quarta-feira, 18 de junho de 2008

Aos mestres, com carinho (a outros, nem tanto...) (*)

O título dessa crônica remete ao famoso filme estrelado pelo ator negro Sidney Poitier (foto abaixo), “Ao mestre, com carinho” (To sir, with love – 1969), uma das primeiras películas hollywoodianas que mostra a luta de um professor idealista, Mark Thackeray, tentando mudar a dura realidade de uma escola num bairro de operários. A crítica especializada diz que depois deste filme “vários outros seguiram o mesmo esquema de professor novato e alunos rebeldes”.Sempre quis escrever sobre o tema, talvez porque me vejo em poucos anos sair da condição de aluno para a de professor. Não que tenha sido um rebelde, muito pelo contrário. Mas tive grandes mestres que de alguma forma ajudaram a formar meu caráter. Mas como a toda regra há exceções, não poderia deixar de lembrar daqueles que também funcionaram de modo contrário.
Ser professor é o mesmo que ser jornalista: é preciso ser um pouco louco. Como de médico e de louco, todos temos um pouco... Mas nesse meio, há aqueles loucos que são mais lúcidos que os que se acham normais. Assim como, há aqueles que parecem lúcidos e que gostariam de ser loucos, e não percebem que são.. loucos de pedra!Como cinéfilo que sou, meu filme favorito sobre o tema é exatamente aquele que mostra um mestre em sua plenitude: o revolucionário professor de Literatura John Keating, de “Sociedade dos Poetas Mortos” (Dead Poet Society, 1989). Ao assistir o filme num cinema de Salônica (Grécia), não conseguia sair da cadeira. Resolvi assistir de novo! E depois dessa, foram mais cinco idas ao cinema para rever o mesmo filme, que mexeu com a minha geração (há poucos quilômetros de Salônica, naquela primeira vez, o muro de Berlim caía e no Brasil, Lula perdia a primeira eleição para Collor). Sempre que “Sociedade...” passa na TV, assisto com a mesma emoção da primeira vez, e sempre que posso, alugo o DVD para reassisti-lo (com a vantagem de poder ver os extras, numa edição especial que conta os bastidores do filme).
Nunca tive um mestre no estilo de Keating (abaixo, na famosa cena em que sobe nas carteiras), que na primeira aula mandou os alunos rasgarem a apresentação do livro de Literatura que tratava a poesia como se fosse um coisa burocrática. Inesquecível também sua lição em latim: carpe diem! (aproveite o dia!). E um grupo de meninos de uma escola conservadora da Inglaterra, de repente aprendeu a aprender, através da poesia e do culto à liberdade. O filme tem um fim trágico, mas termina com uma mensagem de esperança de que é possível fazermos mudanças dentro de nós, apesar das estruturas arcaicas da sociedade.
Tive alguns professores que se aproximaram dessa brilhante loucura de Keating. É bom poder lembrar de alguns deles, e também daqueles que atrapalharam.

