domingo, 15 de julho de 2007

Três anos sem Haroldo Maranhão

Recebi ontem do amigo Elias Ribeiro Pinto, jornalista e cronista do Diário do Pará, um presente de aniversário: o seu artigo que seria publicado hoje na edição dominical do jornal, relembrando a importância do escritor paraense Haroldo Maranhão (foto), morto há três anos. Infelizmente, por problemas com a internet, só pude postar o artigo agora. Quem não leu o artigo na edição impressa ou na versão on-line do Diário do Pará, pode lê-la aqui no blog:



Autor de livros como Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, Cabelos no Coração, Rio de Raivas, Os Anões e As Peles Frias, que não podem faltar numa biblioteca essencial de literatura, principalmente entre leitores paraenses, exatamente num dia 15 de julho, há três anos, em 2004, morria o escritor Haroldo Maranhão, poucas semanas antes de completar 77 anos. Jornalista, escritor e advogado, Haroldo Maranhão nasceu em Belém, no dia 7 de agosto de 1927, filho do jornalista João Maranhão e de Carmem Lima Maranhão. Aos 13 anos já atuava como repórter policial no jornal A Folha do Norte, de propriedade de seu avô, Paulo Maranhão, onde chegou a ser redator-chefe. Ainda na Folha, fundou e dirigiu, de 1946 a 1951, o Suplemento Literário do jornal, “difundindo tudo o que de melhor e mais novo se fazia na literatura e na arte do país e do estrangeiro”, golpeando “o isolamento que ilhava a produção local”, registraria, décadas depois, Benedito Nunes. Em seguida, os dois amigos, ao lado de Mário Faustino, publicaram a revista Norte – que sobreviveu por três heróicos números, de 1951 a 1952.

Nos anos 50, Haroldo abriu as portas da Livraria Dom Quixote, na galeria do Palácio do Rádio, ponto de encontro de intelectuais belenenses. Como advogado, tornou-se procurador da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde viveu durante 40 anos. Haroldo faleceu em Piabetá (RJ) e foi enterrado na cidade do Rio de Janeiro. No texto a seguir, para revivermos e compartilharmos lembranças deste grande mestre das letras, professor de dignidade e de inabalável indignação (onde esta coubesse, e nunca lhe faltaram motivos para exercê-la), relembro alguns encontros que tive com o autor, desde o inaugural até o último.


Eu, Haroldo Maranhão e seu Rocinante Opala

Ainda estávamos na era do fax (que veio um pouco depois da era do jazz e da era da Tuna Luso de China, Waltinho e Fefeu) quando tive meu primeiro contato com Haroldo Maranhão. Foi através dele, do fax, que fiz aquela famosa entrevista com o escritor, o seu mais importante depoimento a um jornal, não por arte do entrevistador, mas simplesmente porque o entrevistado estava disposto a falar, ou melhor, escrever. E muito.

Quando Haroldo morreu, em 15 de julho de 2004, republiquei boa parte da entrevista aqui no DIÁRIO. Ela foi publicada, originalmente, em 23 de setembro de 1990, em A Província do Pará, sob o título “O Pará não morreu. Viva o Acará!”. O Acará aludia ao personagem principal de Cabelos no Coração, livro que Haroldo lançava então, naquele distante ano de 1990. Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, ou Filippe Patroni, ou Doutor Patroni, este o nome do personagem,
nascido no Acará, tal qual Batista Campos e Júlio Cezar Ribeiro de Souza. Muita cabeça para pouco município, dizia o Haroldo. “Uma coisa é ser acaraense, outra é ser paraense. Minha maior ambição é vir a ser acaraense. Benedito Nunes não se deu conta mas é acaraense, dos puros. Ignoro o que acontece por lá. Devem ser as
águas, a floresta, os igarapés, alguma coisa que circula no ar. Não sei. Pelo sim, pelo não, aconselho as grávidas a irem parir no Acará.” Não preciso dizer que o atual Acará não corresponde à geografia heróica e sentimental desse Acará prodigioso, patroniano, haroldiano.

Por falar em Benedito Nunes, em setembro daquele ano de 2004 assisti a uma palestra do mestre, no Instituto de Artes do Pará. Na mesa, além de Nunes, os poetas Age de Carvalho e Max Martins. O encontro homenageava Haroldo Maranhão. O que mais me tocou, ao final, foi quando um senhor se aproximou de mim, confirmou que eu era eu mesmo, e me agradeceu a reedição da entrevista, quando da morte do autor de Rio de Raivas. Graças a ela, disse-me, começou a ler Cabelos no Coração, livro, aliás, que carregava na ocasião, com a identificação na lombada de volume emprestado de biblioteca pública. Foi, naquela noite, a homenagem mais representativa ao grande escritor.

Mas voltemos, como eu dizia no primeiro parágrafo, ao contato inaugural com o autor de O Tetraneto Del-Rei. Eu não tinha fax. Quem transmitiu minhas perguntas ao Haroldo, residente no Rio de Janeiro, foi o superintendente da Província, Roberto Jares Martins, que também já nos deixou. Um dia depois de enviadas as perguntas, Jares recebeu as respostas, leu e me chamou. Li e logo percebi que era uma entrevista histórica. Haroldo mexia com a pasmaceira paraoara. Sobravam cipoadas até para o indolente entrevistador.

Nosso primeiro contato pessoal foi logo na semana seguinte a essa entrevista, quando o autor veio a Belém para lançar o dito Cabelos no Coração. Conhecemo-nos exatamente na noite de autógrafos, no Museu da Universidade Federal do Pará, na avenida Governador José Malcher.

Tornamos a nos ver um ano depois, em julho de 1991, no Rio de Janeiro, eu indo para a minha primeira Bienal do Livro. Aliás, pessoalmente, tive poucos mas luminosos, privilegiados encontros com Haroldo Maranhão. Como foi o caso desse segundo encontro, no Rio de Janeiro. Hospedei-me num hotel na avenida Nossa Senhora de Copacabana. E acabo de lembrar do nome, condoreiro, do hotel: Castro Alves.

Cheguei na madrugada seguinte à morte do cronista Paulo Mendes Campos. O dia, por isso, amanheceu-me melancólico. Mas logo me pus no rumo da Praia do Flamengo, onde ficava o apartamento do Haroldo, que me aguardava.

Recebeu-me na sala forrada de livros, muitos deles preciosos, raridades em matéria de dicionários, primeiras edições de Machado de Assis, de autores brasileiros modernistas, diversos com autógrafos para o próprio Haroldo. Este acervo, hoje, está na Sala Haroldo Maranhão, no Centur. Conversamos, fui espiar à janela, que dava para os jardins do Palácio do Catete (atual Museu da República), onde Getúlio Vargas se suicidou.

A Bienal era no Riocentro, que, apesar do nome, é longe pra burro, no Recreio dos Bandeirantes, bairro vizinho de Jacarepaguá, onde, cantava-se naquela música, acabavam seus dias os que não encontravam sua cara-metade. O escritor sossegou-me: ele me levaria até lá. Mas o meu sossego inquietou-se quando me confidenciou que há meses, anos, sei lá, não tirava o carro da garagem do prédio. No máximo, aquecia-o.

Descemos até a garagem. Na vaga reservada a seu apartamento, havia algo que lembrava um Opala. Conseguimos, depois de alguns minutos esquentando a máquina, desembaraçarmo-nos do labirinto subterrâneo, e lançamo-nos na selva selvagem do trânsito carioca. Foi a primeira e única vez que conheci o Haroldo Maranhão motorista. Como vocês podem ver, sobrevivi para contar a história.

Chegando ao Riocentro, circulamos por um par de horas na Bienal até o Haroldo dizer que precisava retornar. Fiquei até o final da tarde. De noitinha, na saída, a temperatura caiu tão repentinamente, baixou uma neblina tão densa, que o fato virou notícia no Jornal Nacional. Envolvido por aquela enternecida solidão que nos acomete quando estamos distantes de tudo e de todos, imerso naquele denso e atípico nevoeiro carioca, envolvido de mim, em mim, me aproximei, enquanto aguardava o transporte, de um trailer e pedi um conhaque vagabundo qualquer, mas um dos melhores e mais aconchegantes que tomei até hoje.

Tivemos outros encontros naquela ocasião. Acho que ainda a bordo do Opala – talvez herdeiro daquele Rocinante manchego, montaria de D. Quixote – prodigalizamos novas incursões, espécie de turismo literário. Ali, apontava-me, era a casa do Bruxo do Cosme Velho, o Machado de Assis que, naquele ano de 1991, era personagem de um novo romance do escritor, o último que Haroldo lançaria, Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, reeditado em 2004 pela Editora Planeta. Mais adiante, indicou-me que fulano, ou fulana, já não lembro quem, atirara-se de um prédio.

Nas pistas da Praia do Flamengo que corriam diante de seu edifício, morreram atropelados, disse-me, o poeta português António Botto, o jornalista e escritor Brito Broca e um terceiro cujo nome também não lembro (às vezes, o nome me surge, estampa-se, para tornar a escapulir, como agora). É possível que um ou outro tivesse tomado umas e outras a mais e, estonteados, ousaram cruzar aquelas pistas varejadas de carros em voraz velocidade.

Numa dessas incertas incursões terminamos, eu e Haroldo, num restaurante do Baixo Leblon onde jantamos uma deliciosa paella, acompanhada de chopes “na pressão’, como ele pedia aos garçons. Saímos meio de pileque. Percorre-me um calafrio agora ao imaginar que o Rocinante Opala talvez nos aguardasse defronte ao restaurante.

Também estive com o escritor num daqueles tradicionais restaurantes do antigo centro carioca. Quando fui em 2003 ao Rio (e falei com o Haroldo apenas por telefone, ele morando em Piabetá, distrito de Magé, um município não muito distante do Rio, e como lamento não ter ido, naquela ocasião, ao seu encontro), em mais uma Bienal, tentei localizar esse restaurante, enquanto caminhava pelas ruelas centrais. Nada. Só atinei mesmo com a Casa Lidador, de importados, onde chegamos a entrar para sondar alguns queijos ou vinhos.

Acho que não tornamos a nos encontrar no Rio de Janeiro. Os demais contatos pessoais foram por aqui, em Belém. Por exemplo, em 2001, num depoimento do escritor à TV Cultura, gravado na casa de Benedito Nunes. Haroldo Maranhão passou quatro dias em Belém. Participou, naquele momento, da entrega oficial de sua biblioteca, então adquirida por R$ 150 mil pela Companhia Vale do Rio Doce e repassada à Biblioteca Pública Arthur Vianna.

Combinei uma entrevista com o Haroldo. O acertado era que o repórter passaria à noite, no hotel, para ouvir o escritor. Mas foi este que, imprevistamente, veio à toca do entrevistador. Sozinho em casa, tive que interromper o banho para atender quem batia. Era o próprio Haroldo Maranhão. Com o cabelo ainda ensaboado, o surpreso e improvisado anfitrião acomodou o ilustre visitante, da melhor forma possível, em meio à bagunça doméstica. Foi só o tempo de tirar o xampu da cabeça, arrepanhar umas roupas, ligar o gravador e iniciar a conversa, de pronto, pois as perguntas ainda seriam organizadas para a entrevista combinada, que se realizaria no hotel onde Haroldo estava hospedado.

