá estava eu, bebê recém-nascido, na Santa Casa de Misericórdia. Comigo devia haver pelo menos uma dezena de outros bebês chorões no berçário. Belém, Pará, Brasil. Minha cidade, como será que era? Ainda não consegui reconstituí-la, mas aos poucos vou encontrando pedaços aqui, acolá.

Minha mãe, Marapanim/Pará. Meu pai Xanthi/Grécia. Um encontro pouco provável se não fosse o espírito desbravador do velho Ninos, que resolveu se aventurar pela estrada que JK abriu, saindo da nova capital federal rumo ao norte. O marreteiro que vendia roupas no Ver-O-Peso se encontra com a cabocla da terra do carimbó em alguma alcova e o milagre da vida acontece. Quantos espermatoNinos matei no caminho? [na foto, eu e o velho grego disputando pra ver quem tem o nariz maior. Eu perdi...]

Como poderia imaginar que um dia, 15 anos depois, adotaria Santarém como minha terra? Aqui estou, 29 anos depois. Indo e sempre voltando para esta Pérola. [Belém é só o recôndito de minha alma e de minha calma que ainda não descobri. Lá ficaram o Kennedy, as praças da República e Batista Campos, o Cine Olympia e o Manuel Pinto da Silva, meu microcosmo infanto-juvenil]. Aqui aprendi a nadar, a dirigir, a lutar, a divergir, a não rezar, a permitir, a polemizar, a parir, a parar, a grunhir, a gozar...

Quaraquaquá! Quem diria. Parece que foi ontem que me vi meNino.
Mas voltando aos simbolismos numéricos: sabiam que em 13 de julho de 1501, Pedro Álvares Cabral regressou a Lisboa, após a descoberta do Brasil e da visita à Índia? E que na mesma data, em 1553, Duarte da Costa, segundo governador geral do Brasil, chegou a Salvador, na Bahia? E sabiam que, além disso, um dos líderes da revolução francesa, o médico e jornalista francês Jean Paul Marat, foi assassinado um dia antes de comemorar o 1º ano de seu grande feito? E que Santos-Dumont rodeou a torre Eiffel a bordo de um dirigível, mas acabou caindo, na altura de Boulogne, em 13 de julho de 1901? Em compensação, divido a data do aniversário – entre outros – com o ator hollywoodiano Harrison Ford, o eterno capitão Han Solo de Guerra nas Estrelas, que nasceu 21 anos antes que eu.

E daí? A quem interessa estas datas? Escrevi só para enfeitar o texto e mostrar um pouco de minha erudição de almanaque...

Mas voltando aos simbolismos numéricos: o 13 para mim sempre foi sorte-azar. Lembro que muitos aniversários não foram comemorados na infância por causa de uma caxumba, de um sarampo ou de uma simples disenteria que resolvia aparecer exatamente nesta data. Imagina um 13, como hoje, caindo numa sexta-feira! Dia de terror...

Mas já tenho um programa especial para marcar o sorte-azar dessa data (além do meu aniversário): hoje tiro o corpo fora de uma das minhas mais belas aventuras, que completa exatamente 25 anos e 139 dias – entrego, logo mais, ao presidente do diretório municipal de Santarém (alguém sabe quem é?) minha carta de desfiliação do PT. Foi bom enquanto durou. Como diria Lennon, em 1970: “O sonho acabou!”. Não o meu sonho, este eu vou continuar acalentando. Mas o sonho petista acabou. Relutei muito para tomar a decisão e decidi que essa seria uma data simbólica para realizar esse ato. Ponto final.
Outro simbolismo de que falei lá em cima: o 21, esse número incrível que me acompanha há 44 anos. Pouca gente sabe, mas hoje vou revelar um segredo do qual me orgulho: tenho algo que a Cicarelli também tem! Não, não são meus lábios. E nem fui flagrado transando numa praia. É que tenho um dedo a mais no meu pé direito, totalizando 21 dedos! Seria um sinal? Seria eu um ser especial? Espacial? E sempre que alguém descobre meu pequerrucho, saltitando por cima da tira de minhas Havaianas, a primeira pergunta surge como uma guilhotina francesa: porque não cortaram ao nascer? E eu me pergunto: porque essa ânsia mórbida de cortar um pedaço de mim?