Quando cursei o fundamental, em Belém (no já extinto colégio anglicano, John Kennedy), convivi com a inesquecível Tia Anne que cuidava das crianças desde o jardim de infância (hoje, com nossa tendência à americanização, chamam de “Baby Class”) até à quarta série, ensinando-nos português e matemática tocando violão com música de Jorge Benjor! Na quinta série, a grande professora Maria Lúcia Fernandes Medeiros que me incentivou a ler de Monteiro Lobato à Júlio Verne despertando-me para o mundo das letras, e principalmente da poesia. No final do ano, ela era a responsável pela programação cultural e eu, o ator principal, declamando poesias de Bandeira, Quintana, Drummond, ao som de Jobim, Chico Buarque e outros. Anos mais tarde, descobri que tinha se tornado uma importante escritora paraense, mas já faleceu.
Mas uma das maiores qualidades de um mestre é nos ensinar a descer do pedestal. No primário tive a professora Neuzilour que nos colocava em círculo e nos fazia escolher uma coordenação que seria responsável pela aula e pelas notas! Ela assistia à aula e ficava orientando de longe, numa loucura total de reverter os papéis em sala de aula.
Como esquecer também, a professora Liduina? Ouvi falar dela como professora do ensino médio e de repente a encontrei na faculdade. Liduina é daqueles seres humanos que defendem com paixão seus princípios filosóficos e morais, de tal forma que nos leva a repensar alguns valores. Às vezes pode até ser que seu engajamento acabe passando a idéia de maniqueísmo, pelo menos nas cabeças mais conservadoras. Mas Liduina, com singeleza e simpatia, é uma radical chique que nos faz pelo menos pensar sobre o outro lado da história: aquela que não é contada pelos perdedores.
Mais recentemente, tive o prazer de conviver com o mestre dos mestres, Manuel Dutra, que se não chegava a sugerir o rasgar de folhas de Keating e nem a aula “democrática’ de Neuzilor, não parava de falar sobre a necessidade de se “descer do pedestal”. Para ele, só assim é possível aprender e ensinar. Dutra, às vezes ranzinza, mas impondo um controle sobre a turma que faz com que ninguém esqueça dele. Sobre ele nem devo falar tanto, pois é para mim mais que um mestre, é um amigo. A maioria dos professores indicados por Dutra seguiu a mesma linha de trabalho e cativou a última turma de que faço parte.
Os “loucos de pedra”
Tive, como muitos devem ter tido, outros professores que marcaram em sala de aula, do fundamental à universidade, sempre por conseguirem andar na contramão do chamado ensino tradicional. Os que citei, são apenas alguns dos bons exemplos. Mas tive também alguns “loucos de pedra” que pouco ou nada contribuíram para a minha formação a não ser para me fazer rir ou chorar de raiva quando recordo de sua pequenez.Em sua maioria eram tipos mesquinhos, pedantes e que talvez tenham sido alunos CDF´s, mas que não captaram a essência de Paulo Freire e por isso mesmo eram inseguros. A estes últimos, por questões éticas, prefiro não citar os nomes, até porque alguns ainda andam por aí e não seria interessante vê-los espumando de raiva pro meu lado. Chamá-los-ei de X1, X2, e assim por diante.
X1 era aquele professor que chegava à sala de aula para dar uma matéria e acabava dando umas quinze! Era o tipo irritante que tentava mostrar que sabia de tudo, mas no final não sabia nada. Foi professor de português e começava a aula assim: “hoje vou falar sobre as palavras quanto à sua sílaba tônica. Existem as oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas. Um exemplo de proparoxítona é a palavra ‘Lâmpada’, que foi inventada por Tomas Edison, famoso cientista americano nascido em 1847, na cidade de Milan, uma vila localizada no estado de Ohio, onde também nasceu o famoso escritor Ambrose Bierce, que escreveu o livro ‘Um Acontecimento na Ponte de Owl Creek’, que fala de um episódio em ficção que teria ocorrido durante a guerra da secessão americana, que como vocês sabem teve com um de seus grandes líderes...”, e a aula ia por aí afora, sem que a gente soubesse porque diabos, afinal, ‘Lâmpada’ era considerada uma palavra proparoxítona!.
Teve também a X2, que louca e desvairada falava aos berros na sala de aula, dizendo sempre que sabia de tudo e que nós alunos não sabíamos de nada. Precisávamos de um método, e haja nos ensinar métodos de como aprender. Aulas maçantes, soníferas. Nos sentíamos meio-cobaias de alguma pesquisa psicológica.
X3 passava a aula toda tentando parecer moderninho. Com o giz na mão escrevia freneticamente algumas palavras no quadro e conseguia até dar uma aula interessante. Mas de repente, como um lunático passava a contar piadas sem graça, paquerava as meninas ou acertava um pedaço de giz na cabeça daquele aluno que dormia no fundo da sala. Ridicularizava todos com piadas de mau gosto, faltava muito nas aulas e acabou nos passando a idéia de que era meio “pinel”. Um dia entrou na política e virou até vereador... Doidos foram os eleitores...Houve também o X4, que começava a aula rezando. Meia hora de reza. “Jesus está chegando, precisamos louvá-lo”. Era um poeta, bem intencionado, dava uma aula boa, mas uma decepção pessoal o levou a procurar o evangelho como salvação. E achava que todos nós precisávamos de salvação. Um dia, do nada, revelou ser homossexual em plena sala de aula! Nada contra, mas a forma como a questão foi colocada foi tão piegas que nunca mais a turma conseguiu encará-lo.
E como esquecer do X5, aquele professor esquecido e desorganizados que nunca sabia que aula havia dado.! “Hoje vamos falar sobre a antiga Roma e sobre os doze Césares... Júlio César foi um desses imperadores, criando dinastias que levaram Roma ao apogeu e à destruição”. E a aula ia por aí afora, até que no final ele dizia: “Na próxima aula falaremos sobre o Cristianismo no Império Romano”. Semana seguinte lá estávamos nós e ele entrava em sala e começava: “Hoje vamos falar sobre a antiga Roma e sobre os doze Césares... Júlio César foi um desses imperadores, criando dinastias que levaram Roma ao apogeu e à destruição ...”. Atônitos, tentávamos dizer que ele já tinha dado aquela aula, mas o pobre não acreditava. No final dizia: “Na próxima aula falaremos sobre o Cristianismo no Império Romano”. Na outra semana, nossa esperança era que ele se lembrasse do tema. Lá vinha ele: “Hoje vamos falar sobre a antiga Roma e sobre os doze Césares... Júlio César foi um desses imperadores, criando dinastias que levaram Roma ao apogeu e à destruição ...”. Até hoje, pouco sei sobre “o Cristianismo no Império Romano”...X6 era o louco em pessoa. Primeiro nos dizia “nunca digam isso, porque isso não deve se dizer”. No dia seguinte dizia o contrário do que havia dito. Metódico ao extremo, adorava um visual empaletozado, mas às vezes chegava em sala sujo por andar jejuando e orando. Um fundamentalista cristão que falava de suas experiências de menino, assumindo ser da “geração Xuxa”. De repente perguntava a todos: “Sabem por que a Marlene brigou com a Xuxa?” Imaginem o nível da aula...
Em todos os casos de professores que se mostraram inseguros ou despóticos, não há como não se rebelar. Ninguém pode ser rebanho na mão de loucos como estes. De Hitleres e Bonapartes o mundo já cansou. Muitas vezes tive que me expor e até ser chamado de “rebelde sem causa”, por reagir a esses tipos.Aos verdadeiros mestres, o carinho. Aos impostores, o desprezo.
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(*) Artigo publicado em minha coluna semanal Perípatos, publicada em 21.05.2008, no encarte regional Diário do Tapajós, que circula com a edição do jornal Diário do Pará. Charge de Coniglio, copiada da internet com texto adaptado por mim. As fotos são de divulgação da internet.