Com uma agenda carregada, o autor de A Estranha Xícara chegou à minha casa extenuado. Era véspera do dia de seu regresso e dia seguinte ao longo depoimento na casa de Benedito Nunes, do qual também participei. Mas, disse-me, não poderia faltar ao compromisso assumido, ainda que para conceder ligeira entrevista. Foi o que ocorreu. Durante a conversa, por duas ou três vezes, nas breves interrupções para mudar de lado a fita do gravador, Haroldo queixava-se do cansaço, e tentava convencer o entrevistador de que já bastava (na transcrição, deixo registradas, em parênteses, essas intervenções, para situar o leitor do andamento da conversa, amena, ainda que toldada pelo compreensível esgotamento físico do entrevistado). Mas o entrevistador, insensível, insistia um pouco mais. As últimas perguntas foram feitas com Haroldo, já em pé, se encaminhando para a saída. Na pele de jornalista, ao final da conversa monitorada pelo gravador, mal tive tempo de abraçá-lo e de lhe desejar boa viagem. Eu não sabia, mas aquele seria o último encontro em que estivemos ao alcance de um abraço. Depois, longas conversas ao telefone, e períodos ainda mais longos sem nenhuma conversa. Até que me alcançou não mais seu abraço de amigo fraterno, mas a notícia de sua morte, naquele 15 de julho de 2004.

Três anos sem Haroldo Maranhão

Recebi ontem do amigo Elias Ribeiro Pinto, jornalista e cronista do Diário do Pará, um presente de aniversário: o seu artigo que seria

Autor de livros como Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, Cabelos no Coração, Rio de Raivas, Os Anões e As Peles Frias, que não podem faltar numa biblioteca essencial de literatura, principalmente entre leitores paraenses, exatamente num dia 15 de julho, há três anos, em 2004, morria o escritor Haroldo Maranhão, poucas semanas antes de completar 77 anos. Jornalista, escritor e advogado, Haroldo Maranhão nasceu em Belém, no dia 7 de agosto de 1927, filho do jornalista João Maranhão e de Carmem Lima Maranhão. Aos 13 anos já atuava como repórter policial no jornal A Folha do Norte, de propriedade de seu avô, Paulo Maranhão, onde chegou a ser redator-chefe. Ainda na Folha, fundou e dirigiu, de 1946 a 1951, o Suplemento Literário do jornal, “difundindo tudo o que de melhor e mais novo se fazia na literatura e na arte do país e do estrangeiro”, golpeando “o isolamento que ilhava a produção local”, registraria, décadas depois, Benedito Nunes. Em seguida, os dois amigos, ao lado de Mário Faustino, publicaram a revista Norte – que sobreviveu por três heróicos números, de 1951 a 1952.

Nos anos 50, Haroldo abriu as portas da Livraria Dom Quixote, na galeria do Palácio do Rádio, ponto de encontro de intelectuais belenenses. Como advogado, tornou-se procurador da Caixa Econômica Federal no Rio de Janeiro (RJ), cidade onde viveu durante 40 anos. Haroldo faleceu em Piabetá (RJ) e foi enterrado na cidade do Rio de Janeiro. No texto a seguir, para revivermos e compartilharmos lembranças deste grande mestre das letras, professor de dignidade e de inabalável indignação (onde esta coubesse, e nunca lhe faltaram motivos para exercê-la), relembro alguns encontros que tive com o autor, desde o inaugural até o último.


Eu, Haroldo Maranhão e seu Rocinante Opala

Ainda estávamos na era do fax (que veio um pouco depois da era do jazz e da era da Tuna Luso de China, Waltinho e Fefeu) quando tive meu primeiro contato com Haroldo Maranhão. Foi através dele, do fax, que fiz aquela famosa entrevista com o escritor, o seu mais importante depoimento a um jornal, não por arte do entrevistador, mas simplesmente porque o entrevistado estava disposto a falar, ou melhor, escrever. E muito.

Quando Haroldo morreu, em 15 de julho de 2004, republiquei boa parte da entrevista aqui no DIÁRIO. Ela foi publicada, originalmente, em 23 de setembro de 1990, em A Província do Pará, sob o título “O Pará não morreu. Viva o Acará!”. O Acará aludia ao personagem principal de Cabelos no Coração, livro que Haroldo lançava então, naquele distante ano de 1990. Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, ou Filippe Patroni, ou Doutor Patroni, este o nome do personagem, nascido no Acará, tal qual Batista Campos e Júlio Cezar Ribeiro de Souza. Muita cabeça para pouco município, dizia o Haroldo. “Uma coisa é ser acaraense, outra é ser paraense. Minha maior ambição é vir a ser acaraense. Benedito Nunes não se deu conta mas é acaraense, dos puros. Ignoro o que acontece por lá. Devem ser as águas, a floresta, os igarapés, alguma coisa que circula no ar. Não sei. Pelo sim, pelo não, aconselho as grávidas a irem parir no Acará.” Não preciso dizer que o atual Acará não corresponde à geografia heróica e sentimental desse Acará prodigioso, patroniano, haroldiano.

Por falar em Benedito Nunes, em setembro daquele ano de 2004 assisti a uma palestra do mestre, no Instituto de Artes do Pará. Na mesa, além de Nunes, os poetas Age de Carvalho e Max Martins. O encontro homenageava Haroldo Maranhão. O que mais me tocou, ao final, foi quando um senhor se aproximou de mim, confirmou que eu era eu mesmo, e me agradeceu a reedição da entrevista, quando da morte do autor de Rio de Raivas. Graças a ela, disse-me, começou a ler Cabelos no Coração, livro, aliás, que carregava na ocasião, com a identificação na lombada de volume emprestado de biblioteca pública. Foi, naquela noite, a homenagem mais representativa ao grande escritor.

Mas voltemos, como eu dizia no primeiro parágrafo, ao contato inaugural com o autor de O Tetraneto Del-Rei. Eu não tinha fax. Quem transmitiu minhas perguntas ao Haroldo, residente no Rio de Janeiro, foi o superintendente da Província, Roberto Jares Martins, que também já nos deixou. Um dia depois de enviadas as perguntas, Jares recebeu as respostas, leu e me chamou. Li e logo percebi que era uma entrevista histórica. Haroldo mexia com a pasmaceira paraoara. Sobravam cipoadas até para o indolente entrevistador.

Nosso primeiro contato pessoal foi logo na semana seguinte a essa entrevista, quando o autor veio a Belém para lançar o dito Cabelos no Coração. Conhecemo-nos exatamente na noite de autógrafos, no Museu da Universidade Federal do Pará, na avenida Governador José Malcher.

Tornamos a nos ver um ano depois, em julho de 1991, no Rio de Janeiro, eu indo para a minha primeira Bienal do Livro. Aliás, pessoalmente, tive poucos mas luminosos, privilegiados encontros com Haroldo Maranhão. Como foi o caso desse segundo encontro, no Rio de Janeiro. Hospedei-me num hotel na avenida Nossa Senhora de Copacabana. E acabo de lembrar do nome, condoreiro, do hotel: Castro Alves.

Cheguei na madrugada seguinte à morte do cronista Paulo Mendes Campos. O dia, por isso, amanheceu-me melancólico. Mas logo me pus no rumo da Praia do Flamengo, onde ficava o apartamento do Haroldo, que me aguardava.

Recebeu-me na sala forrada de livros, muitos deles preciosos, raridades em matéria de dicionários, primeiras edições de Machado de Assis, de autores brasileiros modernistas, diversos com autógrafos para o próprio Haroldo. Este acervo, hoje, está na Sala Haroldo Maranhão, no Centur. Conversamos, fui espiar à janela, que dava para os jardins do Palácio do Catete (atual Museu da República), onde Getúlio Vargas se suicidou.

A Bienal era no Riocentro, que, apesar do nome, é longe pra burro, no Recreio dos Bandeirantes, bairro vizinho de Jacarepaguá, onde, cantava-se naquela música, acabavam seus dias os que não encontravam sua cara-metade. O escritor sossegou-me: ele me levaria até lá. Mas o meu sossego inquietou-se quando me confidenciou que há meses, anos, sei lá, não tirava o carro da garagem do prédio. No máximo, aquecia-o.

Descemos até a garagem. Na vaga reservada a seu apartamento, havia algo que lembrava um Opala. Conseguimos, depois de alguns minutos esquentando a máquina, desembaraçarmo-nos do labirinto subterrâneo, e lançamo-nos na selva selvagem do trânsito carioca. Foi a primeira e única vez que conheci o Haroldo Maranhão motorista. Como vocês podem ver, sobrevivi para contar a história.

Chegando ao Riocentro, circulamos por um par de horas na Bienal até o Haroldo dizer que precisava retornar. Fiquei até o final da tarde. De noitinha, na saída, a temperatura caiu tão repentinamente, baixou uma neblina tão densa, que o fato virou notícia no Jornal Nacional. Envolvido por aquela enternecida solidão que nos acomete quando estamos distantes de tudo e de todos, imerso naquele denso e atípico nevoeiro carioca, envolvido de mim, em mim, me aproximei, enquanto aguardava o transporte, de um trailer e pedi um conhaque vagabundo qualquer, mas um dos melhores e mais aconchegantes que tomei até hoje.

Tivemos outros encontros naquela ocasião. Acho que ainda a bordo do Opala – talvez herdeiro daquele Rocinante manchego, montaria de D. Quixote – prodigalizamos novas incursões, espécie de turismo literário. Ali, apontava-me, era a casa do Bruxo do Cosme Velho, o Machado de Assis que, naquele ano de 1991, era personagem de um novo romance do escritor, o último que Haroldo lançaria, Memorial do Fim: A Morte de Machado de Assis, reeditado em 2004 pela Editora Planeta. Mais adiante, indicou-me que fulano, ou fulana, já não lembro quem, atirara-se de um prédio.

Nas pistas da Praia do Flamengo que corriam diante de seu edifício, morreram atropelados, disse-me, o poeta português António Botto, o jornalista e escritor Brito Broca e um terceiro cujo nome também não lembro (às vezes, o nome me surge, estampa-se, para tornar a escapulir, como agora). É possível que um ou outro tivesse tomado umas e outras a mais e, estonteados, ousaram cruzar aquelas pistas varejadas de carros em voraz velocidade.

Numa dessas incertas incursões terminamos, eu e Haroldo, num restaurante do Baixo Leblon onde jantamos uma deliciosa paella, acompanhada de chopes “na pressão’, como ele pedia aos garçons. Saímos meio de pileque. Percorre-me um calafrio agora ao imaginar que o Rocinante Opala talvez nos aguardasse defronte ao restaurante.

