sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Falhar é humanamente necessário (*)

Esta semana participei de mais uma das muitas mesas-redondas para as quais fui convidado por colegas jornalistas. O objetivo era avaliar o último pronunciamento do ano do presidente Lula, que viveu o seu pior ano de inferno astral por conta do famigerado “mensalão”. A certa altura do debate, o colega jornalista (Ormano Sousa) que participava do mesmo programa, chamou a atenção para a postura um tanto messiânica do presidente, que há algum tempo declarou que “todos têm o direito de falhar, eu não”. Dizia o colega que tal postura revelava uma tendência para a divinização, típica de muitos políticos que tem como conselheiro o próprio espelho.
Pensando nisso, passei a refletir o quanto esse tipo de atitude no nosso dia-a-dia pode prejudicar nossa consolidação como ser humano. E aí lembrei de um bonito texto que circula na internet de autoria de um professor, cujo nome não recordo, que falava exatamente dessa necessidade de se conviver com as falhas que cometemos no cotidiano.
Em seu texto, o autor partia da comparação entre uma metrópole que é sempre afetada por abalos sísmicos por conta de falhas geológicas e outra onde tudo parece perfeito, por não ter esse tipo de falha. Ele defendia que “pessoas perfeitas são como, uma cidade quase perfeita: linda, sem fraturas geológicas, onde tudo funciona e você quase morre de tédio”.
Para ele, “as pessoas, como as cidades, não precisam ser excessivamente bonitas. É fundamental que tenham sinais de expressão no rosto, um nariz com personalidade, um vinco na testa que as caracterize! (...) Precisam ser limpas, mas não a ponto de não possuírem máculas. É importante suar na hora do cansaço, ter um cheiro próprio, uma camiseta velha para dormir, um jeans quase transparente de tanto que foi usado, um batom que escapou dos lábios depois de um beijo, um rímel que borrou um pouquinho quando chorou”.
O texto dizia ainda que “as pessoas, como as cidades, têm que funcionar, mas não podem ser previsíveis. De vez em quando, sem abusar muito da licença, devem ser insensatas, ligeiramente passionais. Devem demonstrar um certo desatino, ir contra alguns prognósticos, cometer erros de julgamento e pedir perdão depois. Aliás, pedir perdão sempre, para poder ter crédito e errar outra vez”. E concluía que é “é bom agradecer suas falhas pois isso é o que nos humaniza e fascina os outros."
Visto desse ângulo, seja na figura de um presidente da República, seja no cotidiano de cidadãos comuns, é errado exigir a perfeição em todos os atos que praticamos. Muito embora se espere que um governante seja algo aproximado da perfeição. Mas, por ser humano, pode falhar. Admitir o erro é assumir essa condição.
Quantas pessoas topamos em nosso dia-à-dia que são incapazes de fazer um auto-crítica e admitir que errou? É sempre mais fácil culpar outrem.
Ou se dizer traído.
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(*) Artigo inserido em minha coluna Peripatos, publicada na edição desta sexta-feira (06.01.06) do Diário do Tapajós, encarte regional que circula às terças e sextas no Diário do Pará.

3 comentários:

Juvencio de Arruda disse...

Tive um profesor lá na Metodista,Jotacá,que era um fofoqueiro de marca maior (lembra dessa expressão).Frances,Doutor em Literatura Brasileira,fã de Paes Loureiro (eu também),falava com aquele sotaque do caboco imitando um estrangeiro qualquer.
Trouxe-me a lembrança o título deste teu post,pois ele falava de um escritor frances,Max Pàge,que dizia que o "homem,no moderno capitalismo, era CONDENADO ao
sucesso".Ainda bem que nos tivemos hein Ninos? Eheh.
Grande abraço.

Jota Ninos disse...

Isso tem a ver com o lance do BBB, que é fruto de outro artiog meu hoje e que já postei aí em cima...

Juve, sigo teu exemplo e passo a usar este espaço para conversar com quem comentar algum post em meu blog. Só colocarei na página principal o comentário ou contribuição que seja interessante ser repartida.

Assim, nesse cantinho pode-se trocar duas ou três palavras com quem realmente não deixa de nos ler, né?
Abraços.

Juvencio de Arruda disse...

É vero poeta.Deixe a "ribalta" para situações ou convidados especiais.
Valorizar as "caixinhas" atrai as pessoas,curiosas,que querem saber o que se passa aqui dentro.BBB? rs
Abs