A explicação para não cortá-lo está numa velha lenda grega que meu pai contava. Ocorre que depois dos 300 anos de dominação do Império Otomano os gregos reconquistaram a liberdade em 1821, mas não se conformavam em não poder usufruir de Constantinopla (Istambul), que ficou do lado de lá, depois do tratado abalizado pelas potências da Europa. Surge então um rei chamado Constantinos que lidera uma louca revolução em busca dos territórios perdidos. Os soldados gregos avançam e conseguem chegar do outro lado do mar Egeu, em Esmirna (terra de Homero), mas exaustos, são obrigados a recuar e os turcos saem cortando cabeças e encharcando o solo de sangue grego. Constantinopla continuará a ser Istambul e ponto final.

O detalhe: Constantinos tinha 21 dedos e ficou a lenda que só um novo rei com tal quantidade de dedos poderia reconquistar Constantinopla! Imagina a cara do meu pai, ao me ver no berçário, em Belém, com os 21 dedinhos à mostra! Infelizmente fui um fracasso. Estive na Grécia, passeei como turista por Istambul, mas não tive nem coragem de me alistar no exército grego, condição sine qua non para conseguir minha dupla nacionalidade. O que dirá liderar uma revolução grega... [na foto, eu e a Acrópole, 1991]

O sono se apodera de meus olhos. Acho que não conseguirei me encontrar com meu eu “emplacentado”. Só me resta fazer como todos estarão fazendo hoje, lá no Maracanã, na festa especialmente preparada para mim:

“Parabéns, Jota! Cadê o bolo?”

terça-feira, 10 de julho de 2007

Links

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O dia em que quase pisei num podium (*)