Também estive com o escritor num daqueles tradicionais restaurantes do antigo centro carioca. Quando fui em 2003 ao Rio (e falei com o Haroldo apenas por telefone, ele morando em Piabetá, distrito de Magé, um município não muito distante do Rio, e como lamento não ter ido, naquela ocasião, ao seu encontro), em mais uma Bienal, tentei localizar esse restaurante, enquanto caminhava pelas ruelas centrais. Nada. Só atinei mesmo com a Casa Lidador, de importados, onde chegamos a entrar para sondar alguns queijos ou vinhos.

Acho que não tornamos a nos encontrar no Rio de Janeiro. Os demais contatos pessoais foram por aqui, em Belém. Por exemplo, em 2001, num depoimento do escritor à TV Cultura, gravado na casa de Benedito Nunes. Haroldo Maranhão passou quatro dias em Belém. Participou, naquele momento, da entrega oficial de sua biblioteca, então adquirida por R$ 150 mil pela Companhia Vale do Rio Doce e repassada à Biblioteca Pública Arthur Vianna.

Combinei uma entrevista com o Haroldo. O acertado era que o repórter passaria à noite, no hotel, para ouvir o escritor. Mas foi este que, imprevistamente, veio à toca do entrevistador. Sozinho em casa, tive que interromper o banho para atender quem batia. Era o próprio Haroldo Maranhão. Com o cabelo ainda ensaboado, o surpreso e improvisado anfitrião acomodou o ilustre visitante, da melhor forma possível, em meio à bagunça doméstica. Foi só o tempo de tirar o xampu da cabeça, arrepanhar umas roupas, ligar o gravador e iniciar a conversa, de pronto, pois as perguntas ainda seriam organizadas para a entrevista combinada, que se realizaria no hotel onde Haroldo estava hospedado.

Com uma agenda carregada, o autor de A Estranha Xícara chegou à minha casa extenuado. Era véspera do dia de seu regresso e dia seguinte ao longo depoimento na casa de Benedito Nunes, do qual também participei. Mas, disse-me, não poderia faltar ao compromisso assumido, ainda que para conceder ligeira entrevista. Foi o que ocorreu. Durante a conversa, por duas ou três vezes, nas breves interrupções para mudar de lado a fita do gravador, Haroldo queixava-se do cansaço, e tentava convencer o entrevistador de que já bastava (na transcrição, deixo registradas, em parênteses, essas intervenções, para situar o leitor do andamento da conversa, amena, ainda que toldada pelo compreensível esgotamento físico do entrevistado). Mas o entrevistador, insensível, insistia um pouco mais. As últimas perguntas foram feitas com Haroldo, já em pé, se encaminhando para a saída. Na pele de jornalista, ao final da conversa monitorada pelo gravador, mal tive tempo de abraçá-lo e de lhe desejar boa viagem. Eu não sabia, mas aquele seria o último encontro em que estivemos ao alcance de um abraço. Depois, longas conversas ao telefone, e períodos ainda mais longos sem nenhuma conversa. Até que me alcançou não mais seu abraço de amigo fraterno, mas a notícia de sua morte, naquele 15 de julho de 2004.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Um poeta de Belém na Pérola

Recebi ontem um carinhoso e-mail do jornalista e cronista do Diário do Pará (onde também escrevo), Elias Ribeiro Pinto, informando que estará em Santarém, hoje, pela primeira vez, um dos grandes poetas de Belém, Ronaldo Franco (que também escreve às sextas no Diário).
Ronaldo traz alguns de seus livros e ficará hospedado no Santarém Palace. Quem quiser manter contato e adquirir alguma de suas obras poéticas autografadas, é só passar lá. Depois, ele dá uma esticada para conhecer nossa Alter...
Pelo jeito, vem poesia nova por aí com ares de Alter. Quem sabe você esbarra com ele por lá...

Renascer é tão importante quanto viver

Já passa da meia-noite, o dia é 13 de julho de 2007. Meu sono não vem. Dentro de poucas horas estarei renascendo aos 44 anos. Cismo em esperar a hora, na esperança de cruzar, transcendentalmente, com meu alterego mais jovem, lambuzado de placenta, num encontro entre o passado e o presente. Resolvi escrever neste meu pobre blog o que me vinha à cabeça. Aviso logo: se você não quiser perder tempo com babaquices de um quarentão ensimesmado, pare por aqui e vá para o orkut, pro MSN ou simplesmente desligue o computador. Depois não diga que não avisei....
Mas voltando a “jotaninar”, adoro o simbolismo dos números: 44 às 4 da manhã. Quaraquaquá. Já o 13, nasceu comigo e quem diria que seria uma sina política, da qual me livraria exatamente nesta data? [Daqui a pouco eu conto] Mas há outro número muito importante nesta simbologia “ninista”: o 21. Não, não é meu patrocinador. É apenas um pedaço de mim que me liga a outro passado lendário. [Daqui a pouco eu conto]

Como bom canceriano, sou um eterno arqueólogo da mente. Vivo buscando no passado as respostas para o meu presente, pouco me importando com o futuro. No futuro, fatalmente, voltarei ao presente que será passado e assim sucessivamente.
13 de julho de 1963. Quatro horas da madrugada. Lá estava eu, bebê recém-nascido, na Santa Casa de Misericórdia. Comigo devia haver pelo menos uma dezena de outros bebês chorões no berçário. Belém, Pará, Brasil. Minha cidade, como será que era? Ainda não consegui reconstituí-la, mas aos poucos vou encontrando pedaços aqui, acolá.

Minha mãe, Marapanim/Pará. Meu pai Xanthi/Grécia. Um encontro pouco provável se não fosse o espírito desbravador do velho Ninos, que resolveu se aventurar pela estrada que JK abriu, saindo da nova capital federal rumo ao norte. O marreteiro que vendia roupas no Ver-O-Peso se encontra com a cabocla da terra do carimbó em alguma alcova e o milagre da vida acontece. Quantos espermatoNinos matei no caminho? [na foto, eu e o velho grego disputando pra ver quem tem o nariz maior. Eu perdi...]

Como poderia imaginar que um dia, 15 anos depois, adotaria Santarém como minha terra? Aqui estou, 29 anos depois. Indo e sempre voltando para esta Pérola. [Belém é só o recôndito de minha alma e de minha calma que ainda não descobri. Lá ficaram o Kennedy, as praças da República e Batista Campos, o Cine Olympia e o Manuel Pinto da Silva, meu microcosmo infanto-juvenil]. Aqui aprendi a nadar, a dirigir, a lutar, a divergir, a não rezar, a permitir, a polemizar, a parir, a parar, a grunhir, a gozar...

Quaraquaquá! Quem diria. Parece que foi ontem que me vi meNino.
Mas voltando aos simbolismos numéricos: sabiam que em 13 de julho de 1501, Pedro Álvares Cabral regressou a Lisboa, após a descoberta do Brasil e da visita à Índia? E que na mesma data, em 1553, Duarte da Costa, segundo governador geral do Brasil, chegou a Salvador, na Bahia? E sabiam que, além disso, um dos líderes da revolução francesa, o médico e jornalista francês Jean Paul Marat, foi assassinado um dia antes de comemorar o 1º ano de seu grande feito? E que Santos-Dumont rodeou a torre Eiffel a bordo de um dirigível, mas acabou caindo, na altura de Boulogne, em 13 de julho de 1901? Em compensação, divido a data do aniversário – entre outros – com o ator hollywoodiano Harrison Ford, o eterno capitão Han Solo de Guerra nas Estrelas, que nasceu 21 anos antes que eu.

E daí? A quem interessa estas datas? Escrevi só para enfeitar o texto e mostrar um pouco de minha erudição de almanaque...

Mas voltando aos simbolismos numéricos: o 13 para mim sempre foi sorte-azar. Lembro que muitos aniversários não foram comemorados na infância por causa de uma caxumba, de um sarampo ou de uma simples disenteria que resolvia aparecer exatamente nesta data. Imagina um 13, como hoje, caindo numa sexta-feira! Dia de terror...

Mas já tenho um programa especial para marcar o sorte-azar dessa data (além do meu aniversário): hoje tiro o corpo fora de uma das minhas mais belas aventuras, que completa exatamente 25 anos e 139 dias – entrego, logo mais, ao presidente do diretório municipal de Santarém (alguém sabe quem é?) minha carta de desfiliação do PT. Foi bom enquanto durou. Como diria Lennon, em 1970: “O sonho acabou!”. Não o meu sonho, este eu vou continuar acalentando. Mas o sonho petista acabou. Relutei muito para tomar a decisão e decidi que essa seria uma data simbólica para realizar esse ato. Ponto final.
Outro simbolismo de que falei lá em cima: o 21, esse número incrível que me acompanha há 44 anos. Pouca gente sabe, mas hoje vou revelar um segredo do qual me orgulho: tenho algo que a Cicarelli também tem! Não, não são meus lábios. E nem fui flagrado transando numa praia. É que tenho um dedo a mais no meu pé direito, totalizando 21 dedos! Seria um sinal? Seria eu um ser especial? Espacial? E sempre que alguém descobre meu pequerrucho, saltitando por cima da tira de minhas Havaianas, a primeira pergunta surge como uma guilhotina francesa: porque não cortaram ao nascer? E eu me pergunto: porque essa ânsia mórbida de cortar um pedaço de mim?

A explicação para não cortá-lo está numa velha lenda grega que meu pai contava. Ocorre que depois dos 300 anos de dominação do Império Otomano os gregos reconquistaram a liberdade em 1821, mas não se conformavam em não poder usufruir de Constantinopla (Istambul), que ficou do lado de lá, depois do tratado abalizado pelas potências da Europa. Surge então um rei chamado Constantinos que lidera uma louca revolução em busca dos territórios perdidos. Os soldados gregos avançam e conseguem chegar do outro lado do mar Egeu, em Esmirna (terra de Homero), mas exaustos, são obrigados a recuar e os turcos saem cortando cabeças e encharcando o solo de sangue grego. Constantinopla continuará a ser Istambul e ponto final.

