sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O “preso político” e o “ladrão de estimação”

Sabe aquela frase: “nem tudo é como parece ser”? O título dessa crônica cheio de aspas ilustra exatamente isso. Cada vez mais a gente vive de aparências no mundo de hoje e muitas vezes aquilo que imaginamos sobre alguém, pode não ser a realidade.
Pensando nisso lembrei de um fato ocorrido comigo quando tinha 18 anos (faz tempo...) e como quase virei notícia nacional por conta de um mal entendido...
Naquela época tinha decidido sair de casa e trabalhar por conta própria. Virei comerciário, balconista de uma loja de ferragens em Santarém. Com um salário em cruzeiros e inflação galopante era uma verdadeira aventura arriscar tal manobra, deixando o conforto da casa do papai. Mas para alugar uma casa, não poderia fazê-lo sem ter parcerias.
Juntei-me a dois colegas também comerciários, Edval Borges e João Batista Vieira. O primeiro vive hoje em Macapá e o segundo chegou a ser presidente do Sindicato dos Comerciários e atualmente é chefe de tributação da Prefeitura Municipal de Santarém. Naquela época, nós três participávamos do movimento sindical. Eu já era um militante com grande experiência, apesar da pouca idade, e integrava grupos de direção do sindicato e do PT.
Fizemos nossa pequena “república” num casebre de madeira no bairro do Santíssimo. Achamos que tínhamos feito um negócio da China, pois o aluguel era barato e o terreno era enorme: a frente ficava numa rua e os fundos davam em outra rua paralela.
Como passávamos o dia no trabalho nossa casa vivia desprotegida, mas nas primeiras semanas nada de anormal ocorria. Até o dia em que resolvemos dar uma utilidade ao vasto quintal: desmatamos e o transformamos numa bela área para jogar voleibol. Era época da seleção de prata de Bernardinho (hoje, técnico campeão) e Bernardo (o homem do saque “jornada nas estrelas”). Compramos bola, rede e convidamos uma turma de vizinhos para estrear nossa quadra.
A farra acabou se tornando semanal. Todos os domingos, vinha gente de vários cantos do bairro jogar em nossa quadra. E eu, apesar da agenda cheia de tantas reuniões, participava dos jogos e até arriscava dar saques à la Bernardinho, que quase sempre acabavam do outro lado da rua ou no quintal do vizinho... Como esportista eu era um excelente militante da causa operária...
Aliás, nessa época vivíamos momentos de tensão no movimento sindical. Havia ocorrido a morte de um sindicalista rural e eu fazia parte de um comitê que buscava resgatar a memória dele.
Mas aí, começou a ocorrer o inusitado em nossa casa. Todo dia, ao retornar do trabalho, notávamos que alguma coisa sumira de nossa casa sem que houvesse qualquer sinal de arrombamento. Um dia era uma roupa, outro dia um sapato e assim por diante. Constatamos que tínhamos agora um “ladrão de estimação”, que nos visitava enquanto trabalhávamos e nos furtava objetos que tínhamos comprado com nosso suado salário. Não cabia nenhum discurso marxista sobre mais-valia ou exploração do proletariado. O fato é que estávamos perdendo literalmente as calças! Provavelmente, nosso “ladrão de estimação” sabia que passávamos o dia fora de casa e talvez fosse um dos nossos “jogadores” de final de semana.
Os roubos foram crescendo em valor. Foi-se a bola de vôlei, a rede, e até minha velha vitrola de discos, estilo pasta 007! Precisávamos estancar a sangria. Pedimos a uma vizinha que ficasse “de moita” e nos avisasse caso notasse qualquer invasão.
Esse dia chegou. Estávamos no trabalho, quando a vizinha disse que nosso “ladrão de estimação” acabara de atacar. Decidimos que eu deveria pedir licença para resolver o problema. Peguei um táxi e fui até em casa. A vizinha disse que viu um garoto levantando uma telha de zinco e saindo com outra rede e bola de vôlei que acabáramos de comprar! E disse mais: era um dos meninos que jogava no terreno e morava numa casa na rua de trás. Já era até conhecido por praticar outros furtos na vizinhança.
Corri até à praça do Santíssimo onde havia um PM-Box. Expliquei aos policiais e pedi ajuda. Eles me convidaram a seguir no carro e indicar a casa de nosso “ladrão de estimação”. Entrei sem pensar que aquele ato poderia causar qualquer barulho. Sentei entre os dois policiais e seguimos até o endereço. No caminho, vi um conhecido que era líder de uma associação de moradores e militante de um sindicato. Acenei para ele com um leve sorriso, sem me dar conta do que isso geraria a maior confusão.
Ao chegar na casa do “ladrão de estimação”, ele estava sentado no muro. Ao ver o carro deu “bandeira”, saiu correndo e acabou preso. Ele ainda tinha em mãos os objetos roubados, que me foram devolvidos. Fui com ele no carro da PM até à delegacia da Interventoria (onde hoje funciona a Funcap), para o registro da ocorrência. Chegando à delegacia, vi na rua outro companheiro de luta que também participava de movimentos sociais. Também acenei, com um leve sorriso.
Saí feliz por ter recuperado os objetos e voltei pra casa, devidamente escoltado pela PM. Ao chegar lá, qual a minha surpresa: uma multidão de militantes do movimento já fechava a rua, com faixas e cartazes. Entre eles, os dois que haviam me visto no carro!
Os vizinhos, atônitos, não entendiam nada. Eu me dei conta então de que a rede de informações do movimento tinha agido rapidamente, a partir da informação precipitada dos dois colegas que me viram no carro da PM! Tinha virado um “preso político!


