domingo, 16 de março de 2008

30 anos de Santarém – uma viagem inesquecível! (*)

Essa é a primeira postagem no blog em 2008 e o texto marca também minha volta ao encarte regional do Diário do Pará.
Andei muito ocupado nesse início de ano e só agora começo a organizar meu tempo. Espero poder retomar o mínimo de um ritmo de postagens, principalmente este mês quando o blog completa 3 anos no ar (em 31.03).
O texto marca meus 30 anos de Santarém, como você pode ler a seguir:



Era uma manhã do dia 15 de março de 1978. Pela primeira vez eu pisava em solo santareno, exatamente no píer do cais do porto onde ancorou o N/M Augusto Montenegro (na foto um dos catamarãs da Enasa, o "Pará", do mesmo modelo do "Augusto Montenegro"), um dos velhos trambolhos da Enasa que já não navegam mais, proveniente de Belém.
Era o fim de uma viagem inesquecível – e atropelada – e o início de uma nova jornada em minha vida, poucos meses antes de completar 15 anos. Mas chegar em Santarém foi uma verdadeira odisséia amazônica! E é sobre essa viagem que vou escrever aqui, depois de tanto tempo longe das crônicas...
A decisão de minha família deixar Belém e vir parar em Santarém foi tomada em 1977. Naquele ano, os negócios do velho grego Georgios Joannis Ninos, meu pai, iam de mal a pior. Fechara seu grande comércio – duas lojas num mesmo ponto comercial, o restaurante Nino-Lanche e o Nino-Tex, venda de confecções. Era praticamente o único ponto que não tinha um banco ou financeira na 15 de novembro, onde se concentravam as principais agências bancárias no comércio de Belém.
Um dia recebi a notícia: vamos viajar à Santarém. Mas onde diacho era isso? Relutei, chorei, mas não havia jeito. Meses depois lá estava eu e meu pai embarcando no N/M Augusto Montenegro... Os outros iriam depois.
Era uma noite de 10 de março de 1978, sexta-feira. A previsão de chegada a Santarém era no dia 13, segunda-feira, quando deveria me apresentar num colégio chamado “Rodrigues dos Santos”. Como era muito supersticioso logo profetizei: “dia 13? Vai dar azar... Esse barco vai afundar e pela primeira vez vou faltar à aula!” Fui repreendido pelo meu pai por não perder a mania de achar que o 13 era azar pra mim. Mas tinha minhas razões: nasci num dia 13 e sempre no meu aniversário, amanhecia doente!!! Só podia ficar impressionado com a “coincidência”....
Mas a viagem começou maravilhosa. Serpenteávamos pelo Amazonas, descendo até sua parte mais baixa e víamos a selva como nunca havíamos visto: colorida, intensa, um verde vagomundo como descrito por Benedito Monteiro.
Mas a maravilha que nos cercava não era a mesma do barco. Já nessa época o velho catamarã estava bem sucateado e o serviço de bordo era péssimo. A comida uma porcaria. Passei mal e botei tudo pra fora na primeira noite, enquanto dormia numa velha rede! Espetáculo grotesco...
Rede lavada no dia seguinte, mas sem ter enxugado por completo. Lá vou eu dormir num corredor do barco próximo à cabine de comando para poder pegar vento e secar um pouco mais a rede. Cheirinho insuportável a me provocar as mesmas náuseas. Jejum, para evitar novo revertério em minhas entranhas. Começo a odiar essa tal de Santarém...
Chegamos à Gurupá e um incidente hilário: o navio pararia por uma hora e poderíamos esticar as pernas um pouco em terra. Vários passageiros descem e passeiam próximo ao cais. Mas eu e meu pai resolvemos andar um pouco mais. Começamos a subir uma ladeira que parecia rua principal e fomos nos distanciando. Comentávamos o que nos esperava na nova terra... Quando, de repente, o barco apitou! Lá fomos nós, ladeira abaixo, em desembalada carreira, esbaforidos, para chegar a tempo de embarcar. Quanto mais corríamos, mais o barco parecia distante... Na verdade ele já havia saído, com nossas bagagens, dinheiro e a rede vomitada! Meio metro de língua pra fora, chegamos ao cais e o navio no meio do rio. Desolação e vergonha: a profecia cada vez mais próxima. Começava a odiar ainda mais Santarém!
De repente um homem chega num jipe e comovido com nossa situação, nos chama para a única lancha da cidade. Ele mesmo guiou a lancha e nos levou até o navio que parou para nos esperar. Soubemos depois que o homem era o prefeito da cidade (o nome, não recordo)! Não se fazem mais políticos como antigamente...
A viagem prossegue e na madrugada do dia 13, quando estávamos nos limites do município de Prainha, a catástrofe: o navio bate sua quilha em uma grande tora de madeira dessas que viajam rio afora! O comandante joga o barco à beira e o encalha num banco de areia. Estou dormindo e quase todo mundo acorda para ver o que aconteceu. Um idiota passa na minha rede, me sacode com força e grita em meus ouvidos: ”Acorda, moleque! Estamos afundando!” Imaginem despertar desta forma. Choroso e com medo (eu nem sabia nadar) busco meu pai em meio a tanta gente, mas o velho Ninos, como sempre, mantém a calma e diz que está tudo bem. Mas não estava.
A água começa a alagar o compartimento dos fluviários da embarcação. Buscam um maçarico para emendar, mas maçarico não há! Tentam pedir socorro pelo rádio, mas o rádio quebrou! E agora, João? A profecia se cumpriu?
Como sempre, o brasileiro é criativo e os fluviários usaram seus colchões para tapar o buraco da quilha. Depois de quase um dia e meio parados, surge um outro barco que nos reboca até o destino final. Ainda não teria um fim trágico de um Titanic... Definitivamente, eu odiava Santarém!
Quando avistei do catamarã da Enasa a frente da cidade, a primeira exclamação que me veio à cabeça foi: Égua! Eu, até então, não tinha noção do que era Santarém e tinha a mesma impressão que muitos belenenses têm até hoje: uma “cidadezinha” do interior, com apenas uma “ruazinha” e alguns casebres ou palafitas... Mas o que eu via era uma cidade grande e bonita, com uma orla invejável e muita movimentação. Foi paixão à primeira vista!
O jovem filho de um grego e de uma cabocla de Marapanim, nascido em Belém, começava a se apaixonar por uma pérola que eu nem sabia que existia. Naquele dia nascia um novo cidadão santareno, sem diploma e sem documento... Nem importava a viagem desastrada.
Santarém para mim é “Tara”, (com o “tezão”), que para quem não lembra era a fazenda de Scarlet O´Hara, a complexa personagem do filme “E o vento levou...” Ela dizia no fim do filme que podia passar pelas piores privações e fracassos, mas sempre que retornasse e pisasse em sua terra/Tara, revigoraria suas forças e seguiria em frente. Passaram-se 30 anos desde então, e hoje Belém é apenas um lugar onde vou passar férias e respirar um pouco de meu passado infanto-juvenil vivido no perímetro Praça da República/Praça Batista Campos.
Minha “Tara” é Santarém! Nos dois sentidos...
----------------------------------------
(*) Artigo inserido em minha coluna semanal, publicada sexta-feira (14.03) no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.