O detalhe: Constantinos tinha 21 dedos e ficou a lenda que só um novo rei com tal quantidade de dedos poderia reconquistar Constantinopla! Imagina a cara do meu pai, ao me ver no berçário, em Belém, com os 21 dedinhos à mostra! Infelizmente fui um fracasso. Estive na Grécia, passeei como turista por Istambul, mas não tive nem coragem de me alistar no exército grego, condição sine qua non para conseguir minha dupla nacionalidade. O que dirá liderar uma revolução grega... [na foto, eu e a Acrópole, 1991]

O sono se apodera de meus olhos. Acho que não conseguirei me encontrar com meu eu “emplacentado”. Só me resta fazer como todos estarão fazendo hoje, lá no Maracanã, na festa especialmente preparada para mim:

“Parabéns, Jota! Cadê o bolo?”

terça-feira, 10 de julho de 2007

Links

Criei no menu do lado esquerdo deste blog, como pode ser visto na imagem abaixo, uma série de links que levam aos artigos e crônicas mais acessados e comentados aqui postados.
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O dia em que quase pisei num podium (*)

Às vésperas do Pan 2007, cuja abertura será no dia do meu aniversário, me pego pensando se o mundo não perdeu um grande atleta. Mas ao lembrar de meu retrospecto nessa área chego à conclusão de que como atleta sempre fui uma negação. Ou pior, uma aberração. Mesmo assim, tive uma única chance de brilhar e desperdicei.
Não fui feito para a prática esportiva e desde a mais tenra idade sonhei em conseguir pelo menos um feito atlético para que eu pudesse ser lembrado eternamente. Mas como um moleque pançudo, zarolho e desajeitado poderia progredir em algum esporte? Apesar disso decidi me empenhar no futebol, nosso esporte bretão. Dos sete aos 14 anos, me apliquei jogando “futebol de tampinha de refrigerante” no recreio da escola, na tentativa de que algum “olheiro” do nosso time visse que eu tinha algum futuro.
Meu professor de educação física naquele tempo era o Clauriberto Levy, que hoje é instrutor de trânsito em Santarém (dia desses descobrimos essa nossa ligação daquele tempo) e, reconhecendo meu talento, sempre que chegava a hora escalar os times tinha uma vaga certa para os meus dotes... goleiro, a única vaga que sobrava.
Fiz grandes apresentações e mostrei um grande potencial para buscar as bolas... no fundo das redes. Uma vez cheguei a participar de um fato inédito pelo qual sou lembrado até hoje. Num “rachão” durante a aula de ginástica lá estava eu, solitário, embaixo da trave do pequeno campinho do velho colégio Jonh Kennedy, em Belém. Era final de jogo e naquele dia eu havia resistido muito, levando somente dois gols (era um recorde, pois nunca ficava sem engolir pelo menos cinco frangos...).
Minha equipe resolve ir pro tudo ou nada para tentar o empate numa cobrança de escanteio do outro lado. Fico sozinho na área aguardando um contra-ataque. O escanteio é cobrado lá e algum zagueiro consegue cabecear para fora da área. A bola quica e o beque do outro time dá um chutão pra frente na minha direção. Com efeito, a bola vai em direção à lateral do campo. Corro para agarrá-la, mas na beira do gramado havia uma velha árvore cuja raiz insistia em invadir a lateral. Muito jogadores já tinham sido vítimas de tropeções, mas ela nunca foi expulsa ou sequer advertida pelo juiz! Naquele dia ela se superou: rebateu a bola cobrindo este pobre goal keeper. Gooooooooooooooooollllllll! Que vergonha, até uma árvore fazia gol em mim!
Fui muito criticado, e como não podia viver eternamente barrado no time, me designaram uma nova função: a de ficar na ponta... esquecida. A famosa “banheira”. Por várias vezes fiquei sozinho com o goleiro e perdi gols feitos! Nessa posição, tinha um outro colega tão zarolho do que eu, mas que era minha maior alegria: ele conseguia ser pior do que eu, se é que isso era possível. Até o dia em que ele me superou, no episódio em que perdi a chance de subir pela primeira vez num podium.
1976. Nossa turma tem uma das melhores equipes de futebol do colégio naqueles tempos. Eu me orgulhava disso, apesar de não participar das estatísticas dessa performance. Estávamos na sexta série e naquele ano comentava-se que éramos um dos favoritos à medalha de futebol de campo. Bastava superar o maior favorito: a oitava série. Os jogos aconteceram no gramado do ginásio Souza Franco. Havíamos escalado o que havia de melhor. Escolhemos que a camisa do time seria a do Botafogo (minha sina). A ordem era que todos fossemos vestidos com a camisa, mesmo que ficássemos somente na torcida.
Eu pensei em nem ir com medo de dar azar ao time (sempre que ia aos gramados torcer pelo Paysandu, ele apanhava daquela outra coisa). Me considerava um verdadeiro pé-frio. Por isso, acabei nem comprando a camisa. Mas na última hora, achei que não devia deixar o time e ser chamado de “furão”. Fui, mesmo sem estar com a estrela solitária no peito.
Quando chego lá, nosso time está prestes a enfrentar a toda poderosa 8ª série. Para minha surpresa vejo que há desfalques, alguns jogadores não estão lá. O que aconteceu? Chego junto ao banco de reservas e encontro com o colega zarolho sozinho, paramentado de Botafogo!
- O que aconteceu? – pergunto atônito.
-Três dos nossos ficaram doentes e outros dois não vieram – respondeu-me com um sorriso no rosto.
- E por que estás sorrindo? – digo com ar de reprovação.
- É que me colocaram na reserva.... Se tiveres uma camisa do Botafogo também podes sentir esse gostinho!
Não podia ser verdade. Vi escorrer entre minhas mãos a possibilidade de, ao menos, sentar naquele banco e poder curtir aquele momento. Nessa hora, o capitão do time chega e me confirma em sussurros uma frase que até hoje ecoa nos meus ouvidos: “Consegue uma camisa do Botafogo que na primeira chance tu entras, pois és menos ruim do que ele”, apontando pro outro colega que, feliz da vida, balançava uma bandeirinha alvinegra. Ser chamado de “menos ruim” pelo capitão, era um verdadeiro elogio!
Sai atrás de alguém que tivesse uma camisa do Botafogo. Servia até mesmo uma do Atlético Mineiro ou qualquer outro time que pudesse disfarçar. O jogo seguia e eu corria feito louco em meio às arquibancadas em busca da tal camisa. Havia todas as cores, mas nenhuma era alvinegra. Desisti, já com uma lágrima misturando-se ao suor do meu rosto franzino. Aliás, pelo pique que havia dado certamente já nem teria condições de entrar no campo. Só me restava sentar e assistir.
De repente, nosso melhor atacante sofre uma falta e fica sem condições de voltar a campo. O capitão do time olha para o banco e vê o amigo zarolho e sua bandeirinha, com um lumiar nos olhos. Me vê na arquibancada, faz sinal puxando sua camisa como quem pergunta, “conseguiu?” Balanço a cabeça negativamente e ele, desconsolado, faz aquele sinal de “não tem tu, vai tu mesmo”. È a glória do mais zarolho da turma e minha decepção. Não sabia se era melhor ele entrar fazer besteiras e eu continuar sendo chamado de “menos ruim” ou se era melhor torcer para que ele fizesse um gol salvador e nosso time fosse campeão. Fiquei dividido entre torcer contra ou a favor.
E o imprevisível aconteceu.
O time resistiu até o final e ninguém conseguia fazer gols. Nos últimos minutos, a equipe da 8ª série foi em peso para o nosso campo numa cobrança de escanteio. A bola resvala na mão do nosso goleiro e o zagueiro dá aquele chutão pra frente com todas as suas forças. O único zagueiro deles que ficou para trás fura no chute no meio do campo e cai no chão e a bola segue em direção à grande área do adversário.
O colega zarolho, desengonçado, sai correndo atrás da bola. Como sempre, ele jogava de óculos (como eu também) e no pique os perde em campo! A bola quica na frente dele e, sem noção de onde está (era mais míope do que eu) corre para o outro lado no momento em que o goleiro corria em direção à bola! Esse “jogo de corpo” do zarolho acaba enganando o goleiro e a bola passa por ele quicando, bate na cabeça do zarolho - que cai desmaiado ao chão - e entra no gol! Gooooooooooooooooooooollllllllllllllllll!
Não sabia se ria ou chorava. Eu poderia estar lá, por ser “menos ruim” que o zarolho. Talvez tivesse feito aquele gol (pelo menos não havia uma árvore para me driblar). Talvez tivesse sido eu, o carregado como herói. Talvez tivesse sido eu ali no podium, recebendo aquela medalha... Talvez...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Crônica de um cicerone movido à açaí com peixe frito(*)

Belém – Não tenho a menor vocação para agente turístico. Se dependesse de meus dotes de cicerone morreria de fome, além de botar abaixo o PIB turístico de qualquer lugar que tentasse promover. Mas como cheguei à tais conclusões?
Aproveitando as férias em Belém, participei do VI Congresso das Ciências da Comunicação promovido pela Intercom/Norte. A Intercom é a Sociedade Brasileira de Pesquisas Interdisciplinares da Comunicação, que há 30 anos estuda o comportamento da mídia e regionaliza seus debates em encontros como o que ocorreu em Belém na semana passada. E pela primeira vez, uma delegação de 15 estudantes de jornalismo de Santarém participou do evento. Eu, por ser belenense de nascimento, me propus ciceronear parte do grupo... Foi dessa experiência que concluí ser um péssimo agente turístico.
“Já vim várias vezes à Belém, mas fico sem direção e se não for um táxi, acabo me perdendo”. A declaração sincera foi de um dos colegas da delegação, que apesar de sua experiência jornalística demonstrou nada saber sobre a geografia da metrópole. Os outros balançavam a cabeça corroborando com a mesma tese. Aí meu instinto de “metido a sabichão” revelou à turma o perigoso convite à aventura num sonoro “´xa comigo!”. Comecei a fazer cena tentando impressionar com meus conhecimentos de almanaque, discorrendo sobre pontos turísticos de Belém, sua história e principalmente como chegar a eles.
A coordenação do Intercom/Norte este ano, acabou colaborando com isso ao definir quatro pontos diferentes para a abertura, o encerramento e para a reunião dos grupos temáticos, obrigando centenas de congressistas de outros estados (e de Santarém) a deslocarem-se de um lado para o outro da cidade, enfrentando o caótico trânsito de Belém. Muita gente se perdeu pelo caminho ou chegou atrasado aos eventos por conta da distância e da escassez de informações. Mas parte da delegação de Santarém podia contar com um “experiente” cicerone...
Primeiro dia, um tour num dos shoppings centers da cidade. Vaguear pelos corredores uniformes e assépticos, conferindo vitrines com preços que nem sempre cabem num cartão de crédito. Vez por outra encontra-se uma promoção em loja de preços populares e compara-se com o que há em Santarém. Mão no bolso e lá se vão algumas sacolas com bugingangas e quinquilharias, desde uma almofada-coração a um eletrodoméstico que promete entregar um pão de trigo pronto em poucos minutos! Na praça de alimentação, comes e bebes pasteurizados, enlatados, e geralmente com preços amargos. Espertamente, o cicerone indica um restaurante com rodízio ao invés do prato executivo (o velho conhecido PF)., apostando que seria mais em conta. Ledo engano: a colega que chegou depois e não atendeu aos conselhos comprou o prato simples e comeu tanto quanto os outros pagando a metade do preço... Entreolhares nos membros da delegação: começa a desconfiança de que podem estar entrando numa fria com o tal cicerone...
Segundo dia, os “turistas”, por precaução, sugerem ao cicerone um lugar mais barato e com um quê de regional. São guiados á feira do Ver-o-peso onde conhecerão suas iguarias únicas sempre lembradas em programas especiais de televisão. Falo da maravilha que é comer peixe frito com açaí, em pé, num boxe entre dezenas de outros da feira e num calor quase insuportável do meio-dia, apesar da bela arquitetura das tendas brancas de napa criadas por um governo petista. Com certeza aquela praça de alimentação popular ficou bem melhor do que eu conhecia da época de menino.
O jornalista (do táxi), gaúcho de nascimento e santareno de coração, aprova, lambe os beiços e pede bis. Já a jornalista, cabocla da região não se arisca no acepipe tão exótico. Prefere arroz, feijão, carne e salada na banca ao lado. Meu conceito aumenta com parte do grupo que sorri com os dentes de açaí... Começo a acreditar que não é difícil fazer as vezes de agente turístico!
Próxima parada: Estação das Docas, símbolo máximo da megalomania do tucanato paraense. Obra arquitetônica moderna que aproveitou velhos galpões das Docas do Pará e possibilitou a quem passa por lá ver o rio que antes tinha a visão encoberta (mesmo assim, nossa orla ainda dá de dez a zero!). Na Estação há um complexo de restaurantes, imensos boulevares para eventos, além de um grande teatro-auditório, todos separados por portas de vidro automáticas que se abrem com nossa aproximação. O cicerone, pimpão, vai á frente tentando se mostrar para os demais com os braços erguidos: “Abre-te, Sésamo!”. As portas atendem. De repente, afoito, envereda por um corredor sem ler um cartaz e repete a firula: “Abre-te, Sésamo!”... e estabaca-se na porta de vidro. O cartaz informava que naquele lugar a passagem estava interditada... Os “turistas” santarenos explodem em gargalhadas, enquanto confiro se o nariz não quebrou...
Terceiro dia, depois de repetir o sucesso do peixe frito com açaí e conseguindo novos adeptos, nosso destino é o Campus da UFPa., uma cidade dentro de outra cidade. Para chegar lá, ônibus específico. [Antes, um parêntesis: na verdade sei me movimentar em Belém e até acerto algumas linhas de ônibus. O problema é que o hiato entre uma visita e outra afeta minha percepção espacial...] “Vamos nesse”, digo de forma inconteste e depois de muitas voltas, somos obrigados a saltar num ponto bem distante do local. Pernas pra que te quero! Haja caminhar para consertar o erro do cicerone!
O jornalista gaúcho decreta a mais pura filosofia da Angélica: “Daqui em diante, só vou de táxi!”. Acaba assim o que seria uma carreira promissora de um agente turístico...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos em 24.06.2007, no encarte regional Diário do Tapajós do jornal Diário do Pará.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Reminiscências de um maluco beleza (*)

