terça-feira, 1 de novembro de 2005

Peripatos - Pelo direito aos sete palmos de terra

Na semana passada escrevi, na edição regional do Diário do Pará, um artigo em minha coluna Peripatos, relacionado com o Dia de Finados que se comemora amanhã e que ainda não havia postado aqui, mas o faço agora:

Não é nada divertido atravessar um “campo santo”, mesmo que sejamos céticos acerca de teorias kardecistas. Pior ainda quando ainda não vencemos o medo da morte. Mas fazer um “peripatos taciturno” pode ser a oportunidade de, com perdão do trocadilho, “exorcizar alguns fantasmas”. A última (e quiçá, única) vez que passei por este caminho – sem o dever de ofício de repórter – foi há cinco anos, quando carreguei, inclusive, o féretro do grande amigo Sérgio Henn.
A uma semana do Dia de Finados, atravesso por dentro dos cemitérios de N. S. dos Mártires e São João Batista para ver de perto a movimentação que antecede a data. Mas há pouco para se ver: tijolos e areia começam, aos poucos, a serem acumulados no lado de fora; uma mãe negocia com o pedreiro detalhes da reforma do túmulo do filho que morreu num acidente; um casal contrata o jardineiro para cuidar das flores plantadas no jazigo familiar; mais adiante, três pessoas conversam com um rapaz para assumir a tarefa de “segurança especial” de três mausoléus!
É isso mesmo! Além do vigia do cemitério, encontrei “seguranças particulares” que tomam conta de alguns sepulcros para evitar depredações e vandalismos. “Tem gente que arranca a cruz de uma tumba e coloca em outra”, me confidencia um dos vigias contratados. “Não tem caminho entre os jazigos, e quando passam com um caixão, acabam batendo numa lápide e trincando o mármore, ou arrancando alguma cruz”, justifica um abnegado pai cuidando do túmulo do filho.
No tour pelos cemitérios do centro da cidade, caminha-se precariamente num emaranhado de cruzes, lápides ou cercas de ferro. “Tem vezes que a gente passa com o túmulo por cima do outro para chegar à cova do morto”, diz um coveiro informando que ali só se enterra um corpo se a família tiver jazigo. “Novos enterros só no Cambuquira e Mararu, mas até lá os espaços estão acabando”. Diante da revelação me bate um desespero: estarei fadado a não ter consagrado o meu direito de ter pelo menos sete palmos de terra? Ou como diria Chico Buarque, “a parte que te cabe neste latifúndio’?
Uma lápide me chama atenção: “O que seria de nós, mortais, se todos fossemos eternos?”. Pelo jeito, em Santarém a máxima serve tanto para quem está fora como pra quem pretende se abrigar na “futura morada”.
Enquanto isso, ninguém se preocupa com a definição de uma área que sirva para um novo cemitério, dentro dos padrões modernos e com o mínimo de organização e arruamento, para que o descanso eterno não seja violado.
Será que os mortos terão que se rebelar e fazer uma manifestação contra o “descaso das autoridades”, numa repetição das cenas do romance “incidente em Antares”, de Érico Veríssimo, ou de “A volta dos mortos vivos”, filme classe B, de George Romero?

2 comentários:

Juvencio de Arruda disse...

Bela crônica Jota.Caminhando entre os mortos,os mortos vivos e os vivos.

Mirika Bemerguy disse...

Parece história do outro mundo!Essa semana passada também fiz do cemitério meu atalho favorito, e igual a você, presenciei cada cena engraçadíssima, um cara não pagou o serviço da supultura e o rapaz contratado não duvidou, pegou o spray/preto e colocou bem grande CALOTEIRO, já pensou a situação dia de finados, ontem pela manhã cedinho fui no jazigo de meus pais, e ouvi a voz do bispo rezando uma missa entre os dois cemitérios e um vendedor gritava bem alto dentro do cemitério " areia, areia barata"...é um lugar inusitado, mas acontecem coisas engraçadíssimas. "...Duas almas se encontram, no portão do cemitério, se abraçaram e se beijaram, e fizeram lero-lero"...