2 comentários:

Juliane Oliveira disse...

X6...
não sei, mas tenho a leve impressão que já assisti esse filme!!!



Juliane Oliveira

Anônimo disse...

Meu amigo Ninos.
(Aqui é Anselmo Colares)
Assim como você anunciou ter se desligado de seu blogo por um certo tempo, eu também há muito não o lia. Hoje acompanhando a 94 FM (Tapajós) ouvi que é o dia internacional do professor (por incrível que pareça, nem lembrava!!!)Depois recebi um e-mail seu convidando para ler uma matéria sobre eleição. E aproveitei para ler um pouco mais. Descobri então mais esta preciosidade sua. estou até pensando em provocar meus alunos sobre "Velhas lembranças, para construir cenários mais promissores".
Não sei por onde fico nesta sua narrativa, até porque seria melhor me situar a partir de um relato de fora. Mas tanto me enxerguei em vários dos tipos quanto também "assisti o filme" passar pela minha mente, lembrndo de meus professores, como a Juliane Oliveira comentou.
Este ano de 2008 completei 25 anos de magistério. Pensando bem, é um longo caminho. Interessante é que não me sinto esgotado, não me sinto acabado (em qualquer dos sentidos), ao contrário, a cada dia renasce a vontade de melhorar, de aprender, para que possa melhor ensinar. Talvez esta seja a grande força e a grande vantagem de ser professor: o de ser um eterno aprendiz.