Belém – Curtindo um pouco mais minhas férias não podia deixar de dar uma volta em Belém, onde um dia nasci há quase 44 anos (faltam vinte e poucos dias para aquela data...). E daqui faço um longo Perípatos ao passado...
Há duas semanas fui entrevistado na TV Santarém e um dos entrevistadores lançou uma pergunta na tentativa de esclarecer meu "lado polêmico" do início de carreira há 23 anos na Rádio Rural e minha vinculação com o PT, para fazer um parâmetro ao, digamos assim, "processo de despolemização" pelo qual eu haveria passado nos últimos anos.
Para isso, perguntou se eu ouvia muito Raul Seixas naquela época de PT e se o espírito "maluco beleza" do grande roqueiro baiano estaria no meu "DNA polêmico". Meio atônito com o estereótipo lancei outro estereótipo: "Não, minha influência era Chico Buarque". Disse ainda que Raul Seixas fez parte de outro período de minha vida e que Raul era rebeldia pura, mas estereotipada como aventura doidivanas, o que certamente eu não considerava naquele período dos anos 1980.Nesse momento teclo de um cybercafé no térreo do, ainda, imponente edifício Manoel Pinto da Silva onde morei dos dois aos quatorze anos. E aí não poderia deixar de me embalar em lembranças de minha infância/adolescência vividas neste prédio e na vizinha praça da República e seu túnel de mangueiras (já castigadas pelo tempo). E se não estou enganado, aqui mesmo onde estou existia uma loja de discos onde comprei a primeira "bolachinha" de minha coleção de mais de 300 LPs (Long-Plays) e compactos de vinil, com a suada mesadinha que recebia à época. E adivinhem quem foi o meu primeiro contemplado: ele mesmo, Raulzito!
As poucas famílias de migrantes gregos que se estabeleceram em Belém, formaram uma comunidade que morava em apartamentos neste edifício. Nossa família era a que morava no topo da grande pirâmide (apesar de na realidade econômica estar mais para base...), no 24º andar. As tradições gregas não permitiam que nos misturássemos com outros e só as famílias que tinham brasileiros formando um casal com grego(a), é que possibilitavam uma maior abertura para a cultura brazuca.Nessa época meus ouvidos ouviam muito mais música grega (até hoje sei algumas de cor). Mesmo assim eu procurava algumas referências musicais brasileiras, mas naquela idade o máximo que cheguei a gostar foi de músicas da 1ª fase romântica de Roberto Carlos (sim, um dia gostei de ouvir o Rei!) ou de Antonio Marcos, Márcio Greyck e outros cantores que seriam classificados de "brega romântico" ou "brega chique".
Em '73, meu pai era o único grego solteiro até então, mas já tendo uns três filhos com brasileiras (!). Finalmente decidiu regularizar sua situação e casou-se com uma das mães de seus filhos (não foi a minha). Foi quando conheci minha irmã que morava em Santarém com sua mãe, esta que passaria a me criar à partir daquela data. A primeira medida de minha madrasta foi abrir a porta da rua e me dar mais liberdade, inclusive para comprar um disco com meu próprio dinheiro! Sacrilégio para os costumes gregos!Mas porque escolhi logo o Raulzito? Me lembro que nessa época existia um programa de televisão na extinta TV Tupi, do famoso e polêmico apresentador Flávio Cavalcanti que tem sido tema de mestrados em universidades sobre sua importância na história da televisão ou por sua ligação com o regime militar. O fato é que nunca esqueço quando ele tocava uma música nova e se não gostava quebrava o disco no palco e dizia que aquilo era uma droga!
Foi o que ele fez com o disco KRIG-HA, BANDOLO!, de Raul Seixas, após executar a música Ouro de Tolo, a famosa letra quilométrica com o desabafo claustrofóbico de um cara de classe média, que Raul interpretava. Fiquei encucado com aquilo e me solidarizei com o Raulzito. Passei a prestar atenção em suas músicas, pois era a primeira vez que uma letra não-romântica (ou melhor, não-piégas) me sensibilizava. Eu não entendia bem o que ele dizia, mas algo me tocava em suas letras.Até que um dia ouvi Gitá: foi amor à primeira escuta!
Lá fui eu quebrar meu porquinho de barro e juntar as moedinhas para fazer meu primeiro investimento musical. Estava tão entusiasmado que nem esperei o velho e lento elevador com capacidade para 10 pessoas chegar. Saí correndo pelas escadarias 24 andares abaixo (eram mais de 500 degraus), treinando o esporte que os garotos mais gostavam de praticar no prédio: o pula-escada. Consistia em conseguir pular o maior número de degraus para encurtar a descida. Eu era recordista e conseguia pular dez degraus por vez, sem me esborrachar no chão! Bons tempos em que eu tinha corpo de sílfide e não de rolha de poço...
Chego esbaforido na lojinha, mão cheia de moedas (centavos de cruzeiros, não lembro quantos) e peço o disco do Raul, um compacto simples em vinil com apenas duas faixas: Gitá, de um lado e Não pare na pista, do outro. Subo de volta (desta feita pelo elevador) e o coração palpita: havia acabado de cometer a maior transgressão de minha vida! Talvez meu pai não gostasse e eu tomasse outra surra como da vez que desmontei a velha TV Zenith, para "consertá-la" e até hoje não entendo porque sobraram tantas válvulas...
Cheguei em casa fui para o quarto, peguei a pequena vitrolinha Philips e conversei com ela: "Amiguinha, você vai passear em um mundo novo... chega de Rebétiko!" (uma espécie de blues grego, a música que eu mais ouvia época).
A agulha começou a deslizar suavemente nos sulcos do pequeno compacto. A vitrolinha parecia aprovar o disco e o som saía baixinho pra ninguém me flagrar, mas foi sendo absorvido por meus ouvidos colados à única caixa de som mono. Os versos de Raul me inebriavam:
"Às vezes você me pergunta, porque é que eu sou tão calado/ não falo de amor quase nada, nem vivo sorrindo ao teu lado", o menino tímido que havia em mim, se refletia na canção.
"Você pensa mim toda hora/ me come, me cospe, me deixa/ talvez você não entenda, mas hoje eu vou lhe mostrar!", um tom de rebeldia querendo explodir em meu coraçãozinho de pré-adolescente de 11 anos...
"EU SOU A LUZ DAS ESTRÊLAS! EU SOU A COR DO LUAR/EU SOU AS COISAS DA VIDA/ EU SOU O MEDO DE AMAR!" (Quer ouvir, clique AQUI), Raul me invadia por completo e eu nunca mais seria o mesmo... Com Gitá, precocemente, eu dava um primeiro grito de liberdade que depois meio que se calou e só renasceu em Santarém ao som de Chico Buarque, enquanto eu andava em periferias e acreditava na luz de outras estrelas que deveriam mudar o meu mundo!Hoje a única estrela que ainda mora no meu coração é a do Botafogo! Solitariamente, como naquele dia em que descobri Raul...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada hoje no Diário do Tapajós encarte regional do Diário do Pará.
P.S. Hoje é aniversário do Chico Buarque, 63 anos. Luz ao meu ídolo!

Férias que nem sempre são férias (*)