Entidades sindicais de todo o país já começavam a ser informadas da possível prisão de um “valoroso companheiro sindicalista comerciário”. Quem sabe até o companheiro Lula faria menção ao meu caso durante as manifestações de metalúrgicos que aconteciam em São Bernardo! A Anistia Internacional talvez já estivesse recolhendo assinaturas nas ruas de Londres pela “liberação imediata de um líder sindical da América Latina”. Até Lech Walesa, líder do Solidarnósc, na Polônia, prestava solidariedade a um “companheiro de luta que como eu, vive o dissabor de estar preso por sua militância pela liberdade dos trabalhadores”. Já estava sendo organizado inclusive um “Movimento Nacional pela Liberdade de Jota Ninos”!
Os manifestantes gritavam meu nome com ênfase e os PMs se entreolhavam sem saber o que acontecia. “São todos jogadores de vôlei da sua quadra?”, perguntou-me o soldado incrédulo. “Puxa, o campeonato de vocês deve ser famoso no bairro”, completou o sargento ao lado dele.
Com o sorriso amarelo, saí do carro e levantei as mãos na tentativa de esclarecer o mal entendido. A turba foi ao delírio: “Viva o Jota, ele é um patriota!”. Um companheiro, de óculos, pasta preta e camisa de mangas se aproxima e diz que é advogado. Havia sido contratado para me defender contra a “opressão do regime militar”. Me puxa de lado e fala em tom áspero aos PM: “Tenho direito de falar com meu cliente!”. Os PMs se entreolham sem entender.
De repente sou carregado pela multidão enquanto hinos são entoados, sem que tenha tempo de explicar o ocorrido. Jovens estudantes de braços dados cantam “Há soldados armados, amados ou não!(...)”. Vandré era o apropriado para aquela situação.
Um dos líderes do movimento levanta os braços e decreta: “vamos ouvir o companheiro Jota!”. Entre aplausos e um sorriso amarelo, tento explicar o imbróglio quando o soldado da PM me entrega a bola e a rede, dizendo: “Gostei do clima da sua turma, convida a gente para um próximo jogo. Eu saco igual ao Bernardinho...”
O carro saiu enquanto os companheiros apupavam “Covardes! Covardes!”. Todos me abraçavam, cumprimentando-me pela coragem de enfrentar “a repressão policial do regime militar”!
Imaginem a decepção depois que contei o que havia acontecido... Tive meu dia de “preso político”, sem nunca ter sido...

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(*) Artigo inserido no dia 07.08.2007, em minha coluna semanal Perípatos, publicada no Diário do Tapajós, encarte regional do Diário do Pará.
A fotomontagem (mal feita) é de minha autoria sobre caricatura de Don Tonino.

3 comentários:

Anônimo disse...

Olá!!!

Pode continuar mandando as crônicas, leio todas.

bjs

Idalúcia Furtado

Anônimo disse...

Cara, eu li a tua crônica. É hilária!! Quase morro de rir aqui no ciber, as pessoas ficavam olhando. Muito boa mesmo.
Vê se me mantem informado sobre teus escritos. É sempre um prazer lê-los. Um abraço, meu amigo!

Hamilton Fernandes

Roosevelt Pinto disse...

Meu irmão, que história de Cinema!!! Quase me "espoco" de tanto rir. Gostei muito também de sua charge, é mais uma de suas muitas qualidades. Um abração e um ótimo final de Semana e, Feliz Dia dos Pais!!!