Às vésperas do Pan 2007, cuja abertura será no dia do meu aniversário, me pego pensando se o mundo não perdeu um grande atleta. Mas ao lembrar de meu retrospecto nessa área chego à conclusão de que como atleta sempre fui uma negação. Ou pior, uma aberração. Mesmo assim, tive uma única chance de brilhar e desperdicei.
Não fui feito para a prática esportiva e desde a mais tenra idade sonhei em conseguir pelo menos um feito atlético para que eu pudesse ser lembrado eternamente. Mas como um moleque pançudo, zarolho e desajeitado poderia progredir em algum esporte? Apesar disso decidi me empenhar no futebol, nosso esporte bretão. Dos sete aos 14 anos, me apliquei jogando “futebol de tampinha de refrigerante” no recreio da escola, na tentativa de que algum “olheiro” do nosso time visse que eu tinha algum futuro.
Meu professor de educação física naquele tempo era o Clauriberto Levy, que hoje é instrutor de trânsito em Santarém (dia desses descobrimos essa nossa ligação daquele tempo) e, reconhecendo meu talento, sempre que chegava a hora escalar os times tinha uma vaga certa para os meus dotes... goleiro, a única vaga que sobrava.
Fiz grandes apresentações e mostrei um grande potencial para buscar as bolas... no fundo das redes. Uma vez cheguei a participar de um fato inédito pelo qual sou lembrado até hoje. Num “rachão” durante a aula de ginástica lá estava eu, solitário, embaixo da trave do pequeno campinho do velho colégio Jonh Kennedy, em Belém. Era final de jogo e naquele dia eu havia resistido muito, levando somente dois gols (era um recorde, pois nunca ficava sem engolir pelo menos cinco frangos...).
Minha equipe resolve ir pro tudo ou nada para tentar o empate numa cobrança de escanteio do outro lado. Fico sozinho na área aguardando um contra-ataque. O escanteio é cobrado lá e algum zagueiro consegue cabecear para fora da área. A bola quica e o beque do outro time dá um chutão pra frente na minha direção. Com efeito, a bola vai em direção à lateral do campo. Corro para agarrá-la, mas na beira do gramado havia uma velha árvore cuja raiz insistia em invadir a lateral. Muito jogadores já tinham sido vítimas de tropeções, mas ela nunca foi expulsa ou sequer advertida pelo juiz! Naquele dia ela se superou: rebateu a bola cobrindo este pobre goal keeper. Gooooooooooooooooollllllll! Que vergonha, até uma árvore fazia gol em mim!
Fui muito criticado, e como não podia viver eternamente barrado no time, me designaram uma nova função: a de ficar na ponta... esquecida. A famosa “banheira”. Por várias vezes fiquei sozinho com o goleiro e perdi gols feitos! Nessa posição, tinha um outro colega tão zarolho do que eu, mas que era minha maior alegria: ele conseguia ser pior do que eu, se é que isso era possível. Até o dia em que ele me superou, no episódio em que perdi a chance de subir pela primeira vez num podium.
1976. Nossa turma tem uma das melhores equipes de futebol do colégio naqueles tempos. Eu me orgulhava disso, apesar de não participar das estatísticas dessa performance. Estávamos na sexta série e naquele ano comentava-se que éramos um dos favoritos à medalha de futebol de campo. Bastava superar o maior favorito: a oitava série. Os jogos aconteceram no gramado do ginásio Souza Franco. Havíamos escalado o que havia de melhor. Escolhemos que a camisa do time seria a do Botafogo (minha sina). A ordem era que todos fossemos vestidos com a camisa, mesmo que ficássemos somente na torcida.
Eu pensei em nem ir com medo de dar azar ao time (sempre que ia aos gramados torcer pelo Paysandu, ele apanhava daquela outra coisa). Me considerava um verdadeiro pé-frio. Por isso, acabei nem comprando a camisa. Mas na última hora, achei que não devia deixar o time e ser chamado de “furão”. Fui, mesmo sem estar com a estrela solitária no peito.