Trabalho desde os 17 anos e quase sempre que penso em tirar férias, nem sempre consigo em sua plenitude. E ultimamente isto se torna mais real diante do acúmulo de funções no Judiciário, na imprensa e na faculdade.
Como acontece desde que entrei para a Justiça Estadual (através de concurso em 2003), anualmente tiro férias e tenho ainda a regalia de dois meses de licença especial a cada triênio! No primeiro triênio completado ano passado, tirei um mês de férias e um de licença. Este ano repito a dose neste mês de junho (licença) e em julho (férias). Nada mais gratificante para quem vive com uma vara atolada de trabalho (Ops! Entenda-se: “vara de Justiça” abarrotada de processos...).
Mas nem sempre dá para conciliar as férias de um trabalho com o de outra atividade. Este ano, calhou do nosso curso de Jornalismo antecipar as férias para junho (em comum acordo com os alunos), mas em compensação em pleno julho teremos que retornar às aulas. Entretanto, minha função na TV Tapajós, com a elaboração de projetos de comunicação corporativa tem que continuar, ainda que aos trancos e barrancos.
Acabei antecipando as férias aqui da coluna, já que a última vez que escrevi foi no início de maio. Na verdade, o envolvimento com outros projetos da faculdade e as tarefas do Tribunal do Júri não me deixaram outra escolha. Assim, desta atividade já me dei férias por conta próprio.
A editora me liga e diz: “Tem Perípatos ou não tem, companheiro?”. O tom ameaçador de sua voz me lembra o editor de Peter Parker (o Homem Aranha), J. J. Jameson e languidamente respondo: “Tem, sim... tô terminando... (como sempre minto para minha editora).
Corro imediatamente para o computador e resolvo sentar para escrever. Afinal, uma parada para quem atua na área jornalística, por exemplo, pode ser um alívio tanto para quem produz comunicação como para quem recebe... Mas o pior é quando o receptor não sente tanta falta do emissor...
Como escrever pra mim é terapia, durante as férias iniciadas na semana passada, pretendo escrever freneticamente e colocar no papel muitas idéias que andam vagando entre meus neurônios. Então lá vai: Perípatos, again!
Mas falar sobre o quê, cara-pálida? Já que entrei no assunto, porque não sobre “férias”?
Tirar férias, às vezes, pode ser um suplício. Por muitas vezes, não tirar férias é um suplício pra você e pra quem não agüenta mais vê-lo tanto tempo o dia todo.
Existem experiências de férias bem atribuladas. Aquelas em que você vai com um projeto de descansar, mas acaba se atormentando com contratempos. Que o digam os passageiros de aviões que têm sofrido com a via crúcis dos aeroportos...
Tenho uma vaga lembrança de umas férias de quando ainda era garoto em que tive que atravessar um rio (acho que foi o Tocantins) para chegar à Imperatriz, no Maranhão. Um inferno! Quase o barco vira em meio a uma tempestade e eu ia virando comida de peixe...
Já adulto, fui conhecer Goiânia em férias, mas escolhi a data errada: a cidade vivia o tormento da contaminação pelo famoso Césio-137, o maior desastre atômico do Brasil na década de 1980. Não passei nem uma semana lá...
Mas há momentos interessantes como as férias numa ilha grega... (chique?). Há 16 anos, antes de retornar ao Brasil depois de três anos convivendo na terra de meu pai, juntei uns amigos brasileiros e fui comemorar meu aniversário em férias numa das milhares de ilhas do Mar Egeu, neste caso, a paradisíaca Skiathos!
O problema é que na empolgação, estourei o dinheiro da indenização que recebi depois que pedi as contas de um supermercado em Salônica (norte da Grécia, onde trabalhei cortando queijos, presuntos e... dedos) e não tinha dinheiro mais pra voltar ao Brasil! Tive que emprestar de um amigo grego uma grana para trabalhar mais três meses em Frankfurt (lavando pratos num restaurante) para poder comprar a passagem de volta! Mas enfim, as férias foram ótimas...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos publicada em 13.06.2007 no Diário do Tapajós, encarte regional do jornal Diário do Pará.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Havia uma garrafa no meio do caminho... (*)

Das experiências que tive em minha vida, uma das que me deixou seqüelas foi um porre homérico que tomei aos 18 anos.
A lembrança me veio à cabeça neste final de semana quando resolvi acabar com uma insônia enchendo a cara (quem me conhece e estiver lendo não vai acreditar). Emborquei meia garrafa e fui pra cama. Não dormi, desmaiei. No dia seguinte acordei péssimo e lembrei do maior porre de minha vida.
Naquela época, o Fluminense realizava o “Carná Setembro”, um carnaval de salão fora de época que levava muita gente para a sua sede. Resolvi ir, mas como encarar um baile carnavalesco sem nenhuma gota de álcool? Naquele dia eu tomei uma decisão: “vou experimentar ficar porre e ver o que acontece”.
Cheguei na mercearia da esquina e como aqueles cowboys do velho oeste, bati com a mão espalmada no balcão abarrotado de moscas e sentenciei para o atônito taberneiro:
- Desce uma meiota pura!
Na verdade eu nem sabia o que era uma meiota. Tinha ouvido falar e resolvi experimentar.
Sem pestanejar, o taberneiro botou uma garrafa de pinga pela metade e saiu de perto. Olhei ao redor e vi biriteiros mais acostumados escondendo um riso entre os dentes não acreditando que aquele fracote (nessa época eu era bem magrinho) seria capaz de tal proeza.
Empurrei o copo de lado, peguei a garrafa e tomei tudo no gut-gut. Paguei e sai me achando o “cara”! Entrei no clube e já fui pulando e cantando “Alala-ôôôôô...”
Daí em diante as lembranças são confusas: rostos deformados (não sei se eram máscaras de carnaval ou efeitos do álcool), serpentinas que pareciam cobras se enroscando em mim e um barulho ensurdecedor que me inebriava ainda mais.
Pulei, gritei, atravessei o salão como se fosse um corredor polonês. Ainda lembro que senti um estremecimento no corpo que me avisava: "vais cair!" Reuni as últimas forças e dei a volta no salão em direção à rua. Acho que fui um folião-relâmpago que entrou na história do clube (talvez ninguém nem tenha notado minha entrada).
Saí e me lembro que a rua tinha umas oito pistas e milhares de carros se amontoavam à frente do clube. Cheguei à conclusão que a meiota já estava fazendo o efeito.
- Vai um táxi patrão?patrão?patrão?patrão...
A oferta do (ou dos?) motora(s) ecoava no meu ouvido, mas meu orgulho embebido de álcool achou que se eu pegasse um táxi naquele momento seria a confirmação de que eu era um frouxo.
- Não, minha é casa é logo ali – apontei rodopiando 360 graus.
Eu até que não morava longe. Minha casa nessa época era por trás da igreja Matriz, mas no estado em que eu estava era o mesmo que ir para o Japão de bicicleta.
Resisti bravamente. Segui em frente com objetivo de chegar em casa. Mas de repente alguém apagou as luzes...
Quando abri os olhos, vi luzes fortes formando um círculo no céu. Um disco-voador? De repente uma mulher toda de branco com uma lanterninha em meus olhos. Estaria sendo abduzido? Outro homem, de branco e com uma barba serena e um sorriso meigo puxa meu braço e me levanta. Seria Deus? Então morri e cheguei ao paraíso?
Me dou conta, finalmente, que estou no hospital do Sesp (hoje, o nosso HSM). Tentam me colocar de pé fora da maca e me conduzem até à porta onde outro homem, carrancudo, me aguarda.
Meu pai me fita com aquele olhar gélido de reprovação. Soube depois que eu havia sido recolhido por um conhecido seu, de uma sarjeta há duas quadras de casa! Me levou ao hospital todo sujo de lama. Acordou meu pai que saiu de casa, agoniado, pensando que eu tinha sido acidentado.
- Tudo bem “seu” Nino, o rapaz só pegou um porre... - disse o médico com um sorriso de gozador.
Bufando como um touro (seu signo), o velho grego me puxa pelos corredores até um táxi. Me joga dentro do carro, onde minha madrasta me aguarda, pega sua velha bicicleta e nos segue. O trajeto entre o hospital e nossa casa é um tormento. Espinafrado com lições de moral dentro do carro, me sinto como se estivesse amarrado ao badalo da igreja. De repente, o motora informa que meu pai caiu da bicicleta lá atrás! Pára o carro, retorna e o coloca no banco ao me lado, com o queixo quebrado e esvaindo-se em sangue! Sou deixado em casa e ele é conduzido ao hospital. Desabo na cama e o badalo foi serenando, mas sonhei que me afogava naquele sangue...
Meu pai ficou sem falar comigo por meses. Trabalhávamos juntos no balcão da lanchonete sem nos comunicar. Foi um castigo maior do que se eu tivesse tomado uma surra dele. Depois disso nunca mais bebi...
Cheguei à conclusão que não fui feito para beber e assumi a condição de “vigilante da sobriedade”, título que até hoje carrego já que sempre que saio com qualquer turma sou o único a não beber uma gota de álcool sequer, e no fim acabo sendo a voz da consciência dos que se embebedam e o conciliador em caso de estranhamentos entre amigos.
Ou o motorista pra levar os bebuns para casa...
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada terça-feira, 08.05.2007, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Dores de Anselmo

Recebi a visita em meu blog na semana passada do grande amigo, professor-doutor Anselmo Colares (na foto ao lado com Lílian e Lucas, todos leitores do blog), ex-companheiro de redações, que hoje é vice-reitor do Campus de Guajará-mirim da UNIR (Universidade de Rondônia) e me prestigiou com dois comentários neste humilde espaço:


(...) Por isso, não hesito em lançar mão das pílulas diante do mais leve sintoma de desconforto. Contrariando as recomendações médicas, e mesmo sabendo do mal que isto acarreta, não hesito em combater a dor. (...)
Leia o comentário completo clicando AQUI.
E também o breve comentário sobre a foto ABAIXO.

Barba, cabelo, bigode e... anel no dedo (*)