7 comentários:

Juvencio de Arruda disse...

Jotão, que delícia de história!
Tava na hora de voltar com as crônicas,né não?
Abs

Anônimo disse...

Jota
Parabéns pela volta ao jornal. Vc merece!. Abs
Jorge Serique, por e-mail

Anônimo disse...

Parabéns pelos 30 anos na cidade em que nasci e só vivi por 17 anos.
abraços.
Alessandra Carvalho, jornalista, por e-mail

Anônimo disse...

Parabéns por ter escolhido essa
terra tão linda para viver e defende-la sempre.
Eu tbm sou adotiva...rs
Bjk
Atenciosamente

Benna Lago, radialista, por e-mail.

Anônimo disse...

Rsrssrsrs
Jota, se eu tivesse ouvindo vc contar essa história acho que eu não teria sorrido tanto... o povo aqui na sala onde eu trabalho tá pensando que eu tô maluca de tanto que eu ri ao ler isso.
Muito boa.. tava com saudade de ler coisas tão criativas e gostosas (de serem lidas)...
Parabéns e fico feliz de gostar tanto da minha cidade, que tbm, por coincidência não deixa de ser minha Tara.. (rsrsrsrs).
Esse teu lado bem humorado me encanta.
Um forte abraço!!!
Núbia Pereira

Anônimo disse...

Ê Jota, só isso de mocorongo????!!! Rs

Valeu pelo convite e muito sucesso....sempre que posso, dou uma espiada nas letras fortes do seu Blog...

Abs,
Leíria Rodrigues

Anônimo disse...

Ninos,
por pouco, muito pouco não retirei o teu blog da minha lista de preferidos...rsrsrsrs
ainda bem que voltastes.
Abs

Jubal cabral, por e-mail