Quando chego lá, nosso time está prestes a enfrentar a toda poderosa 8ª série. Para minha surpresa vejo que há desfalques, alguns jogadores não estão lá. O que aconteceu? Chego junto ao banco de reservas e encontro com o colega zarolho sozinho, paramentado de Botafogo!
- O que aconteceu? – pergunto atônito.
-Três dos nossos ficaram doentes e outros dois não vieram – respondeu-me com um sorriso no rosto.
- E por que estás sorrindo? – digo com ar de reprovação.
- É que me colocaram na reserva.... Se tiveres uma camisa do Botafogo também podes sentir esse gostinho!
Não podia ser verdade. Vi escorrer entre minhas mãos a possibilidade de, ao menos, sentar naquele banco e poder curtir aquele momento. Nessa hora, o capitão do time chega e me confirma em sussurros uma frase que até hoje ecoa nos meus ouvidos: “Consegue uma camisa do Botafogo que na primeira chance tu entras, pois és menos ruim do que ele”, apontando pro outro colega que, feliz da vida, balançava uma bandeirinha alvinegra. Ser chamado de “menos ruim” pelo capitão, era um verdadeiro elogio!
Sai atrás de alguém que tivesse uma camisa do Botafogo. Servia até mesmo uma do Atlético Mineiro ou qualquer outro time que pudesse disfarçar. O jogo seguia e eu corria feito louco em meio às arquibancadas em busca da tal camisa. Havia todas as cores, mas nenhuma era alvinegra. Desisti, já com uma lágrima misturando-se ao suor do meu rosto franzino. Aliás, pelo pique que havia dado certamente já nem teria condições de entrar no campo. Só me restava sentar e assistir.
De repente, nosso melhor atacante sofre uma falta e fica sem condições de voltar a campo. O capitão do time olha para o banco e vê o amigo zarolho e sua bandeirinha, com um lumiar nos olhos. Me vê na arquibancada, faz sinal puxando sua camisa como quem pergunta, “conseguiu?” Balanço a cabeça negativamente e ele, desconsolado, faz aquele sinal de “não tem tu, vai tu mesmo”. È a glória do mais zarolho da turma e minha decepção. Não sabia se era melhor ele entrar fazer besteiras e eu continuar sendo chamado de “menos ruim” ou se era melhor torcer para que ele fizesse um gol salvador e nosso time fosse campeão. Fiquei dividido entre torcer contra ou a favor.
E o imprevisível aconteceu.
O time resistiu até o final e ninguém conseguia fazer gols. Nos últimos minutos, a equipe da 8ª série foi em peso para o nosso campo numa cobrança de escanteio. A bola resvala na mão do nosso goleiro e o zagueiro dá aquele chutão pra frente com todas as suas forças. O único zagueiro deles que ficou para trás fura no chute no meio do campo e cai no chão e a bola segue em direção à grande área do adversário.
O colega zarolho, desengonçado, sai correndo atrás da bola. Como sempre, ele jogava de óculos (como eu também) e no pique os perde em campo! A bola quica na frente dele e, sem noção de onde está (era mais míope do que eu) corre para o outro lado no momento em que o goleiro corria em direção à bola! Esse “jogo de corpo” do zarolho acaba enganando o goleiro e a bola passa por ele quicando, bate na cabeça do zarolho - que cai desmaiado ao chão - e entra no gol! Gooooooooooooooooooooollllllllllllllllll!
Não sabia se ria ou chorava. Eu poderia estar lá, por ser “menos ruim” que o zarolho. Talvez tivesse feito aquele gol (pelo menos não havia uma árvore para me driblar). Talvez tivesse sido eu, o carregado como herói. Talvez tivesse sido eu ali no podium, recebendo aquela medalha... Talvez...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Crônica de um cicerone movido à açaí com peixe frito(*)