Sou extremamente avesso a ritos e cerimônias. Fujo deles como o diabo foge da cruz.
Talvez por isso não tenha religião e não queira participar de organizações onde o que o mais importa é a forma e não o conteúdo. Adoro escrever, mas na hora que o formalismo acadêmico ultrapassa os limites da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) me sinto limitado em minha capacidade de criação.
Da mesma forma, participar de um evento com composição de mesa, paletós, gravatas, púlpitos e mestre de cerimônia... só de pensar fico com urticária!
O pânico me leva, às vezes, a cometer gafes como subir no altar da igreja na hora do casamento de um amigo para bater a foto do casal (acreditem, já fiz isso e quase fui linchado pela família do “ex-amigo”...)! Talvez por isso não tenha ido à igreja no dia do batizado da única afilhada que alguém teve a coragem de me entregar e acabei sendo representado por outra pessoa...
Será que lá no fundo do meu ser sou um anarquista trapalhão? Ou será que sofro de uma doença rara que eu chamaria de “paramentofobia” (aversão ou medo da paramentação)? Não importa: no final das contas concluo que sou um bicho do mato quando o assunto é participar de qualquer solenidade formal como casamentos, posses de presidentes ou uma simples graduação acadêmica.
Tenho dito aos colegas do meu curso de Jornalismo, que precisamos pensar numa festa de graduação diferente do que já existe de tradicional e secular... como aquele ridículo chapéu quadrado (o tal do capelo, que vem do grego e quer dizer simplesmente “chapéu”...) ou aquela pavorosa beca e os mesmos discursos de sempre. Por trás de tudo isso, empresas montadas funcionando escancaradamente nos corredores das universidades para vender o serviço completo!
Mas minha voz tem sido um eco no deserto, pois todo mundo sonha com esse momento de registrar em foto e comemorar com a parentada e amigos uma vitória pessoal depois de anos de “suplício”. Assim, como sou voto vencido, sigo a filosofia de Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu..”
Enquanto não sai minha formatura (essa sim, um suplício de mais de 20 anos), aqui e ali participo da formatura de outros. Por duas vezes já fui até paraninfo! Imaginam minha saia, ou melhor, beca justa? A primeira vez foi há nove anos, quando da formatura de minha esposa, socióloga. A última na semana passada, da filha mais velha, licenciada em Letras.
Não posso negar que fiquei orgulhoso de ser convidado nas duas vezes, mas ao mesmo tempo entrei em pânico só de me ver participando do cerimonial, ainda no tal do ensaio feito 24 horas antes, como ocorreu na semana passada. E se eu errar o passo? E se eu prender a gravata na cadeira? E qual é o dedo para colocar o tal anel de formatura?
O pior de tudo é que, pela ordem alfabética dos formandos, eu e minha filha teríamos que entrar primeiro no salão com uma fila atrás! E se eu tropeçar no tapete vermelho e causar o efeito dominó, jogando todos os graduandos e paraninfos no chão?
Como conseguir dormir diante de tal estresse?
Como sempre, deixo tudo pra cima da hora: resolvi cortar as longas madeixas e a barba, estilo escova, no dia da festa e acabei me esquecendo! Enquanto em casa todo mundo se emperiquitava, lá estava eu ainda com aquela fisionomia pantagruélica de ogro peludo!
Corro atrás de salões e barbearias pela cidade e nada. Aí me lembro de uma das toscas barbearias que funcionam num distante mercado municipal. Chego lá e vejo o barbeiro fechando as portas e só me resta suplicar de joelhos e acabar sendo atendido. A barbearia maluca do vagabundo Carlitos de Charles Chaplin, no filme “O Grande Ditador”, era uma dádiva diante da pocilga em que me meti.
O barbeiro se mostra atencioso. Sento numa velha cadeira modelo “Ferrante”, enferrujada. A tesoura começa a dançar em minha cabeça, enquanto o barbeiro me conta suas aventuras em Manaus, onde trabalhou num requintado salão. Desconfio, mas tento não ficar tenso, pois se começar a tremer, talvez perca um pedaço de orelha.
O velho relógio de parede parece correr mais que o normal. A tesoura continua dançando em minha cabeça. O barbeiro conversa, mas ao que parece tudo vai bem com minha cabeleira. “Posso modelar as suíças?”, pergunta meu “barbeiro de Sevilha” já com uma navalha nas mãos. Não sei se hipnotizado – pelo velho ventilador de teto cheio de teias de aranha – acabo respondendo “sim”. Acompanho os movimentos do profissional e percebo sua maestria com a navalha. Ele mais parece um espadachim lutando com os pelos de minha face. Acabo me convencendo de que é bom de navalha.
É aí que eu faço a maior besteira do dia: “você pode fazer a minha barba?”, pergunto ao espantado barbeiro que balança a cabeça não demonstrando muita segurança. E ao terminar o cabelo é a vez da barba e do bigode.
O ponteiro grande insiste em perseguir o pequeno no relógio da parede, e meu barbeiro parece encarnar um açougueiro. A navalha que ainda a pouco dava show nas suíças, desliza sobre minha pele sem a mesma maestria. O olhar atônito do barbeiro e o suor em sua testa me revelam que ele já não está fazendo apenas uma simples barba. Talvez seja um aprendiz de cirurgião plástico... A cada deslize, ele solta um “ops!” e recorre a pedaços de papel que cola em meu rosto. Fecho os olhos para não pensar o que está acontecendo. Depois de uma dezena de “ops” e vozes de transeuntes (feirantes e estivadores saindo do trabalho e admirados com espetáculo grotesco), um grito: “oopppppsssss!”. Abro os olhos e vejo o barbeiro agoniado.
Papel já não serve. Uma toalha tenta estancar esguichos de sangue que saem de meus lábios. Saio de minha passividade e resolvo olhar o espelho: me assusto com o Frankenstein ensangüentado que vejo à minha frente... desconsolado o barbeiro vira enfermeiro. Termina a barba e passa aos curativos. Me sinto uma múmia desfigurada.
Chego em casa escondido, mas o estrago não era tão grande quanto parecia quando me olho no espelho. Parto para uma medida radical: jogo álcool na cara e estanco as dezenas de pequenos cortes, inclusive do lábio. Meu lado sado-masoquista parece feliz e os poucos minutos que me separam da solenidade me levam a correr ainda mais. No final o resultado é aprovado: apesar das barbeiragens do “ops”!, arranco alguns “oh!”, de quem vê a transformação.
Depois de “embecado”, filha no braço, táxi de última hora, chego à universidade achando que tudo já acabou, mas o relógio de lá parece maior que o da barbearia.
Tudo corre normalmente. Até o anel do dedo entrou no lugar certo, mas como não poderia deixar de cometer uma gafe, no finalzinho da solenidade o cerimonial chama os novos graduados para apresentá-los à sociedade e o atrevido paraninfo se levanta sozinho, talvez achando que está na sua própria graduação...
Para felicidade geral da platéia, diga ao povo que eu... mico!
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 1º de maio de 2007, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

domingo, 22 de abril de 2007

Encanto

A bela foto acima é o maior cartão postal de Santarém:
o encontro das águas do Amazonas com o Tapajós, em frente à cidade.
O registro é do experiente fotógrafo Édson Queiroz e foi publicado no Blog do Alailson Muniz, editor-chefe do Jornal de Santarém e do Baixo Amazonas.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Meu reino por uma pílula! (*)

Antes de qualquer interpretação apressada, não sou hipocondríaco. Muito pelo contrário: detesto ir ao médico, visitar amigos ou parentes no hospital e sou extremamente indisciplinado para acompanhar qualquer receita médica (ir ao médico já é um sacrifício!). Na verdade, tudo isso acaba sendo causa e efeito de uma série de maus hábitos que cultivei na juventude e que enfraqueceram muito cedo o organismo que não aprendi a cuidar. Já até falei sobre isso em artigo anterior, sobre obesidade e sedentarismo.
Cheguei a tal situação que já criei uma tabelinha para administrar minhas dores: segundas e quartas são dias de dor de cabeça e nas articulações; terças e quintas dor de dente, de ouvido e das vias nasais; sextas e sábados, a famigerada dor de barriga. Aos domingos, como não sou de ferro, sinto dores de dente, de barriga, de ouvido, das narinas e da cabeça o dia todo... Por isso é que atualmente vivo na chamada fase do Homem-Condor, ou seja, vivo reclamando que estou com dor disso, com dor daquilo...
Daí porque vivo atrás de pílulas! Meu reino por uma pílula para aplacar as dores!
Mas antes de falar nelas, tenho que dizer que em termos de cuidado com o corpo fui um péssimo discípulo de meu pai que naõ cansou de me ensinar: “nosso corpo é como uma máquina. É preciso saber usá-la e conservá-la, cuidando de cada engrenagem para que a máquina não quebre”. O velho grego, maquinista de si mesmo, hoje no alto de seus 86 anos esbanja saúde e está tão enxutíssimo que sempre digo a ele que ainda vai acabar enterrando os filhos (toc, toc, isola!)!
Aposentado, o velho Ninos resolveu curtir a vida na terra natal, trilhando os caminhos de Alexandre, o Grande, na velha Macedônia, norte da Grécia. Enquanto curte a bela idade, se gaba sempre de que isso tudo começou quando chegou à minha atual idade e decidiu parar de fumar (quem o vê não pode imaginar que tenha sido, algum dia, fumante) e abdicou de comer carnes verdes para optar pelo cardápio vegetariano. Sem contar com a eterna ginástica, caminhadas, sexo e outras estripulias que geralmente a terceira idade já não consegue fazer!
Eu que estou na minha segunda juventude, já pareço um velho arcaico cheio de doenças, cansado, estressado... O pior é que não bebo e nem fumo, entretanto adoro comer carnes (todas elas!), sou um workaholic e me divido em diversas funções acreditando num sonho quixotesco de salvar o mundo, mas mal consigo salvar a própria pele. Quando não estou no computador do Fórum, atrás de uma pilha de processos, estou no computador da TV elaborando mil projetos, ou no computador de casa escrevendo artigos ou trabalhos de aula.
Posso dizer que sou o Ninobanco, o banco que funciona 30 horas! Insone, assisto o Corujão e “notinavego” na internet escrevendo em blogs, acessando os orkuts da vida, batendo papos e enviando e-mails, e de vez em quando dando uma “espiadinha” em sites menos recomendáveis, pois o cansaço não me deixa dormir. Quando enfim as pálpebras capitulam, meu galo eletrônico do celular cacareja: Aco-corda, Caaaara!
E haja pílula pra dormir, pra diminuir apetite, pra acabar com a dor disso, daquilo, daquilo outro... Dia desses, na madrugada de sexta pra sábado (dia de dor de barriga) peguei o saquinho de pílulas meio dormindo-em-pé e nem vi as instruções de como e quando tomá-las. Resultado: acabei tomando um laxante (que nem era meu) e passei a madrugada sentado no velho trono!
Pior ainda foi uma época em que recebi pílulas de todas as cores e de todos os tamanhos (me recusei apenas de usar o supositório e as injeções, que aí já era demais...). “Um tratamento infalível, para curar todas as dores” – dizia, sorridente, meu médico (com cifrões no lugar das pupilas antevendo as comissões que receberia do representante da indústria farmacêutica...).
Como vivia me esquecendo do que tomar, passei a ingerir pílulas que me ajudavam a recordar de que pílulas eu deveria tomar: a pílula azul me ajudava a recordar que às seis da manhã era hora de tomar a pílula verde; a pílula verde me recordava que às 10 horas era para tomar a pílula vermelha, para recordar de tomar a pílula amarela ao meio-dia, que enfim me recordaria de tomar a pílula roxa que era para... bom, me esqueci pra que servia esta última pílula...
Podem imaginar como o tratamento não deu certo?!
Por dever de ofício e de cidadania tenho lutado pela abertura do Hospital Regional, mas pergunta se vou querer entrar lá? Tenho verdadeira aversão a médicos, clínicas e hospitais!
O último tratamento de dente que fiz abandonei no meio, quando o dentista falou que precisava fazer “uma pequena cirurgia na gengiva”. Todo paciente de dentista vive de boca aberta, pois é a única profissão que nos deixa de queixo caído e por isso perguntei, boquiaberto: “xinxeramentxe, como xerá exa xirurxia na xenxiva, dotxô?”. Ele responde simetricamente: “um pequeno corte longitudinal, para abrir uma cavidade próximo ao palato para que eu possa introduzir um aparelho e...”.
Eu já estava desmaiado... Foi o jeito me dispensar e dar mais pílulas, para que eu retornasse outro dia. Até hoje não voltei lá.
E assim vou levando minha vida em pílulas, até que a morte me separe...
(P.S.= a única pílula que ainda não é bem-vinda em meu cardápio é a pílula azul.)
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(*) Artigo inserido em minha coluna semanal Perípatos, publicado esta semana, no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

Rounds

Um interesante debate sobre a questão da "honestidade intelectual", levantada pelo jornalista Miguel Oliveira (O Estado do Tapajós) por conta de meu post Grupo teatral processa prefeitura, vem sendo travado na caixa de comentários do texto enviado por aquele jornalista, com participações de Jeso Carneiro e Val-André Mutran.
Com direito à réplicas e tréplicas.
Juvêncio Arruda, especialista em caixinhas de comentários, ainda não passou por lá. E você?
Entre neste debate acessando AQUI.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Carta de um “homem-peixe-jornalista” ao Diário do Pará