Belém – Não tenho a menor vocação para agente turístico. Se dependesse de meus dotes de cicerone morreria de fome, além de botar abaixo o PIB turístico de qualquer lugar que tentasse promover. Mas como cheguei à tais conclusões?
Aproveitando as férias em Belém, participei do VI Congresso das Ciências da Comunicação promovido pela Intercom/Norte. A Intercom é a Sociedade Brasileira de Pesquisas Interdisciplinares da Comunicação, que há 30 anos estuda o comportamento da mídia e regionaliza seus debates em encontros como o que ocorreu em Belém na semana passada. E pela primeira vez, uma delegação de 15 estudantes de jornalismo de Santarém participou do evento. Eu, por ser belenense de nascimento, me propus ciceronear parte do grupo... Foi dessa experiência que concluí ser um péssimo agente turístico.
“Já vim várias vezes à Belém, mas fico sem direção e se não for um táxi, acabo me perdendo”. A declaração sincera foi de um dos colegas da delegação, que apesar de sua experiência jornalística demonstrou nada saber sobre a geografia da metrópole. Os outros balançavam a cabeça corroborando com a mesma tese. Aí meu instinto de “metido a sabichão” revelou à turma o perigoso convite à aventura num sonoro “´xa comigo!”. Comecei a fazer cena tentando impressionar com meus conhecimentos de almanaque, discorrendo sobre pontos turísticos de Belém, sua história e principalmente como chegar a eles.
A coordenação do Intercom/Norte este ano, acabou colaborando com isso ao definir quatro pontos diferentes para a abertura, o encerramento e para a reunião dos grupos temáticos, obrigando centenas de congressistas de outros estados (e de Santarém) a deslocarem-se de um lado para o outro da cidade, enfrentando o caótico trânsito de Belém. Muita gente se perdeu pelo caminho ou chegou atrasado aos eventos por conta da distância e da escassez de informações. Mas parte da delegação de Santarém podia contar com um “experiente” cicerone...
Primeiro dia, um tour num dos shoppings centers da cidade. Vaguear pelos corredores uniformes e assépticos, conferindo vitrines com preços que nem sempre cabem num cartão de crédito. Vez por outra encontra-se uma promoção em loja de preços populares e compara-se com o que há em Santarém. Mão no bolso e lá se vão algumas sacolas com bugingangas e quinquilharias, desde uma almofada-coração a um eletrodoméstico que promete entregar um pão de trigo pronto em poucos minutos! Na praça de alimentação, comes e bebes pasteurizados, enlatados, e geralmente com preços amargos. Espertamente, o cicerone indica um restaurante com rodízio ao invés do prato executivo (o velho conhecido PF)., apostando que seria mais em conta. Ledo engano: a colega que chegou depois e não atendeu aos conselhos comprou o prato simples e comeu tanto quanto os outros pagando a metade do preço... Entreolhares nos membros da delegação: começa a desconfiança de que podem estar entrando numa fria com o tal cicerone...
Segundo dia, os “turistas”, por precaução, sugerem ao cicerone um lugar mais barato e com um quê de regional. São guiados á feira do Ver-o-peso onde conhecerão suas iguarias únicas sempre lembradas em programas especiais de televisão. Falo da maravilha que é comer peixe frito com açaí, em pé, num boxe entre dezenas de outros da feira e num calor quase insuportável do meio-dia, apesar da bela arquitetura das tendas brancas de napa criadas por um governo petista. Com certeza aquela praça de alimentação popular ficou bem melhor do que eu conhecia da época de menino.
O jornalista (do táxi), gaúcho de nascimento e santareno de coração, aprova, lambe os beiços e pede bis. Já a jornalista, cabocla da região não se arisca no acepipe tão exótico. Prefere arroz, feijão, carne e salada na banca ao lado. Meu conceito aumenta com parte do grupo que sorri com os dentes de açaí... Começo a acreditar que não é difícil fazer as vezes de agente turístico!
Próxima parada: Estação das Docas, símbolo máximo da megalomania do tucanato paraense. Obra arquitetônica moderna que aproveitou velhos galpões das Docas do Pará e possibilitou a quem passa por lá ver o rio que antes tinha a visão encoberta (mesmo assim, nossa orla ainda dá de dez a zero!). Na Estação há um complexo de restaurantes, imensos boulevares para eventos, além de um grande teatro-auditório, todos separados por portas de vidro automáticas que se abrem com nossa aproximação. O cicerone, pimpão, vai á frente tentando se mostrar para os demais com os braços erguidos: “Abre-te, Sésamo!”. As portas atendem. De repente, afoito, envereda por um corredor sem ler um cartaz e repete a firula: “Abre-te, Sésamo!”... e estabaca-se na porta de vidro. O cartaz informava que naquele lugar a passagem estava interditada... Os “turistas” santarenos explodem em gargalhadas, enquanto confiro se o nariz não quebrou...
Terceiro dia, depois de repetir o sucesso do peixe frito com açaí e conseguindo novos adeptos, nosso destino é o Campus da UFPa., uma cidade dentro de outra cidade. Para chegar lá, ônibus específico. [Antes, um parêntesis: na verdade sei me movimentar em Belém e até acerto algumas linhas de ônibus. O problema é que o hiato entre uma visita e outra afeta minha percepção espacial...] “Vamos nesse”, digo de forma inconteste e depois de muitas voltas, somos obrigados a saltar num ponto bem distante do local. Pernas pra que te quero! Haja caminhar para consertar o erro do cicerone!
O jornalista gaúcho decreta a mais pura filosofia da Angélica: “Daqui em diante, só vou de táxi!”. Acaba assim o que seria uma carreira promissora de um agente turístico...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos em 24.06.2007, no encarte regional Diário do Tapajós do jornal Diário do Pará.