Tenho 43 anos, 23 dos quais atuando como jornalista sem-diploma e quase sempre mal-remunerado nesta Pérola do Tapajós. Atualmente, exatamente por circunstâncias financeiras, sou funcionário do Judiciário, mas apesar disso me recuso em abandonar a profissão com a qual me identifiquei desde a minha primeira juventude.
Além de fazer o papel de “assessor de imprensa informal”, não-remunerado, da Comarca de Santarém (autorizado pela presidência do TJE), mantenho precariamente este blog na internet e ainda arranjo um tempo para trabalhar na TV Tapajós (Globo) auxiliando a diretoria na Comunicação Corporativa da empresa.
Tal multifuncionalidade, às vezes, me impede de reagir a determinadas informações veiculadas que merecem respostas imediatas como a que passo a dar neste momento, exatamente ao jornal com o qual também colaboro semanalmente: o Diário do Pará (através de crônicas no Diário do Tapajós, seu encarte regional), e do qual já fui correspondente por duas vezes: em 1985 e em 2005, esta última a convite do empresário Jader Barbalho Filho que aqui esteve e sempre mostrou acreditar no potencial de Santarém (e do qual não acredito que comungaria com a informação irônica publicada em seu jornal, que vou comentar).
E faço isso no meu blog sem medo de estar sendo antiético, pois creio que a nota a que vou me referir, quando foi publicada, escorregou nessa mesma ética deixando-me à vontade para um desabafo que acredito ser não só dos colegas jornalistas que aqui militam, mas também dos santarenos em geral. Escrevo sem a pretensão de uma resposta ou mesmo de sua publicação no Diário do Pará.
Mas vamos ao que interessa.
Semana Santa, ao que parece, rima com peixe. Talvez por isso que um “inspirado” colega da redação do Diário do Pará resolveu jogar a mim e outras centenas de jornalistas santarenos nas águas do Tapajós! Isso deveria ser motivo de orgulho para mim, pois foi nelas que eu aprendi a nadar quando aqui cheguei há quase 30 anos! Entretanto, fui parar nestas águas numa infeliz comparação na coluna Repórter Diário, de quarta-feira (04/04), quando o editor de plantão encerrou uma nota sobre os cursos de jornalismo em funcionamento nesta cidade de forma irônica, dizendo que “Daqui a pouco (...), haverá mais jornalistas em Santarém do que peixes no rio Tapajós”...
A nota, que começou com informações interessantes sobre a disputa acirrada entre as duas instituições de ensino superior de Santarém que lançaram os cursos de Jornalismo e Publicidade, escorregou feio no final e contribuiu para denegrir com os dois cursos e com os jornalistas daqui.
Inicialmente é bom frisar que sou favorável ao diploma de Jornalismo. Tanto é que já abandonei outros dois cursos (Letras e Direito) para tentar me formar naquela que sempre foi minha profissão. E não porque precise de diploma, mas porque almejo adquirir mais conhecimentos teóricos que, aliados à minha experiência possam servir para repartir esse conhecimento com as gerações futuras, quem sabe até como docente.
Atualmente estou engajado na luta que os jornalistas travam em todo o país a favor do diploma até porque como sindicalista, num passado recente, fui um dos que lutou para vinda deste curso para Santarém, pela UFPa., no início da década de 1980, o que só se concretizou agora com as duas faculdades particulares, FIT (Faculdades Integradas do Tapajós) e Iespes (Instituto Esperança de Ensino Superior).
Não tenho procuração dos diretores de nenhuma das instituições citadas para defendê-las, mas na qualidade de ex-aluno de uma e atual aluno de outra, creio que cabe um esclarecimento sobre a tal “Guerra das faculdades” citada na nota do Diário do Pará. Essa disputa realmente aconteceu, mas creio que isso faz parte de um processo natural de conquista de mercado e depois de algum tempo, cada qual consolida suas estratégias e, provavelmente, haverá um momento em que ambas (principalmente incentivadas por seus acadêmicos) buscarão um consenso. Uma disputa desleal não serviria a nenhuma das duas faculdades (e nem acho que essa seja a intenção delas), já que o mercado de professores para os dois cursos é problemático.
É aí que o colega de Belém, ao falar dessa “guerra”, não olhou para o próprio umbigo. Se ele for um jornalista diplomado em Belém há algum tempo, provavelmente passou pela UFPa., única instituição que oferecia o curso no Pará nos últimos 30 anos. Mais recentemente a Unama implantou o seu curso e pelo que sei (alguém me corrija se eu estiver errado), há hoje outros 5 cursos de Jornalismo funcionando em Belém!
Quer dizer, será que é só o Tapajós que vai ter “mais jornalistas do que peixes”, cara-pálida do Guajará? É por essas e outras que a população dessa região luta por sua emancipação política, já que vez por outra torna-se alvo de comentários discriminatórios como esse.
É bom que o colega olhe em volta na redação, e provavelmente se depare com algum santareno, ou descendente de, trabalhando ao seu lado. O confrade Elias Ribeiro Pinto que o diga...
E se o colega pesquisar mais em outras redações ou nos cursos das universidades, fatalmente topará com outros santarenos que colaboram com o engrandecimento do jornalismo paroara. Ele mesmo citou em sua nota um deles: Manuel Dutra, um baluarte pela implantação deste curso em Santarém (ainda pela UFPa.). Sem contar com o Lúcio Flávio Pinto e tantos outros que comprovam a tradição do jornalismo santareno de qualidade iniciado há mais de 150 anos no jornal “O Amazoniense” e consolidado nas ondas do rádio nos anos 60, com a Rádio Rural, mesmo sem-diploma até hoje.
Quero lembrar ainda ao colega, que os dois cursos já estão produzindo novos talentos, alguns já estagiando em emissoras e jornais locais. Isso sem contar que os jornalistas sem-diploma experientes continuam atuando nas empresas locais, entre elas o próprio Diário do Pará, cujo casal de correspondentes (Albanira Coêlho e José Ibanês) estudam no Iespes e na FIT, respectivamente!
Na qualidade de homem-peixe-jornalista posso afirmar que quero sim me formar, exatamente para me atirar nestas águas do Tapajós e continuar revelando os mistérios desta Amazônia sem-fim. E não como um falso homem-peixe como o que foi alardeado ano passado por um dos jornais locais, em busca de maior vendagem nas bancas. Nem tampouco como o homem-peixe da Eslovênia que tanto encantou nossos olhos com suas proezas. Muito menos como o peixe/jornalista cunhado pelo ilustre desconhecido colega do Diário do Pará.
Meu caro, sem ressentimentos: que os nossos rios tenham tantos peixes quanto jornalistas competentes que ajudam a contar a história do Pará.
Diariamente.

Auto-retrato

Essa é a minha situação atualmente... (no belo traço do cartunista Léo Martins)

domingo, 8 de abril de 2007

A arte a serviço da ideologia

As maravilhas da tecnologia nos ajudam, há cada dia, a ter mais informações pela internet.
Há algum tempo venho recebendo notícias em meu e-mail de acordo com os temas que escolho, e isso me ajuda a descobrir textos interessantes como esse que estou postando agora, do jornalista André Cananéa do Jornal da Paraíba, sobre um de meus grandes ídolos e que faz parte de minhas propostas de divulgação neste blog: Chico Buarque.
A reportagem tem como título A arte a serviço da ideologia e faz um retrospecto do papel da música de protesto na sociedade moderna, a partir da resenha de um livro lançado recentemente sobre Chico Buarque e Bob Dylan, dois expoentes desse tipo de música, o primeiro na América Latina e o segundo em nível mundial.
Acompanhe a leitura:

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A garotada da geração iPod, com certeza, não se lembra. Mas muito, muito tempo antes de CPM-22, Pitty e até O Rappa havia um sentido social importante na música (sim, muito maior do que nas letras de O Rappa). Havia poesia, mas também ideologia. Isso foi antes do emocore, do hardcore, da música eletrônica. Antes mesmo da ascensão do rock brasileiro. Cazuza, em 1988, recla-mava: “Ideologia, eu quero uma pra viver”. Renato Russo, anos antes, já taxava a falta de idealismo da juventude de então: a geração Coca-Cola só queria saber de consumir.
Mas ali, por volta dos anos 1960 e 1970, os refrões clamavam por um país livre, pela garantia de direitos civis e contra uma máquina opressora, fosse aqui ou lá fora. No Brasil, um dos grandes porta-vozes dessas angústias sociais foi Chico Buarque. Na América, a música de protesto ganhou uma das suas melhores traduções nas letras de Bob Dylan. Inseridos dentro de um contexto histórico importante, Chico e Dylan se tornaram ícones, heróis de uma geração e exemplos de compositores que, parece, o tempo esqueceu de produzir.
Poesia e Política nas Canções de Bob Dylan e Chico Buarque (Nova Editora, 207 páginas, R$ 35) é, mais do que uma análise técnica da importância desses compositores para a música. Trata-se de um resgate de um tempo onde a música cumpria uma função social sem precedentes para a história humana e social do planeta. “Nesta abordagem, procuraremos evidenciar que, em determinado período, Bob Dylan e Chico Buarque colocaram sua poética em prol de um programa e expressaram seu pensamento crítico, apelando para o sentido de justiça e igualdade social”, escreveu a autora, Ligia Vieira César, lembrando que essa postura, no caso de Dylan, deságua na ‘protest song’ (música de protesto) americana e no caso de Chico, no samba-protesto.
Professora e pesquisadora paranaense, Ligia examina a ideologia e a contra-ideologia na literatura de protesto. Sua análise, como dita anteriormente, é técnica e seu texto, acadêmico. Portanto, não se trata de um ensaio literário sobre a beleza e a importância desses dois cânones da música, mas uma análise bem fundamentada, a luz de autores clássicos, sobre a obra de Chico e Dylan. “É necessário ressaltar que, ao analisarmos a postura ideológica das canções desses autores, partimos de pressupostos teóricos sobre ideologia”, escreveu a pesquisadora em seu livro.
Lígia começa seu livro remontando ao surgimento da balada e da canção de protesto e também do surgimento do samba-canção e da bossa-nova para contextualizar Dylan e Chico em um cenário político-histórico que remete aos idos de 1964. “Com esta obra, procura-se demonstrar que, apesar das dessemelhanças culturais e políticas, ambos os autores se coadunam ideologicamente, na temática de protesto e nas formas composicionais de suas canções”, diz a autora.
Dylan saiu de sua Minnesota natal e se mudou para Nova York, onde passou a conviver com poetas beatnik, em 1961. Abraçou o rhythm & blues, o folk e, mais tarde, o rock e aderiu às canções de protesto que pregavam contra as guerras, o establishment e desejava um mundo mais justo, como apregoava a ideologia hippie dos anos 60/70, fruto exatamente na geração beat. Enquanto isso, o Brasil vive mergulhado em uma ditadura opressora e a classe artística acaba se tornando a porta-voz de um país sufocado. E é neste ambiente que Chico, com talento e grandes sacadas, contribui para a abertura do processo democrático, sob o qual vivemos hoje.
No fim das contas, Heloísa Buarque de Holanda, que assina junto com Alice Ruiz a contracapa do livro, tem toda razão. “Se hoje se duvida da eficácia da articulação entre poesia e política, o trabalho de Lígia Vieira César, por meio de um cuidadoso exame do processo construtivo dessa articulação, aponta para o horizonte da permanência e da vitalidade do papel da poesia em nossos dias”.
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Caricaturas de Dálcio (Chico) e Vizcarra (Dylan). Capa do livro, Nova Editora (divulgação).